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26 | (IN)VERDADE

26
     (IN)VERDADE
TATE

3 MESES ANTES
O FINAL DO OUTONO EM BAYFIELD

Invadir o carro do Adam poderia ser um erro?

Sim.

Viajar com ele poderia ser um erro maior ainda?

Com certeza.

Eu poderia ser abandonada na beira da estrada a qualquer momento?

As probabilidades eram enormes.

O sr. Rabugento estava furioso?

Não. Estava muito furioso.

Eu não iria recuar. Não depois de tudo. E apesar de não ter sida convidada, uma coisa sabia, não estaria ali se o Adam não quisesse. Aquele homem teria dirigido até a casa da minha família, me arrastado até a porta e me entregue para o meu pai ou irmão.

Então estar ali era algo.

Estar ali significava poder me afastar de casa. Me afastar do Ian. Tinha passado a noite remoendo a conversa com a minha mãe, sobre não precisar ficar com quem amamos. Eu amava o Ian. Iria ama-lo por toda uma vida. Porém, não me sentia mais a mesma garota que um dia tinha conquistado o seu coração, ou feito os planos de um dia se casar, ter filhos, uma casa, fazer viagens, envelhecermos juntos [...]. Não queria fazer planos.

Ironicamente queria aquilo. Fazer algo sem pensar, porque era simplesmente o que queria naquele momento, sem medo, sem amarras, sem futuro e sem passado.

De soslaio analiso o moreno tenso, com os dedos envolta do volante, a junção da mandíbula tensa oscilando como batimentos cardíacos, as narinas inflando a cada nova respiração e os olhos fixo na estrada a nossa frente.

Sem mencionar o total silêncio que já estendia-se por quase uma hora de viagem. Não tinha muita noção para onde iríamos, mas a sua escolha de trajeto me fazia acreditar que era para área litorânea.

— Quando você quiser começar a falar fique à vontade — suspiro cansada de manter as palavras em minha cabeça.

Em um movimento singular, Adam lança um olhar que deveria ser capaz de me pulverizar.

— Não tenho nada a dizer — silaba amargamente.

Reviro os olhos.

— Vamos parar com esse mau humor — devolvo um olhar cansado que é ignorado — Senão me quisesse aqui já teria me largado no primeiro acostamento.

Curvo os lábios cheia de razão. Contemplo o movimento lento e silencioso do tragar de saliva que oscila o pomo-de-adão do homem atrás do volante. Sua testa torna-se menos tensa.

— Olha que posso mudar de ideia, se você não calar sua boquinha linda — rebate curvando os lábios sarcasticamente.

— Chato — suspiro.

Olho para a estrada vazia a nossa frente naquelas primeiras horas da manhã. Quase nunca acordava tão cedo, mas considerando que nem tinha dormido, não era um acordar. Não sai de casa com a ideia fixa de parar na casa daquele ser rabugento, apenas queria caminhar e parei lá sem pensar.

Sem pensar entrei no seu carro.

E pensando avisei a minha família que tinha voltado para Boston para resolver um compromisso. E para a Alice contei a verdade, precisava de uma cúmplice para sustentar minha pequenina mentira.

— O que você fez ontem à noite? — dou voz a inquietação perturbadora da minha mente.

Ganho uma resvalada surpresa dos olhos de âmbares, que fazem apenas isso, me observam brevemente antes de voltarem sua atenção para a estrada a nossa frente.

— Nada — balbucia secamente.

Maneio a cabeça positivamente, nem um pouco satisfeita com aquela resposta. O Elliot havia dito que ele tinha um compromisso. O Adam estava me dizendo que não tinha feito nada. Minha mente temia que esse nada pudesse significar muitas outras coisas que não queria saber ou imaginar.

— Não vai perguntar o que eu fiz? — tento esmagar a minha imaginação.

— Não.

Suspiro. Recosto a cabeça no banco, descendo meu corpo junto. Olho para a janela ao meu lado, contemplando a bela paisagem com árvores, penhascos, um ou outro carro com famílias, ou pessoas sozinhas e mais nada. O silêncio dentro da velha caminhonete só não era completo por culpa do velho motor.

— Pensei que iria parar de ser rude — divago mais para mim do que para ele — Ontem foi meu aniversário, nem tinha lembrado com o dia cheio que tive. Ganhei uma festa surpresa — sorrio nostalgicamente para o meu reflexo pouco visível na janela fechada — Foi uma enorme surpresa, até a minha mãe veio.  Teve bolo de chocolate com morango, uma delícia, pensei que você fosse aparecer, a Riley até guardou um pedaço de bolo para o tio Adam.

Continuo encarar o trajeto a fora. Evito qualquer movimento. Aquelas palavras saem com uma emoção estranha, fazendo-me perceber que realmente queria ele lá.

Eu era ridícula. E estava sendo ridícula.

Silêncio.

O silêncio afasta aquela sensação e dá lugar a uma pequena indignação.

— Nada? — finalmente o encaro — Nem um: desculpa? Ou: estava ocupado? Ou: não quis ir?

Seus dedos envolvem-se com força em torno do volante em total ausência de palavras.

— Sério? — disparo irritada — Você vai ser um idiota completo?

— Eu sou um idiota — rosna — Eu deixei claro que não sou um cara perfeito, não tenho nada para dar e nem vou posar de namorado, ou seja, lá o que, perfeito.

O observo soltar palavra por palavra. O observo remexer seu corpo no banco de couro bege a cada palavra por palavra. Sem se quer me olhar uma única vez. Arrasto o meu corpo para cima, rangendo minha roupa contra o banco.

— Eu queria que você fosse porque é o meu companheiro de trabalho, alguém que ridiculamente considero um amigo — rio de mim mesma — E não por esperar que tivéssemos algo além.

— Eu não sou perfeito.

Concordo com a cabeça.

— É um babaca — solto cruzando os braços e encarando a estrada a frente — Um completo babaca.

— Foi melhor assim, acredite — balbucia quase inauditamente com os olhos fixos a frente.

Não o encaro.

— Para mim ou para você?

Silêncio. Total silêncio dos lábios carnudos e fechados ao meu lado. Podia ouvir sua alterada respiração. Não consiga ignorar o movimento da sua cabeça que pendia vez ou outra para os lados, como se considerasse algo.

— Você merece coisa melhor. Você não merece gastar tempo comigo e perder a chance de ter algo real.

Seu comentário é controlado.  Discordo com a cabeça, indignada com aquela afirmação. Suspiro sonoramente a minha irritação.

— Você não tem o direito de tomar alguma decisão por mim — mordo o interior do meu lábio, apenas para não o esmurrar.

Odiava que as pessoas achassem que sabiam o que eu merecia, queria ou deveria querer. Odiava aquela sensação de impotência sobre as minhas próprias escolhas. Detestava a falta de liberdade e agonia que traziam para o meu interior, junto com a lembrança de um passado pouco digesto ao lado do Guster.

O cara que começou a escolher tudo por mim: minhas roupas, minha comida predileta, meus colegas, minhas emoções [...]

— Você nem me conhece para isso — vomito as palavras entaladas na minha garganta.

— Eu sei que você é chata, irritante, tagarela, péssima cozinheira, viciada no celular, canta o tempo todo e ronca quando dorme.

A última afirmação me quebra. Estreito os olhos e o encaro.

— Eu não ronco — esbravejo.

Sua cabeça apenas balança uma vez.

— Ronca — murmura convicto.

Arfo o ar pelas narinas.

— Eu [...] — gaguejo mais irritada ainda — Eu. Eu. Eu [...]

— Eu esqueci algo? — Adam arqueia o cenho ao me lançar um olhar e meio sorriso cheios de razão.

Respiro profundamente, tentando manter minhas emoções e nervos nos seus devidos lugares.

— Esqueceu — silabo acidamente — Você ainda não sabe o que eu quero.

O sorriso some do seu lábio. Seu olhar torna-se distante por um momento, como se minhas palavras significassem mais do que o sentido que as tinha dado.

— Eu sei que você merece ser feliz.

— E o que você acha que me faria feliz? — questiono, apoiando meu joelho sobre o banco e focando toda a minha atenção no homem atrás do volante.

Suas narinas inflam-se junto com o silêncio que só é quebrado por nossas respirações. Suas ambares me evitam a cada segundo que seu indicador batuca impaciente sobre o volante preto.

— Não um idiota, rabugento, que detesta relacionamentos, romantismo e apego — suas palavras são distantes, seu dedo para — Você quer o que toda garota quer: ser feliz, amada e um futuro.

Quero rir. Quero esmurra-lo. Quero joga-lo para fora do carro. Quero que ele simplesmente me olhe e diga aquelas palavras olho no olho. Porém não faço nada disso, apenas engulo aquelas amargas palavras.

— Errado.

— Errado? — a resposta vem acompanhada de um suspiro impaciente.

— Errado.

Sua cabeça balança em negativa, seus dedos envolvem com força o volante e tudo que quero, não tenho, a atenção dos seus olhos.

— Você merece alguém como o Ian — seus lábios se abrem, sem produzir qualquer som ou continuação, apenas uma fungada — Eu não sei pelas merdas que você passou, Sunshine — seus dentes rangem — Só sei que depois de tudo, merece alguém que te ame, cuide e faça feliz. E eu não sou essa pessoa. E nunca vou ser.

— Nunca vai ser perfeito? — concluo seu raciocino que não me agrada.

Finalmente suas âmbares me encontram sem qualquer armadura, apenas aquele par de olhos cheios de feridas por cicatrizarem.

— Perfeito — repete em um tom irritante.

Ele não tinha o direito de achar aquilo. Não tinha. Não tinha o direito de achar que merecia alguém perfeito só porque tinha sofrido, nas mãos justamente de alguém "perfeito" .

Rio sem humor algum.

— Eu não quero a droga de alguém perfeito — cerro meus punhos socando suavemente a minha coxa — Sabe o que meu namorado "perfeito", fez comigo? — faço aspas com os dedos no ar, sem dar chance de ele falar — O Senhor Perfeito me empurrou contra uma parede, deu mais de um soco no meu rosto, bateu a minha cabeça na mesa, me chutou — rio amargamente engolindo a emoção entalada na garganta ao dar voz àquelas lembranças — Então quando você me diz que acha que eu mereço. E quando você acha que eu mereço alguém perfeito, eu sinto vontade de te esmurrar,  porque a droga da perfeição acabou com a minha vida, acabou comigo e roubou muita coisa de mim.

As últimas palavras saem tremuladas. Sinto algo quente escorrer pela minha face. Me ajeito no banco do carona e olho para frente, secando com a manga da blusa a lágrima fujona. Não queria que as minhas emoções tivessem transbordado daquele jeito.

Meu sangue ferve. Minha respiração é rápida e ofegante.

— O Ian é perfeito. Eu amo o Ian — vocifero com a voz embargada olhado para estrada a frente, sem realmente enxerga-la — E séria mais fácil se quisesse ficar com ele. Séria simples se sentisse que me encaixo no mundo perfeito dele, mas não, me sinto uma intrusa, a lembrança de alguém que um dia fui e não vai voltar. Eu quero seguir em frente e não ficar presa ao passado que me faz mal, então não ache que você sabe o que eu mereço ou quero.

Suspiro, sentindo-me um pouco mais aliviada. Não tento encarar o Adam. Agora sou eu que não quero ser vista, não queria nem estar naquele carro sem poder fugir para algum lugar solitário.

Respiro calmamente, tentando colocar tudo no lugar. Bruscamente o carro vira, levando meu corpo junto, e entra em um posto de gasolina com um enorme restaurante e loja de conveniência.

— Que droga, Adam — resmungo, voltando a me ajeitar no banco de couro e segurar no suporte da porta.

— Eu preciso abastecer — decreta ao manobrar ao lado de uma bomba de gasolina e silenciar o motor — E você precisa comprar alguma roupa extra — seus olhos passam pelas minhas vestimentas casuais, antes de tirar algumas notas do bolso — E essa é a última parada decente pelo caminho — sua mão me estende algumas notas — Toma.

Encaro as cédulas suspensas no ar. Normalmente recusaria, mas literalmente só estava com a roupa do corpo, meu celular e uma nota de cinco no bolso do colete.

Meus dedos receosos e desconfiados agarram o dinheiro.

— Você não vai me abandonar aqui, vai?

Seus olhos me olham com sinceridade e calma.

— Acho que você me conhece o suficiente para saber.

Aquilo era um não. Definitivamente aquela frase soava como um não aos meus ouvidos. O Adam era tudo, mas se não me quisesse ali, eu já não estaria.

— Está bem — enfio as notas no bolso do colete.

Abro a porta que range.

— Tate — paro e olho sobre os ombros, seus lábios abertos se calam, como se estivesse arrependidos de algo — Me traz um café  — finalmente solta.

— Preto e sem açúcar? — arrisco seu gosto já conhecido.

— É — concorda com um balançar de cabeça.

A loja de conveniência tinha um pouco de tudo. Literalmente um pouco de tudo. Ia desde um pequeno restaurante, passava a ser um mini mercado até um brecho com roupas simpáticas. Fico feliz por conseguir comprar uma calça jeans, duas calcinhas, uma blusa e camiseta. Além de várias guloseimas para o meu estômago resmungão.

Ao sair pela porta que se abre automaticamente fico feliz por constatar que o sr. Rabugento não tinha me largado. De longe o observo encostado na caminhonete, com o olhar distante e os dedos mexendo nas chaves. Não queria estar em outro lugar que não ali. Era estranho. Era fácil. Era complicado e simples ao mesmo tempo. Em silêncio me aproximo.

— Seu café — estico o copo fumegante em minha mão.

— Obrigado — agarra ao se desencostar da caminhonete e dar a volta até a porta do motorista.

Subo, jogando algumas sacolas atrás da cabine e outras no meio do banco que dividíamos. Em poucos minutos estamos percorrendo a estrada.

— Para aonde estamos indo? — questiono bebericando meu café com leite de soja.

— Para região de Rhode Island, visitar um velho companheiro — pigarreia desconfortável antes de voltar a beber o café.

Seguro o copo com as duas mãos, os olhos atentos no trajeto a nossa frente, não consigo segurar meu comichão de curiosidade.

— Velho como?

Seu corpo apenas se movimenta para virar o resto do líquido quente e jogar o copo vazio na sacola improvisada como lixo no nosso meio.

— Do tipo que não vejo a algum tempo — murmura lançando-me um breve olhar — Estivemos juntos na marinha.

Adam não precisa me dizer, posso ver em seu olhar como não é fácil revelar aquela pequena informação.

— Eu pensei que [...] — deixo as palavras morrerem na minha boca ao me arrepender do que estava prestes a dizer.

— Que deixei todos morrerem? — sua interrupção é em um tom melancólico e sem censura — Que fui o covarde que salvou apenas a si?

— Você sabe que eu não penso isso sobre você — balbucio bebericando o resto do meu café.

— Eu sei — seu olhar encontra o meu — É só que — sua frase termina com um suspiro — Quando chegarmos você vai entender.

Maneio a cabeça em concordância. Não estava tão ansiosa para fazer as perguntas que pairavam em minha mente, como estava para descobrir as respostas que estávamos prestes a encontrar no final do caminho.

Jogo o copo no lixo improvisado. Abrindo o pacote pequeno de jujubas em forma de minhocas coloridas e açucaradas. Gemo ao mastigar a mistura de morango com uva.

— Você come feito uma criança — a observação vem com um olhar cheio de nojo que quase me faz rir com a boca cheia.

— É comida de viagem — digo entre uma mastigação e uma nova minhoca na boca.

— É porcaria.

Enfezo a cara em sua direção.

— Vai dizer que você não ama uma jujuba? — o desafio a dizer não, balançando uma das minhocas de goma no ar.

Adam torce todo o seu rosto, quase ficando verde. Menos verde do que ficou diante da pizza doce.

— Não.

— Não? — arregalo os olhos indignada, balanço a goma diante dos seus olhos — Anda, prova sr. Azedo — insisto.

Sua cabeça gira brevemente em minha direção em total insatisfação.

— Não.

— Você não pode dizer que não gosta de algo que nunca comeu — argumento.

Ele suspira.

— Ok — rende-se, com os dedos presos ao volante.

Sua boca se abre e enfio a goma dentro. Seguro um sorriso, enquanto sua boca se movimenta mastigando o doce. Meus olhos ansiosos não deixam de encara-lo a espera de qualquer sinal de aprovação.

Com dificuldade e sonoramente, Adam engole.

— É péssima — pigarreia fazendo careta — Me dá mais uma — pede.

Sorrio com o inusitado pedido. Enfio mais uma minhoca doce em sua boca.

— Já ia esquecendo — largo o pacote de doce.

Fuço a sacola no nosso meio. Sei que seus olhos vez ou outra me analisam curiosos. Arranco o pequeno apanhador de sonhos escondido no fundo da sacola plástica. Estendo o objeto em direção ao vidro retrovisor do carro no nosso meio.

— Que porcaria é essa?

Dou de ombros.

— Todo carro tem que ter um enfeite — estico meus braços que prendem sobre o espelho o objeto.

— O meu não — resmunga

— O seu não tinha — decreto jogando meu corpo para trás — Agora tem.

— Vou jogar isso fora — seu dedo aponta para o objeto pendurado.

Sorrio.

— Eu arrumo outro — lanço lhe uma piscadela — Quem sabe dois dados de pelúcia na próxima — o provoco.

QUARTO DIA COM CARA DE QUINTO
(Fiquei sem internet a noite, por isso não deu para postar)

Teorias? Comentários? Muitos acharam que o Adam estava recebendo chamadas da mãe 🤔.

NÓS VEMOS A NOITE

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