21 ⌘ 𝕾𝖊𝖓𝖙𝖎𝖒𝖊𝖓𝖙𝖔𝖘 𝖈𝖔𝖓𝖋𝖚𝖘𝖔𝖘 ⌘
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"Eu prometi te proteger e vou cumprir minha promessa." (Sam – O senhor dos Aneis) – J.R.R. Tolkien
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No dia seguinte, eles saíram da vila élfica em silêncio. Conway e Adele não se falaram desde o ocorrido na noite anterior. Ela imagina o quanto ele estava zangado com ela e aquilo apertava seu coração, ela queria ser forte apenas para deixar daquele jeito, era o melhor a se fazer, mas vê-lo daquela maneira a angustiava de tal maneira, que ela não pôde deixar de ao menos tentar falar com ele.
— Você está bem?
— Estou — ele respondeu de maneira fria e seca fazendo-a se encolher um pouco.
— Eu sinto muito sobre ontem — ela abaixou um pouco a cabeça.
— Por quê?
— Por ter fugido daquela maneira e fiz isso depois de você ter sido gentil comigo... Então, eu sinto muito.
— Eu não estou particularmente incomodado por isso — ele respondeu novamente de maneira fria.
— Então por que...?
— Isso não lhe diz respeito — ele tentou se afastar dela.
— Mas isso me diz respeito — ela o segurou — Caramba, eu me importo com isso, você é meu amigo!
— Amigo...
— Eu não sou uma amiga para você? — ela perguntou, apesar de saber a resposta.
Depois de uma longa pausa, onde ele parecia lutar internamente, ele balançou a cabeça.
— Eu não acho que você seja minha amiga — a resposta dele atravessou o coração dela, mas ela mal sabia o quanto aquilo também o machucava — Apenas me deixe em paz.
— Mas... — ela falou parecendo acabada e ele deu passos largos para longe dela — Conway...
Ela queria impedi-lo de ir embora, mas ela não tinha ideia do que dizer e além disso, ela não conseguia tirar as palavras da feérica de sua cabeça... "é inútil se envolver com uma garota humana...", mas não era só isso, era o aviso de Conn logo no começo daquela jornada, o pedido de Declan para que ela não fizesse Conway sofrer, a raiva e cautela de Neil... ela estava confusa e toda vez que ela se lembrava de tudo aquilo, seu coração latejava de dor.
— É isso — ela falou em voz baixa em sua própria língua enquanto colocava as duas mãos no rosto — eu estou apaixonada por ele e a verdade é que eu não quero deixá-lo, mesmo sabendo que eu tenho que ir embora.
— Adie — ela virou surpresa para a repentina voz de Conn atrás dela — alguma coisa está te incomodando? Aconteceu algo entre você e o Conway?
— Conn...
— Você sabe que estou aqui para te ouvir. Algo está errado?
— Eu não quero ir embora — ela falou sem pensar — nem sei se existe essa opção para mim, mas eu não quero ir... mesmo assim, eu também não poderia optar por ficar aqui, não poderia deixar a minha irmã... eu estou apaixonada por ele, Conn — ela admitiu facilmente — me dói vê-lo dessa maneira e eu simplesmente não sei o que fazer.
— Infelizmente essa é uma decisão que eu não posso tomar por você — ele suspirou — mas se você precisar, posso continuar te ajudando com a sua dor...
— Não se preocupe — ela sorriu de maneira triste — acho que preciso aprender a lidar com isso por mim mesma. Desculpe te preocupar.
— Ei — Neil chegou com seus olhos atentos — nós não temos tempo para gastar com conversinhas.
Conn colocou atenção a sua volta, posicionou seu arco e puxou uma flecha enquanto estreitava os olhos nas lacunas das árvores.
— Qual o problema? — Adele perguntou recuando um passo.
— São goblins — Neil respondeu — eles nos cercaram.
— Quando isso aconteceu? — ela tremeu, nem sabia muito bem o que esperar.
— Aconteceu enquanto você estava ocupada com conversas inúteis — Neil disse também já preparado — são alvos pequenos, se eles se aproximarem, atacaremos corpo a corpo — Adele — Neil entregou uma espada pequena nas mãos dela fazendo-a arregalar os olhos — se eles estiverem caídos, elimine-os.
Ela não conseguiu responder... ela teria que matar?
— Onde está o Conway? — ela perguntou sentindo um leve enjoo tomar conta do seu estômago e ela acabou encontrando-o quando ele puxou seu arco em cima de uma das árvores.
— Conway é sempre o ataque surpresa. Isso nos dá vantagens — Conn explicou em voz baixa — Certo, agora Neil.
Ao som do comando de Conn, flechas cortaram o ar. Os goblins gritaram e caíram um por um, mas havia demais para serem atingidos somente pelos dois.
— Droga — Neil gritou — há muitos deles.
Ele praguejou enquanto Conway atingia os goblins restantes com suas flechas. Ele era rápido, se movia entre as árvores de maneira ágil, assim os goblins não sabiam de onde sairia o próximo ataque, eles teriam que escolher: ou se preocupavam com os dois a sua frente, ou com o ataque oculto logo atrás.
Conn finalmente puxou sua espada. Os pequenos goblins não eram páreos para os ataques certeiros de Conn. Adele não podia evitar sentir pena daqueles pequenos.
— Adele, não fique aí parada — Neil gritou.
— Mate-os Adele, não deixe eles escaparem — Conn falou por cima do som da luta também.
Havia um goblin na sua frente, ferido, caído e completamente indefeso. "Mate-o", era o que estavam pedindo. Ela apertou a empunhadura da espada de um jeito desengonçado e se aproximou de maneira relutante. Seu corpo tremia, sua mão estava suada e sua visão hora ou outra ficava mais escura.
E assim que Adie atravessou o goblin que estava caído com sua pequena espada, seu corpo reclamou. Ele parecia tão assustado e tão triste. Incapaz de eliminá-lo, a mão que segurava a espada tremeu. Tudo a sua volta pareceu ir em câmera lenta. Conn, Neil e Conway continuaram a atacar os goblins ao redor dela. Sua visão começou a embaçar, ela era incapaz de tirar uma vida. Sua função era salvá-las e não as eliminar. Apesar do goblin à sua frente estar terrivelmente ferido, ele foi capaz de fugir com essa hesitação dela.
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— Acho que acabou — Neil falou olhando ao redor — Ei, Adele. Você o matou?
Adele não respondeu, ela simplesmente começou a andar no automático, com os olhos completamente apagados. Aquilo não podia estar acontecendo. Ela os escutava chamando-a de fundo, mas ela não queria ver todas aquelas mortes que eles causaram no caminho. Eles não tiveram escolha e ela sabia daquilo, mesmo assim, aquilo a deixava enjoada. Ela seguiu, até escutar um barulho de folhas sendo esmagadas no chão. Os barulhos ficaram mais altos ao se aproximarem dela. Ela se virou e viu o goblin que ela havia deixado fugir, com um exército ainda maior que o último. Aquele exército estava indo exatamente ao encontro dela. O ar fugiu dos seus pulmões, ela não conseguia respirar ou se mover por conta do terror. Notando o estado paralisado dela, os goblins se preparara para correr e matá-la... "Acho que é isso... eles vão me matar", ela pensou, mesmo assim, seu corpo não reagiu.
— Adie, se abaixe!
Ao comando de Conway, o corpo de Adele caiu, como se estivesse seguindo o impulso de um transe. Seus olhos seguiram novamente para o exército que acabou sendo varrido para longe em um tornado.
— Como isso... — Adie começou.
— Você tem a proteção de duas deusas — Conway explicou se aproximando — eu só pedi ajuda a elas. Elas irão carregá-los para longe.
Adele viu como um vento impetuoso carregava os goblins para fora de sua vista.
— São elas que estão fazendo isso? — ela perguntou baixo.
— Não — Conway a ajudou a se sentar — elas só estão potencializando o chamado de Conn ao vento.
— Eu pensei que era só uma maneira figurativa de...
— Não, cada um pode chamar o seu próprio elemento — Conway explicou, mas logo voltou a atenção a ela — Você está machucada?
— Não — ela falou — eu estou bem...
— Que alívio — ele suspirou e pareceu relaxar, mas então, imediatamente ele a encarou de maneira furiosa — Por que você deixou aquele goblin viver?
— Eu... — ela tentou soltar qualquer explicação, mas aparentemente a raiva dele parecia maior.
— Se você o tivesse eliminado, ele não teria trazido reforços — Conn e Neil estavam um pouco atrás, mas nenhum parecia disposto a defendê-la — Dentre os espíritos, os goblins são uns dos mais cruéis, especialmente com humanos. Se você não os eliminar, eles a eliminarão.
— Eu não consegui — ela respondeu em desespero sentindo o olho encher de lágrima — eu não tenho coragem de tirar uma vida. Minha missão é salvá-las e não as tirar! Eu sinto muito se isso é um incômodo para vocês, mas eu não tenho coragem de matar...
— Iria preferir morrer, então? — a voz incomumente preocupada de Conway mandou arrepios fortes pela espinha de Adele.
— Eu sinto muito — foi tudo o que ela conseguiu responder, mostrando para Conway que sim, ela iria preferir morrer a ter de tirar uma vida.
— Você é mesmo humana? — ele perguntou baixo, parecia perguntar mais para si mesmo que para ela.
— Eu não sei que tipo de humanos são esses que vivem aqui — ela abafou um pequeno soluço — mas se são como vocês pintam, eu iria preferir responder que não...
— Você teve sorte que eu estava perto dessa vez — ela arfou quando ouviu o tom repentinamente lúgubre de Conway — mas eu não estarei perto de você para sempre...
Ela sabia, nem por isso era menos doloroso escutar aquilo. Conway olhou para baixo em silêncio e só então Conn e Neil se aproximaram para que eles voltassem a caminhar. Adele andava atrás deles com pés pesados, seu corpo gritava, seu coração doía, a experiência recente parecia ecoar na sua mente, o rosto assustado do goblin, sua quase morte e todo o resto parecia voltar com a força de um tsunami para a sua cabeça... quando aquilo acabasse, ela não veria mais Conway... tudo era perigoso, tudo era diferente, mas nada parecia ser pior do que saber que eles estavam destinados a nunca estarem juntos. Esses pensamentos envolveram seu coração em uma sombra escura.
— Adie — Conway a chamou baixo — você ainda está chateada?
— Eu sinto muito — ela murmurou novamente. Essa era sem dúvidas a frase que ela mais tinha falado naqueles últimos momentos.
— Esqueça, está no passado agora — ele falou também em voz baixa — Apenas me prometa que nunca fará isso de novo.
— Eu não posso — ela falou olhando para baixo.
— Eu imaginei — ele sorriu tristemente — acho que terei que aprender a conviver com isso..., mas vou me esforçar para imaginar que você viverá todos os dias feliz e bem...
Uma brisa gelada varreu entre eles e os próximos segundos foram preenchidos pelo silêncio. Adele precisava dizer alguma coisa... ela estava agoniada.
— Conway, eu...
Conway levemente balançou a cabeça, impedindo-a de dizer mais do que aquilo.
— Adie, não diga mais nada.
— Conway...
— Não, por favor — sua voz saiu triste, mas ele sorriu mesmo assim — eu escutei o que você falou para o Conn — ele admitiu e ela momentaneamente se sentiu embaraçada, ele havia escutado ela dizer que estava apaixonada por ele — Eu estou feliz com os seus sentimentos, mas sempre haverá a dúvida... você não pode escolher entre mim e sua irmã e mesmo se escolhesse ficar, sempre haveriam aqueles que a julgariam, dizendo que você apenas tomou vantagem do que eu posso oferecer.
— Eu... eu nunca faria isso — ela falou baixo.
— Se eu pudesse, eu te seguiria, mas também não posso — ele seguiu — a terra já sofre com a ausência do meu irmão. Eu não poderia fazer isso — o rosto de Conway estava nublado pela dor.
— Isso é loucura — ela sorriu de maneira fraca — tudo muito rápido..., mas eu não queria desistir assim...
Conway rapidamente fechou seus lábios com um dedo e mesmo em uma hora como aquela, a suavidade de seu toque fez o coração de Adele planar.
— Eu não posso deixar que faça uma escolha tão injusta e dolorosa — as palavras de Conway cortaram o coração de Adie como uma espada — é por isso que eu não posso me aproximar mais de você, mas não sou forte, então... me ajude com isso.
— Por favor... não... — ela sentiu seus olhos enchendo de lágrimas.
— Nós sabíamos disso desde o começo — ele seguiu — não há nada para se desesperar.
Conway se afastou, relutante em ouvir o que mais Adie poderia querer dizer. O sentimento de Adele era incômodo, doloroso e triste. Uma onda de emoções atingiu Adele fazendo-a se engasgar com as próprias lágrimas. Ela tentou não deixar isso transparecer muito e mordeu o lábio ainda trêmulo.
"Conway, seu idiota" — ela pensou enquanto chorava, distante de todos eles — "Eu entendo, Conway não fez nada de errado, mas se ele sabia que teria que me empurrar para longe tão friamente, por que ele era tão gentil comigo em primeiro lugar?"
Ela precisava continuar, salvar as vidas do acampamento de infectados tinha que ser sua prioridade, mas assim que essa missão terminasse, ela faria de tudo para voltar para casa e ela nunca mais veria Conway. Cada passo que ela tomava para frente, a levava mais e mais longe dele. Ela manteve seus olhos nas costas dele, sentindo seus passos pesados.
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Conway se sentia frustrado. Como ele poderia ficar longe dela se ela não fazia nem questão de esconder a tristeza sempre que ele se afastava? Aquilo era muito confuso, ao menos se ele pudesse dizer que queria estar ao lado dela enquanto ela estivesse ali tendo a certeza de que não a chatearia..., mas que mulher não ficaria chateada no fim? Ela poderia pensar que ele estaria só se aproveitando... ela deixou isso bastante claro no lago.
Irritado ele tentou afastar os pensamentos da cabeça. Ele deveria focar na missão. Vidas estavam em jogo, ele não tinha o direito de ficar pensando e sofrendo por conta de seus próprios sentimentos.
Ele olhou para trás, de maneira discreta. Os olhos da moça estavam tão inchados de chorar que ele sentiu o coração apertar. Hora ou outra ela abafava um soluço e tudo o que ele queria era abraçá-la, para que ela pudesse deixar de sentir aquilo, mas se fosse ele, não funcionaria, ele sabia que não podia confortá-la, não quando ele era o motivo do seu sofrimento.
Tentando engolir o orgulho e segurando qualquer indício de ciúme que poderia sentir, ele chamou Conn. Dentre os seus irmãos, sem dúvidas Conn era o mais confiável.
— Conn, preciso de um favor — ele falou baixo.
— Não posso resolver o seu problema, Conway — Conn suspirou — eu bem que queria, mas não posso.
— Você sofreu muito? — Conway perguntou baixo.
— Mais do que você pode imaginar — Conn sorriu tristemente — mas eu não me entreguei, por isso pude superar.
— Ela quer ficar — Conway falou baixo — e eu deveria estar feliz, mas tudo o que eu sinto é preocupação. Ela aparentemente ama muito a irmã, como eu poderia ser o motivo da separação delas? Por outro lado, meu lado egoísta, quer apenas dizer para ela esquecer todo o resto e ficar do meu lado... ela nem me deixou falar Conn, na noite do lago ela nem sequer me deu a chance de falar alguma coisa... ela só aceitou a situação e se afastou... eu tinha que aproveitar isso, mas não quero.
— Ela quer ficar — Conn concordou — mas não sabe nem mesmo se essa possibilidade existe para ela, assim como nós também não sabemos. Talvez o pai dela possa resolver essa situação, talvez ela ficar não signifique de fato se separar da sua irmã, talvez haja uma maneira..., mas entenda, na frente de todas as frases que eu disse, existe a palavra "talvez". Acredito que vocês devam conversar de verdade, abrir o jogo um com o outro. Eu infelizmente não posso evitar o seu sofrimento, por mais que eu queira, mas sem dúvidas quero amenizá-lo. Não se entregue, Conway, não se una realmente a ela, não enquanto a palavra "talvez" estiver antes de todas essas frases.
— Ela parece tão confusa... — Conway olhou para baixo — não quero fazê-la sofrer e não sei como fazer isso.
— Você também está confuso — Conn olhou carinhosamente para o seu irmão — e eu estaria surpreso se não estivesse. Também está sofrendo, mas está pensando somente no sofrimento dela. Vocês se amam e aparentemente as possibilidades de vocês ficarem juntos são nulas, eu entendo a sua dor.
— Acha que ela me ama? — Conway olhou com expectativa para o seu irmão fazendo-o rir — Não acha que é só um sentimento passageiro que ela logo conseguirá ultrapassar?
— Acho que você está cego demais pelo medo — Conn sorriu de maneira fraca — É verdade, ela é humana, e é verdade, os sentimentos dos humanos mudam com facilidade, mas tanto eu como Declan vemos algo muito especial em Adele... eu diria que você não deveria duvidar dos sentimentos da moça, mesmo assim, deve seguir cauteloso em relação as suas escolhas.
As palavras do irmão ecoaram em sua mente enquanto ele olhava novamente para Adele, que ainda estava ali, com os olhos vermelhos e expressão abatida. Era doloroso ver o sofrimento dela e sentir que ele era uma das causas disso.
Ele sabia que Conn estava certo, que eles precisavam conversar abertamente, sem medo das incertezas que pairavam sobre eles. Conway sabia que tinha que enfrentar seus próprios medos e inseguranças se quisesse encontrar uma maneira de ficar ao lado de Adele sem prejudicá-la.
— Por favor — Conway voltou seu olhar para frente — amenize a dor dela.
— Eu posso fazer isso — Conn respondeu — mas tem certas dores que nem mesmo o meu dom é capaz de amenizar.
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