Único: Ninguém disse que seria fácil
A rotina de Megumi já não era mais a mesma e, quer saber? Ele não se importava nadinha, todo dia era um desafio diferente para si, ou melhor, diariamente um pequeno ser de quase sete anos o desafiava a não enlouquecer. Hayato — há quem diga que ele é um anjinho, porém, quem o conhece bem sabe, uma criança energética, do tipo que um botão de desligar seria mais que apreciado e desejado —, mostrava-se um grande desafio para aquele que há muito pouco tempo começava a experimentar a paternidade.
Brinquedos pela casa, tinta derramada no tapete e, ninguém sabe como aquilo foi aparecer ali, uma marca enlameada na parede, isso, na parede branquinha que há muito pouco tempo teve sua pintura retocada. O Fushiguro quis morrer no momento em que adentrou a casa e viu a bela obra de arte rústica, ora, não tinha como não ver, ainda mais com ela estando em um ponto bem estratégico da sala.
Os quadros feios e extremamente coloridos de Itadori finalmente arranjaram um rival à altura, tanto que eles já pareciam um mero enfeite sem graça diante da obra de arte feita pelas pequenas e inquietas mãos. Megumi não sabia o que fazer, crianças, como bem se sabe, não vêm com manual de instrução.
— Como isso aconteceu? — repetiu a pergunta pela terceira vez, a postura acuada e envergonhada de Hayato já era mais do que suficiente para apontar sua culpa mais que óbvia. Todavia, ele continuou calado, seus olhos escuros pareciam querer transbordar em lágrimas, o nariz avermelhava-se aos poucos e um biquinho já se formava em seus lábios.
Fushiguro, mais uma vez, sentiu que estava fazendo tudo da maneira errada, ele conhecia muito bem a situação familiar anterior do pequeno, não era nada boa, péssima, na verdade. Os tantos traumas e inseguranças demorariam a ser curados, ainda mais com ele não sendo um belo exemplo de pai na maior parte do tempo, segundo suas próprias palavras.
Por que ele não conseguia ser como o noivo? Itadori, que adotou a criança como seu filho também, era sempre aquele que conseguia fazê-lo rir, o primeiro a ser procurado se ocorresse algo de ruim com Hayato, inclusive, Yūji foi o único a ser chamado de pai até aquele momento, e não importava quantas vezes ele insistisse para que o filho passasse a chamar o outro da mesma forma.
Fushiguro não era idiota, ainda que Itadori tentasse disfarçar as tentativas infrutíferas, ele sabia que estas aconteciam sempre que não estava olhando - ou ouvindo.
— Eu... — gaguejou em razão das lágrimas que começavam a cair incessantemente. — Me desculpa, por favor, papai disse que a gente daria um jeito de limpar antes que você chegasse, mas não deu tempo. — Seu olhar continuava preso no chão, o corpo encolhido transmitia todo o medo que sentia, Megumi ficou ainda pior, ele era tão ruim assim como pai?
De qualquer forma, de nada adiantaria ficar remoendo esse assunto em seus pensamentos, que seja, talvez fosse mais complicado para o pequeno confiar em si, todavia, isso não o impedia de continuar tentando mudar essa realidade, ainda mais sabendo que apenas um sorriso de Hayato já era suficiente para tornar seu dia mais leve.
Talvez ele ainda não soubesse como cuidar de uma criança, entretanto, se tem algo que ele nunca teve que aprender, foi como amá-lo intensamente. Sim, como se eles realmente compartilhassem das mesmas características genéticas.
— Ok, ok, não precisa chorar. — Bagunçou os cabelos do garoto. — É só limpar, né?
Ainda que a expressão de Hayato demonstrasse uma pontinha de confusão pela mudança repentina de tom, ele não perdeu tempo em confirmar energeticamente com a cabeça, as lágrimas rapidamente foram esquecidas, restando apenas rastros nas bochechas vermelhas.
Fushiguro sorriu ao ver que o filho havia se acalmado, ele preferia mil vezes essa personalidade alegre, embora fosse complicado e cansativo de se lidar — ninguém disse que não seria —, afinal, enquanto o pequeno estivesse feliz e confortável em seu novo lar, tudo estaria bem. Olhou novamente para a mancha com desgosto antes de ir procurar algo que conseguisse tirar aquela aberração dali, Hayato foi atrás de si com os olhinhos brilhantes, curioso sobre o que Megumi faria em seguida.
— Por falar nisso, cadê o Yūji? — perguntou ao lembrar do que o filho tinha dito, tudo estava silencioso demais, sinal de que era praticamente impossível que o outro realmente estivesse por ali, além disso, Itadori sempre o recebia com um beijo e um abraço exagerado, algo típico dele desde que passaram a morar juntos.
— A vizinha precisava de ajuda, então ele foi lá ajudar. — Deu de ombros, no entanto, sua entonação deixava mais do que óbvio seu mau humor para com o assunto, já era a terceira vez na semana que a mulher aparecia para pedir auxílio em alguma coisa, e sim, ainda era terça-feira.
Fushiguro também compartilhava do mesmo sentimento, ainda que não dissesse, até porque, apesar das possíveis segundas intenções da mulher, Itadori fazia isso apenas por causa de sua gentileza desmedida, então não se preocuparia ou ficaria irritado com isso. E nem adiantaria de algo, certamente o outro nem se dava conta do que acontecia ao redor.
Muito provavelmente Hayato também já deixou mais que claro seu descontentamento, ele era muito transparente em suas expressões, embora ainda guardasse muitos medos dentro de si. Mas isso é algo que só o tempo e alguma intervenção conseguiriam mudar.
— E te deixou aqui sozinho? — Não era segredo que a criança odiava ficar sozinha, mesmo que fosse por poucos minutos.
— Eu não queria ir junto, além disso ninguém ia te receber quando chegasse.... — O volume da voz diminuía aos poucos, tanto que as últimas palavras saíram em um sussurro, Megumi quis rir da timidez mais que aparente do pequeno, mas não o fez, não queria deixá-lo ainda mais recluso. Esses breves momentos mostravam que ele estava fazendo o certo.
— Obrigado. — Mesmo que palavras não fossem necessárias, quis pronunciar aquilo, Hayato sorriu orgulhoso. — Mas eu ficaria ainda mais agradecido se alguém me ajudasse a carregar esse balde. — Seu pedido foi prontamente atendido, ainda que o garoto sentisse um pouco de dificuldade em carregar o objeto, não reclamou em nenhum momento, e logo os dois estavam novamente na sala, agora prontos para resolver o pequeno problema.
Megumi começou a dar um jeito na mancha tendo o garoto como plateia, ou equipe de apoio, como preferiu dizer para que ele não ficasse chateado com a recusa em receber sua ajuda. No entanto, nem sempre um clima agradável significa que está tudo bem.
— Você se arrepende de ter me escolhido? — O leve puxão em sua camisa tirou-o de seus pensamentos, estava tão empenhado em retirar a mancha que quase esqueceu da criança ao seu lado.
— Por causa de uma parede? — Não escondeu que aquela pergunta o deixou incomodado. Como poderia pensar em arrependimento? Suspirou ao pousar o pano na borda da mesinha, esperaria que Hayato explicasse.
— Por tudo. — Parecia que segurava o choro, porém, nenhuma lágrima foi derramada. — Eu sou mau, você faz de tudo pra que eu me sinta bem aqui e... — Fushiguro não deixou que ele terminasse, abaixou-se para tentar nivelar as alturas e pôs as mãos carinhosamente nos ombros do filho.
A ação transmitia uma ternura e carinho que aqueceu o coração de ambos.
— Você se arrepende de ter sido escolhido por mim? — Hayato prontamente negou com a cabeça. — Mesmo eu não sendo tão legal quanto o Yūji? — Novamente a criança negou energeticamente, como se nem ao menos precisasse pensar sobre a pergunta, e realmente não precisava, como ele poderia sentir-se insatisfeito com a família incrível, embora um tanto incomum, a qual fazia parte?
— Papai é um bobo legal, você é um legal sério — explicou tentando imitar a expressão tão característica de Megumi, o que só fez com que Fushiguro gargalhasse diante de tamanha fofura. — Mas, mesmo sendo assim, eu te amo muito, tá, pai? — Sorriu por fim, abraçou o pai, que parecia em choque por causa da declaração, e foi limpar a parede como se nada tivesse acontecido.
Um verdadeiro teimoso.
Fushiguro suspirou, seus pensamentos não conseguiam acompanhar o que acabou de acontecer, mas nada disso importava, ele apenas sentia-se feliz e não seria uma parede enlameada que estragaria o clima familiar.
— Também te amo — confidenciou. — E mesmo que eu pudesse mudar o passado, ainda escolheria você — completou.
— Sério que ninguém me chamou pra participar desse momento? — Itadori entrou chamando a atenção de ambos. — Também amo vocês. — O silêncio ocupou a sala. — O quê? Não era pra dizer "eu te amo"? — perguntou ao perceber a expressão irritada do outro. Megumi apenas revirou os olhos.
— Era — resmungou ao ter seu corpo abraçado por trás, nem mesmo o beijo que recebeu em sua bochecha foi suficiente para fazê-lo abandonar o mau humor, Hayato apenas riu, talvez o pai não fosse tão sério assim, dramático combinaria muito mais com ele.
— Então? — As mãos de Yūji passearam por sua cintura em uma espécie de carinho, por mais que Itadori estive confuso com a reação do noivo, continuava achando-a engraçada, e um tanto adorável também, mas isso ele não diria em voz alta, ao menos não naquele momento tão desfavorável a si.
— Nada. E da próxima vez que os dois fizerem bagunça, podem esperar por um castigo. — Afastou-se tentando esconder os ciúmes, bem, em poucos minutos isso seria deixado de lado, afinal, se tinha uma coisa que ele não duvidava é que, das várias escolhas que fez ao longo da vida, aquelas duas foram as mais corretas.
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