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• Capítulo 11 •

Quantas versões de mim eu já fui até agora? Jimin conheceu cinco delas. Mas quantas já passaram?

Quantas memórias uma mesma pessoa pode ter? De corpos, mentes, pessoas...vidas diferentes?

Entrei em um estado de inconsciência consciente depois que eu desmaiei. Eu sabia que estava desacordada, mas não podia acordar por vontade própria. O que me deixo presa na escuridão da minha própria mente. Isso até eu começar a ter sonhos sobre o passado. Sobre todas os meus eus.

Uma por uma, cada vida que eu tive, de Jasmin, a primeira de todas, até Kailin, a minha vida antes dessa. E cada uma delas me fazia chorar absurdamente. Especialmente Iara. De todas, minha vida mais curta e triste.

Eu era uma ladra quando era Jasmin. Conheci Jimin por acaso e ele salvou meu eu miserável. Eu era uma mulher difícil, saturada de ser pobre e incapaz. Meu coração era frio e após sofrer na mão de muitas pessoas, confiar em qualquer outro era quase impossível. Criar meus filhos era tudo o que eu queria. E quando Jimin apareceu, o fiz sofrer muito. Sabia que estava me apaixonando por ele, e fiz de tudo pra reprimir esse sentimento e apenas usá-lo  e usar seus poderes pelo meu bem. Sabia que confundia seu coração toda vez que demonstrava estar feliz ao seu lado, e de repente sanava o brilho nos seus olhos ao me olhar, sendo seca mais uma vez. As coisas demoraram pra darem certo entre nós. Até finalmente dar. Anos juntos, demorei pra gastar meu último desejo, percebendo que não havia jeito, e eu o amava. Ele sabia que eu sentia o que sentia, e ele tinha mais certeza ainda do que ele sentia. Lutou muito pra estar comigo sempre. Salvou minha vida diversas vezes. E nunca esquecia o quanto fui grata.

E foi em uma noite, após ser perseguida por guardas pela cidade o dia todo por roubo, que consegui me safar com sua ajuda e acabamos no topo de uma casa abandonada, olhando as luzes da cidade de cima. Era uma noite estranhamente calma. Meus filhos estavam em casa, provavelmente dormindo, e eu estava com meu gênio da lâmpada, olhando o céu estrelado.

- É uma vida amarga. - Digo, chamando sua atenção. - Não sou capaz de dar muito aos meus filhos. E não posso te dar muito também...apesar de você me dar tudo e fazer tudo por mim. - Olho pra baixo, frustrada. - Perdão, Jimin. Se eu pudesse renascer e ter a oportunidade de fazer tudo diferente...eu faria...só por você. Pra recompensar seu sofrimento.

E mesmo chorando pateticamente pelos meus erros egoístas, Jimin segurou meu rosto e o aproximou do dele. Ele também chorava, mas tinha um sorriso no rosto.

- Jasmin...não lamente por como agiu comigo. Eu vejo o que você vive todos os dias. E não me importo de sofrer...se for por você. Por alguém que entendo o sofrimento. E sou grato por cada momento que me deu e que fez da minha maldita vida eterna algo menos pesado. Você, Jasmin, me fez odiar a minha vida menos. - Foi o que ele me disse. E eu apenas chorei mais.

- Eu te amo, Jimin.

Naquela mesma noite, conversamos até o sol nascer. Não voltamos pra casa até lá. E quando chegamos em casa, foi o choque. Tudo estava destruído. Minha casa, que já não era muito. Destruída. Em escombros. E meus filhos...nos seus quartos. Foram tirados de mim. Lembro do quanto chorei e gritei ao vê-los no chão, sem vida. Aqueles que tentei proteger a vida toda. Eu e Jimin tínhamos certeza que tinham sido os guardas, que não demoraram a aparecer, querendo terminar o que começaram. E quando estávamos encostados na parede do quarto, eu com meus filhos nos braços, esperando os guardas invadirem o quarto, Jimin fala comigo.

- Jasmin...disse que faria tudo diferente se tivesse outra oportunidade, não é? - Não consigo prestar atenção no que ele diz no momento, apesar de ouvir.

A única coisa que me lembro, e do Jimin cortando seu dedo e me dando seu sangue. E depois cortando o meu rapidamente e tomando o meu. Por fim, ele usa algum tipo de magia em nós dois, e o quarto é invadido em seguida. E tudo acaba aí.

Morri com 42 anos nessa vida. Ao lado dele. Que, claro, não morreu. Mas iniciou um ciclo pra mim. O que me levou até a minha segunda vida, Iara. A vida que me fez pagar por todos os meus erros, certamente.

Nasci fisicamente fraca. Tinha alergia a todo tipo de coisa, imunidade extremamente baixa e ficava doente o tempo todo. Era muito pálida, magra, frágil. Vivia no hospital. Tomava remédios toda vez que bebia um copo de água. Sempre me medicando como se fosse uma idosa.

Foi em uma manhã, no jardim da minha família, acompanhada do mordomo que sempre tomava conta de mim, que conheci Jimin pela segunda vez. Ele surgiu de repente. Um homem, um tio distante que veio me visitar, o acompanhava. Ele parecia um escravo. Estava usando roupas velhas e tinha braceletes com correntes nos pulsos. Ele veio correndo na minha direção assim que me viu. Meu tio o seguindo rapidamente, desesperado, como se algo tivesse saído do seu controle.

- Senhor Wilson. - Meu mordomo o cumprimenta, olhando para Jimin, que não tirava os olhos de mim. Lembro de estar assustada com seu interesse em mim, apenas sentada no banco do jardim em silêncio. - É mesmo necessário estar expondo esse rapaz dessa forma?

Sempre soubemos que tio Wilson tinha escravos ilegalmente, mas ele nunca tinha saído com um festa forma. E ele mesmo parecia surpreso, uma vez que estava desajeitado, arrumando seu terno e pigarreando.

- Eu...tive um imprevisto. Precisava dele comigo hoje. Não é algo para os seus olhos, entretanto, Iara. - Ele se debruça na minha direção, com aquele sorriso no qual eu não confiava, beijando as costas da minha mão. Sorri falsamente de volta, ainda olhando para Jimin. Ele parecia desesperado. Foi como se ele em conhecesse. E precisasse me dizer algo. Mas eu não sabia quem ele era. Só sentia pena dele.

Tio Wilson era um desgraçado. Todos na família sempre soubemos disso. Não era a toa que nos mantínhamos a distância dele o máximo possível. Mas não era sempre que conseguíamos. Em eventos de família como esse, ele sempre vinha. Sempre aparecia pra roubar um pouco a boa energia de dias como hoje, meu aniversário. E nesse dia, ele ficou especialmente isolado. Não queria se aproximar, provavelmente por causa do Jimin. Mesmo assim, ele me observava de longe. E na primeira oportunidade que teve de falar comigo quando eu estava sozinha vendo meus presentes, ele apareceu.

- Eh...olá. - Ele se aproxima, sem jeito.

- Ah, olá. Por que está aqui? Meu tio não vai ficar bravo se você sair de perto dele? - Pergunto, com um sorriso um pouco tenso no rosto.

Ele parece ficar triste.

- Ele vai, certamente. Mas tudo bem. Vale a pena. Eu queria...te dar um presente. - Ele diz, e se senta no chão comigo.

- Um presente? - Digo e olho para suas mãos. Como ele conseguiria me dar algo? Meu tio não o pagava, certo? Era um escravo, afinal. E estava de mãos vazias. O que ele poderia ter ali pra me dar? E foi de repente, com um rápido movimento de mãos, que algo surgiu em suas mãos. - Como isso?!!?

Era um enfeite de cabelo. Parecia feito de ouro puro e tinha um formato de pente com um rosa de cristais azuis na sua ponta. O que eu duvidaria que alguém como ele teria, ao não ser que roubasse. Mas sabia que não teria sido de nós, porque não tínhamos nada assim. Não era de tio Wilson, porque vivia sozinho e não teria nada assim. Além de que sua mão estava vazia segundos atrás.

- Posso? - Ele diz, procurando a mão com o enfeite do meu cabelo. Hesitante, assenti. E então, com dificuldade por conta das correntes, ele coloca o enfeite no meu cabelo. Vejo ele sorrir ao me ver com seu recém entregue presente. - Ficou perfeito.

- Obrigada. - Respondo, sorrindo tímida.

Em seguida, ouço a voz do tio Wilson na distância, e Jimin fica tenso.

- Preciso ir, senhorita Iara. Adeus. - Ele se levanta e vai até a porta.

Sem me dizer seu nome ou me dizer como sabia o meu, ele vai embora. E ficamos algum tempo sem nos vermos. Fiquei muito tempo curiosa sobre sua visita. Todas as vezes que chegava meu aniversário ou outra reunião familiar, tio Wilson vinha novamente e o rapaz misterioso vinha com ele. E então ele sempre arrumava uma forma de ficar sozinho comigo. Com tempo, finalmente descobri seu nome e começamos a conversar mais. Ficamos muito amigos e logo, solitária como eu era, me apaixonei por ele.

Infelizmente, depois de algum tempo, ele parou de vir. E depois, tanto ele quanto meu tio não compareciam a mais nada. Fiquei muito triste. Chorei bastante. E lembro de ter até adoecido. Claro. Com um corpo sensível, é claro que isso me deixaria doente. Sofri bastante com sua ausência. E fiquei esperando pra ele aparecer novamente um dia.

No fim, ele apareceu. Era um noite no mesmo lugar onde o vi pela primeira vez, em frente a minha casa. Sentada no banco olhando para as flores de noite, estava sozinha esperando o mordomo me trazer meu chá, que pedi por conta da insônia. E então, ele apenas surgiu. Levei um susto. Ele apareceu de repente, sob a luz do luar, e sujo de sangue. Seu olhar estava perdido. Ele parecia vazio por dentro. Seus olhos estavam vermelhos como se tivesse chorado muito. Suas correntes estavam quebradas. E ele andava como um zumbi na minha direção.

- Jimin...?? O que aconteceu com você? - Me levantei rapidamente do banco, segurando meu vestido longo pra não acabar tropeçando. Toco seu corpo por cima da roupa, procurando ferimentos. Mas não tinha nenhum. - Esse sangue...?

Olho nos seus olhos, e ele me encara de volta, parecendo desesperado de repente.

- Iara, eu...mestre Wilson... - Ele diz, apertando meu braço.

- O que tem meu tio Wilson?? E de onde veio esse sangue? Estou assustada, Jimin, me explique.

- Fui eu...fui eu que... - Ele falava de forma confusa. Em meio de soluços de choro. Ele apoia sua cabeça no meu ombro e chora sem conseguir falar nada claramente. Mas com o pouco que ele diz, algumas suspeitas me vem em mente, e começo a tremer um pouco. Não seria possível que ele...?

- Trouxe seu chá, senhorita... - Viro pra trás ao ouvir a voz do meu mordomo, e vejo seu rosto chocado, vendo Jimin com a roupa suja de sangue. - Saia de perto dela!!

Ele vem na direção de nós dois e puxa Jimin pra longe. Logo funcionários da casa que estavam por perto aparecem e ajudam o mordomo, enquanto outros me seguram, já que eu tentava ir na direção de Jimin ao seu socorro, enquanto os homens o seguravam no chão.

- Não!! O que estão fazendo?? - Grito, tentando me soltar.

Mais tarde, me contaram o que confirmou minhas suspeitas. Jimin havia matado seu mestre, meu tio Wilson, e fugido. Estava desaparecido após o crime faziam dias, e aparentemente estava tentando me encontrar. E agora que finalmente me encontrou, foi preso.

E claro, lá fui eu ficar doente novamente. Meus pais estava desesperados com o meu estado. Chegaram a chamar um psicólogo, porque eu tinha começado a ter diversos surtos todos os dias. Me doparam de remédios e fizeram diversos exames comigo dopada. Eu já não sabia distinguir o que era alucinações e o que era real. Cheguei e ver Jimin do meu lado várias vezes, mas provavelmente eram apenas alucinações.

Até que Ren veio me ver. Minha melhor amiga. Finalmente conseguiu permissão do pai pra vir me ver e aqui estava ela. Ren me fazia diversas perguntas sobre como eu estava me sentindo e se eu precisava de ajuda. Me perguntava sobre aquela noite com medo de eu surtar explicando. Mas eu não me importava. Só estava esperando a oportunidade certa pra pedir algo.

Ren era filha do xerife. Da central onde Jimin estava preso. Eu precisava dela pra salvá-lo.

- O que?? Tirá-lo de lá? Iara, ficou maluca? Não podemos invadir aquele lugar pra soltar um criminoso! Nem se eu quisesse!  É impossível. - Ela diz, me olhando chocada.

- Ren...me escute...Jimin é inocente. Ele era um escravo. Era mal tratado. Todos sabemos como meu tio Wilson era. Até você e seu pai. Isso tudo é...injusto. Ele foi pego...porque veio atrás de mim. Preciso ajudá-lo... - Digo, fraca mas desesperada.

Demorou algumas visitas pra eu finalmente convencer Ren. A princípio, eu queria conseguir uma visita. Queria poder visitar ele na prisão e entender aquele lugar. Não sabia como alguém doente como eu conseguiria fazer algo, mas eu queria tentar. E com a ajuda da Ren, consegui convencer o pai dela e os meus pais. Mas só se Ren entrasse comigo e eles observariam de longe.

Não entendiam o que queríamos com Jimin e não precisavam. Se imaginavam que eu era um mínimo próxima dele por conta das visitas dele, era o suficiente.

Quando entramos na ala de celas da central e ficamos frente a frente com a cela dele, senti tanta vontade de chorar. Ele estava jogado no canto da cela, pior do que quando o vi a última vez. Nunca vi alguém tão morto e vivo ao mesmo tempo. Assim que ele ergue o rosto e me vê, sua expressão muda rapidamente. Ele se ergue depressa do chão e vem até nós, apenas a grade nos dividindo.

- Iara...?! O que está fazendo aqui? - Ele pergunta.

- Viemos conversar com você. Queremos saber algumas coisas. - Digo. Ele troca o olhar entre mim e Ren.

- Saber? Saber o que? - Ele parece confuso.

- Nós queremos te tirar daqui. - Sussurro. Ele arregala os olhos. - Mas precisamos da sua ajuda.

- O que?! Iara, não! Não se envolva nisso, por favor. Não quero que tenha mais problemas por minha causa. - Ele diz.

- Tarde demais. Eu cheguei até aqui. E eu vou te tirar desse lugar. - Digo, convicta.

- Mas Iara, eu te causei muitas dores de cabeça até agora. Eu não quero que achem que você está envolvida comigo. Porque isso pode acabar com a sua vida. Eu não quero isso pra você. - Jimin insiste.

- E eu não quero isso pra você. Não vai melhorar nada se você continuar aqui. - Respiro fundo. - Você não matou Thiago Wilson pra ficar preso de novo em outro lugar. Eu vou dar a liberdade que você quer. Não importando o que vai me custar. Essa é a minha escolha. E eu só desejo que você me conceda isso. Deixa eu ajudar você.

Digo, quase chorando. Minhas palavras mudam sua expressão por um momento, que parece afrouxar. Ele fica alguns segundos me olhando sem dizer nada.

- Quer que eu te conceda um desejo? - Ele pergunta em um tom estranho.

- Sim, Jimin. Por muito tempo você me deu dias felizes. Tudo o que eu quero...é te dar a liberdade que eu tive ao seu lado. - Digo, tocando seu rosto.

E assim que toco nele, o pai de Ren corta o contato e diz que acabou o tempo. Somos tiradas da ala de delas rapidamente, e o rosto suave e levemente sorridente e sem graça de Jimin é a última coisa que vejo antes de fecharem a porta.

Meus pais não queriam mais me ajudar a visitar Jimin. O pai de Ren também não. Aparentemente, o contato que tive com ele deixou os três incomodados. Eles tem medo do quanto estamos envolvidas com ele. Então o plano ficou pra trás rapidamente. Fiquei muito tempo pensando no que fazer, sem conseguir resultados.

Então, numa certa manhã, acordei estranhamente bem. Não estava com a fraqueza de sempre que tirava toda a minha capacidade de realizar qualquer tarefa simples. Acordei bem. Meus pais até estranharam. E eu também, claro. Depois de muito tempo isolada, tomando tantos remédios e vigiada, parecia estar bem ao menos uma vez. Então pedi aos meus pais pra ir na cidade comprar sementes de flores pro jardim. Eles hesitaram, mas acabaram concordando, já que eu parecia muito bem. Apenas pediram pra eu levar meus remédios, minha sombrinha e andar devagar. Apenas cuidados.

Estava feliz por poder sair sozinha. Fazia anos que eu não passava tanto tempo comigo mesma, o que era ótimo. O ar parecia leve e fresco. Não estava tão quente. E o céu estava limpo e super azul. O movimento na cidade não estava tão ruim. Tinha poucas pessoas na rua. Não estava agitado. O que era ótimo. Minha visita estava sendo tranquila.

Atravessando a rua avistei a central de polícia. Onde Jimin estava preso. Desvio o olhar. É como se as pessoas estivessem me observando. Fiquei com essa neurose desde o dia em que me tiraram lá. Não só meus pais e o pai da Ren, mas outras pessoas ao redor e outros presos observavam a gente. Fiquei com a sensação de estar sendo vigiada. Mas provavelmente era influência dos remédios, ou coisa assim.

Segui pela calçada passando ao lado da central. Passei ao lado de um beco. E então, alguém me agarrou e me puxou pro escuro. Minha sombrinha caiu. Minha bolsa também. Comecei a me sacudir e tentar gritar contra a mão que tampava minha boca. Estava entrando em desespero. A pessoa me puxa pro chão com ela.

- Iara, Iara! Sou eu! Se acalme! - Assim que ouço a voz, sou puxada pra longe da sensação de perigo e relaxo. Viro meu rosto e avisto o seu. Jimin, não sei como, estava fora da prisão. Ele sorri pra mim e eu começo a chorar.

- Jimin! - O abraço.

- Sshh...não fale meu nome alto. - Ele me abraça de volta e depois o solto. Olho pra ele, segurando seu rosto de novo, agora sem problemas. - Oi.

- Como?

- Então, eu quero te explicar. Mas não aqui. Estamos perto da delegacia. Eles ainda não sabem que eu fugi. Precisamos sair de perto antes deles notarem e aparecerem. Vem comigo? - Ele se levanta e estende a mão na minha direção.

A seguro sem hesitação, sorrindo.

Que dia bom. Como estou feliz.

Como fiquei feliz naquela época, de tê-lo visto depois de tanto sofrimento. Foi um bom breve momento que tive...antes de tudo se esvair entre meus dedos.

Lembro que fiquei com vergonha quando me levantei e ele me abraçou forte. Fiquei tão perto. Meu coração bateu tão forte. Seu sorriso clareava meu dia mesmo nas sombras do beco. E depois fiquei ainda mais em choque quando simplesmente desaparecemos do beco e surgimos no topo de um prédio. No teclado. Simplesmente saímos de um lugar escondido e fomos parar no topo da cidade.

- O que...? Como chegamos até aqui. - Pergunto, olhando a vista.

- Bem...é melhor se sentar. É uma pouco complicado. - Ele diz, e nos sentamos no chão mesmo.

E então, ele começou a falar. E a princípio, eu achei que ele estivesse brincando. Bem rapidamente, parecia loucura. Mas quanto mais eu pensava sobre isso, mais as coisas se encaixavam. Ele surgir do nada naquele dia. Meu tio ter ficado sem saber como agir, o que não era comum dele, o presente que ele me deu, e agora isso. Não foi tão difícil aceitar que ele era um ser mágico como um gênio da lâmpada depois de pensar em todas essas coisas. Foi um choque, mas não parecia tão impossível.

- Quer dizer que você pode conceder três desejos seguindo essas regras? - Pergunto.

- Sim. Mas apenas ao meu mestre. Aquele que me chamou, que me tirou da lâmpada. Mas agora...eu não tenho mais um...ao menos por enquanto. - Ele fala, parecendo triste. - Naquele dia, quando disse que só queria que eu te concedesse o desejo de me tirar daquele lugar e me dar a liberdade...eu quase achei que você sabia. Mas depois vi que era coincidência. E mais ainda, que eu precisava sair de lá, e voltar pra você. Eu queria...saber como seria...se eu pudesse ser livre e estar com você. Me entregar a liberdade da qual você falou. - Jimin agora sorri suavemente, olhando pra mim.

- Eu falei que queria te mostrar a liberdade...mas eu mesma não sei como ela é. Eu sou fraca, sabe? Meu corpo não aguenta muita coisa. Deve ter percebido durante esse tempo que me visitou. Fico presa em casa e sou vigiada e acompanhada o tempo todo. Hoje, especialmente, acordei estranhamente melhor. Então me deixaram sair. E é tão bom estar com você no dia que eu posso realmente ser livre. - Falo, sentindo o vento. - Se já me sentia livre antes com você ao meu lado, agora é como estar viva de verdade.

Olho pro Jimin novamente e vejo seu rosto vermelho. Ele parecia muito feliz e sem graça.

- Bom... - Ele volta a falar. -Talvez hoje seja um dia especial. O fim de um época e o início de outra. Pra nós dois. - Ele toca minha mão e a toma entre as suas. Sinto que ele se aproxima de mim, e meu rosto esquenta. Fecho meus olhos, sentindo ele perto do meu rosto. - Mas antes, tem algo que você precisa saber.

Abro meus olhos novamente, com as minhas expectativas um tanto quebradas e sorrio, sem graça. Pigarreio.

- Ehm...pode falar. - Sorrio, sem jeito.

- Acho que essa parte vai ser mais difícil de acreditar, mas...eu preciso que você saiba disso. Depois de tudo o que nós dois passamos e todo o tempo que esperei pra descobrir que o que fizemos deu certo e pra te achar, não posso esperar mais. Agora que você está aqui, só quero que você possa recuperar as suas memórias...e assim talvez possamos voltar a sermos o que éramos. - Fico muito confusa com tudo o que ele fala, e logo começo a me sentir um pouco de tontura. O que me deixa um tanto preocupada. Por favor, diz que não está voltando isso. Olho ao redor. Minha bolsa e sombrinha ficaram no beco. Preciso dos meus remédios. Se isso piorar, preciso deles. - Iara? Tudo bem?

- É...acho que sim... - Tento fingir que está tudo bem e sorrio. - Pode falar.

- ...certo. Então, você...acredita em vidas passadas? Em termos sido alguém antes da vida que temos agora? - Ele pergunta. Minha tontura persistindo e sendo acompanhada por uma leve dor de cabeça.

- Eu...já conversei sobre isso com algumas pessoas. Acho bastante plausível. Não diria que levo a vida baseada nessa crença, mas eu acredito que sim. - Respondo. Ele sorri.

- E se...eu te dissesse...que eu, por ter uma vida eterna como gênio da lâmpada...conheci sua vida anterior...? E que...nós éramos próximos? - Hesitante, ele vai adiante. Minha dor de cabeça piora e meu coração estranhamente começa a bater mais rápido.

- O que...quer dizer? - Pergunto, respirando fundo, tentando acalmar meu coração e disfarçar o máximo possível. Jimin parece estranhar um pouco, mas continua.

- Iara, eu...eu e você nos conhecíamos na vida passada. Me lembro de você. Me lembro do seu antigo eu, Jasmin, cada detalhe seu. Da sua vida. E de como foi tirada de mim. E de como doeu. De como fizemos pra garantir que eu poderia te ver de novo. E então...então você... - Aqui Jimin parou de falar. Parou porque eu simplesmente tombei pro lado. Meu corpo ficou muito fraco de repente, e eu estava perdendo a consciência. - IARA!! IARA, NÃO!! NÃO DE NOVO! Não levem ela de mim, por favor!!

E eu apaguei. Fui e nunca mais voltei. Lembro de ter ficado apenas mais alguns segundos ouvindo Jimin chamar meu nome e implorar pra que o "amor da sua vida" não fosse levado dele "pela segunda vez". E então, antes de morrer pensei...se eu realmente pude conhecer ele uma segunda vez...espero que eu possa conhecê-lo uma terceira. Em um corpo mais forte. Quando ele não for um escravo de um homem como Wilson. Em situações melhores. E quando um dia bom puder ser mais do que apenas uma despedida.

E então foi assim que, aos dezoito anos, eu morri. Perdi minha segunda vida. Como Iara.

Minha vida seguinte foi uma que me faz perceber o quanto Jimin sofreu nesse meio tempo. Se apaixonando por alguém mortal e depois vendo essa pessoa passar por muitos momentos difíceis e até a morte antes da hora. Imagino que não seja algo fácil. Menos saindo sendo imortal e vendo isso pela segunda vez, depois da ligação que selamos entre nós dois quando eu ainda era Jasmin. Isso se espelhou na minha vida seguinte. Não sei como aconteceu, como ele fez isso, mas Jimin fez parte da minha vida seguinte inteira. Como Olívia.

Em comparação a vida anterior, minha vida como Olívia foi uma vida excelente. E eu devo boa parte disso a ele. Desde que eu nasci até meu último suspiro, ele estava lá. Não sei como me encontrou, mas sei que passou todo o tempo ao meu lado.

Nasci em uma família grande no interior dessa vez. Uma casa grande na floresta, com três irmãs e dois irmãos. Eu era a mais velha. Éramos todos pessoas simples, mas bastante agitadas. Ainda mais com uma família desse tamanho. Éramos seis filhos de um casal que vivia com os pais de ambos os lados ainda vivos e o sétimo filho na barriga. Ou seja, em breve seríamos treze pessoas. Aliás, quatorze, já que Jimin era o nosso mordomo.

É engraçado pensar que logo na minha vida anterior eu tinha um mordomo, e agora na vida seguinte, ele está ocupando o mesmo cargo, servindo a minha família. E cuidando muito de mim, como sempre.

Sempre fomos especialmente mais próximos, já que fui a primeira filha da família, e ele cuidou de mim o tempo todo. Acabamos tendo mais tempo pra desenvolver amizade. E somos muito próximos. Pensando agora, deve ter sido uma vida muito feliz pra ele também, já que foi uma vida longa e tranquila. Isso em partes, já que, apesar de estarmos sempre juntos e falarmos sobre tudo, Jimin nunca me contou sobre seus poderes e sobre ser um gênio da lâmpada. Lembro da sua lâmpada estar lá. E lembro de suspeitar de muitas coisas que vi sem querer aqui e ali, como ele lavando pilhas de louça de forma estranhamente rápida e alguns pratos flutuando, mas ele nunca de fato me disse nada. Acho que depois do que aconteceu na minha vida anterior, Jimin achou que era melhor manter em segredo. Então, acho que no fim ele deve ter sentido muita dor mantendo tudo em segredo. Porém, ele provavelmente só queria paz depois de ter conhecido Iara. Nesse sentido, quando fui Olívia, Jimin deve ter sido muito feliz.

Lembro de estar deitada na minha cama, com 87 anos de idade. Jimin estava ao meu lado, como sempre. Seus olhos pareciam caídos de tanto chorar. Ele estava triste, é claro. Os médicos disseram que eu provavelmente não passaria dessa madrugada. Mas tive uma vida muito longa e boa. Resisti muito bem. Então estávamos apenas tentando lidar com os fatos e os limites naturais.

Com muitos pensamentos escapando da cabeça idosa, esbranquiçada e cansada que eu tinha, pego um deles no ar. Havia algo do que eu queria falar e não podia ir embora sem fazer isso.

- Park Jimin. - O chamo pelo nome e sobrenome que adotou como nosso mordomo. Ele me olha na hora. - Tem uma conversinha que ainda precisamos ter.

- Pode falar, senhora Olívia. O que quiser. - Ele diz, soluçando. - Sobre o que é?

- Quando eu for, continue cuidando dessa família. Deixarei a lâmpada como herança, e uma carta pra ser passada de geração em geração. Pra garantir que todos cuidem bem da sua casa. - Conforme falava, seus olhos se arregalam, surpreso. - Esse é meu último desejo, meu gênio.

- Mas...como...? Como a senhora sabe? - Jimin gagueja, se perdendo enquanto vasculha memórias de onde ele errou no seu disfarce.

- Eu conheço suas razões, querido...mas não preciso saber. Você foi um bom garoto durante todo esse tempo. Trabalhou muito, meu eterno jovem. Eu sou muito, muito grata pela sua companhia e devoção. Minha gratidão é tão eterna quanto você. Eu só espero que as feridas por trás do seu sorriso possam ser curadas. Perdão por não ter ajudado nisso. - Digo, com algumas lágrimas descendo pelo meu rosto agora.

- Não, não! Senhora Olívia, a senhora foi tudo na minha vida. - Sua voz perde a clareza cada vez mais no meio dos seus soluços e do seu choro. - Toda a felicidade que eu poderia ter, eu tive ao eu lado. Tudo o que eu queria era ver você finalmente bem e segura. Era tudo...tudo o que eu mais queria...não te fazer sofrer...

Não entendi na época o que ele quis dizer com "me ver finalmente bem", mas agora entendo. E mesmo não entendendo antes, sabia que ele era um garoto dedicado. Sabia que ele me amava. E sabia que faria tudo pra me ver bem. Da mesma forma que eu faria o mesmo. E ele sabia que eu faria. Por isso chorava, pensando em como seríamos separados agora. Mas foi bom finalmente poder ser franca com ele sobre isso. E ter certeza sobre seu segredo.

- Park Jimin...você acredita em reencarnação? - Pergunto, e ele parece ainda mais chocado do que antes, tropeçando no seu próprio choro cada vez mais. - Bom, eu acredito. E eu espero que na próxima vida nos encontremos de novo e...e eu possa descobrir sobre você e fazer tanto por você quanto você fez nessa vida. Quero ser seu raio de sol e fazer você sentir o calor com a brisa do vendo da mesma forma que eu senti com você. Quero ser...sua...brisa de verão...meu amado Jimin...

Foram minhas últimas palavras. Meus desejos pra próxima vida foram as últimas palavras que eu proferi, dando adeus a uma vida boa e tranquila. Onde nasci ao seu lado, você me viu dar meus primeiros passos, falar minhas primeiras palavras, aprender a ler e andar de bicicleta, brincar e brigar com meus irmãos e irmãs mais novos, fazer amigos, estudar, amadurecer, dar meu primeiro beijo...tudo ao seu lado. Até meus último suspiro. Você estava lá. Foi uma vida calorosa. Olívia foi uma vida especial.

E é aí que eu te digo: Suas vidas passadas influenciam muito na próximo vida. Principalmente as próximas uma da outra. Se eu não tinha certeza quando fiz Jimin sofrer como Jasmin e depois paguei na vida seguinte como Iara, vivendo apenas 1 anos, pra depois ter a paz e a vida longa que tive como Olívia, agora não há dúvidas. Minha vida seguinte, como Elly, foi absolutamente o que eu desejei em leito de morte. Foi como se Jimin tivesse me concedido o meu desejo precioso de poder fazer por ele o que ele fez por mim quando fui Olívia.

Diferente da vida anterior, Elly foi uma vida agitada. De qualquer forma, apesar de ter um família agitada, nada se compara a vida que levei como Elly. Desde de que nasci, eu era bastante desenvolvida. Nasci de olhos abertos e cheia de cabelo, ligada nos 220 até não aguentar mais e dormir. Essa fui eu como Elly a infância toda. Na verdade, não mudou muito quando cresci, mas eu certamente fui amadurecendo.

Ainda jovem entrei pra esgrima e logo fui o destaque da turma. E foi lá que vi Jimin pela primeira vez nessa vida. Ele era um aluno tímido, que errada muitas coisinhas bobas. E em um certo dia de treino, com um mês nos separando de uma competição importante, nosso treinador nos colocou em duplas para duelarmos e apontarmos onde poderíamos melhorar. E foi quando lutei contra Jimin. E como ele era desengonçado.

Devo admitir que eu também não era muito fácil. Depois de ser pessoas como Iara e Olívia, todas mais calmas, estar no corpo de Elly era como ter o pique de Jasmin de novo. Agora tendo acesso a todas essas memórias, é nostálgico falar sobre meus dias como Elly. E impossível evitar lembrar de mim como Jasmin, batendo carteiras. Não que seja algo positivo, mas...era bem trabalhoso. Exigia energia e jeito. E é algo que eu definitivamente tive na esgrima. E era algo que Jimin não conseguia acompanhar.

- Levanta. Vamos de novo. - Digo, gesticulando com a espada pra ele levantar do chão, depois de ser acertado novamente e ainda tropeçar e cair.

- Você é muito boa. Acho que só de ter você no time, podemos vencer. - Ele diz, rindo e vermelho.

- Não conte comigo. Temos muitas pessoas competentes de outros cursos. Não se apoie em mim todo o tempo. - Digo, bebendo um pouco de água.

- Não, é claro. Eu...acho que eu só... - Ele parece hesitar. Algo que queria dizer estava preso na garganta.

- Você só...?

- Eu admiro você. - Ele diz, olhando pra baixo. - Eu te acho incrível. Às vezes sinto que só continuo fazendo as aulas pra ver você praticando. É bonito.

Fico sem resposta por alguns segundos.

Ele é fofo, devo admitir. A sinceridade dele é algo que merece reconhecimento.

- Bom, é...obrigada, eu acho. - Digo, não conseguindo disfarçar muito bem e deixando claro que estava sem graça. Ele sorri ao me ver assim. - Mas não espere que eu pegue leve com você por isso!

- De forma alguma. - Ele finalmente se levanta do chão e abre os braços. - Pode vir com tudo que tiver. Acaba comigo se for necessário. Mostra como se faz.

Fico olhando pra ele, que me encara com cara de bobo alegre. Hoje em dia, pensando comigo mesma, a calma da vida anterior deve ter deixado ele assim, todo bobão quando me conheceu como Elly. Além de que nossa, até eu, como alguém de fora, ficaria meio lerda perto de alguém assim. Eu esbanjava coragem, energia e determinação. Qualquer um ia parecer besta perto de alguém intenso assim.

Mas, todo mundo tem um ponto mole, e o meu definitivamente era ele. Ser admirada por alguém ao inocentemente e puramente como ele fazia era bom pra alma. Todos me elogiavam por eu ser competente e tal, mas a forma dele de demonstrar era diferente. Ele era fofo e sincero. Parecia legitimamente devoto ao sentimento de admiração. Não tinha filtro. E isso era definitivamente o que me matava por dentro.

Com o tempo, ficamos amigos. Ele era alguém legal de ter por perto. Ele parecia estar feliz sempre. Era super descontraído e apenas fazia bem pra alma, ok? Passamos a sair muito pra lugares diferentes, e certa noite, quando ele me deixou em casa, perguntei se ele queria subir. E ele ficou visivelmente sem graça.

- Ah...está me chamando pra entrar na sua casa? Tem certeza? É seu espaço privado, eu não quero ser invasivo nem nada... - Enquanto ele fala, suspiro e abro espaço pra ele passar, ficando parada encostada na porta. Aponto com a cabeça pra dentro, e ele sorri.

Então nós dois subimos pelo elevador do condomínio e depois de destrancar a porta nos tiramos os calçados e eu cumprimento meus pais e minha avó.

- Boa noite!! - Digo, e Jimin logo dá o seu boa noite todo envergonhado.

- Ah, olá, filha. Boa noite! - Minha mãe diz e meu pai acena.

- Elly trouxe um menino pra casa hoje! Finalmente vamos conhecer seu namorado?? - Minha vovó fala com sua doce voz envelhecida. Eu sorrio.

- Não tenho namorado, vovó. E se falar assim, vai deixar ele sem graça. - Digo, indo dar um beijo nela.

- Mais? O menino já está vermelho como um tomate. Se ele ficar mais vermelho, vamos ter que chamar a ambulância. - Meu pai diz e se levanta pra falar com Jimin. - Boa noite, rapaz. Tudo bem?

- Ah...sim, senhor. Tudo bem... - Com a voz travada e ainda tentando tirar seu tênis, ele aperta a mão do meu pai.

- Querem que eu faça um lanche? - Minha mãe pergunta.

- Não sei...depende de quanto tempo ele vai ficar... - Digo, olhando pro Jimin em busca de respostas. Mas assim que ele abre a boca pra responder, provavelmente dizendo que não quer incomodar, minha avó é mais rápida e fala antes.

- Não, não, ele fica. Nós vamos agora fazer um lanche pra vocês dois. Vamos. - Ela pega minha mão pelo pulso e a arrasta pra cozinha. - E você também. Vamos vagar a sala e arrumar algo pra eles lancharem. Devem estar cansados e com fome. - Ela puxa meu pai pra cozinha também e então eu e Jimin sobramos.

- Isso...foi rápido. - Ele diz.

- Minha avó é bastante intensa pra idade dela. Mas não duvide da hospitalidade dela. Seu coração é bom e ela faz tudo pelos outros. - Digo, me sentando no sofá. - Fica a vontade. Pode se sentar. Quer assistir alguma coisa?

- Bom...eu não sei... - Ele diz, lentamente se aproximando, parecendo desconfortável. - Você pode escolher se quiser.

- Park Jimin. - Chamo ele pelo nome todo como faço quando vou chamar atenção nele no treino e ele enrijece o corpo.

- Sim...?

- Não está sendo firme. Isso é algo que afeta seu desempenho no duelo e pelo visto na vida também. Vamos lá, articule, gesticule. Seja claro. - Sorrio, desafiando ele. - O que você quer assistir?

- ...anime.

Assim que ele responde, um silêncio paira no ar. Ele parece incerto da resposta que deu, e então eu começo a rir.

- Anime? Você é weeb? - Pergunto.

- Eu não diria weeb. Eu diria...apreciador. - Ele diz, com um leve sorriso.

- Se você não fosse weeb, você não conhecia esse termo, Jimin. Ao não ser que tenha dado muito azar. - Digo, acalmando o riso.

- Ah, não me zoa...só coloca aí. - Ele diz, se sentando ao meu lado.

- Então tudo bem. Vou colocar o meu favorito então. Se quiser trocar me avisa. - Pego o controle pra colocar na televisão.

- Então você também gosta e me zoou mesmo assim?

- Faz parte. - Digo. - Aqui. Fullmetal. Já viu? - Pergunto.

- Fullmetal Alchemist?? É um dos que eu mais gosto. É muito bom. Pode colocar. - E então Jimin parece finalmente mais confortável.

Depois de algum tempo assistindo, minha família traz algumas coisas pra gente comer. Tinha refrigerante, pipoca doce e salgada, nuggets e batata frita. Tudo muito bom pro corpo de um atleta, claro. Mas tudo bem por essa noite.

Ficamos bastante tempo vendo anime. Passamos um tempo divertido juntos. Fazia tempo que não assistia isso com alguém. E ele se mostrou uma ótima companhia pra isso. Claro que ele também teria essa qualidade.

Depois de algum tempo, um episódio acabou e fui perguntar se ele queria parar de ver, e quando olhei pra ele, vi que estava dormindo. Sorrio. Não aguentou. Na verdade, tivemos um treino pesado hoje e ainda saímos depois, então é compreensível.

Peguei o celular e vi que já era tarde. Ia dar uma da manhã. Perdemos o horário. E fiquei na dúvida do que fazer. Então fui até mamãe.

- Com licença, mãe? - Abro a porta do quarto dos meus pais e vejo eles ainda acordados. - Perdemos o horário e Jimin adormeceu. Não sei o que fazer.

- Ah, filha, puxa a extensão do sofá pra virar cama e pega um cobertor seu. Deixa ele descansar, tadinho. Não faz mal. - Ela diz.

- Ah, tudo bem então. - E então volto pra sala e tento arrumar o sofá com cuidado. Se eu puxar a parte de baixo com cuidado, ela vem pra frente e a que estava em cima dela vai descer o nível que ela estava antes. Assim ele vira uma cama. Se o Jimin não acordar... - Pronto. Que bom que ele tem um sono pesado.

Vou no quarto e pego um cobertor pra ele. O cubro e desligo tudo. E logo vou dormir também.

Inesquecível como ele acordou assustado no dia seguinte no meio da minha família tomando café da manhã juntos na frente dele. Jimin ficou uns dez minutos pedindo desculpas e dizendo que já ia embora, mas minha avó insistiu que ele ficasse pro café da manhã. Eventualmente ele cedeu.

E claro, ela queria que ele voltasse mais vezes.
E sinceramente, eu também queria.

Depois que ele foi embora, fui pro meu quarto. Assim que entrei, meus olhos foram diretamente na minha mesa de estudos, onde estava meu diário especial. Isso porque eu não usava ele pra anotar meus dias normalmente. Eu registrava uma coisa mais específica nele.

Na verdade, eu sonho com o Jimin faz algum tempo. Desde antes de começar a falar com ele. Desde antes de...conhecer ele. Achava no início que era uma coisa boba. Achava que era algum garoto aleatório que minha mente inventou, como algum estereótipo de garoto que é atraente pra mim que meu cérebro criou inconscientemente. Mas quando ele apareceu pela primeira vez nas aulas de esgrima, eu...fiquei chocada. Tanto que lembro de ter ficado até tonta. Foi muito esquisito. Fiquei afastada dele por um tempo porque era tão real que chegava a ser irreal. Parecia errado ele estar ali de verdade. Os sonhos persistem e acontecem de vez em quando. E anoto todos eles naquele caderno. Perdi os primeiros, mas quando ele começou a aparecer sempre, passei a registrar. E agora tem mais de 50 sonhos ali. Ainda é estranho sonhar com ele, mas ao menos agora eu o conheço e falo com ele. Somos amigos.

Estar no corpo da Elly, quando eu era ela, era como sonhar com o futuro. Ou melhor...era sonhar com o futuro. O que me surpreendia mais do que me assustava. Com o tempo eu percebi que realmente estava sonhando com o futuro conforme eu ia em lugares com Jimin e vivia exatamente as experiências dos meus sonhos. E até que eu estava bem com isso. Era estranho, mas não era ruim. Mas claro que não ia falar sobre isso. Era demais. Então só deixei levar. Até o dia em que...sonhei com a minha morte. Jimin estava lá. E foi tão real e assustador. Lembro de ter acordado no meio da madrugada tremendo. E com o coração acelerado. Parecia que eu ia ter um ataque cardíaco. Levantei da cama pra beber uma água e respirar um ar puro na varanda do apartamento, e depois me sentei pra escrever. Anotar os detalhes me fazia tremer a mão ao escrever, mas eventualmente estava lá. Escrito.

Não falei com Jimin sobre o sonho. Sempre pensei que ele nem acreditaria e só diria que isso era assustador e depois perguntaria se eu estou bem. Ou algo assim. Bom, engraçado, sabendo quem ele realmente é agora me faz pensar que ele teria reagido de forma completamente diferente. Mas não adianta lamentar. O que aconteceu, aconteceu.

Teve que ser assim, não é?
Ao menos quis acreditar nisso até o final.

No fim, virei um pato assustado. Tentava falsificar a coragem o tempo todo, pra manter meu comportamento comum de sempre, mas vi que Jimin estava incomodado e sabia que eu estava escondendo nada. Eu sentia que a qualquer momento, eu ia morrer. Não sabia quando os sonhos viravam realidade. Era aleatório. E eu tinha medo de quando seria. Questionava se realmente ia. Mas parte minha tinha certeza que ia, e ficava pensando que eu faria? Ia evitar? Porque não me parecia uma boa ideia. Se fizéssemos isso...ia terminar mal de qualquer forma. Nenhuma decisão era boa.

Foi quando aconteceu. Sem mais nem menos. Eu baixei a guarda. Depois de muito desespero, Jimin me levou pra tomar um suco em uma lanchonete. Disse que eu não precisava contar o que era se eu não quisesse, mas que eu claramente estava tensa demais e precisava dar uma pausa. Simplesmente saímos do treino na esgrima e fomos beber um suco de maracujá.

- Termina de beber, respira, tenta relaxar. - Ele em olhava com aqueles olhos preocupados e fofos. Sua expressão era um pouco triste. Como se meu mal estar fosse a pior coisa no mundo pra ele. O que só me deixa mais tensa com tudo isso.

- Precisamos voltar pra aula, Jimin. Ela vai começar em breve. Não podemos ficar aqui. - Me levanto da cadeira e levo o suco comigo. Jimin fica pra trás por um segundo, talvez pagando o suco, e depois vem atrás de mim. Ele me chama, mas eu não respondo. Eu atravesso a rua, hesitante e olhando pros lados. Com medo. Chego até o outro lado e respiro fundo. Está tudo bem...não está? E então, Jimin me chama de novo. E eu olho pra trás. E quando olho, meu corpo fica gelado como o inverno. Está acontecendo. Um carro indo na direção do Jimin. Rápido. Ele estava me olhando, vindo cegamente na minha direção. Era o meu sonho.

Jimin ia ser atropelado e de repente tudo parece ficar em câmera lenta. O que eu faço? Deixo ele morrer? O que está acontecendo? Por que isso está acontecendo? Por que ele? Ele que tem sido uma pessoa tão atenciosa e amiga. Por que isso e por que assim? E o que eu deveria fazer? Assistir ele morrer?

Não.

Não vou assistir ninguém morrer sem poder fazer nada. Não pela segunda vez.

E então, eu corro na sua direção. E empurro ele com toda força pra longe da frente do carro, e eu sou atingida no seu lugar. A dor é grande, e por alguns segundos eu ainda estou acordada. Mas não adianta. Em pouco tempo, eu morro. Com 23 anos de idade, Elly morre. Minha quarta vida morre. E tudo o que eu tive do Jimin antes de fechar os olhos foi Jimin gritando meu nome. E então tudo ficou escuro.

Foram tantas experiências estranhas e dolorosas, que é estranho pensar no quanto esquecemos tudo fácil quando morremos. Nossa memória é apagada e nossa alma vai para um novo corpo. Ganha um novo nome. E tudo começa do zero. E você não sabe o que vai acontecer. Com exceção dessa última vez, que eu literalmente vi minha morte antes de acontecer. A única coisa que nunca mudou, foi ele. Ele sempre esteve lá. Levemente diferente da vez anterior, mas sempre lá pra mim. Tentando fazer dar certo.

Bem, como Elly eu não tive tempo de ter exatamente uma vida boa ao lado do Jimin como tive como Olívia e ainda poder ser pra ele o que ele foi pra mim, mas acho que é uma troca, não é? Acho que seria pedir muito. Tive o que pude ter. E definitivamente o protegi como pude. Fui uma figura forte até não poder mais. Elly fez o que pode.

E então veio a minha quinta vida. Kailin. Bem, como posso descrever essa vida? Eu era uma garota animada, sem dúvidas, mas bastante descrente. Não que seja exatamente algo ruim, mas bem...diferente do que tinha sido até agora. Eu não acreditava em reencarnação, nem destino, nem amor verdadeiro, nem nada do tipo. E contei tudo isso ao Jimin, quando o conheci nessa vida. Ele chegou a me perguntar algo do tipo: "Se eu falasse que eu tenho milhões de anos de idade e nós dois nos conhecemos a muito tempo da vidas passadas, o que você acharia?", e lembro de ter dito claramente que não acreditaria, mas acharia estranho. E que, independente do que, acharia uma excelente ideia pra um livro ou algo assim. "Romântico e tráfico", foi o que eu disse. E que algo assim seria um drama, provavelmente, com alguns momentos de felicidade. E é o que tem sido durante todo esse tempo desacordada, relembrando minhas vidas passadas, não é? Um romance dramático e trágico. Certamente.

Como Kailin, tudo o que eu queria era viver a melhor vida possível. Acreditava que só tínhamos essa vida. E que nossas escolhas fechavam alguns caminhos e abriam outro. Por ação nossa. Que nós fazíamos nossa vida do zero, sem nada predestinado ou nas antigas encarnações. Tudo era único e espontâneo. O que não deixa de ser uma crença e uma bem bonita.

Lembro que conheci Jimin em um orfanato, quando fui com meus pais buscar meu novo irmãozinho. Ninguém no lugar parecia notar a presença do Jimin, com exceção das crianças. É como se ele fosse uma alma ou algo assim. Ou talvez ele só seja outro cuidador. Ele estava com meu irmão antes de irmos falar com eles. Vi eles dois ao longe. E me aproximei enquanto meus pais falavam com a dona do orfanato. Foi como conheci ele. De forma estranha. Mas foi assim. E de certa forma, era fofo ver ele com as crianças.

Ele parecia uma pessoa sofrida, mas muito doce. Algo no rosto dele era dramático demais, mas ele nunca falava sobre, até aquela pergunta aleatória sobre reencarnação. Quando ele me perguntou isso, já faziam meses que tinha conhecido ele. E eu lembro que gostava dele. Outra das coisas que respondi foi relacionada a isso. Disse que não me importava se eu não acreditava em algo que era real, como termos nos conhecido. Porque o que importava era o agora. E que se eu fosse decidir agora pro futuro, que eu decidiria continuar falando com ele. Que ele era uma pessoa que me ouvia falar sobre as minhas crenças e descrenças e que isso me deixava feliz. E era verdade.

Kailin não foi diferente das outras vidas. Com exceção de Olívia, em todas as vidas eu tive algum tipo de contato com a verdade. E foi o que me matou, de certa forma. Eventualmente, a realidade do Jimin me atingiu. Descobri que ele era um gênio, mas foi de uma forma ruim.

Estávamos em um parque conversando, como sempre. Mas o que estava fora do normal naquele dia era Jimin. Ele parecia tenso e olhava ao redor a todo o tempo. Como se temesse algo. Ou alguém.

- Tudo bem? Você parece tenso. - Perguntei. Jimin volta o olhar pra mim, disfarçando muito mal.

- Sim. Só estou distraído. - É o que ele diz.

- Tem certeza? Você está olhando ao redor como se estivéssemos sendo observados. Está me assustando. Tudo bem mesmo? - Insisto.

- Deixe pra lá. Você...quer andar? Estou um pouco entediado só sentado aqui. - Ele diz, então levantamos do banco onde estávamos e vamos andar por aí.

Ainda suspeitei de como ele estava agindo, mas não podia fazer nada se ele não queria falar. Então continuei normalmente.

Até que eu puxei ele pra um canto, perto de algumas árvores. Havia algo estranho sim.

- Kailin? O que foi? - Ele pergunta, e olha ao redor quando eu olho também.

- Ssshhh...estou ouvindo alguém andando perto da gente faz alguns minutos mas não vejo ninguém. Acho que estão seguindo a gente. - E quando digo isso, Jimin segura meu braço. - O que foi?

- Ele quer que você fale mais baixo pra continuarem quebrando as regras como tem feito por anos. - Ouço uma voz desconhecida falando de forma alta e abrupta. Olho mais à frente, entre duas árvores, onde não tinha ninguém a segundos atrás, e vejo um homem que usava roupas estranhas.

Meu grau do óculos estava errado e eu ainda não tinha trocado, então a essa distância não consigo ver seu rosto direito. E antes que eu possa falar ou fazer qualquer coisa, Jimin me puxa pros seus braços e esconde meu rosto no seu pescoço.

- Jimin?! O que está fazendo?? - Digo, tentando me soltar. - Não é hora disso. Tem alguém seguindo a gente. Precisamos sair daqui...

- Não adianta tentar proteger ela agora, Jimin. Eu estou aqui. Não tem saída. É melhor me dar a alma dela pra consertar o erro. Chega. - A voz masculina continua falando, mas Jimin não se move e só continua me segurando forte contra ele.

Alma? Erro? Do que ele estava falando?
Fiquei me perguntando isso todo tempo. E senti que a resposta estava logo aqui, porque Jimin parecia saber exatamente do que se tratava.

- Se não me entregar ela por bem...eu vou apenas pegar. - E assim que ele termina frase em um tom mais bruto, sinto uma dor no peito muito forte.

- Kailin! - Jimin finalmente fala algo. - Não!! Deixa ela em paz. Me deixa em paz.

- Calado! Você não deveria ter feito tudo isso pra início de conversa! Toda a cadeia de almas que você criou por se apaixonar por uma mortal não deveria existir! Eu estou tentando resolver o problema que você começou por não seguir as regras! - Ele diz, e quanto mais ele fala, mais intensa a dor fica. Chego a sentir falta de ar. Não conseguia inspirar.

- Ji...min... - Aperto o tecido da sua camisa entre meus dedos. Jimin me aperta contra ele.

- Não consigo me mexer. - Jimin diz. E não sei o que quer dizer. Estou confusa e sentindo dor.

- Nem tente, Jimin. Só me entregue a mortal. - O homem diz.

Não sei quanto tempo aguento. Quase não consigo puxar qualquer ar. E meu coração parece que vai explodir a qualquer momento. Começo a chorar de desespero e olho para Jimin, que também chorava.

- Jimin...eu não sei...o que é isso, mas...só faça...parar...por favor. Faça...parar. - Imploro, quase desmaiando.

- Se você só me entregar ela, Jimin, isso tudo acaba. Vai ser melhor pra ela. Vamos, só obedeça seu mestre. Chega de bagunça. - O homem continua.

- Você não é meu mestre! Ela é! E não vai levá-la de mim!! - Jimin grita, e é a última coisa que eu escuto, antes de cair na escuridão.

Kailin é a maior incógnita de todas as minhas mortes. Alguém que se dizia mestre do Jimin apareceu e queria levar minha alma. Acho que tentou levá-la, mas Jimin não estava deixando. Porém, no processo, meu corpo não aguentou as forças que estavam sendo usadas contra ele, e eu morri. Foi uma morte patética, de certa forma.

Mas, agora que lembro de tudo, uma coisa é certa, preciso conversar com Jimin sobre tudo isso. Mas pra isso, preciso acordar desse sono. Preciso sair desse escuro e encontrá-lo. Tem muitas coisas em questão que estão pendentes entre nós. E todas essas vidas dentro de mim tem muitos assuntos pendentes com esse gênio da lâmpada.

Agora eu sei quem fui.
E sobrevivi a descoberta.

...

8971 palavras de historia. Uau.
Desculpem os erros. Muito grande.

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