𝐔𝐦𝐚 𝐪𝐮𝐞𝐝𝐚 𝐩𝐨𝐫 𝐯𝐨𝐜𝐞̂
A carranca que enfeitava o rosto bonito de Hoseok não se desfazia por nada. Mesmo após a troca de olhares e expressões clichês ele ainda se via irritado pela graça da criança. Não gostava de ser perturbado, afrontado e menos ainda assustado. Especialmente se o susto em questão o fizesse parecer um bundão na frente de Charlotte. Claro que ela já havia presenciado momentos mais embaraçosos do que aquele, no entanto, algo no fundo da sua mente sussurrou que agora é diferente.
Ele não queria ser confundido com aquele garoto danado e medroso.
Não gostava daquela versão de si, não se reconhecia, havia se perdido a muito tempo.
Incomodada com o silêncio repentino e os lábios finos retorcidos em desgosto, Charlotte sugeriu que fossem pegar doces, afinal se já estavam na chuva era o mais sensato se molhar. Depois da quinta casa decidiu que deveria rever esse conceito. Sua cesta de abóbora encheu-se em pouco tempo, aqueles que os reconheceram fizeram questão de dar doces extras, enquanto outros simplesmente batiam a porta em suas caras.
Afinal, eles eram conhecidos naquela área por um motivo.
— Qual foi a dela? — resmungou Lottie levando a mão ao rosto para espirrar. A porta batendo parecia ter jogado todos os ácaros de decoração velha em sua via respiatória. — Eu nem me lembro quem é essa? Não faz sentido ela nos odiar.
— Pulamos o cercado dela duas vezes para roubar morangos. — disse calmo abrindo outra embalagem de snickers. — Você caiu na horta dela uma vez, saiu pisando em tudo.
— Isso nunca aconteceu. — retrucou estreitando os olhos.
— Tem uma cicatriz na parte interna da sua coxa. — a menina parou no lugar olhando a risca referente a cicatriz antiga na perna.
— Como sabe disso...você é um pervertido?
Continuou caminhando e a espiou por cima do ombro, terminou de mastigar um pedaço da barra antes de falar.
— Você só pensa o pior de mim mesmo hein. — reclamou limpando a boca com o polegar. —Eu tava com você, não entendeu? Pulamos de volta e a sua habilidade de fuga sempre foi bem ruim.
— É, faz sentido. —voltou a andar o alcançando. — Vai ficar com essa cara o resto da noite?
—Não é como se fosse passar o resto da noite comigo, por que se importa? —soprou as palavras por cima da própria respiração, distraído. Lottie mordiscou o próprio lábio ignorando a realização de que estava considerando aquela possibilidade. —Espera! — ergueu o braço a impedindo de continuar e fitou seu rosto. — Vai ficar o resto da noite comigo? — questionou em um misto de descrença e euforia.
— Com você? Não. Quero dizer, aqui, quem sabe... — tombou a cabeça para o lado lutando com os próprios pensamentos. — Bem, eu ainda não sei. — finalizou descontando a confusão no lábio já machucado.
O ato deixava Hoseok desconfortável, ele bem sabia que quando o fazia era por estar pensando demais, podia imaginar fumaça saindo pelas orelhas de sapo. Por outro lado também sentia-se atordoado, queria agarrar ser rosto e lhe dar outro motivo para ter os lábios inchados. Ao notar que encarava desviou o olhar antes que fosse advertido, o chocolate estava melhorando seu humor.
— Então se decida, ainda tenho uma festa para ir princesa.
Ela torceu o nariz, o apelido era a confirmação de que estavam retornando ao estado de provocações, o que ela sinceramente considerava algo positivo. Não era natural ter o rapaz ao seu lado tão calado, menos ainda de mal humor, ainda que fosse por algo trivial.
Apertou os doces na cesta de abóbora que mais parecia prestes a explodir e marchou por um gramado onde meia dúzia de adolescentes se reuniam na janela, tentando espiar dentro da casa. Uma festa parecia acontecer. Fitou seu companhia por um instante como quem perguntava se aquele era o local da sua festa, mas ele negou prontamente.
A casa em questão era muito bonita, a pintura branco gelo estava coberta por teias de aranha acinzentadas e muito papel laminado alaranjado. Além da decoração típica, com monstros, zombies, morcegos, haviam caveiras mexicanas por todos os lados, violas e chapéus flutuantes. Quase como um live action horripilante de Coco a vida é uma festa. A Terra dos mortos a fez engolir em seco, ao tropeçar nos trapos de cadáver no meio do jardim.
— O que eles estão tentando ver? — murmurou para si mesma esticando o pescoço para a lateral da casa, sem sucesso.
Subiram os dois degraus da varanda, ele apertou a campainha e esperou. Risadas medonhas soaram invés do sinal de visita.
— Becky e suas amigas sempre fazem um esquenta antes de sair. —os olhos de Lottie se arregalaram repentinamente. Hoseok não demonstrou muita emoção, encarando a porta com um enorme sinal de "não entre".
— Becky?
Como um passe de mágica a garota abriu a porta de madeira e surgiu a frente dos dois. O sorriso bonito e alinhado os receberam. Os cabelos repartidos em maria chiquinhas frontais, o rosto brutalmente maquiado como um palhaço, nada engraçado, era maquiagem profissional e simétrica, os lábios em um vermelho sensual. Usava um maiô de mangas longas preto, pernas expostas e botas de cano longo.
Ela era o palhaço mais sexy já visto no mundo. Nem mesmo as imitações de Harley Quinn alcançavam aquilo. Lottie deu um passo para trás, sentindo-se ameaçada e maravilhada ao mesmo tempo. Como pode alguém se atrever a ficar tão bonita em um dia em que todos deveriam estar ridículos ou assustadores? Quanta audácia. Que inveja.
— Hobi! —o gritinho animado da moça lhe tirou do transe. O corpo pequeno e cheio de curvas proporcionais se jogou sobre o corpo magro ao seu lado. Um abraço apertado e demasiadamente demorado.
Hoseok não recusou obviamente, ele não precisava ser um otário só porque não estavam mais juntos.
E Lottie sabia disso, ele não era o tipo que agia feito um idiota por isso. Mas ela bem desejou não ter que ver o ex-casal tão a vontade um com o outro. Cruzou os braços sem notar e limpou a garganta como quem anunciava sua presença, e quando aquilo não foi o suficiente enfiou o dedo na campainha fazendo a risada fantasmagórica soar mais alta que o esperado com a porta aberta. Afastaram-se sem graça.
— Oh, vocês estão juntos de novo. — soou exageradamente animada. Becky havia estudado com eles no ensino médio, eram conhecidos e não era novidade nenhuma que sempre tivera uma queda pelo dono de madeixas escura a sua frente, mas só conseguiu se relacionar com ele quando romperam totalmente contato. Charlotte não queria pensar sobre aquilo no momento, mas achou estranho.
— Você sabe, é halloween. — ele respondeu dando de ombros, com os olhos fixados na ex namorada, ele não era cego. Ela estava deslumbrante.
— Nós não estamos. — ditou em um tom monótono desviando o olhar entre os dois. Jogou o peso do corpo de um lado ao outro e beliscou a manga do casaco verde. Estava desconfortável, quase como se estivesse interrompendo algo. —Vim buscar doces, se não for atrapalhar sua festinha.
— De jeito nenhum, tenho doces especiais para os adultos. — deu um passo para trás e se debruçou sobre um cesto maior e amarelado.
O olhar afiado de Hoseok acompanhou inconscientemente o movimento, mas o prazer de ver a curva da bunda alheia para cima nunca seria o suficiente para compensar a cotovelada que recebeu na costela. Engasgou com o ar e se abraçou observado Lottie com certo temor. Seus olhos estavam saindo faíscas ou era só impressão sua?
Parecia tão brava quanto quando aparecia na janela do quarto amaldiçoando todas as gerações. Não entendeu. Deu um passo para o lado temendo ser pego desprevenido outra vez.
Tão estranha como aquela interação teve inicio ela se findou. Mas não antes sem o convite esperado.
— Se vocês quiserem podem ficar mais um pouco, tem comida e bebida lá dentro. — abre mais a porta e indica com a cabeça para o interior da casa. É possível ver um pouco de fumaça e uma garota com fantasia da playboy sentada na ponta da escada.
— Fica pra próxima. — diz pronta para dar o fora dali. — A não ser que Jung Hoseok queira ficar.
O nome completo sendo pronunciado o pegou de surpresa. Torceu o pescoço de uma só vez, mas diferente da cara de surpresa que era esperada, ele tinha um sorriso ladino e convencido no rosto. Havia entendido o que acontecia ali, pelo menos comparado as sua experiências anteriores.
— É uma pena, nos vemos por ai. Tchauzinho Hobi.
A memória brincou a frente dos olhos do rapaz por um momento. O fato de que nenhuma garota se atrevia a cruzar seu caminho com segundas intenções quando estava com Charlotte, sempre pensou que fosse por seu amigo mais próximo, era natural não querer ter sua atenção dividida, mas isso não acontecia com os caras. As garotas a tornava intimidadora as vezes, não do tipo mean girl, mas ela sabia como fazer alguém sair do seu caminho rapidinho. Essa habilidade paracia ter melhorado depois do seu tempo com as populares no final do ensino médio.
—Tchauzinho Hobi. — a ouviu resmungar com a voz esganiçada, imitando Becky. — Tem certeza que não quer ficar? Palhaços são os seu favoritos.
— De onde tirou isso?
— A figurinhas de bobo da corte na sua garagem, no seu perfil de twitter, a ex-namorada gostosona. — disse isso com o tom mais cínico possível, mascando sua irritação. — Talvez eu devesse te deixar lá com ela.
— O que te faz pensar que quero ficar lá? — ela andava alguns metros a frente vasculhando a abóbora a procura de algum doce zero açúcar.
— A sua cara de pau olhando a bunda dela.
— Foi com todo respeito, ela é uma gata. — soltou fleumático, alimentando a fúria alheia.
— Então porquê terminaram? Isso pouparia nós dois essa situação embaraçosa.
Hoseok parou onde estava. Charlotte demorou cinco passos para notar que ele não a seguia mais, interrompeu a caminhada e virou-se abruptamente para ver o que acontecia.
Petrificado, com as mãos no bolso dianteiro da calça larga, a mecha única que cobria seu rosto foi soprada pelo vendo. Analisou seu comportamento, gostaria de não ser tão observador como realmente era. Gostaria de não ser capaz de identificar a mudança na expressão da garota, no tom de voz, no seu corpo. Sentia-se o maior dos otários por deixar uma ideia vagar na sua cabeça.
— Qual é o seu problema com a Becky?
Charlotte suspirou afoita com a pergunta direta.
— Como assim qual o meu problema com ela? — respondeu na defensiva.
Ele esperava um curto e grosso "nenhum". Sentiu a boca secar com a resposta e desviou o olhar para uma árvore decorada com caixões do outro lado da rua. A névoa que cobria o asfalto estava fina, quase não se via.
— Não faça essas coisas se não tem nada a me dizer.
— Que coisas?
— Me fazer pensar que esta ciúmes. — levou a mão a nuca com o silêncio súbito da garota. — ... tanto faz.
O coral da escola se apresentava em um palanque improvisado a frente da casa de antigos moradores, o casal de idosos assistiam animados ao grupo com fantasias de esqueleto arrasando em todas as notas de One Way Or Another, na versão de Abracadabra 2.
Pararam ali, o barulho da cantada de dia das bruxas era muito melhor do que o silêncio insuportável que havia e instalado entre eles. Hobi acompanhava a música balançando a cabeça no ritmo da guitarra, Lottie fazia o mesmo, só que com a ponta do pé. Podia se imaginar dançando ela sozinha no quarto e se acabando nas dezenas de doces que carregava, mesmo essa sendo uma ideia difícil de se concretizar, uma vez que decidisse retornar a sua casa tudo voltaria ao normal.
No ápice da música os esqueletos ascenderam luzes led brancas os tornando pequenas linhas flutuantes e começaram a dançar.
—Melhoraram bastante. — ditou o rapaz levantando a voz em meio a salva de palmas. — Em outro tempo invés de doces estariam recebendo travessuras.
— Diz que depois de tantos anos você não seria capaz de atirar balões de tinta neles de novo? — deitou a cabeça voltando a fitar o rosto bonito. Sua expressão parecia artificial, indecifrável.
— É Halloween princesa, você ganha o merece.
— Faz sentindo as pessoas ainda nos odiarem. — ela negou com um sorrisinho simples. — Nós éramos péssimos, especificamente nesta época do ano.
Ela desvia o olhar por um instante vendo o coral iniciar uma versão de Thriller, um tanto quanto sem graça.
— Era o nosso jeito de libertar nossos demônios, tudo a nossa volta já era bem cansativo. Escola, regras, problemas que não eram nossos.
— Tem razão, era o nosso direito de ser criança. — ergueu o queixo olhando na direção em que a rua se findava, a última casa da rua parecia cada vez mais próxima. — Mesmo tendo passada dos limites uma vez ou outra.
— Ainda pensa nisso?
O olhar sombreado segue o da garota. Pouco se via da casa, ainda parecia um borrão de onde estavam, mesmo tendo alcançado metade do quarteirão em suas andanças.
— Sim, mas nós mudas e algumas coisas ficaram para trás, gosto de pensar que esse episódio também.
— Gostaria de ser tão bom em esquecer das coisas assim.
— Você ainda frequenta essa rua, depois de tudo, não vai me dizer que não é fácil para você.
— Não sou tão hipócrita, mas ainda me dá arrepios. Só voltei a frequentar por causa da Becky, e ainda sim na época me dava calafrios.
— Claro a Becky. —resmungou o fazendo pousar a atenção em si.
— Sim, ela. Já te pedi pra não fazer isso.
Charlotte tentou, pois acreditava mesmo que não tinha nada a declarar para Hoseok, nada que ele pudesse esperar. Mas sua língua coçava.
— É só que, já parou pra pensar que ela só se aproximou de você depois que nós nos afastamos completamente? Antes disso ela nem te dava bola.
— Caso nunca tenham te dito, você é territorial, então sim, eu sei disso. — esfregou a ponta dos dedos no queixo. — Nenhuma garota queria sair comigo, metade da escola achava que a gente namorava.
— Isso foi só um pequeno mal entendido, eles eram curiosos demais. Além do mais, nenhum garoto dava em cima de mim também, você sempre estava por perto como um cachorro mijando em um poste. — Hoseok esticou os lábios e soltou uma risada rouca. — Tá rindo do que?
— De todas as minhas ex-namoradas o seu maior problema é com a Becky? Ela era um máximo.
— Você ficou um trapo quando ela terminou com você da primeira vez. — Hobi virou o corpo encarando Lottie de frente.
— Como sabe disso? — inquiriu sério.
— Seu pai me disse, ele queria que eu fosse conversar com você. — tocou em uma mecha enrolando o dedo na curvatura, nervosa com os par de olhos intensamente a encarando. — Mas eu estava meio chateada, não quis me meter.
— Estava chateada comigo por termos nos afastado? Isso é zoado, não foi só minha culpa, você literalmente passou a me ignorar.
— Você começou a agir diferente e ficar todo estranho.
— Eu tinha outros interesses, ansiedade e puberdade estavam acabando comigo, você não ajudou muito concordando com os outros que eu era um esquisitão.
— Não foi com os outros, eram as minhas amigas. — ele torceu o nariz ao ouvir aquela declaração.
— Exato, suas novas amigas. Não havia mais espaço pra mim no seu pequeno clube das garotas.
—Merda nenhuma! — a cacheada brandou balançando a abóbora e derrubando alguns doces. — Eu tentei me aproximar, até te chamei para o meu aniversário de 16 anos e você não apareceu.
— Pensei que tivesse feito isso por pena. — deu de ombros baixando o olhar para o chão. — Ainda sim, não faz sentido, quando comecei a sair com a Becky já tinha uns três anos que a gente não se falava. Isso meio que tira seu direito de fica chateada com qualquer coisa. — declarou cético.
— Não Hoseok, eu estava chateada por quê a Becky era linda e charmosa e tinha toda a sua atenção naquela época, a atenção que era minha antes. — o punho pequeno se formou em um soco que foi descontado no ombro dele. — Eu tinha um crush em você, okay?
Não havia nada okay em ouvir aquilo, na verdade o aspirante a metaleiro sentiu a garganta ficar seca. Mesmo os fatos narrados terem acontecido a anos atrás, fazia sentido ele sentir atordoado com a nova informação. Secou os dedos úmidos discretamente na camisa cheia de furos e tossiu, nada sutilmente.
— Isso torna tudo mais...insano — pigarreou um sorriso frouxo movendo os ombros. — Que fique registrado: Eu sempre tive uma queda por você.
— Claro que teve, eu sempre fui a única garota com você — brincou, sem considerar o teor das suas palavras.
— Eu falo sério. — passou o polegar no queixo evitando manter contato visual. — Meio que sempre detestei os caras com quem saiu, eles eram um bando de idiotas.
— Estava me assistindo de longe todo esse tempo Jung Hoseok? — soltou o ar dos pulmões que havia reunido para questiona-lo. Algo na boca do seu estômago dançava.
— Parece que você estava me assistindo também. — concluiu dando um passo a frente diminuindo o espaço entre os dois. — Me ressentiu tanto que não conseguia admitir?
Ser observada apor baixo dos cílios grossos era intimidador. De repente, ele parecia uma criatura passível de devorá-la e pela primeira vez, não teve receio do que poderia lhe acontecer.
— Na verdade, acho que nunca tive a oportunidade. Quando me dei conta de que tinha uma queda por você estava saindo com alguém ou vice versa.
— Que irônico. — murmurou fitando intensamente os olhos castanhos.
Nenhuma outra palavra foi dita, comunicaram-se em troca de olhares, engolidos na pela rua decorada. Repentinamente os dons a sua volta tornavam-se abafados. Em meio a monstros, vilões, criaturas macabras, névoa e cheiro de sangue artificial no ar, olharam um para o outro verdadeiramente pela primeira vez em anos.
Foi como acordar um cemitério inteiro de emoções, sentimentos escondidos em criptas, encapsulados em urnas. Que de alguma forma, nem sabiam que ainda estavam enterrados ali.
Hoseok sentiu um comichão no peito, pelos sete pecados, ele torceu para que fosse ataque cardíaco.
— Não sei o que dizer agora. — comentou receosa.
— Que tal uma bebida? — inflou o peito e esfregou a ponta da orelha. — Acho que devo uma.
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