CAPÍTULO SETE:Minhas novas amigas
Descemos para o refeitório que era um lugar imenso e pavoroso. Três mesas compridas se estendiam entre o salão. A frente delas uma cozinheira robusta de cabelos vermelhos e com sardas abaixo dos olhos servia as alunas retirando de algumas tigelas fumegantes uma gororoba viscosa e pouco convidativa.
Laura estava na minha frente na fila. Eu e ela não havíamos conversado muito desde que saímos do dormitório, ela praticamente se arrastou até lá, gemendo de dor. A vez de Laura chegou e ela se aproximou da mulher ruiva. Laura sorriu e falou:
— Boa noite, dona Carlota.
A mulher que logo julguei se chamar Carlota retribuiu o sorriso e colocou duas colheres cheias de arroz empapado, uma colher de purê de batata que estava viscoso e que se parecia com uma meleca amarela, e um bife queimado no prato dela. Laura agradeceu e virou-se para mim que estendi o meu prato de ferro ágata para Carlota.
— Essa é Sofia, Carlota.
Laura falou assim que percebeu que a mulher me olhara com estranheza. Ela me olhou de cima abaixo e grunhiu. Dei um sorriso amarelo e ela colocou a comida nada apetitosa no meu prato.
— Você se acostuma com a comida daqui — Laura sussurrou quando saímos da fila e nos dirigimos a um bebedouro para encher nossas canecas de água.
Eu a segui até a ponta de uma das mesas de madeira e me apertei para caber no banco já que estava abarrotado de garotas, todas devidamente vestidas e devorando a comida feito loucas. Abaixei a cabeça e encarei o meu prato quando percebi que um grupo de alunas que pareciam ser mais novas me olhavam com curiosidade.
— Sabe — Laura falou enchendo a boca de comida —, nós não temos lanche aqui. Só fazemos tlês refeições por dia, por isso não ligue se notar que deixamos a etiqueta de lado e estamos devolando a comida como animais selvagens. A plopósito é melhor você comer rápido, porque aqui ninguém pode repetir, então é melhor não deixar o seu plato de comida dando sopá.
— Obrigada. — Sorri sem jeito enchendo o garfo com uma quantidade mínima de arroz. Só de olhar para aquela comida o meu estômago revirava. Um sentimento nostálgico bateu em meu peito, senti saudades da comida da Maria, do seu tempero tipicamente nordestino e da sua maravilhosa torta de frango. O que Maria estaria fazendo agora que não trabalhava mais para mamãe?
— Você é de onde? — Laura perguntou com a boca cheia, fiquei feliz em ver que ela estava se esforçando para me conhecer. Sorri. Era a minha vez de me esforçar também.
— Sou de São Paulo — respondi animada.
— São Paulo? E o que veio fazer nesse fim de mundo?
— Minha mãe estudou aqui, ela acha que vai ser bom pra mim — respondi e logo em seguida bebi um gole d'água. O que a minha mãe estaria fazendo agora?
— Minha mãe também — Laura falou animada. — Minha mãe é médica.
— Nossa que legal. A minha é professora de dança.
— Então, você vai escolher balé como opção pra Educação física? — inquiriu.
— Não — falei —, vou fazer natação. Não sou uma boa dançarina.
— Eu e a maiolia das meninas fazemos ballet, mas você vai gostar do Lucas o professor de natação. Ele chegou a ser cotado para as olimpíadas.
— Sério? Uau — falei admirada.
— Sim, mas ele teve uma contusão e aí você já viu. Teve que dar adeus a plofissão e voltar pla esse fim de mundo.
— Que triste — falei com pena do tal professor imaginando o quão terrível deve ser ter que abandonar os seus sonhos. — Então, a sua mãe é médica?
Prossegui nossa conversa.
— Sim — ela disse. — O meu pai é "dono de casa"
Ela deu ênfase a essa última frase.
— Como assim? — perguntei com as sobrancelhas arqueadas.
— Meu pai não tlabalha, quer dizer, ele era padeilo, mas aí os negócios não iam bem e ele teve que fechar a padalia. Minha mãe tlabalhava muito e nenhum dos dois tinha tempo pra gente. Eu tenho mais dois irmãos que são mais novos, sabe? Marcos e Matheus, umas pestes — Ela riu. — Meu pai então chegou numa concrusão com a minha mãe, ela continualia no tlabalho e ele ficalia em casa cuidando da gente por um tempo.
— Deve ser legal ter o pai em casa — eu falei.
— Sim. Eu estava ficando uma baleia de tanto comer sonhos com recheio de chocolate. Eu amo sonhos com recheio de chocolate.
Ela falou apaixonada e eu acabei dando uma gargalhada. O jeito que a Laura falava, sua aparência miúda e seus olhos azuis escancarados eram muito engraçados. Eu gostava do jeito dela. Angélica e Helô eram tão sérias. Torci para que Laura virasse minha amiga.
— Eu amo comida — Laura mastigou o purê de batata e revirou os olhos. — Ai, mas não gosto dessa comida!
— Nem eu — eu disse. — Prefiro a comida lá de casa.
— Eu também! O meu pai cozinha muito melhor que a minha mãe. Uma vez ela deixou queimar o peru em preno natal. Nossa ceia foi pizza. — Laura sorriu e eu ri junto com ela, algumas meninas nos observavam curiosas. — E o seu pai?
Ela perguntou e eu estremeci. O meu pai? Bom, ele sonhava com um país mais democrático por isso se envolveu com alguns grupos estranhos e os militares obviamente o pegaram. Prenderam ele. O torturaram e o mataram. E só Deus sabe o que fizeram com o corpo dele. Uau! Isso doeu!
Engoli em seco. Não era bom que ninguém soubesse sobre isso, até porque eu poderia estar errada, não poderia? Tudo isso podia ter sido um sonho ruim. Um pesadelo terrível daqueles que você sonha que está acordado, mas não consegue se mexer. Mas eu sabia que era verdade, mas as pessoas não podiam saber de nada.
— Meu pai morreu em um acidente — falei, por fim. — Ele era um bom homem.
Corri meus olhos pelo prato de ferro ágata. Ele era um bom homem, não era? Ele só queria democracia! Talvez fosse mentira aquilo que os jornais diziam sobre os revolucionários serem terroristas, assaltarem bancos e sequestrarem pessoas. Eu conhecia o meu pai ele jamais faria uma coisa dessas. Ou faria? Uma nuvem de confusão se instalou nos meus pensamentos.
— Eu sinto muito. — Laura falou sem jeito, meio desconfortável com a situação.
— Tudo bem — eu respondi. —Ele está num lugar melhor.
Laura mudou de assunto rapidamente, e começou a tagarelar sobre os professores, e sobre a quantidade de matéria que eu havia perdido nesse um mês que fiquei longe da escola. Ela logo se prontificou para me emprestar os seus cadernos para que eu ficasse a par de tudo e me avisou que logo teríamos provas. Notei que em nenhum momento a palavra " fantasma" foi pronunciada, entretanto aquele estranho episódio no dormitório havia me deixado encucada.
— Quem é monstro? — Minha curiosidade fora mais forte e acabei perguntando de repente.
Laura enrijeceu. Seu rosto doce e amável se tornou frio e assombrado. Ela balbuciou algo com os lábios entreabertos. E então falou ao ver algo que pareceu ser sua salvação daquela conversa.
— Anita! — ela gritou acenando com um riso forçado em seu rosto. — Sente-se aqui.
Virei-me para olhar para a tal garota para quem ela acenava incontrolavelmente. A menina era alta, tinha uma postura arrogante com os seus cabelos longos e negros batendo no meio das costas, uma franja ensebada e cheia cobria suas sobrancelhas grossas e escondiam um pouco dos seus olhos verdes que naquele momento me olhavam com um certo espanto. Ela segurava a bandeja com uma cara de nojo e seus passos eram rígidos e apressados. A garota se aproximou de nós e empurrou Laura para que ela pudesse se sentar. E então me olhou curiosa com um ar de desdém e perguntou:
— Quem é você?
— Essa é a Sofia — Laura falou por mim. — Ela é aluna nova e vai ficar no nosso dormitório. Ela é de São Paulo. — Laura concluiu empolgada.
— São Paulo? — Anita franziu o cenho. — O que faz aqui? A maioria de nós é de Bem-Te-Vi ou no máximo de Jales.
Engoli em seco e respirei profundamente. Retomei o fôlego e contei para ela a mesma história que eu havia contado para Laura, inclusive o fato do meu pai ter falecido e que a minha mãe queria se livrar de mim por um tempo, entretanto Anita pareceu não ter engolido a minha história e ficou me olhando com estranheza, batendo as unhas cumpridas na mesa fazendo um barulho insuportável.
— Interessante — ela por fim falou com aquele ar arrogante e cheio de desdém.
— E você? O que faz aqui? — Era a minha vez de perguntar. Eu não havia gostado nenhum pouco daquela garota e era difícil acreditar que alguém tão legal como a Laura fosse amiga da Anita.
— Eu sou uma Montenegro. Faço parte de uma das famílias mais tradicionais de Bem- Te-Vi. Todas as mulheres da minha família estudaram aqui. Eu também sou nova na escola. Meu pai achou que seria bom para mim manter a tradição da família. — Ela balançou a cabeça e jogou o cabelo para o lado de um jeito irritante.
— Você entrou esse ano? — perguntei.
— Sim. Eu estudava na minha cidade, mas como eu disse meu pai acha que vai ser bom para mim estudar aqui.
Anita tinha uma voz afetada. Eu mal a conhecia e já a achava esnobe.
—Você é de Bem- Te-Vi também, Laura? — inquiri, mudando de assunto.
— Não — ela respondeu. — Sou de Jales.
O jantar continuou e eu só consegui comer o mínimo possível. A comida estava muito salgada e a carne dura. Anita murmurava o tempo inteiro e eu me dei conta de como a sua voz era irritante, mas eu gostava da Laura que devorou todo o seu jantar sem reclamar e no final ainda deixou escapar um arroto alto o que fez todas olharem e cair em uma gargalhada coletiva. Laura deu de ombros e riu com o pessoal, só Anita não entrou na brincadeira e revirou os olhos.
—Vamos morrer de fome desse jeito. — Ela olhou com nojo para a comida.
— Eu falei pra você fazer o mesmo que eu. — Laura começou e depois me olhou e piscou — Eu semple roubo uns dois pães a mais no café-da-manhã assim não fico com fome.
— Ata que você não sente fome — Anita olhou para o prato vazio de Laura.
O sino tocou e todas as garotas levantaram ajeitando a mesa e retirando suas bandejas. Pensei em perguntar sobre o monstro mais uma vez, mas ficou claro que aquele era um assunto desconfortável.
Segui Anita e Laura até o dormitório. Depois fomos até o banheiro nos preparar para dormir. De volta ao nosso quarto, reparei as outras duas camas vazias, pensei em perguntar de quem elas pertenciam, mas antes mesmo que eu pudesse abrir a boca duas jovens entraram no quarto dando risinhos abafados.
Uma delas tinha o cabelo tão escuro quanto o de Anita, ela vestia uma camisola parecida com a minha — branca e de algodão — e as suas madeixas estavam presas em uma trança embutida. Sua pele morena clara era ofuscada pelos seus olhos castanhos e as feições do seu rosto eram gentis.
— Olá — ela falou quando me viu. — Sou Luiza.
Ela estendeu a mão para mim. Graças a Deus nem todas as meninas daquele lugar eram como Anita.
— Prazer, Sofia. — Retribui a gentileza.
A outra garota me encarava curiosa e me deu um meio sorriso.
— Eu sou Cida. — Ela acenou do outro lado do quarto.
Cida era negra, talvez a única negra do internato. Seus cabelos eram crespos e estavam presos em um rabo de cavalo apertado. Assim como Anita, ela era alta e magra, entretanto Cida tinha um porte de bailarina igual ao da minha mãe, com uma postura ereta, elegante e delicada. Ela era linda.
—Você é de onde, Sofia? — Luiza perguntou. — Achei que mais ninguém viria.
— Sou de São Paulo. Meu pai morreu em um acidente e a minha mãe me mandou pra cá.
— Uau! — Luiza exclamou admirada — Simples e direta. Gosto assim.
Eu sorri para ela. Não queria ficar repetindo aquela mesma história o tempo todo. Pensar em casa era doloroso demais.
— Bom, Sofia — Luiza falou. — Eu sou de Bem- Te- Vi. Tenho dezoito anos, meu pai é engenheiro e minha mãe foi embora de casa quando eu tinha oito anos. Ela estava cansada de apanhar do meu pai toda vez que ele não tinha gostado da comida, e acredite, o meu pai nunca gostou da comida da minha mãe.
Luiza piscou para mim e sorriu. Nossa! Simples e direta! Gaguejei um pouco, o que dizer para alguém cujo o pai batia na mãe?
— O seu pai é um babaca — falei tão naturalmente que logo cobri a boca envergonhada. Luiza, Laura e Cida riram e Anita pareceu chocada.
— Tudo bem — Luiza falou ainda sorrindo. — Ele é o pior dos cretinos. Quando ele me mandou pra cá eu dei graças ao bom Deus. É melhor viver em um lugar mal-assombrado do que aturar o meu pai.
— Assombrado? — perguntei e notei que todas elas se entreolharam rapidamente.
— Nós sabemos o porquê do seu pai ter te mandado pra cá — Anita disparou interrompendo a minha pergunta.
— Você devia cuidar mais da sua vida, Anita — Luiza revidou.
— A sua vida é mais interessante que a dela Luiza, por isso ela se intromete tanto — Cida falou de um modo severo.
— A minha vida pode não ter tantos acontecimentos, mas pelo menos eu não sou uma vadia igual a Luiza — Anita revidou de um jeito cruel.
Luiza olhou furiosa para Anita e Laura correu para segurá-la evitando assim que ela avançasse.
— Deixa-a, Luiza — Cida disse de um jeito tranquilo. — Você já devia estar acostumada com os comentários maldosos de Anita.
— Eu e Cida estudamos com a Anita no ginásio. Estamos acostumadas com essa cobra — Luiza falou olhando diretamente para mim.
Anita não pareceu se importar com a ofensa de Luiza e começou a pentear os seus cabelos lisos, extremamente calma. Eu vi um sorriso de satisfação aparecer no canto dos seus lábios.
Cida deitou na cama e se cobriu com o cobertor de lã marrom. Luiza me olhou e se aproximou de mim sentando-se do meu lado na cama.
— Eu sinto muito — eu disse um pouco sem jeito.
— O seu pai? Ele era legal? — Luiza mudou de assunto com um sorriso murcho nos lábios.
— Sim. Muito — falei me lembrando do rosto gentil do meu pai. — Ele era louco pela minha mãe.
E como era. Ele nunca fora grosseiro com ela mesmo eles sendo duas pessoas diferentes.
— Então parece que só você e a Laura tiveram sorte com pais.
— Ei! — Anita gritou tacando a sua escova de cabelo em Luiza, por sorte não a atingiu — O meu pai é um bom homem também.
Ela rugiu feito uma leoa.
— Sei — Luiza falou em um tom de deboche. Anita estava vermelha e o seu rosto pareceu arder. — O coronel Paulo César Montenegro Rangel um bom homem? Sei...
Anita ameaçou dizer algo, mas ao invés disso ela resolveu guardar seu punho cerrado, mesmo bufando feito um touro pronta para atacar Luiza se necessário. Porém, Anita se virou logo e se cobriu.
Rangel. Um estalo de memória apareceu subitamente. Eu já vi esse sobrenome em algum lugar? Mas aonde?
Melissa Rangel
1950- 1968
Filha amada e querida.
Claro! Era o sobrenome da moça que fora assassinada pelo suposto fantasma. Ela era filha de um coronel. Meu estômago embrulhou só de pensar em militares. A lembrança de um homem de farda fazia me lembrar do meu pai.
Mas o que Anita tinha haver com Melissa? Elas eram irmãs? Pensei em perguntar a Luiza, mas o sino tocou e ela correu para a sua cama. As luzes se apagaram e eu me deitei naquela cama velha e fedida. Lá fora o vento uivava e a chuva molhava a janela. O canto de uma coruja ecoava contra a copa de árvores que circundavam o internato. Rezei um pai nosso mentalmente. Estava tudo bem não estava? Me encolhi na cama procurando me esquentar. O dia havia sido longo. Mas então o mesmo gemido que havia feito o meu corpo estremecer mais cedo reapareceu mais longo e mais doloroso. Pelo jeito a noite também seria longa.
— Boa noite — Laura desejou a todas nós enquanto os gemidos de dor batiam contra as paredes do internato. — Que Deus nos ploteja.
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