
40 | NÃO QUEBRE
40
NÃO QUEBRE
ADAM
2 SEMANAS ANTES
METADE DO INVERNO
Meus dedos inclinam o copo redondo e curto, meio cheio, meio vazio. Olho para o fundo e nada vejo. Apenas percebo que está quase vazio.
Viro a dose restante, que desce queimando na garganta até o estômago.
Merda
Ignoro meus pensamentos, pego a garrafa deixada ao meu lado e encho o copo em uma necessidade desesperada de amortecer tudo.
O Flannigan estava meio cheio, meio vazio. Com os habituais bêbados de uma segunda feira e ainda com a luz do dia fora daquele lugar. Conhecia aqueles caras. Eles me conheciam. E um fingia que o outro não estava lá. Era a regra básica. Fingir. Cada um querendo afogar sua mágoa sozinho.
Quando achava que o inferno tinha acabado a maldita vida me lembrava que eu não podia ficar de fora das trevas. Será que sempre seria assim? Sempre atolado em merda?
Olho os nós dos meus dedos vermelhos e esfolados, com sangue meu é daquele babaca. Essa era minha maldita vida. Esse era eu. Quando achava que podia ser diferente. Que tudo podia ser diferente. O inferno me puxava de volta para lembrar que eu não merecia a redenção.
Uma vez condenado, sempre condenado.
— Uma cerveja — uma voz familiar com o grito do arrastar da banqueta reverbera do meu lado.
Viro o uísque para dentro. A queimação diminui, talvez o amortecimento estava perto de chegar.
— Quer conversar ? — o homem ao meu lado pergunta antes de bebericar um gole da sua cerveja quente.
Suspiro. Nego com a cabeça enquanto volto a encher o copo vazio.
— Não — murmuro sem vontade para o meu amigo.
Amigo? Será que eu merecia isso também? Ou cedo ou tarde a vida iria me tirar isso também? A vida amava me foder. Eu queria uma vez foder com ela. Mas talvez eu merecesse, principalmente em relação ao Elliot. Que amigo eu era. Estava comendo a irmã dele às escondidas.
Eu era um merda.
— Quem era aquele cara? — Elliot questiona com a cabeça virada em minha direção — Não é o mesmo que estava no café aquele dia?
Uma risada sem humor escapa das minhas narinas. Giro o copo cheio entre os meus dedos.
— Cara você pode mentir para a minha irmã, mas para
— Ele trabalha para o Nigel — finalmente revelo diante de tanta insistência.
Não queria conversar. Queria ficar sozinho. Mas parte de mim. Uma pequena parte. Tinha medo da escuridão que era a solidão. Eu sabia o que era estar em um buraco escuro. Eu sabia. E era a pior merda que já tinha passado na vida.
— Devia imaginar — o moreno suspira ao coçar a nuca — Que droga ele quer?
Dou de ombros, como se a resposta fosse óbvia.
— O julgamento está chegando.
Bebo. Encho o copo.
— O que você vai fazer?
— Não sei
O silêncio confortável se forma entre nós dois. Elliot bebe sua cerveja. Eu continuo a encher o copo e enfiar uísque para dentro. Cada vez queima menos. Cada vez cada centelha do meu ser amortece.
Mas um sentimento fervilha em meu interior. Raiva. Não sei se de mim. Se da vida. Se do meu velho.
As vezes queria que tudo acabasse. Queria não ter existido. Minha mãe não me quis. Meu pai. Bom. Meu velho me quis, porém era um filho da mãe egotista.
Uma risada humorada resfolega nos lábios do meu velho amigo, atraindo a atenção dos meus olhos, que finalmente ignoram o copo de uísque.
— A Tate ficou furiosa com você — revela o que tinha ignorado até aquele momento — Talvez fosse melhor você abrir o jogo com ela.
Abrir o jogo?
Enfiar aquela menina de olhos redondos na merda da minha vida. Arrasta-la para o inferno. Não era uma opção. Nossa data de validade estava chegando ao fim, antes do fim da temporada.
Eu sabia disso. Ela saberia logo.
E se me odiasse era melhor ainda. Eu queria que ela me odiasse. Todo meu ser desejava. Eu merecia ser odiado. Do contrário. Bom, do contrário não saberia se teria forças para resistir.
Aquela pirralha estava quebrando as minhas muralhas. Mas o contrário seria imperdoável. Eu não podia quebrá-la. Seria o pior castigo para mim.
— Melhor não — balanço o copo para frente e para trás entre meus dedos antes de jogar mais uma dose para dentro.
— Ela vai te comer vivo
Dou de ombros.
— Ela já acabou comigo o suficiente — bebo em meio o barulho das bolas de sinuca que se empilham na mesa atrás de nós — Foda-se — estava cansado daquilo, bato com copo na bancada — Eu e ela
Suspiro buscando as palavras que somem. Estava cansado. Estava tão cansado. Estava cansado das mentiras. Estava cansado dos jogos sujos. Estava exausto de estragar tudo em que tocava.
E estava prestes a foder com a única coisa verdadeira na minha vida.
— Você e ela ? — Elliot incentiva curioso.
— Droga, Elliot. Nós estamos tendo algo — jogo a verdade no ar — Nós estamos transando.
Seus olhos se retraem, assim como seus dedos em torno da garrafa transparente de cerveja. Os olhos gentis tornam-se negros como a noite. E pela primeira vez em nossa amizade não sei o que esperar.
E o mais provável acontece, com um punho cerrado vindo em direção ao meu nariz. Meu corpo se desequilibra do banco e cai no chão.
Meu nariz queima. Eu gosto. Era o que precisava. Eu merecia aquilo.
— Seu desgraçado — Elliot pula sobre mim, com o punho atingindo meu olho — Vamos reage — ordena me agarrando pela gola do casaco.
— Eu mereço isso — murmuro mais para mim do que para ele.
— Você estava transando com a minha irmã debaixo do meu nariz? — sua incredulidade se mistura com a decepção.
Aquela decepção doi mais do que o soco que atinge meu queixo.
Um estrondo forte para o punho do meu amigo no ar. Ambos viramos a cabeça para o lado e encontramos Pippa com uma espingarda na mão. O cheiro de pólvora impregna o lugar, junto com um pouco de poeira do teto de gesso arrebentado.
— Ei seus idiotas! Vocês me fizeram destruir meu teto — a loira bufa furiosa — Eu não vou arrumar isso. Agora parem com essa babaquice.
Elliot joga seu corpo para trás, sentando-se no chão. Apoio meu corpo nos cotovelos. Meus dedos tocam meu nariz , deixando um tom avermelhado nas pontas dos dedos.
— Eu vou acabar tudo — revelo, como se aquilo pudesse melhorar as coisas.
A indignação toma conta do homem a minha frente, que penteia o cabelo entre os dedos.
— Ótimo — vocifera — Agora vai deixar ela? Vai usá-la e jogar fora? Você não muda seu babaca.
Merda! Aquilo soou mais babaca do que podia prever.
— Eu preciso protegê-la — não sei porque, mas tento me explicar.
— Vocês dois saiam daqui — Pippa ordena irritada — Já — seu dedo aponta em direção a porta atrás de mim.
— Eu estou indo— com certa dificuldade equilibro meu corpo nos meus dois pés.
Dou alguns passos em direção ao homem no chão, que apenas me olha. Agarro a garrafa, quase vazia, sobre a bancada envernizada.
Dou alguns passos para trás. Paro. Fecho meu punho. Mais irritado comigo do que com meu amigo. Tinha acabado de afundar a única relação verdadeira na minha vida. Eu merecia. Alguém como eu merecia estar sozinho.
Era o que deveria ser. Assim o único ferido em tudo seria eu. Ninguém mais.
— Desculpa, Elliot — murmuro.
Rumo em direção à saída. A porta bate atrás de mim. O ar gélido acolhe meu corpo. É reconfortante. Um pequeno pedaço do inferno que merecia estar.
Cansado. Na verdade, exausto. Jogo meu corpo no meio fio da calçada. Levo o gargalo da garrafa até meus lábios. O líquido desce quente. Não queria ir para casa. Merda. Aquele lugar não era nada sem ela nele.
Merda
Bebo, evitando pensar no que aquilo significa. Não sei quantos goles se passam até a última gota.
— Toma — uma voz chama a minha atenção, junto com o saco de batatas palitos congeladas jogado no meu colo — Era a única coisa que a Pippa tinha.
— Elliot? — meu cenho dói ao se arquear.
O homem de casaco cinza senta ao meu lado, massageando os nós dos dedos vermelhos. A indecisão permeia seus gestos.
— Pode continuar se quiser — dou de ombros, enfiando o saco de batatas sobre o nariz
Dói. Caralho ! Como dói. Mas é uma dor merecida. Pela primeira vez naquele dia me sinto bem.
— Era mais fácil quando você estava sendo babaca — sopra para cima frustrado.
— Eu não queria — balbucio, jogando as batatas na calçada ao meu lado
Elliot ri secamente de maneira curta.
— Eu sei que você não forçou a minha irmã a nada.
— É meio difícil força-la a algo — confesso, aliviado em finalmente poder ser sincero com aquele homem.
— Eu quero te odiar — revela com sinceridade, evitando me olhar — Quero mesmo. Mas cara — finalmente seus olhos me alcançam — Você parece estar sofrendo — seu cenho arqueia-se em um suspiro — Adam o que está acontecendo?
— Eu preciso protegê-la de mim
Aperto os nós dos meus dedos feridos de bater naquele verme mais cedo. Aperto os olhos. Engulo qualquer confusão ou questionamento.
— Não! Isso eu já entendi — apressasse ainda me encarando — Você se apaixonou por ela? E olha o que você vai responder, porque não quero ter que arrebentar sua cara de novo.
Prendo o ar. Não diante da ameaça, mas diante da pergunta.
Suspiro frustrado comigo mesmo.
— Eu iria para o inferno por aquela garota — revelo surpreso com a resposta.
Jamais tinha sido tão sincero. Jamais tinha sido tão sincero em voz alta. Jamais tinha sido sincero comigo mesmo.
— Então você a ama ? — Elliot insiste.
O encaro engolindo a pequena irritação que começava a se formar. Caralho. Não era de falar de emoções. Não era de falar de sentimentos. Não era de sentir nada. Nem sabia o que sentia.
Na verdade. Eu não sabia o que sentia. Nunca tinha sentido algo parecido o que sentia perto daquela garota. Era um misto de necessidade, uma pequena dose de loucura e insistentes pensamentos nela durante o dia. Me pegava pensando nela do nada. Sentia sua falta nas noites em que não estávamos juntos.
E tudo aquilo. Toda aquela porra de emoções me deixava em pânico. Me sentia diante de um inimigo que não sabia como derrotar. E não sabia se devia ou queria derrotar.
Ela não era a primeira, mas era a única com quem tinha me importado.
— Só sei que sonho com ela — balbucio o segredo.
Elliot coça a nuca. Não sei se surpreso. Não sei se irritado.
— Só não machuca ela — súplica — Não quero ter que te dar outra surra.
***
A porta atrás de mim bate secamente. Me arrasto até o banheiro. Jogo todo o peso do meu corpo em minhas mãos apoiadas na pia branca. Encaro os nós dos dedos vermelhos . Meus dedos apertam com força a pia. Ergo a cabeça. O reflexo que encontro não é muito melhor.
Estava com o olho começando a ficar roxo. O canto da boca tinha sangue coagulado. O nariz começava a inchar.
— Caralho — solto em um suspiro frustrado.
Aperto os olhos exausto. Estava tão cansado de tudo. Mal me lembrava como tudo tinha começado. Às vezes parecia que os problemas do meu pai eram coisa de outra vida. Outras vezes os problemas pareciam que tinham acontecido ontem.
Queria sentir falta do meu velho, mas naquele momento parte de mim queria o amaldiçoar por toda a merda deixada para trás.
Não pensava em não ir no julgamento do Nigel. Jamais iria fugir de uma batalha. Contudo algo diferente tomava meu interior, era algo que nunca tinha sentido antes, ou se tinha, nem me lembrava mais, era: MEDO.
Caralho.
Eu estava com um puta medo, mas não por mim. Estava com medo de perder as coisas que me importavam. As pessoas que me importavam. Eu sabia os riscos da minha decisão.
Eu sabia.
Eu sabia que estava prestes a perdê-la, fosse por escolha própria. Fosse porque alguém a iria tomar de mim.
Essa ideia fazia minha nuca se arrepiar. Finco com mais forma os dedos contra a porcelana entre eles.
Tudo estava ruindo.
E pela primeira vez em minha vida eu não queria que fosse assim.
— Você começa ou eu começo? — a voz no outro cômodo anuncia o fim da minha solidão.
Aperto os olhos com força. Sabia quem era. Maldição, conheceria aquela voz até no inferno. Um nó se forma em minha garganta.
Não queria ter aquela conversa agora. Sinceramente nunca queria ter aquela conversa. E só tinha descoberto isso naquela noite. Definitivamente eu não queria ter que fazer o que devia. Pela primeira vez queria fazer o que queria. E não o que devia.
O suspiro no outro cômodo é audível. Não preciso olhá-la para saber que seus braços estão cruzados e seu pé bate inquietantemente sobre o velho piso de madeira.
Engulo o nó na minha garganta.
— Tá bom! Eu começo — Sunshine decreta impaciente.
— Não — a interrompo.
Empurro meu corpo para trás e atravesso a porta recebendo um olhar analítico já esperado. Tate estuda meu rosto, mexendo a mandíbula em um movimento circular enquanto procura as palavras.
Não iria explicar os machucados. Nem o que estava prestes a fazer.
— Adam — a garota impaciente começa.
— Chega! Eu termino!
Seus malditos olhos redondos se contraem surpresos ou confusos.
— O que?
— Não te devo nenhuma explicação — decreto, deixando uma distância considerável entre nossos corpos — Eu não sou a pessoa que você pensa. Ou que quer que eu seja.
— Adam — em um suspiro ela tenta me interromper.
Contudo não posso permitir. Se permitisse que ela quebrasse todas as minhas muralhas. E ela quebraria. Estaria fodido! Iríamos acabar na cama abraçados e eu contando tudo.
Caralho
Aquela pirralha era a minha fraqueza. Eu sabia que ela seria minha ruína. Naquela manhã quando acordei e vi seus olhos redondos me encarando, eu sabia que estava fodido.
— Eu não sou o que você quer! Eu estou cansado de brincar de casinha com você. Eu não sou o cara que tem árvore de Natal — aponto para a monstruosidade ainda instalada na sala — Ou mesa de jantar. Ou cama arrumada. Eu não quero ser esse cara que brinca com uma pirralha — posso ver ela engolir seco com essa última declaração — Eu não sou! Nem quero ser.
Passo as mãos no meu cabelo exausto e arrasado. Não queria continuar a encarando. Não queria continuar dizendo aquelas coisas.
— Nunca pedi para você mudar — sua voz sai embargada, mas controlada — Achei que já tínhamos resolvido isso.
— Não! — concordo — Mas caralho Tate, acha que não vejo certa ilusão ? Seja sincera com você ! Lá no fundo espera que eu seja diferente. Você espera que eu queira te querer. Eu não te quero — aquelas palavras são um soco no meu estômago e no dela — Eu não te quero! Eu não te amo! Eu nunca vou amar! Você é apenas um passatempo que já me cansou.
Pela primeira vez em meses vejo Tate sem palavras. Não ignoro seus olhos vermelhos, porém finjo que não me importo. Caralho! E como me importo.
— UAL — finalmente ela parece ter achado as palavras — É isso que você pensa ?
— O que eu sinto
— Acho que você nunca falou tanto — seus olhos correm para o chão — Bom — suspira, como se precisasse recuperar o fôlego — Ainda você tem um contrato que te obriga a me aguentar.
— Eu sei. Eu vou fazer o que tenho que fazer, não se preocupa.
Tate assente com a cabeça, apertando os lábios em linha reta.
— Que bom. E espero que a merda que aconteceu hoje não se repita.
— Não vai
Ela volta a assentir com a cabeça. Seus olhos me encaram um última vez, antes de girar seu corpo nos calcanhares e caminhar até a porta.
Aperto meus punhos com força ao lado do meu corpo. Com uma maldita raiva de mim.
Ela para. Eu paro. Paro de respirar.
Sua mão enfia-se no bolso do casaco, tirando algo que não vejo.
— Melhor deixar isso aqui — decreta caminhando até a bancada ao seu lado e batendo algo contra ele.
Era a chave. Era a sua chave. Era a chave que tinha dado para ela.
Seus olhos não voltam a me alcançar, apenas o baque seco da porta quando seu corpo desaparece.
Aperto os olhos com força, furioso. E antes que possa me dar conta estou enfiando o punho na parede mais próxima. Queria sofrer. Merecia sofrer
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