♛ Plot Twist ♛
"O destino se contorce debaixo dos panos e se torna uma tempestade, formando-se secretamente enquanto vivemos a vida."
Com um peso de dificuldade, puxo minha atenção dele e finjo que nada incomum aconteceu, sentindo os olhares de todos em cima de mim enquanto me sento no chão entre minha avó e minha mãe. Meu irmão, Kouta, ao lado da minha mãe e apertando o tecido da calça com nervosismo. Minha mãe com as mãos trêmulas sobre o seu avental. E minha avó parecendo calma, mas de alguma forma me passando a tensão do ambiente de forma mais séria e racional. Isso tudo me dizia que essa reunião tinha uma importância que nem eu mesma poderia entender. Até alguém começar a falar.
- É um prazer finalmente poder conhecê-la, senhorita Yumi. - Um homem com uma longa barba e um sorriso gentil se dirige a mim e faz uma breve reverência. Respondo de forma ligeiramente tardia do mesmo jeito e sorrio.
- Senhor Miyagi. É um prazer ter o senhor aqui não apenas em forma de histórias. - Digo ao procurar a melhor forma de falsificar meu desgosto por perceber que todas as pessoas que minha avó disse, anos atrás, que estariam aqui um dia, estão aqui.
- Cresceu uma jovem muito bela. E felicito a senhora Sayori por criá-la com modos tão impecáveis. Tem a postura e o olhar de uma líder. - Um mulher próxima ao meu irmão se pronuncia com uma voz doce e ao mesmo tempo firme. - Me traz ansiedade imaginar seu esplendor no dia da sua passagem.
Minha passagem.
Olho para o meu irmão pela talvez décima vez no dia. Tentando ler sua expressão, que não deixava de recair sobre mim, enquanto me sentia lida ao mesmo tempo. Durante os comentários de cada pessoa na sala, todos os seus olhares repousavam em mim. Isso me vazia sentir uma ansiedade ruim. E algo me dizia que ele podia perceber isso. Que era o único que eu não conseguia enganar.
E pensar no que eu estava trazendo pra mim mesma com o meu comportamento piorava ainda mais minha ansiedade. Toda a minha vida, Hiroshi Sayori me criou em paralelo com a vida humana. Competindo com a metade mortal que nunca tive. Apesar de tentar ignorar suas lições, uma parte minha parecia absorver tudo automaticamente. E agora, na frente dos representantes da família Park, não conseguia ser rebelde sobre o assunto, como sempre fui. E era esse desconforto que eu tentava falsificar e dessa forma manipular os pensamentos que todos ali teriam de mim para o mais positivo possível. Não queria problemas. Nunca disse que não queria liderar. Apenas não queria que fosse da forma que me empurravam. Mas quando chegava o momento de pôr minhas condições na mesa, não conseguia. Era o exato comportamento que estava me fazendo parecer condizente com o plano que todos aqui aparentemente tem em comum. E ele, o rapaz que não tirava seus olhos de mim, invasor dos meus sonhos, parecia perceber isso com facilidade. E tal coisa me incomodava. Não podia manipulá-lo, e não me conformava com isso.
- Nos desculpamos novamente pela nossa demora para recebê-los aqui. Mas a partir de agora, nosso templo estará aberto para nossas famílias se prepararem para a passagem. - A voz falsamente animada da minha avó declara tudo como se fosse nada. E ao ouvir o fim da declaração, meu coração dispara.
Eles vão ficar aqui? Pra se preparar pra minha passagem? Como as coisas mudaram de uma hora pra outra tão rápido?
Por um segundo sinto que minha expressão fica um pouco menos relaxa do que antes, mas ainda imperceptível pra todos aqui. Ao não ser ele. Que me observava minuciosamente.
Entenda. O que está acontecendo aqui é um jogo de emoções. É uma parte importante de todo esse maldito processo que fui enfiada. Me conhecer depois de anos provavelmente ouvindo falar sobre a "magnificência da próxima líder do clã" cria altíssimas expectativas. Que eu odeio. Porque em momentos como esse, minha competitividade é provocada e meu orgulho não me proporciona um descanso. Esse grupo reunido nessa sala só está me trazendo dor de cabeça e agora que sei que eles vão ficar aqui muito tempo, sei que pode se tornar muito pior nesse período até a passagem.
E a conversa é constante. Paro pra prestar atenção no que soa mais importante, deixando de lado os assuntos triviais que vem e vão. Enquanto nada do meu interesse surge, não tiro meus olhos dele, ainda tentando processar tudo o que estava acontecendo. O fato de alguém que nunca vi na vida mas sabia que era real e sempre vi nos meus sonhos por anos estar na minha frente é estarrecedor. E isso está acontecendo no pior momento. Nessa situação de quem aguenta mais o peso do clima e da conversa. E não sei o porquê, mas meu caro irmãozinho parece estar parcialmente aproveitando isso, de certa forma. A expressão calma dele não me engana, e algo me diz que ele tem a mesma sensação sobre mim. E por isso não para de me observar.
- Nos daria a honra de ouvir as conquistas da senhorita Hiroshi Yumi através dos seus joviais anos de vida, senhora Momomiya Misaki? - A mesma mulher que falou antes se pronuncia novamente agora. E a forma como ela chama a minha mãe me tira totalmente a atenção que eu dava aos olhares do meu irmão.
Momomiya.
Ninguém chama a minha mãe por esse sobrenome fazem anos. O sobrenome real dela. Desde que cheguei nessa casa toda a vizinhança passou a chamar minha mãe pelo sobrenome Hiroshi. Por conta do trabalho que lhe foi dado, a missão de me criar, ela teria de assumir esse sobrenome. E diante da ciência dos moradores dos arredores da Vila de Tóquio, ninguém jamais ousou chamá-la pelo sobrenome que usava anteriormente. O que realmente lhe pertencia, de fato. Mas que não deveria ser usado até o dia que ela completasse sua missão. Algo que nunca quis que chegasse a acontecer, considerando todas as mudanças seguintes.
Pensando na provável posição desta mulher que chamou Hiroshi Misaki por Momimiya Misaki, deve ser alguma criada do alto escalão do lugar de onde vieram, ou talvez sua mãe adotiva. Afinal, meu irmão, assim como eu, não foi criado pela nossa mãe nem pelo nosso pai, e no lugar deles qualquer pessoa previamente aprovada poderia ser nosso criador. Era necessário que tivéssemos pai e mãe. Ou ao menos um dos dois. Porém, não precisávamos ser criados necessariamente por eles. Existe uma probabilidade dessa mulher não ser mãe dele, e sim quem criou o junto com o senhor Miyagi. Assim como fui criada pela minha avó biológica e minha mãe, Misaki.
Olho para ela com um falso ar de naturalidade ao sentir repulsa por não usar Hiroshi como sobrenome da minha mãe, que parece igualmente incomodada.
Entretanto, ela abaixa a cabeça, olhando para o chão, e sorri.
- Yumi sempre foi uma criança forte. Sempre avançada pra idade dela. Inteligente, dedicada. Educada. Tudo que eu estava disposta a ensinar já parecia uma aptidão nata dela. Nunca deu qualquer trabalho. Começou a aprender arco e flecha com cinco anos. O mesmo com o kendô. Ainda treina até os dias de hoje. Suas notas são excelentes. E todos os anos é eleita representante de classe. Sempre trouxe muito orgulho e amor pra nossa casa. Não temos qualquer reclamação pra fazer. Sua determinação e fúria ao perseguir seus ideais e sonhos também são de admirar qualquer um. Foi uma honra ser mãe dela durante esses 17 anos. - Ela diz, por fim.
Seus olhos pareciam querer se encher de lágrimas enquanto ela falava. E ela sorria todo o tempo. E eu mesma já ouvi esse mesmo discurso diversas vezes. Ela parece chorar de orgulho de mim sempre. Me disse, certa vez, que queria que eu realmente fosse filha dela. Queria ter sido capaz de pôr alguém como eu no mundo, lamentando não poder pôr ninguém no mundo. E que fosse simples pra ela me dar toda a liberdade que desejo ter. E me parte o coração vê-la sofrendo e fingindo o contrário na frente dessas pessoas apenas por não poder demonstrar que se apegou tanto a alguém pra quem deveria dar adeus assim que completasse dezoito anos. É o que dizem as regras do meu povo. E é o que destrói seus sentimentos. E da mesma forma, me faz querer chorar também, mas de ódio.
- Não me surpreende que tenha inúmeros feitos pra exibir, sendo a próxima líder do clã. Ainda porque nem mesmo é humana. - A mulher abre um leque enquanto fala e seus olhos se voltam ligeiramente para o meu irmão. - Jimin também foi perfeitamente ensinado durante seus anos fora. Foi criado pra ser o marido perfeito. Ele cresceu como um ótimo aluno e guerreiro, também. Tem ótimos modos e tenho certeza de que ambos serão o casal que sempre ansiamos por ver unidos todos esses anos. - Ela diz.
Um silêncio se faz por alguns segundos. Um silêncio que corta e incomoda. Ninguém sabe o que dizer no momento em que ela deliberadamente joga o fato mais inconveniente na nossa frente.
Então o nome dele era esse. Depois de anos, finalmente descubro seu nome. Sempre soou ridículo pra mim, não poder saber o seu nome por questões ridículas de tradição. Mas a minha vida foi isso. Metade dela, ir pra escola, ver meus amigos, brincar com meu irmãozinho, Kouta, retribuir o amor da minha mãe, Misaki, estudar e ser uma boa pessoa. E a outra metade, que sempre tentei ignorar e sempre falhei miseravelmente, sentindo que devia dar ouvidos e aprender por algo dentro de mim me puxar pra isso, treinar e me tornar forte pra liderar o meu clã, um dia. Viver debaixo da tradição dos youkai e me preparar pra um dia liderar a Vila de Tóquio ao lado do meu irmão gêmeo e futuro marido, Park Jimin. E com isso, dar adeus ao mundo humano completamente. E nunca mais voltar. Coisa que aconteceria dentro de um ano, agora que o processo até a passagem começaria, até chegar o dia que faria meus 18 anos.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro