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CAPÍTULO NOVE:O meu novo professor


"Eles torturaram o meu irmão, Sofia. Eles bateram nele antes de matá-lo. Queriam arrancar informações dele, mas o meu irmão não sabia de nada. Ele não fazia parte de nenhum grupo comunista. Um colega de cela que teve a sorte de ser solto nos contou o que os militares fizeram com o meu irmão. Eles o prenderam em um pau-de-arara e deram choques nele. Bateram nele. E até tentaram afogá-lo".

Acordei com a voz de Angélica sussurrando nos meus ouvidos. Um cheiro podre invadiu as minhas narinas e o meu rosto se contorceu com a podridão do ar. Eu estava em um corredor estreito, escuro, tive que escancarar os olhos para poder enxergar. Abaixo do meu corpo um chão de cimento congelava a minha pele e um arrepio subiu pelas minhas costas.

Aquele não era o corredor do internato. Inclinei o meu corpo e olhei ao meu redor várias celas com grades de ferro podre se estendiam até o fim do corredor. Levantei lentamente. Meu corpo encharcado de suor. Passei as mãos pelos meus cabelos que estavam úmidos por causa do líquido que eu liberava. Minhas mãos trêmulas se agarraram a barra da minha camisola de algodão. Olhei mais uma vez para as celas vazias. Todas elas com um colchão velho e furado abandonado no chão áspero. Sem ao menos um lençol. Ao lado um vaso de cimento e uma pia de concreto. Tudo assim bem escancarado.

Continuei me arrastando até o fim do corredor. O cheiro foi se tornando cada vez mais forte. Um odor metálico de sangue e um barulho que vinha da última cela a minha direita. Gritos. Gemidos. E mais gritos de dor acompanhados de uma risada maléfica e estridente que parecia se divertir com os grunhidos. Quanto mais perto da cela, mais gritos eu ouvia, e mais o meu coração pulava dentro de mim. Não vá até lá. Mas eu fui. Mesmo com o aviso do meu coração. Mesmo com um arrepio de morte que se alastrava pelo meu corpo arqueando os pelos do braço e os cabelinhos enrolados da nuca. Mesmo com a garganta seca e a língua dolorida. Aproximei-me mais e estalos de cassetete foram ficando cada vez mais audíveis. O que eu fazia ali? Como faria para fugir?

Apoiei minhas mãos na grade fria. O metal áspero contra a minha pele. Minhas mãos o apertaram ainda mais forte quando eu vi dois homens. Um de farda e outro de roupa social se divertindo torturando o meu pai. Os homens tinham um rosto frívolo. Um borrão se formou em suas faces e eu não pude enxergar nitidamente os seus traços. Os seus risos cheios de escarnio bateram nos meus ouvidos e um tremor se apoderou do meu corpo. Escancarei os olhos. Meu pai estava pendurado em uma barra de ferro, com ambos os punhos atravessados e presos a dobra do joelho. Meu pai estava nu e o seu rosto vermelho encharcado de sangue que banhava não apenas a sua face como também pingava no chão como gotas de água escapando de uma torneira. Tapei os olhos imediatamente ao ver o meu pai naquele estado. Pressionei a palma da mão no meu rosto e estreitei os meus olhos. Me encurvei e me ajoelhei no chão com uma das minhas mãos presas na grade deslizando no metal frio.

As lágrimas queriam sair e eu recusei abrir os meus olhos e ver o meu pai apanhar, gritar de dor, gemer a cada estalo que o cassetete batia em sua pele pálida. Meu coração foi se afundando no meu peito. A voz foi sumindo e eu tentava grunhir, dizer algo. Soluços escapavam dos meus lábios.

— Parem... — forcei a minha voz a sair. — Por favor, parem — sibilei.

Mas ninguém me escutava. Eles batiam no meu pai com força. O torturavam de um jeito cruel, meu corpo tremia. O lugar cheirava morte. Meu pai gemia de dor. Ele estava sofrendo e com ele eu sofria também.

— Parem! — eu gritei abrindo os olhos e encarando furiosa os homens sem rostos. Uma súbita fúria invadiu as minhas veias. Uma onda de ódio subiu pela minha face fazendo eu ficar furiosa o bastante para o meu rosto arder e o meu peito inflamar. Ódio. Eu odiava eles. Se não fosse pelas grades que nos separavam eu pularia neles e arrancaria os seus olhos. Eu os mataria de forma lenta e dolorosa. Eu os faria sofrer. Arrancaria a língua venenosa de cada um deles e os faria engolir para que tomassem do próprio veneno. Eu nunca havia sentido raiva, mas eu gostei de odiá-los. Gostei de sentir o ódio em cada gota do meu sangue, pulsando em minhas veias. Se eu pudesse eu os machucaria, mas é claro que eu não podia. A única coisa que consegui foi ficar parada ali, chacoalhando as grades da cela furiosa, tempestuosa com os meus cabelos batendo contra o meu rosto, gritando para que eles parassem de o machucar.

— Parem! Parem! Parem! — Era uma dor terrível. Excruciante.

Então acordei na minha cama do internato. Ainda com muita adrenalina no meu corpo, batendo em um homem velho gritando "parem". O homem segurou os meus pulsos e chacoalhou-me para que eu pudesse "acordar".

— Sofia! Pare! Está tudo bem! — ele pediu aos gritos.

Um certo alivio pairou em mim. Fora um pesadelo. Daqueles pesadelos horríveis que eu carregaria para o resto da vida. Eu suspirei cansada, com os olhos molhados enquanto todo o pavor se dissipava do meu corpo. O homem sorriu quando viu que eu estava mais tranquila. Ele era um senhor que aparentava ser de baixa estatura, sua pele branca era enrugada e os seus olhos castanhos gentis demais, ele devia ter quase a mesma idade do meu avô o que me reconfortou um pouco.

— Não tivemos o prazer de nos conhecer. Sou o padre Lazaro. Diretor do internato — ele disse de um jeito amável.

— Prazer — falei sem jeito.

— Suas colegas de quarto me chamaram depois que viram você desmaiada no corredor. — Olhei ao meu redor e reconheci as faces preocupadas de Laura, Anita, Cida e Luiza sobre mim. — Você nos assustou.

O padre sorriu novamente. "Não mais que eu fiquei assustada" pensei.

Monstro. Lembrei-me. Os olhos dele saltando do rosto coberto pelo saco de estopa.... Aqueles olhos indecifráveis. Eu vi um fantasma, então o medo voltou a pulsar no meu corpo.

— Eu...Eu... Eu o vi — falei com muito esforço, tentando umedecer os meus lábios secos. — Eu vi o Monstro.

O padre enrijeceu e me olhou preocupado, ponderou silenciosamente com a testa franzida.

— Não existe nenhum Monstro. São apenas histórias. Sua imaginação te enganou. Sabe, a mente pode ser perigosa as vezes.

— Não. — Defendi-me. Aquilo era real, eu o vi. — Ele existe sim. Ele vive aqui conosco no internato.

— Fique calma. — O padre chamou a irmã Matilde e me entregou um copo d'água. — Beba tudo e se acalme.

Eu o obedeci. A água desceu queimando as minhas entranhas. Engasguei, mas mantive as minhas mãos trêmulas presas ao copo.

— E a garota ruiva que estava comigo no corredor? — perguntei.

— Sarah? Ah! Ela está bem, está descansando. E você deve fazer o mesmo. — ele ordenou. — Falta umas duas horas para o amanhecer. Aproveite e descanse bem. Foi só um sonho ruim.

Deitei na cama e estiquei bem o meu corpo. Não foi só um sonho ruim. Monstro era real e o meu pai havia sido torturado.

O padre partiu com a irmã. Ele e ela estavam calmos demais. Não acreditaram em mim. Não acreditavam em nenhuma de nós. As meninas voltaram para as suas camas. Laura me olhou curiosa, e por um momento eu pensei que ela fosse me perguntar sobre o Monstro, mas Anita olhou feio para ela e todas foram dormir. Era melhor assim, eu não queria desperdiçar o resto da madrugada falando sobre o meu encontro com a assombração. Meu corpo e a minha cabeça ainda estavam extasiados por conta das várias emoções que eu passara. Mesmo assim eu tinha que concordar com os meus sentimentos, nada era mais assustador e tenso do que ver o meu pai sendo morto. Nada. Nem mesmo um fantasma vestido de palhaço.

*

Eu não consegui dormir. Passei as duas horas restantes me remexendo na cama. Levantei em sobressalto quando senti um raio de sol bater em minhas têmporas. Abri os olhos. O dia iria ser longo ainda mais quando não se dormiu nem um pouco.

Os acontecimentos da madrugada ainda martelavam na minha cabeça. Afastei o cobertor e me levantei antes mesmo que o sino soasse e acordasse todas as garotas.

Passei as primeiras horas do dia fugindo delas. Sentei-me sozinha em um canto escondido para que ninguém pudesse me ver. Meu estômago roncava de fome e devorei o café da manhã. Notei que todas as garotas me olhavam curiosas e um pouco assustadas, decerto elas sabiam que eu havia visto o Monstro, eu era o assunto delas agora. Me senti como no ginásio em que me encolhia no canto da sala e ficava sozinha até a hora de ir embora. Foi um milagre ter feito amizade com a Angélica e com a Helô, mas agora eu não tinha mais o meu quarto e o espaço aconchegante da minha casa para fazer de refúgio. Eu estava presa naquele lugar frio e com espíritos ruins.

Tentei parar de me acovardar. No caminho para a sala endireitei os ombros e caminhei de cabeça erguida. Deixei que falassem de mim, mesmo que fosse um incômodo. Procurei os cabelos ruivos de Sarah no corredor, mas não a vi em lugar nenhum. Pensei que pudéssemos conversar já que dividimos o mesmo sentimento de pavor na noite passada ao olhar para os olhos cinzentos e mórbidos de Monstro.

Entrei na sala de aula e senti todos os olhares presos em mim, me inspecionando, analisando cada detalhe do meu rosto, cada movimento que eu fazia. Ouvi cochichos ecoarem pela sala enquanto eu caminhava até a última carteira ao lado da janela, atrás de Anita.

Laura me olhou e me deu um rápido sorriso. Ela estava sentada em uma carteira próxima de Anita que me ignorava e escrevia freneticamente algo em seu caderno. Cida e Luiza estavam do outro lado da sala, bem perto da porta rindo de algo que a freira — que imaginei ser uma das professoras — tinha acabado de dizer.

Irmã Florência. Ela falou assim que me obrigou a me apresentar para toda a sala. Juro que naquele momento senti minhas bochechas queimarem e gaguejei um pouco ao dizer o meu nome. Eu estava acovardada. Morta de vergonha. Todas elas sabiam que a minha tentativa de ser corajosa na noite passada não dera muito certo. E que agora eu era a garota que tinha visto o Monstro.

OSPB. A irmã escreveu essas letras na lousa e começou a tagarelar sobre a importância da bandeira nacional e o quanto era importante nós sermos patriotas. O discurso dela era o mesmo da minha antiga matéria no ginásio: Educação Moral e Cívica. As duas matérias eram altamente desnecessárias. Deitei minha cabeça na carteira e tirei um cochilo. Só despertei quando o sino tocou e a irmã Florência foi trocada por outra freira que eu não prestei atenção no nome. Economia doméstica. Outra aula inútil.

A manhã passou rápido e eu praticamente dormi em todas as aulas. E o pouco que fiquei acordada escrevi na mesa com um estilete:

Sofia esteve aqui.

Como eu sentara no fundo, logo atrás dos longos cabelos negros de Anita ninguém percebera. O sino do meio dia tocou anunciando o almoço e todas as meninas correram para o refeitório feito animais enquanto a irmã Matilde gritava no corredor pedindo para que nos comportássemos. Abandonei os meus livros e cadernos na sala de aula. Minhas costas estalaram quando eu me levantei por último e me espreguicei dolorida por ter ficado na mesma posição a manhã inteira. Vi irmã Matilde conversando duramente com Cida enquanto Luiza corria para os fundos do prédio central em direção a piscina.

Caminhei até o refeitório e pensei em me sentar com Laura que foi a única que havia sido simpática comigo naquela manhã, mas afastei tais pensamentos ao avistar Anita com os olhos frios em cima de mim. A boca dela formara uma linha fina e ela enrolava uma mecha do cabelo presunçosamente. Ela não gostava de mim, mas tudo bem o sentimento era recíproco.

Pensei em puxar conversa com outras garotas que não fossem do meu dormitório, mas eu não sabia como me intrometer gentilmente na conversa alheia, visto que todas ali já tinham os seus grupinhos. Solidão. Me senti sozinha, tola e fraca. Ninguém parecia querer ser minha amiga e eu era a azarada que tinha visto o fantasma. Ninguém me perguntara sobre o Monstro. Talvez ninguém quisesse tocar nesse assunto.

Eu não queria ficar sozinha ali. Não naquele lugar cuja as paredes eram sombrias e carregavam segredos terríveis e ecos de dor. Eu sentia que a todo momento aquele par de olhos estavam grudados em mim como um lobo gruda em sua presa. Ele me observava. Via cada detalhe. Cada movimento brusco que eu fazia. Senti um nó no peito. Não consegui me mexer. Ele devia estar me olhando agora. Me observando mastigar lentamente a comida horrenda da Carlota. Meu Deus. Eu estava ficando paranoica. Espantei tais pensamentos e corri os meus olhos pelo salão a procura de Sarah, mas em momento algum eles avistaram os cabelos vermelhos dela no meio daquela pequena multidão de garotas.

As aulas a tarde foram tão entediantes, mesmo agora que eu não tinha mais sono.

Então a aula de artes chegou e cochichos reverberaram os meus ouvidos quando um homem de rosto quadrado, vestido em calças folgadas, botas de couro marrom velha e uma camisa branca com listras pretas que realçava os seus olhos negros adornados por longos e espessos cílios e uma sobrancelha cheia e negra adentrou na sala, com um case de madeira de violão a tira colo. Um rubor subiu pelas maçãs do seu rosto quando ele ficou diante da turma. Abandonou o violão na mesa e estufou o peito e colocou as mãos grandes no quadril. Ele era alto e os seus braços eram delineados pela camisa, os longos cabelos escuros e cacheados que batiam na nuca eram rebeldes e cheios de frizz no topo da cabeça. Ele sorriu mostrando uma fileira de dentes brancos e perfeitos. Ele era jovem demais para um professor. Olhei ao meu redor as meninas estavam em polvorosa, cochichando e dando risinhos abafados. Luiza era a mais animada de todas. Ela segurou sua face dourada com uma das mãos, uma penumbra cobriu o rubor do seu rosto. Eu a vi sorrindo para ele como se o homem ali diante de nós fosse James Dean.

— Meninas — ele começou a falar, sua voz era suave e de certa forma senti os meus ouvidos sendo acariciados pelo som delicado que ela produzia —, a professora Elaine não dará mais aulas de artes, por motivos... de saúde.

Um murmúrio atingiu a sala de aula. As alunas se entreolharam e falaram baixinho sobre algo que pareceu ser terrível pelas suas faces amedrontadas.

O professor pigarreou alto ao ver as meninas incontroláveis. Até que os murmúrios se cessaram e todos os olhares me atingiram de modo certeiro. O professor me olhou pela primeira vez. Seus olhos se fixaram no meu rosto. Agora quem estava vermelha era eu. Os lábios dele se curvaram em um sorriso. Encolhi-me na carteira morta de vergonha.

— Aluna nova? — ele perguntou e eu assenti, ele mordeu o lábio inferior e balançou vagarosamente a cabeça. — Como se chama?

— Sofia — a voz falhou e saiu como um gato doente miando.

— Seja vem vinda, Sofia — ele me desejou animado cruzando os braços sobre o peito largo. — Eu sou Lucas, sou professor de natação e agora de Artes.

Lucas. Laura havia me falado dele na noite anterior. O nadador que havia tido uma contusão e que agora era professor. Ele desviou o olhar ao notar meu desconforto e prosseguiu.

— Bom, vamos aproveitar que a irmã Matilde saiu agora a tarde, para fazer uma aula bem diferente.

Luiza ergueu a mão. Ela mantinha os olhos fixos no professor o admirando. Lucas parecia não gostar dos olhares dela, pois o tempo todo a evitou e ignorou o braço dela balançando no ar.

Então Anita falou abruptamente:

— Você é habilitado para dar essa aula?

Lucas a olhou com ar de quem não havia gostado do tom arrogante da garota.

— Sim — ele respondeu pacificamente. — Sou formado em música apesar de a minha paixão ser a natação.

— E ser formado em música te dá o direito de ser o nosso professor? — Ela arqueou uma sobrancelha o desafiando. Luiza a olhou irritada e Anita lhe lançou um olhar e um sorriso cheio de escárnio.

Lucas suspirou profundamente.

— Acredito que tenho capacidade o suficiente para conduzir essa aula. Fique tranquila Anita, você não será prejudicada em nada.

Ela assentiu e encostou as costas no encosto da cadeira de modo presunçoso.

— Fico feliz em saber que o "senhor" é adequado para essa matéria. Algumas alunas aqui pretendem ir para a faculdade e para isso é preciso passar nos exames que não são nada fáceis. Meu pai paga muito caro para que eu tenha uma excelente educação.

— Garanto que você recebera a melhor educação do mundo. — Havia uma certa impaciência na voz dele.

Luiza olhou novamente para Anita e mostrou a língua para ela. Anita retribuiu com uma careta. Lucas pigarreou alto para que aquela cena ridícula terminasse. Ele abriu a case e retirou de lá um violão cuja a madeira brilhava. Lucas começou a dedilhar as cordas de nylon. Luiza e outras garotas suspiraram apaixonadas enquanto ele tocava uma melodia desconhecida. Ele realmente era bastante afinado.

— Na aula de hoje eu irei cantar para vocês. — Um sorriso brincalhão se formou em seus lábios rosados. — Mas, vocês terão que interpretar a letra da música.

Anita ergueu a mão impaciente.

— Diga, Anita — Lucas pediu, mas eu vi que ele tentava não revirar os olhos desconfortável com as perguntas nada simpáticas de Anita.

— O que isso tem a ver com artes? — ela instigou, sua voz era áspera como um arame farpado.

— Isso tem tudo a ver com artes. — Ele balançou uma das mãos no ar enquanto a outra segurava o violão. — Música é arte, e as letras das músicas são poesias, e poesia é arte. A escrita é uma arte.

— Assim como o cinema? — Cida perguntou baixinho.

— Sim, Cida. O cinema também é uma arte. — Ele deu uma piscadela para ela. Luiza que estava ao seu lado quase teve um surto ao ver que a amiga conseguiu chamar atenção do professor.

— E o que o senhor vai cantar? — Laura inquiriu enquanto Anita fitava o professor com uma expressão de desdém.

Pra não dizer que não falei das flores do Geraldo Vandré.

Lucas deixou o violão novamente na mesa e esticou os braços e estalou os dedos e fez um alongamento rápido sorrindo para as meninas que o observavam atentamente, absorvendo cada detalhe dá risada brincalhona que a sua boca grossa brotava.

— Prestem atenção na letra dessa música. É importante — ele disse e eu imediatamente pensei que ninguém prestaria atenção na letra, mas sim nele.

Lucas começou a dedilhar as cordas do violão. Uma melodia foi surgindo e ecoando pelas paredes.

Fechei os olhos tentando absorver cada palavra que saia de seus lábios em forma de música.

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Pelos campos há fome

Em grandes plantações

Pelas ruas marchando

Indecisos cordões

Ainda fazem da flor

Seu mais forte refrão

E acreditam nas flores

Vencendo o canhão

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Há soldados armados

Amados ou não

Quase todos perdidos

De armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam

Uma antiga lição

De morrer pela pátria

E viver sem razão

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Somos todos soldados

Armados ou não

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Os amores na mente

As flores no chão

A certeza na frente

A história na mão

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Aprendendo e ensinando

Uma nova lição

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Quando Lucas terminou de cantar as garotas suspiravam pelos cantos e falavam baixinho a respeito dele. A voz do professor era suave, gostosa e acalmou os meus nervos de uma tal maneira que eu queria que ele cantasse novamente. Ele realmente poderia ser um cantor, e eu não era a única que achava isso.

— Bom, agora eu quero que vocês escrevam em uma folha para entregar qual é o significado dessa música. O que vocês de fato entenderam — ele disse tranquilamente enquanto se sentava na cadeira de professor.

— Mas eu já esqueci a letla — Laura falou com um sorrisinho nervoso no rosto.

Lucas balançou a cabeça a repreendendo gentilmente e disse que iria colocar a letra da música na lousa.

— Vocês não podem contar pra ninguém sobre a nossa aula de hoje — ele ponderou seriamente. — Esse será o nosso segredinho.

Ele piscou e as meninas assentiram, menos Anita que estava com os braços cruzados observando a caligrafia torta e feia que o professor havia escrito na lousa.

Meus olhos se fixaram na letra. Não era uma música estranha para mim. Eu já havia escutado no rádio quando passava as tardes de verão intercalando a leitura de Dom quixote com rádio novelas. Segurei firmemente o lápis e escrevi o que eu havia entendido. Papai dizia que a música era uma arma, que a arte em si era uma forma de protesto e foi isso que eu havia entendido daquela canção. Demorei um tempo para conseguir encontrar as palavras certas, mas a minha garganta estava seca e o meu estômago doía pensando no pesadelo que eu tivera com o meu pai.

A música de Geraldo Vandré é uma forma de protesto contra o governo. O verso "Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não" significa as passeatas que as pessoas fazem, as manifestações contra as atitudes que os nossos governantes têm tomado. A música inteira é uma forma de protesto contra a situação atual do nosso País, contra os militares que torturam pessoas, contra a censura, contra a democracia.

O sino tocou e as garotas se levantaram e entregaram as suas folhas para o professor. Aproximei-me dele tremendo. Lucas pegou a folha branca das minhas mãos e me olhou profundamente, ele parecia curioso.

— O que achou da aula? — ele perguntou.

— Foi boa — falei baixinho, morrendo de vergonha por estar falando com ele. Eu nunca falei muito com garotos, muito menos com um homem feito o Lucas.

Fui caminhando lentamente para fora da sala. Eu vi por cima dos ombros que ele já estava lendo o meu trabalho, com uma das mãos no queixo e os lábios levemente curvados em um sorriso.

*

Depois do banho era o horário de estudos e todas correram para a biblioteca. Mais um dia se fora. Estava indo para lá também quando senti uma mão se fechar no meu ombro. Era a irmã Matilde.

— O padre Lazaro quer conversar com você.

Eu assenti e a segui até o gabinete que ficava na casa paroquial. Não havia muito a se dizer do lugar. A casa era antiga. A madeira que sustentava os meus pés estava frouxa e os móveis empoleirados. Entrei no gabinete e lá estava o padre todo de preto de colarinho romano. Ele sorriu para mim e acenou para que irmã Matilde nos deixasse a sós. Sentei-me em frente ao padre e ele falou:

— Como você está? — inquiriu. — Está se sentindo melhor?

— Sim — menti, eu estava ficando boa em contar mentiras e não me orgulhava disso.

— Você vai se acostumar. Vai ver como vai gostar daqui.

O padre abriu um enorme sorriso. Ele sem dúvidas era mais otimista que eu.

— Obrigada — falei. — Tomara.

Eu sorri sem jeito. Se ele soubesse quão boa eu era em fazer amigos.

Ele pigarreou e emendou outro assunto.

— Como estão os seus pais? Eu os vi no ano passado. Sua mãe parecia estar nervosa.

Eu tinha descoberto através da irmã Matilde que a minha mãe tinha vindo até o internato, mas eu não sabia que ela tinha vindo com o meu pai. Um estalo de memória, no fim do ano passado minha mãe viajara, já meu pai nunca estava em casa mesmo.

— O senhor conheceu os meus pais? — perguntei a ele.

— Sim. Conheço sua mãe desde menina.

— É mesmo? — Ergui uma sobrancelha curiosa.

— Sim, durante anos fui amigo do seu avô. — Ele sorriu sua expressão era nostálgica. — Eu tinha dezoito anos quando saí da Itália e vim para o Brasil. Era 1923. Mussolini tinha acabado de se tornar ministro. Ele foi um ditador. Minha família era de origem judia. Fomos todos para o Brasil, acho que estávamos adivinhando o que aconteceria se ficássemos lá. Quando chegamos fomos acolhidos pela família do seu avô. Morávamos aqui em Bem-te-vi. Então seu avô conheceu Clarissa, sua avó, e eles se casaram. Clarissa foi a mulher mais incrível que eu já conheci.

O sorriso desapareceu do rosto do padre quando disse o nome da minha avó. Ele pareceu abandonado em seus pensamentos.

— Minha avó já estudava aqui quando conheceu o meu avô? — inquiri.

— Sim. — Ele se lembrou da minha presença e ergueu a cabeça. — Logo depois que eles se casaram eles se mudaram para São Paulo e eu fui para o seminário. E depois sua mãe veio estudar aqui e agora você.

Ele voltou a sorrir animado.

— Vocês são muito parecidas. Como eles estão?

Hesitei um pouco me preparando para dizer a mesma história de sempre.

— Aconteceu um acidente e o meu pai faleceu no começo do ano, mas a minha mãe está bem, acho.

O padre Lazaro levou as mãos a boca com os olhos cheios de espanto e praguejou baixinho.

— Puxa! — ele exclamou assustado com a expressão de quem estava pensando no que dizer. — Eu.... Eu sinto muito, Sofia. — Notei um leve sotaque, mas era tão sutil, esse detalhe passara despercebido.

— Tudo bem. Eu estou bem. — Não. Eu não estava bem.

— Eu realmente sinto muito. O seu pai era um homem muito bondoso, Sofia. Ele está no céu com Deus agora. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados".

Ele disse essa última frase como se soubesse o que acontecera com o meu pai. Parecia estar perdido com o olhar distante e vago.

— Se precisar de algo é só falar comigo — ele falou assim que pareceu ter acordado dos seus devaneios.

— Eu preciso de algo sim — falei me aproveitando de sua proposta.

— O que seria?

— Posso ligar pra minha mãe? Estou com saudade de casa. — Pedi do jeito mais amável possível. Eu queria ouvir a voz dela, e saber se ela estava bem. Pensei que o momento seria oportuno já que o padre acabara de saber que eu ficara órfã de pai.

Ele hesitou um pouco e coçou a cabeça, mas por fim deixou e apontou para o telefone que estava em sua mesa. Passou as mãos nos fios grisalhos que adornavam o seu rosto e suspirou cansado com as pernas cruzadas. O olhei um pouco tímida. Então ele assistiria toda a minha conversa com a minha mãe? Ok.

Abri a minha bolsa que estava pendurada no meu ombro, amontoada de livros das matérias de hoje, e peguei o pequeno pedaço de papel dentro da carteira com o número novo de minha mãe. Percebi que precisava anotar aquele número em algum caderno.

Disquei todos os números no telefone e comecei a roer as unhas ao notar que ninguém me atendia. O padre Lazaro pegou o jornal e fingiu estar interessado em uma matéria, porém notei seus olhos curiosos e os seus ouvidos atentos pelo canto do jornal.

— Alô. — Uma voz masculina ecoou no telefone de repente e o meu coração deu um pulo. — Quem é?

— Sou Sofia — falei nervosa. — Eu gostaria de falar com a Clara.

— Não tem nenhuma Clara aqui. — O homem falou com certa pressa. Nome falso é claro. Minha mãe devia estar usando um nome falso.

— Por favor, diga que a ela que a Sofia ligou.

Desliguei o telefone antes que o homem pudesse dizer algo. Praguejei baixinho porque não consegui falar com a minha mãe e o fato de o padre Lazaro estar presente dificultou que eu pudesse revelar mais coisas ao homem. Lembrei-me de uma conversa dos meus pais antes do meu pai "viajar" "Eu até usei um nome falso" o meu pai havia dito. Pelo jeito agora era a minha mãe que utilizava desse artificio para se esconder. Mas com quem ela estava? E aonde? Isso se ela realmente estava lá. Afastei os meus pensamentos e tentei ser positiva. Tudo tinha que ficar bem.

Dei um sorriso amarelo ao padre e ele inclinou a cabeça para o lado e acenou.

— Ela não estava em casa, mesmo assim obrigada — falei baixinho e saí do gabinete dele.

Quando eu saí da casa paroquial, a noite já havia beijado o céu e a lua brilhava sobre as árvores. Então fui surpreendida por Cida.

— Ah! Ai está você — ela disse como se estivesse me procurando a séculos.

— Oi — falei um pouco curiosa com a sua súbita presença.

— Você tem se escondido de nós o dia inteiro — ela reclamou enquanto me acompanhava até o prédio central.

— Desculpa — eu disse —, mas parece que é o contrário já que nenhuma de vocês se aproximou de mim — defendi-me.

Cida me olhou nervosa pronta para rebater as minhas palavras, mas suspirou e disse:

— Tá chega de dramas. — Ela encarou os pés. — Você pode andar comigo e com a Luiza se quiser. Não te vimos no almoço, por isso não te procuramos. — Ela enfatizou a uma última frase.

Dei um meio sorriso feliz ao ver que elas me queriam como amiga.

— Vocês não são amigas da Laura e da Anita? — perguntei.

— Só da Laura — Cida falou tranquilamente. — Ela é legal. É uma pena que a Anita tenha enfiado aquelas garras de bruxa nela.

— Verdade — concordei rindo. — Laura é legal demais pra ser amiga da Anita, não sei como ela consegue.

— Laura enxerga o melhor das pessoas. Anita pensa que é popular, mas a verdade é que as pessoas só falam com ela por causa da Laura.

Invejei Laura por isso. Eu queria sempre poder ver o lado bom de todo mundo, mas eu não conseguia ignorar o fato de Anita ser tão fria, e olha que eu só a conhecia pôr algumas horas.

— Anita é parente da Melissa Rangel? — perguntei a Cida sobre essa curiosidade que estava me torturando.

Cida parou de caminhar e arregalou os olhos. Havia surpresa e um pouco de choque em seu rosto.

— Como sabe sobre Melissa?

Contei a ela sobre o túmulo que eu havia visto ontem.

Cida hesitou por um momento, deu a volta e começou a caminhar em uma direção oposta ao prédio central, eu a acompanhei.

— Sim — ela respondeu a minha pergunta. — Anita é irmã de Melissa. E suas suspeitas estão certas. Melissa foi o grande amor da vida do Monstro. É, até que você é bem esperta. — Cida sorriu pra mim, eu ri. — Isso dá Anita estudar aqui depois de tudo... é muito estranho... tem alguma coisa errada.

— Como ela era? — perguntei me referindo a Melissa. — Você a conheceu?

— Eu a vi algumas vezes. Eu estudei com a Anita no ginásio, e a Melissa foi eleita miss Bem-Te-Vi.

— Ela era bonita? — perguntei curiosa.

— Muito. Anita não tem nem a metade da beleza da irmã. Melissa era alta, magra, mais tinha umas curvas, cabelo bem loiro, olhos grandes e azuis e um rosto de porcelana. Marilyn Monroe. Ela era tão bonita quanto a Marilyn.

— Uau! — exclamei, deve ser por isso que ele se apaixonou por ela.

Cida se virou para mim e me olhou atentamente.

— Vocês se parecem — ela disse. — De longe são idênticas. A diferença entre vocês são os olhos e a altura. Melissa era bem mais alta e você tem olhos castanhos.

Fiquei um pouco sem jeito com a comparação e franzi a testa.

— E o Monstro? Você o conheceu?

— Não — ela disse. — Mas dizem que ele era meio estranho. Bonito, mas estranho, peculiar talvez. Você o viu ontem, não foi?

Assenti.

— Eu já imaginava, mas não vou perguntar nada sobre isso, você já deve estar traumatizada o bastante. — Ela sorriu. — Mas falei com a Sarah.

— E o que ela disse? — perguntei curiosa.

— Ela disse que não estava com medo de Monstro. Que ele a salvou.

— O quê? — falei chocada.

— Bizarro. Eu sei.

Caminhamos mais um pouquinho e chegamos a uma velha torre com a pintura externa marrom desgastada e um enorme sino no seu topo.

— Ela caiu dali de cima. — Cida apontou para a torre. — Dizem que foi o Monstro quem a empurrou.

— E o que você acha? — perguntei sentindo uma lufada de vento gélido atravessar as têmporas do meu rosto.

— Eu não acho nada. O corpo dela flutuou no ar e caiu bem aqui. Aonde nós estamos agora. — Cida me olhou e um leve arrepio se apoderou das minhas costas. Dei um passo para trás.

— É uma pena — lamentei a morte dela.

— Sim, uma pena. Sabe, dizem que ela era meio louca que teve um surto antes de morrer.

— O que ela tinha?

— Dizem que ela estava possuída por algo muito ruim.

No momento que Cida disse essas palavras avistei ao longe os cabelos vermelhos de Sarah balançando. Ela havia saído da casa paroquial acompanhada por um homem que eu deduzi ser o seu pai. Sarah segurava uma mala e caminhava até o prédio central sem olhar para trás. Uma mariposa igual àquela da lanchonete a seguiu até lá.

— Ela está indo embora? — falei para Cida apontando em direção a Sarah.

— Sim, não quer mais ficar aqui. Ninguém quer.

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