CAPÍTULO TRÊS:A Descoberta
— Carlos, você não tem escolha. Eles estão atrás de você, ontem na igreja tinha um homem de olho em nós, acho que ele é um agente do dops.
— Eu não posso Clara. Vou viajar assim eles vão deixar você em paz.
— Carlos, você tem que sair do país. Eles vão te matar se você continuar aqui. Eles já descobriram o seu nome verdadeiro, já sabem quem você é, não é só você quem corre perigo.
Naquela noite — antes da noite do ano novo — fiquei confusa ao ouvir essa conversa dos meus pais. Ouvi gritos no quarto deles e me dirigi até lá na pont— Você tem que ir! — A voz da minha mãe estava alterada, o som agudo e a preocupação eram evidentes em cada sílaba pronunciada.
— Não posso, Clara — meu pai falou tranquilamente. — Eu tenho que ficar. Marighella está morto, e agora mais do que nunca nós devemos lutar contra a ditadura. Eu devia ter ido embora quando entrei na luta armada, mas não consigo ficar longe de você, longe da Sofia.
— Mais um motivo pra você ficar. Se você ainda sente alguma coisa por mim e pela sua filha faça o que eu estou te pedindo. — Ela continuava gritando. — Já conversei com o meu pai, ele disse que se você sair do país nada acontecerá com você. Podemos ir para Paris. Sofia vai amar. Ela sempre quis estudar música e a Europa é o lugar perfeito para isso.
— Não posso largar os meus amigos, a minha causa, as coisas que eu acredito e ir passar férias em Paris.
a dos pés. A porta estava entreaberta e eu vi quando o meu pai colocava algumas roupas dentro de uma mala.
— Carlos, por favor — minha mãe implorou, mas ele continuou resistente.
— Não posso Clara. Não posso deixar o meu país. Você não pensa no que o Brasil pode se tornar? Nas coisas grandiosas que poderíamos fazer. Nas mudanças que poderiam acontecer. Você sabia que os filhos da Maria pararam de estudar pra ir trabalhar? Você acha justo irmos embora para Paris enquanto pessoas passam fome e vivem em completa miséria?
— Carlos, nós não podemos fazer nada sobre isso. Você não é um super-herói. E os militares não vão te deixar vivo se você continuar aqui. Você quer que a nossa filha cresça sem pai?
— A Sofia já é uma moça.
— A Sofia precisa de um pai! — ela gritou exacerbada. — E eu preciso do meu marido!
A voz da minha mãe se calou e eu pude espionar seu rosto pelo pequeno espaço aberto, ela caiu em lágrimas de joelho no chão.
— Clara... Eu fiz tudo o que eu podia, até usei um nome falso. Menti, não contei pra ninguém do grupo sobre vocês, corri riscos vindo visita-la. Eu fiz tudo o que pude para protegê-la. Eu amo a Sofia, um dia ela vai entender o porquê disso tudo.
— Carlos... Por favor! Por que você se envolveu com isso? Por quê? Quem vai proteger você agora? Cadê os seus amiguinhos? Cadê eles?
Minha mãe ainda chorava e sua voz era aguda e fraca.
— Eu vou para o sul, vou ficar escondido no interior, ninguém vai me achar — meu pai falou tentando tranquiliza-la.
Eu vi quando a minha mãe se levantou um pouco zonza vestida na sua camisola de seda preta, ela estava desolada com o rosto transfigurado, aos prantos. Ela olhou para ele com um olhar frio e cerrou o punho e lhe deu uma bofetada que pelo som parecia ter sido bem dolorida. O rosto do meu pai girou e ele cambaleou e sacudiu seu corpo para trás. Imediatamente ele colocou a mão no rosto que agora estava em chamas e que mesmo com o vazio da noite era possível enxergar o vermelhão provocado pelo tapa da minha mãe.
— Seu irresponsável! — ela gritou alterada, o que fez com que eu desse um pulo para trás assustada. — Você não pensou em mim! Você não pensou na sua filha! Você esqueceu que tinha família! Cretino!
— Pare com isso. Parte disso tudo eu fiz por você. Eu precisava conhecê-la. Não sabia que as coisas iriam sair do controle.
Ela continuou gritando batendo ainda mais nele, meu pai protegeu o seu rosto e caiu no chão encolhendo o corpo.
— Cretino! Eu odeio você! Eu odeio você! Desgraçado! Você não podia se intrometer nisso!
Minha mãe batia no meu pai. Aos poucos ela ia caindo aos prantos no chão xingando o meu pai com a voz rouca, arfando lutando para conseguir ar para os seus pulmões. Ela se ajoelhou do lado dele e ele a abraçou apertado e os dois ficaram ali nos pés da cama chorando, e eu espiando o sofrimento de ambos.
Corri para o meu quarto sorrateiramente e deitei na cama o mais rápido que pude. Me encobri e fechei os olhos. Ouvi passos no corredor e escutei quando a porta abriu e rugiu por causa da ferrugem. Era o meu pai. Eu soube por causa do cheiro de cigarro. Cerrei os olhos e me encolhi na cama. Ele se aproximou devagarinho e deitou do meu lado no espaço vazio que eu havia deixado. Ele me abraçou. Colocou os seus braços grandes em volta de mim. Eu estava de costa para ele e continuei com os olhos fechados, fingindo um sono profundo. Eu senti suas lágrimas frias caírem no meu pescoço e ouvi os seus gemidos de dor. Ele chorava amargamente. Eu quis abrir os meus olhos e dizer a ele que estava tudo bem, mas eu não consegui mover nenhum músculo do meu corpo. Ele molhou o meu pescoço e travesseiro. O cheiro de cigarro era evidente nele. Ele precisava parar de fumar — mas nada disso importa mais —. Tudo o que me lembro daquela noite foi ele sussurrar em meio as lágrimas:
— Sofia, filha. Eu te amo. Lembre-se disso.
*
Por sorte, não tive mais nenhum lapso de memória. Eu odiava quando aquilo acontecia. Eu odiava não me lembrar. Meu pai ficava muito preocupado comigo. Eu sumia por horas e depois voltava como se nada tivesse acontecido. O pior: Eu não me lembrava. Não sabia aonde estava nas horas em que desaparecia. Por isso, era muito difícil eu ficar sozinha em casa. Meus pais me levaram em todos os médicos da cidade, mas nenhum descobriu o que de fato eu tinha. Diziam que eu tinha uma memória ruim e só. Antes do último lapso eu havia tido outro. Era carnaval e eu insisti em usar um vestido branco de noiva no jantar. Eu tinha quinze anos naquela época. Sumi por horas e quando apareci não me lembrava de nada. Meu pai chamou a polícia, ficou desesperado. Minha mãe também. E foi frustrante quando eu apareci e não consegui responder nenhuma das perguntas. Depois disso e de várias tentativas de tratamento para algo sem resposta eu parei de ter essas percas de memória, isso até o incidente com a Maria. Eu culpava o stress. Estava sofrendo e estava cansada, passei a ser mais vigiante comigo mesma.
O mês de janeiro passou tão rápido quanto uma tempestade de verão. Meu relacionamento com a minha mãe continuou o mesmo. Ela ficava nos cantos da casa murmurando e na espreita como se estivesse fugindo de alguém. Eu, porém, ocupava a minha mente lendo livros como Dom quixote e Reinações de narizinho para passar o tempo. Mas mesmo acompanhada de bons livros a minha alma continuava inquieta. Eu sabia que algo muito errado estava acontecendo.
No domingo passado fomos a igreja. Minha mãe dirigiu o opala azul até a matriz que ficava no centro de São Paulo. Depois da morte do meu pai ela insistia em usar vermelho, logo todos os olhares foram para ela. Minha mãe era uma mulher deslumbrante em qualquer roupa, mas quando ela vestia vermelho era fatal. Em dado momento na hora da celebração minha mãe surtou, agarrou o meu punho e praticamente me arrastou para fora da igreja no meio da eucaristia. Ela me obrigou a caminhar em passos apressados até entrarmos no carro. Enquanto eu era arrastada pela avenida eu pude ver por cima dos ombros que dois homens nos perseguiam. Eram os mesmos homens que observavam a nossa casa naquele dia fatídico. Quando chegamos em casa, minha mãe me mandou para o meu quarto e ordenou para que eu não saísse de lá pelo resto do dia. Ela estava estranha, e eu sabia o porquê. Aqueles homens eram agentes do dops. Cada vez mais era óbvio para mim que meu pai era da luta armada e agora os militares estavam atrás da minha mãe, o que eu não entendia muito bem, pois ela com certeza não era da esquerda.
Minha vida estava uma bagunça. As conversas que havia ouvido antes do meu pai morrer nunca fizeram tanto sentido como agora. Talvez fosse a hora de confrontar a minha mãe e dizer a ela que eu sabia de tudo. Que ela não precisava mais continuar o teatrinho. Que eu sabia a verdade, mas as coisas nunca foram tão fáceis assim. Minha mãe sempre me ignorava, quando eu pedia para visitar o "túmulo" do meu pai. O silêncio dela consentia com a minha teoria. E aos poucos esse silêncio se tornou um enorme barulho para os meus ouvidos. Eu sentia que a qualquer momento eu iria explodir por ser ignorada por tanto tempo.
O carnaval chegou e eu fui convidada por Helô para passar o fim de semana na casa dela. Helô era uma amiga da escola. A única para falar a verdade. Depois que Angélica foi embora para o Chile, Helô foi a única que sobrou. Eu não era muito amigável, e não conseguia fazer amizades, as pessoas principalmente as garotas não gostavam muito de mim. Naquela época as mulheres eram impregnadas pelo machismo e existia uma competição absurda entre nós.
Enquanto os meus pés estavam imersos na piscina, balançando de um lado para outro. O sol banhava o meu rosto pálido. Com certeza eu ficaria vermelha. Eu nunca conseguia ficar bronzeada. O som alto tocava, um rock pesado ecoava pelos meus ouvidos. Helô estava logo adiante deitada de costas para o sol com um biquíni minúsculo, "última moda em Ipanema", ela dizia com uma voz afetada. Suas pernas entrelaçadas e sua cara enfiada em uma revista de moda.
Respirei fundo tentando não me estressar com a música. A casa dela era tão diferente da minha. Os pais de Helô frequentavam o mesmo clube que os meus. Eles tinham amigos em comum e a mãe de Helô era tão elegante quanto a minha mãe. Naquela tarde a casa estava vazia e por isso ela abusou do som alto e colocou aquele biquíni. Eu sabia que a mãe de Helô jamais permitiria que a filha usasse tal traje.
— Pink Floyd — ela falou ao perceber meu estranhamento com a música. — Eles lançaram esse álbum ano passado. Foi o Guga quem me deu.
Ela parecia entediada. Balancei a cabeça e fingi que havia gostado da música.
— Pode falar. — Ela me olhou com desdém. — Eu sei que você não gosta desse tipo de música.
Eu balancei a cabeça sem jeito não queria ser indelicada. Helô havia mudado muito em apenas um mês. Ela agia e falava como se fosse mais velha do que eu. Eu sabia que parte disso era porque ela estava namorando o Guga, um garoto meio hippie que trabalhava na biblioteca da escola. Se a mãe de Helô soubesse ela surtaria.
— Você e a sua mãe sumiram do clube...
— Você sabe o porquê — eu falei.
— Já faz um mês, Sofia. Vocês precisam superar.
Ela arqueou as costas e as sobrancelhas vermelhas
— Não funciona desse jeito — falei chateada com o jeito que ela tratava a morte do meu pai. Desde que nós nos reencontramos Helô não perguntou absolutamente nada sobre o meu pai ou sobre como eu estava me sentindo.
— Eu te liguei tantas vezes, mas ninguém na sua casa me atendeu.
Depois da morte do meu pai, minha mãe não deixava ninguém atender os telefonemas que recebíamos.
— Sabe — ela continuou falando —, estão todos comentando que o seu pai era... você sabe...
Hesitei e preferi ignorar. No fundo eu não queria aceitar o fato do meu pai ter sido da luta armada. Eu não conseguia imaginar o meu pai assaltando bancos, sequestrando pessoas...
— O que estão falando? — perguntei.
— Você sabe... minha mãe está organizando a minha festa de 18 anos, você vai?
Isso era típico de Helô, mudar de assunto facilmente.
— Claro — falei sem jeito.
— Você devia usar um biquíni também. Não a roupa de banho da sua avó!
Eu dei um sorriso amarelo a ela e olhei para o meu maiô amarelo.
—Eu gosto dele.
— Não consigo olhar pra você.
Eu ri, e depois encarei o céu, mas meus olhos foram incendiados pela luz flamejante do sol.
— Eu sou o próprio sol — falei pra ela.
— Você está amarela isso sim — ela reclamou e depois caiu em uma gargalhada.
— Sua mãe sabe do seu namoro com o Guga?
— Não. — Ela ficou séria — Mas ele vai estar na minha festa. E você? Sua mãe desistiu da sua festa?
Fiquei sem resposta. Depois da morte do meu pai não falamos mais sobre isto. Eu iria fazer 18 anos em abril, o combinado era que a minha festa fosse em maio.
— Acho que não vou ter mais festa — falei um pouco tristonha, não que isso fosse importante para mim.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem, sem o meu pai não ia ser a mesma.
— O Guga tem uns amigos interessantes... posso apresentar um pra você. Ao menos que você ainda queira ser freira. Vamos na sexta no show de uma banda de amigos dele. Vai ser legal. Você podia ir junto com gente. Não é pecado se divertir.
— Não quero conhecer ninguém — falei. — Pelo menos não agora, entende?
— E você nunca vai beijar? Quer mesmo ficar pra titia? — ela me olhou chocada como se isso fosse o fim do mundo.
Eu dei de ombros. Era inútil discutir com ela. Eu nunca beijei, e não me importava com isso. Nunca conheci nenhum garoto que eu realmente quisesse beijar, e como as coisas andavam complicadas em casa acabei me desapegando ainda mais desses sentimentos carnais. Meu coração ainda estava machucado por causa da morte do meu pai.
— Você é uma boba — Helô falou com uma voz afetada. — É tão bonita. É a garota mais linda da escola. Não sabe o quanto eu queria ser bonita como você.
— Você é bonita — rebati.
— Não como você — ela falou com uma voz triste e um olhar que cintilava inveja.
— Por favor, Helô — eu disse ao sentir seu olhar me fuzilar.
Ela levantou e desligou o som e colocou mais limonada no meu copo.
— Sua mãe não foi na reunião de pais semana passada.
— Reunião de pais? — indaguei, com a testa franzida.
— Sim, as aulas começam semana que vem.
— O quê?
Minha mãe não havia comentado nada sobre o início das aulas comigo. Fiquei pensando se ela havia esquecido de verdade ou fez isso de propósito.
*
Vou te contar um segredo. Eu chorei no meu primeiro dia de aula. Não foi um choro qualquer, daqueles de criança mimada quando quer alguma coisa. Não. Eu chorei pra valer. Chorei um rio de lágrimas. Uma cachoeira se formou nos meus olhos negros.
Eu comecei a me arrastar no chão e a gritar desesperada porque eu não queria entrar na sala de aula. Eu balançava os meus pés pra cima, e gritava exasperada sentindo o ar faltar. Eu não queria entrar. Eu tinha medo daquela professora com o cabelo esquisito parecendo um poodle. Eu não queria ficar com as outras crianças. Eu não gostava muito de me entrosar e isso ficou cada vez mais evidente com o passar dos anos. Minha mãe vendo o meu escândalo, roxa de raiva, segurou os meus braços com força. Era como se os seus dedos pudessem atravessar a minha pele. Ela me sacudiu furiosa e me forçou a levantar bruscamente. Os olhos dela não piscaram naquele momento. Ela me ergueu, mas mesmo assim eu continuava a me debater nos braços dela.
— Me solta! — eu berrava. — Eu quero ir pra minha casa! Eu não vou entrar!
Foi então que eu senti sua mão pesada contra as maçãs do meu rosto. Seus dedos se uniram e acertaram em cheio a minha face. Minha cabeça girou e uma ardência insuportável me atingiu. Meu rosto queimava e eu pegava fogo. Levei minhas mãozinhas para o meu rosto. A professora me olhava preocupada enquanto a minha mãe bufava. Eu não parei de chorar com o tapa. Eu me acalmei, entretanto, as lágrimas ainda estavam lá e os soluços eram silenciosos, pois eu estava com medo da minha mãe.
— Engole o choro — ela disse de um jeito tão duro. — Eu não vou e não quero ter uma filha frouxa.
Ela falou essas palavras segurando os meus braços de um jeito rude como se eu fosse um animal selvagem. Eu solucei baixinho e comecei a tentar me conter. Eu sabia que ela me bateria novamente se eu continuasse chorando daquele jeito. Uma coisa que eu aprendi sobre a minha mãe era de que não adiantava discutir com ela, pois ela sempre ganhava. Ela não aceitava rebeldias, lágrimas, dramas de adolescente. Ela sempre me tratou como uma mulher em determinados momentos, mas como uma criança em outros. Minha mãe sempre ganhava de mim. E naquele dia vendo a frieza do seu rosto e seu olhar impaciente eu percebi que era melhor ficar calada ao lado dela do que discutir e dar uma de filha rebelde. Por muito tempo eu senti medo daquele olhar.
Minha mãe era assim. Uma flor por fora. Seu porte delicado, seus braços finos que de tão ossudos lembravam um esqueleto. Sua cintura de boneca, um sorriso gentil, com traços tão meigos em seu rosto. Mas ela tinha um olhar impenetrável, suspirava alto demais, parecia um touro na maior parte do tempo de tanto bufar, e quando ela falava suas palavras eram duras, certeiras que atingiam com facilidade qualquer um que se atrevesse a se meter no seu caminho.
Mas eu sabia que por dentro ela estava destruída. Que o ódio que sentia pelo mundo estava corroendo sua alma. Eu sabia que ela chorava todas as noites. Por fora ela estava majestosa, com um rosto frio, mas por dentro ela gritava desesperadamente.
Logo depois do meu pequeno escândalo na escola eu me acalmei ou pelo menos fingi estar calma. Ela piscou para mim e sorriu vitoriosa. E foi esse sorriso que ela deu quando eu perguntei a ela por que ela não havia me contado sobre a escola.
— Eu não precisava ir naquela reunião. Você não estuda mais naquela escola.
Ela disse isso como se fosse a coisa mais normal do mundo. Abaixou o rosto e continuou a beliscar o jantar.
— Como assim? E aonde eu vou estudar? — perguntei preocupada e chocada com a tranquilidade dela. Senti um ruído no meu estômago, minha garganta começou a doer.
—Você vai estudar no interior. Em um internato.
Internato?
Fiquei um pouco zonza. Senti a limonada que eu havia tomado mais cedo na casa de Helô subir pela minha garganta.
— O quê?
— É surda por acaso?
—Mãe, eu... — não sabia o que falar. As palavras ficaram entaladas no meu peito. Um nó se formou no meu coração. Era como um desses nos que se formam quando você passa muito laquê no cabelo e depois não consegue arrumá-lo mais.
— Você parte daqui uma semana. Devia começar a arrumar suas malas.
— Por que está fazendo isso?
Ela ficou séria, arqueou uma de suas sobrancelhas e se ajeitou na cadeira como se estivesse se sentindo desconfortável. "Você é boa em reconhecer mentirosos" lembrei da voz grave do meu pai sussurrando para mim.
Silêncio.
Ela me ignorou e tomou outro gole do vinho tinto.
— Fale comigo, mamãe — eu implorei baixinho. — Por favor.
Ela fez uma longa pausa e suspirou cansada.
— Você parte daqui uma semana — foi a única coisa que disse.
Aquele olhar. Eu estava começando a odiá-lo.
Não me ignore, não me ignore... O silêncio dela estava fazendo um barulho insuportável em meus ouvidos.
Eu sabia o porquê disso. Ela pensava que não, mas eu sabia. Eu sabia de tudo.
— O meu pai era da luta armada e agora os militares estão atrás de você. E é por isso que eu vou para um internato, porque você pensa que vai ser melhor pra mim — falei despejando tudo o que eu sabia em cima dela.
A suposta tranquilidade sumiu do seu rosto. Maria que estava começando a tirar a mesa do jantar me olhou assustada e pelo seu olhar eu quase pude escutar seus pensamentos dizendo que eu estava maluca por provocar minha mãe.
Eu abaixei minha cabeça e cerrei meus olhos. Eu não podia chorar. Não naquele momento.
Minha mãe estava desnorteada. Seu rosto me assustou. Os olhos dela estavam tensos, o maxilar contraído, o rosto vermelho como sangue.
Mais silêncio.
"Não me ignore, me responda." Eu pedia em meus pensamentos.
Mais silêncio e eu a vi saboreando mais um gole do vinho, dessa vez suas mãos tremiam e ela arfava.
Mais silêncio.
Era torturador vê-la me olhar daquele jeito e não ouvir uma resposta.
Mais silêncio.
Mordi meus lábios. Toda vez que eu ficava nervosa fazia isso.
Mais silêncio.
Encarei meus pés, mantendo o meu corpo inclinado. Minha visão estava turva e o pânico tomava conta de mim.
Mais silêncio.
"Torturaram o seu pai, Sofia. Mataram ele. Cuspiram nele. Xingaram ele..." eu ouvia a voz da minha mãe dentro da minha cabeça, mas a olhei e vi que ela era o silêncio em pessoa.
Mais silêncio.
Eu podia sentir a comida revirando o meu estômago, e os olhos frios da minha mãe em cima de mim.
O telefone tocou quebrando o silêncio. Ela me olhou com um rosto impossível de se decifrar. Maria nos encarou e olhou para o telefone enquanto ele tocava sem parar.
Ele não parou. A melodia do soar do telefone não parava e minha mãe começou a bufar de raiva. Minha cabeça estava começando a doer. Coloquei minhas mãos na minha orelha. Eu não queria escutar mais nada, inclusive o próprio silêncio.
Minha mãe sacudiu a cabeça de um jeito nervoso e levantou furiosa da mesa. Foi quando eu ouvi um barulho estrondoso atrás de mim. Era ela, gritando enquanto tacava o telefone no chão até ele se espatifar e não sobrar mais nada. Aquilo era novo para mim. Minha mãe havia surtado. Ela arremessara o telefone no chão tantas vezes até que o seu toque não fosse mais possível de escutar.
Quando ela finalmente terminou, ajeitou o vestido de camurça, passou as mãos pelos cabelos loiros. O rosto dela estava em chamas.
—Você parte daqui uma semana — ela disse para mim abandonando os últimos destroços do telefone no chão e subindo para o seu quarto enquanto seu sapato de salto batia no carpete vermelho.
Eu estava chocada. Eu me sentia mal. Estava destruída.
Corri para o meu quarto e assim que pisei meus pés no tapete cor de rosa, vomitei. Senti toda a comida que havia ingerido ao longo dia atravessar minha garganta como um avião arranha o céu formando um risco nas nuvens. A comida estava toda lá. Exposta no chão.
As lágrimas desceram logo em seguida, e uma dor percorreu o meu corpo, dilacerando cada pedaço de mim. Chorei amargamente e fiz algo que jamais havia feito. Eu gritei. Gritei o mais alto que eu pude. Não queria mais ouvir o silêncio, por isso enchi os meus pulmões e gritei para que toda vizinhança escutasse. Quem estava surtando agora era eu. Eu seria mandada para um internato. Eu ficaria longe de tudo e de todos. "Você parte daqui uma semana".
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