Capítulo Dois
Puritana Rosa
Os dois se moverão ao mesmo tempo, como se tivessem voltado a respirar subitamente.
-Me desculpa pela batida -Justin disse tentando ser gentil.
-Tudo bem, eu sou meio distraída. -Ela riu envergonhada.
Os dois voltaram a trocar olhares mais uma vez, como se quisessem dizer algo um ao outro, mas nada saiu. Eles estavam travados.
Uma senhora de cabelos grisalhos e sorriso banguela surgiu na esquerda de Isabelle, cutucando a menina.
-Minha filha não fiquei ai de papo com o bonitão. -disse ela ranzinza. -Preciso dos meus peixes.
Sem pensar muito a garota se moveu dando passagem pra senhora que sorriu em agradecimento. Ela pode ouvir o riso fraco, mas cômico de Justin enquanto ele se virava e seguia para outro corredor atrás de mais salgadinhos Takis.
Já recuperada ela respirou fundo e voltou para perto dos peixes, encontrou o bendito Salmão branco e voltou ao seu carrinho o deixando ali. O rosto do garoto ainda se projetava na sua mente, a sua voz e até mesmo o meio sorriso de segundos que ele deu quando a viu. Além daquela interminável sensação de borboletas no estomago.
Caminhou em direção ao caixa, por sorte só havia uma pessoa na sua frente. Era ele. Tão atraente de costas quanto de frente.
Ele estava despreocupado apenas esperava enquanto a caixa passava suas compras. Seu carrinho estava repleto de besteiras, salgadinhos, refrigerante, doces, cerveja e congelados. A alimentação dele parecia tão pior quanto a de uma criança de oito anos.
Num instante ele virou o rosto e mais uma vez se viu de cara com a garota. Mais uma vez ele repetia pra si mesmo que ela era uma das mais bonitas que ele já tinha visto. Ela tinha uma coisa que ele não se lembrava de ter visto em garota nenhuma, eu já se esquecera de como uma garota poderia ter aquilo. Envergonhada com o olhar intenso de Justin sobre ela, Isabelle abaixou a cabeça prendendo uma mexa que escapava do seu cabelo atrás da orelha.
Justin riu internamente com aquele gesto.
-Oi -ele disse baixo e ainda assim provocou um susto na menina.
-Oi -ela respondeu rápido, tentando manter a respiração continua.
-Você vem sempre aqui? -falou, logo rindo pela cantada barata que tentava fazer.
-É um mercado, todo mundo vem sempre aqui. -ela definitivamente se sentiu a garota mais idiota do mundo depois de dizer isso. Ela nem sabia o que estava fazendo.
-Agora você me pegou. -admitiu.
A caixa interrompeu a conversa um tanto quanto constrangedora no momento certo. Justin puxou a carteira do bolso e entregou um cartão de crédito para a caixa. Compras pagas.
Justin puxou o carrinho que usara dentro do mercado e colocou as sacolas de papel que embalavam tudo o que havia comprado. Tudo que, se continuasse comendo todos os dias, o mataria antes de chegar aos trinta.
Isabelle estava quieta não pretendia fazer mais nenhuma idiotice, se sentia como uma alien fazendo o primeiro contato com os humanos. O que era quase verdade julgando pelas suas poucas experiências de interação social.
Perdida nos seus pensamentos foi surpreendida com uma pergunta.
-Você ta de carro?
-Me desculpe? -o observou sem entender o que dizia.
-Você comprou bastante coisa, se não estiver de carro vai ser meio difícil levar tudo isso. -ele sorriu de uma forma convidativa.
-Acho que isso é um problema. -ela olhou para as compras que a caixa passava e pensou no quão pesado e cansativo seria carregar tudo aquilo por dois quarteirões.
-Então eu espero ser a solução para o seu problema. -antes mesmo da menina responder ele já estava colocando as compras dela junto as dele.
Ela pagou o caixa e parou ao lado dele.
-Não vai me dizer que esta com medo. -ele brincou enquanto empurrava o carrinho até a saída. Ela o acompanhou um pouco apreensiva.
-Eu nem sei quem você é. -disse finalmente.
Ele parou em frente ao carro, o segundo da direita pra esquerda na porta do supermercado. Tirou as chaves e desligou o alarme. Abriu a porta do carona e colocou as compras ali. Depois de fechar a porta ele se virou parando a frente dela. Talvez ela estivesse certa eles nem conheciam um ao outro. O que de certa forma deixava Justin intrigado, ele não costumava ser o tipo de cara que cede carona a quem ele mal conhece. Nos últimos meses ele nem mesmo era o cara que oferece carona pra quem quer que seja, mas ele por alguma razão ele tinha ido com a cara dela.
-Eu sou Justin -estendeu a mão, ela fez o mesmo se preparando pra se apresentar.
-Eu sou Isabelle -ela sorriu encantada com a gentileza do garoto.
-Pronto, agora nós nos conhecemos. -os dois riram bobamente um pro outro.
Justin abriu a porta indicando pra que ela entrasse e deu a volta sentando no bando do motorista. As mãos de Isabelle suavam tão intensamente que ela passava as mesmas na calça do moletom dezenas de vezes, ela estava tão nervosa que por um segundo pensou em saltar do carro que começava a ganhar movimento e correr pra bem longe daqueles lindos olhos castanhos.
-Então onde você mora? -ele perguntou assim que saíram do estacionamento.
-Bem -ela tentava juntar as palavras na sua mente, mas o fato de estar pela primeira na sua vida sozinha com um homem a deixava de certa forma perturbada, se seu pai visse aquilo ele seria capaz que manda-la para o campo na casa de sua tia avó Amélia, só para que aquilo nunca mais se repetisse. -No quarteirão das flores, duas ruas acima Igreja.
-Engraçado eu também moro nesse quarteirão, não vá me dizer que é na rua dos alfinetes? -Justin não pode se controlar ao dizer "alfinetes" ele ria do nome dessa rua desde pequena e sempre se perguntava quem diabos havia pensado em um nome tão bobo pra uma rua.
-Acho que ... somos vizinhos -ela gaguejou ainda nervosa chamando a atenção de Justin, mesmo que sem querer, ela desviou o olhar da rua pra ela por alguns instante vendo a garota inquieta.
-Ta tudo bem com você? -perguntou voltando a fitar o caminho.
-Por que? -perguntou lutando com o suor que ainda insistia em sair de suas mãos.
-Você não parece bem -ele riu fraco -parece até que você esta escondida dentro do meu carro. -ele riu com um pouco mais de humor, mas ela não o acompanhou se entregando -Ah meu Deus, não vai me dizer que se alguém te encontrar aqui amanhã o meu cadáver vai estar boiando no esgoto. -ele disse fingindo estar com medo.
-Não, claro que não -ela riu envergonhada. -É só não sou acostumada a pegar caronas.
-Não seja por isso, pode me considerar seu motorista particular se quiser -disse formando um meio sorriso que deixou Isabelle de pernas tão bambas que se estivesse de pé teria caído. -Qual é a sua casa? -perguntou deixando a menina surpresa ao ver que já estavam em casa.
-A verde. -ela apontou pra casa simples mais a frente banhada em um verde esperança.
-Acho que esta entregue. -ela abriu a porta e saltou do carro olhando para todos os lados rezando pra que nenhum vizinho boca grande surgisse por ali.
Justin saiu do carro abrindo a porta do passageiro e pegando as duas grandes sacolas de papel.
-Obrigada. -ela disse pegando a primeira sacola.
-Posso te ajudar a levar até em casa se quiser. -ele não estava medindo esforços pra ganhar a garota.
-Já fez muito por mim ... Justin, muito obrigada mesmo. -ela puxou a outra sacola pronta pra ir em direção a casa.
Assim como no supermercado eles ficaram se encarando por alguns segundos sem saber o que fazer, Justin pensará em beija-la ali mesmo, mas não parecia uma boa ideia, já Isabelle realmente não sabia o que queria, ela poderia passar o resto daquela noite nublada olhando pra aquele lindo garoto. Mas ela não podia.
-Então é isso...foi bom te conhecer Justin -ela sorriu.
-Foi ótimo te conhecer Isabelle -ele piscou de um jeito tentador fazendo a garota se arrepiar em lugares proibidos.
Ela se virou envergonhada com a sensação que o garoto a causara e atravessou a rua indo em direção a porta de casa.
Ele ficou ali parada rindo consigo mesmo com a reação da garota, era adorável. Enquanto ela entrava ele teve a sensação de conhecer a casa, bem na verdade as casas daquela rua não era muito diferentes umas das outras, mas aquela em especial lhe lembrava de algo ou alguém. Sem se importar muito com a casa ele voltou ao sue carro, girando a chave e indo de volta pra casa.
Não houve interrogatórios na casa de Isabelle, seu pai já estava em casa e havia apenas fica impressionado com o fato da filha ter trago aquelas sacolas pesadas sozinha. Como ele mesmo havia dito os anjos a haviam ajudado.
Depois de um jantar calmo e nenhum dever de casa pra fazer Isabelle foi se deitar. Sua cabeça fazia um flashback do momento em que havia encontrado Justin na sessão de frios até o segundo que ela piscou se despedindo na porta de sua casa.
Ela lutava contra aqueles pensamentos, alguns bem sujos, tentando não se render ao encantos daquele homem que talvez ela nem voltasse a ver. Se sentia tão boba, ele era só um cara da carona, um cara muito lindo que havia lhe dado carona. E mais uma vez como ela se sentia boba, mil vezes boba, por sentir essas coisas sem mesmo saber se podia sentir. Mais boba ainda por se perguntar se podia sentir. Mil vezes boba.
Mais um dia pra acordar cedo, Pattie já havia colocado o jovem homem de pé. Ele havia reclamado e dado birra como uma criança, mas havia levantado. Ele cochilava em cima da mesa café da manhã enquanto sua mãe falava sobre uma colega de trabalho que se vestia como uma vadia. Justin não estava interessado ou animado pra ir pra escola, mas que opções ele teria. Ao ouvir a buzina e os gritos de seus amigos na porta de casa ele levantou sussurrando um "até mais mãe". Pegou sua mochila no sofá e saiu entrando na picape de Chaz ao som de uma das músicas do Drake.
Já na casa de Isabelle o café da manhã não havia sido tão calmo, seus pais haviam recebido um telefonema da escola, Kennedy havia discutido com a professora. Os dois estavam sentados no sofá da sala enquanto seu pai fazia um típico discurso de "Deus esta vendo o que você esta fazendo... e bláh blá blá" . A garota já estava cansada de ouvir aquelas mesmas palavras todas as semanas por motivos distintos e insignificantes.
-Agora nós vamos dar as mãos e orar pra que isso nunca mais venha a acontecer em nossa família. -O pai esticou as mãos esperando que seus filhos as segurassem seguindo em uma oração que gastaria mais dez minutos do tempo não tão precioso de Isabelle.
Às vezes as garota se perguntava por que seu pai tinha que ser o pastor da igreja e tão fanático. Não que rezar fosse uma coisa ruim pra ela, mas as loucuras dele transformavam qualquer coisa legal em uma coisa chata.
-Amém! -ele gritou quase que esperando pelo amem em coro que sempre recebia em sua igreja.
Após ir a cozinha e pedir benção a sua mãe ela finalmente pode sair de casa. Pegou o ônibus na esquina do quarteirão e seguiu para a escola.
Enquanto a paisagem passava rapidamente pela janela ela se lembrou da noite passada deixando um sorriso transparecer, ela daria qualquer coisa para poder vê-lo novamente. A parada da escola chegou e ela teve que saltar, logo recebendo os olhares de estranheza de seus colegas. As vezes ela esquecia o tratamento que recebia dos mesmos, parece que as roupas que usava não eram boas o bastante pra nadar com nenhum deles, além do fato deles acharem que ela era uma religiosa tão fanática quanto seu pai. Isabelle disparou pelo campos desviando dos olhares feios e entrou no corredor indo em direção aos armários pegar seu livro de literatura para o primeiro horário.
Do outro lado do corredor um grupo de veteranos brincava e tirava sarro dos nerds que passavam por ali, entre eles estava Justin falando palavrões e gritando sacanagens pras lideres de torcida. Caitlin uma das cheerleaders passou fazendo os garotos a acompanharem em silêncio.
-Já peguei -ele gritou se vangloriando e recebendo uma salva de palmas do caras que o acompanhava.
-Grita isso de novo que a próxima coisa que você vai pegar vai ser o meu punho na sua boca -Chris gritou bravo com o comentário gerando uma onda de risos.
Justin se calou rindo do amigo.
Olhando mais a fundo no corredor, ele encontrou um pontinho em vários tons de rosa. Uma garota mexia no armário, as roupas dela eram engraçadas e todos que passavam por ela pareciam cochichar uns para os outros.
-Quem é ela? -Justin puxou Chaz apontando pra garota no final do corredor.
-A estranha de rosa? -ele assentiu -É a puritana, pelo menos é como todos nós a chamamos.
-Por que? -perguntou sem entender do que se tratava.
-Ela é filha do Pastor Jackson, dizem que ela é louca como ele e ainda usa uma calcinha de castidade, por isso das roupas estranhas e feias. -ele articulou fazendo uma cara de nojo. -Não vai me dizer que ficou a fim dela?
-Não mesmo, Justin Bieber não pega esse tipinho -disse em desdém voltando a conversar com os caras.
Por um momento ele pensou que a conhecia, mas não havia chances da Puritana ser a garota que ele havia levado pra casa noite passada.
O sinal tocou e o corredor virou um formigueiro humano com todos indo direção as suas respectivas salas.
Isabelle correu pra sala de Literatura se sentando na última cadeira como sempre, a última coisa que ela precisava era de mais atenção. Abriu o caderno e começou a rabiscas enquanto a sala se completava.
Justin puxou o grade de horários conferindo a sua primeira aula, o corredor estava quase vazio quando finalmente encontrou a sala. Entrou sem dar atenção aos alunos e se apresentou ao professor que o apresentou pra sala.
-Classe esse é o nosso novo aluno temporário -os olhos de Isabelle não puderam acreditar quando viram ele ali parado a sua frente. Seu coração disparou quase saindo pela boca, ela podia jurar que toda a sala estava rodando.
-Senhor Bieber, sente ao lado da Srta Evans -ela apontou na direção da garota que tentava esconder o rosto entre os livros.
Justin não havia ficado muito feliz com a escolha de lugar, primeiro dia de aula e ele teria que se sentar ao lado da "Puritana". O garoto se arrastou até a mesa ao lado e se sentou sem ao menos dizer um bom dia ou olhar para a garota.
Os primeiros quinze minutos da aula foram terminantemente chatos para ele enquanto pra ela pareciam torturantes já que não conseguia se concentrar. O professor leia trechos do livro e explicava enquanto Justin desenhava na carteira. Isabelle juntava forças pra dizer um oi, afinal ela não tinha nem sequer dado oportunidade pra ele ver quem ela era. Faltando poucos minutos pro sinal bater ela tomou coragem, abaixou o livro que tampava seu rosto e o encarou.
-Oi Justin -disse apreensiva chamando a atenção dele que levantou a cabeça tão devagar que não parecia acreditar no que ouvia, ao encarar a garota ele congelou. -Não sabia que íamos estudar na mesma escola, quero dizer você ... -o sinal tocou acordando Justin, ele não sabia o que fazer alguns olhares debochados estavam em cima deles enquanto a garota falava sem parar nervosa. -é legal sabe.
-Desculpa você deve estar me confundindo com alguém -ele disse levantando.
-O que? Espera... -a menina ficou sem entender o que acontecia.
-Me erra puritana -ele soltou num tom maldoso abraçando uma líder de torcida que passava na porta da sala.
Agora era vez de Isabelle ficar sem ação, depois que o garoto saiu da sala ela pode ouvir os risos abafados de seus colegas ao seu redor. Ela nem sabia o que pensar, estava tão confusa e envergonhada que a única solução seria abrir um buraco na terra e enterrar a própria cabeça.
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