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CAPÍTULO DEZ:Livraria dos livros esquecidos

Debrucei-me sobre o peitoril da janela e fiquei observando o sol nascendo no horizonte e engolindo toda a vegetação. Uma fina camada de neblina que havia vestido o solo de prata se dissipava à medida que o sol o alcançava com o seu calor sufocante e com a sua luz espectral.

A noite havia sido tranquila. Nada de gemidos ou barulhos assustadores. A madrugada foi fria e o brilho da lua irradiou o dormitório nos vestindo de prata. Sem Monstro e o principal: sem pesadelos. Foi como se eu tivesse entrado em coma e a única sensação era o vento roçando o meu rosto. Me beijando suavemente.

Era sábado. O tão sonhado e esperado dia livre. Mesmo estando no internato há apenas dois dias. Eu mal podia esperar para experimentar a sensação de liberdade. Poder escapar daquelas paredes sufocantes e daquele véu invisível que revestia o internato de tristeza e pavor. Essa sensação de liberdade me embriagava. E eu formulava algumas ideias do que eu poderia fazer do meu dia. Cida havia sido tão simpática comigo no dia anterior se oferecendo para ser a minha guia turística durante o nosso passeio em Piropó mesmo sabendo que não havia nada naquele vilarejo para ser visto. Luiza havia trocado algumas palavras comigo também, mas a impressão que eu tive era que os seus pensamentos estavam perdidos em algum lugar inebriante que a envolvia de tal maneira que ela parecia perdida, distante demais e completamente desinteressada em nossa conversa. Laura ainda sorria para mim e toda vez que ela tentava se aproximar Anita a arrastava para bem longe.

Anita e o seu grau de parentesco com Melissa Rangel. Talvez isso pudesse explicar o porquê de ela ser tão mau humorada. Eu também seria se fosse obrigada a estudar no mesmo local em que a minha irmã fora assassinada. Tentei afastar esses pensamentos sobre o Monstro e o seu passado que grudavam em mim como um parasita. Eu não iria desperdiçar o meu maravilhoso dia ensolarado pensando naquele par de olhos cinzentos e no seu passado mórbido.

Observei mais uma vez a paisagem granulada que se formara. De longe eu podia enxergar todas as sepulturas enfileiradas e todo o brilho de morte ser arrastado para longe enquanto um feixe de luz trazia vida e cor para o lugar, iluminando as estátuas de anjo debruçadas sobre os calabouços. As nuvens transparentes de modo algum ofuscavam o brilho intenso do azul do céu. Uma brisa quente bateu em minhas têmporas.

— Argh! Feche essa janela. — Anita resmungou com as mãos cobrindo os olhos e o seu corpo se remexendo na cama.

Eu a ignorei e continuei encarando o brilho que se alastrava pelo internato. Um eco espectral saiu do rádio portátil de Cida. Ela ouvia é proibido proibir. Tive a impressão de que essa era a única música que o rádio tocava.

Mesmo aos fins de semana nós tínhamos que acordar cedo. Mesmo o café sendo servido mais tarde. De acordo com Luiza, a irmã Carla era meio desmiolada que tocava o sino sempre nos mesmos horários, não importasse o dia. Por isso estávamos ali, ainda de camisola esperando o horário do café da manhã. Laura foi a única que conseguiu ignorar o sino com muita facilidade e por isso estava dormindo tranquilamente. Eu, porém, tinha um sono leve demais.

— Desliga essa droga de rádio! — Anita se exaltou com Cida que sorria maliciosamente para ela e começou a cantarolar a música em um tom mais alto irritando Anita ainda mais. Luiza se empolgou também ajudando Cida a cantar o refrão. As duas riam e se divertiam em provocar Anita.

Eu digo não.

Eu digo não ao não.

Eu digo.

É proibido proibir.

É proibido proibir.

É proibido proibir.

É proibido proibir.

Luiza e Cida riam cantarolando, felizes por irritar Anita que bufava com as mãos tapando os ouvidos. Eu me juntei a Luiza e a Cida e cantei junto com elas e acabamos fazendo uma pequena guerra de travesseiros nos batendo e rindo feito três hienas desesperadas. Anita se irritou com o barulho e tacou o seu travesseiro em mim. Nós rimos dela e rimos mais ainda quando percebemos o ronco alto de Laura que dormia profundamente enquanto uma baba escorria pelo canto da sua boca entreaberta.

*

O passeio para a cidade ocorria a tarde. Cida me explicou que um ônibus nos levaria até o centro da cidade e que as alunas que não se comportaram bem durante a semana eram proibidas de ir ao passeio. Pela manhã aproveitamos e lavamos as nossas roupas. Cida havia me dito que no domingo a lavanderia era um pesadelo, além disso o tempo instável de Piropó não ajudava muito e que na maioria das vezes as roupas não secavam por completo, obrigando as meninas a usarem o uniforme molhado.

Depois de realizarmos alguns dos nossos deveres domésticos nos juntamos a Anita e Laura na biblioteca, ambas estavam debruçadas sobre os seus livros estudando e discutindo os deveres de matemática. Nenhuma delas se opôs a nossa companhia e Laura me emprestou seus cadernos para que eu pudesse me situar e passar a limpo toda a tarefa perdida.

— Você escreve, Sofia? — Luiza indagou enquanto segurava um grosso exemplar de um livro de história.

— Não — falei —, por quê?

—Ah que pena. Estou procurando alguém para escrever uma nova coluna na minha revista.

— Revista?

— Sim. Ano passado o padre Lazaro pediu para que eu assumisse a diretoria da revista estudantil do colégio. Antes era um jornal, mas as meninas mudaram o formato para uma revista informativa. É um projeto pequeno, sabe? Bem simples e na maioria das vezes um tanto bobo.

— Interessante o projeto de vocês. E o que vocês publicam?

— Nada que seja realmente levado a sério. Laura escreve as receitas de bolo do pai dela. Eugênia que é do segundo ano escreve fofocas de estrelas de Hollywood que ela vê nas revistas de banca de Bem- Te -Vi, geralmente as notícias que ela consegue são muito antigas, mas as meninas acham incríveis já que não temos muito acesso ao mundo lá fora. E tem também a Letícia que escreve sobre moda. Como você pode notar, nada de interessante.

— E você pretende mudar tudo isso?

— Eu queria, mas é perigoso. A bruxa da irmã Matilde jamais deixaria que uma matéria sobre sexo seguro ou algo sobre política fosse publicado. Somos "mocinhas" e não devemos opinar sobre esses assuntos.

— Vejo que alguém foi doutrinada pela filosofia barata do professor Lucas — Anita falou tranquilamente.

— Isso não é verdade — Luiza discordou calmamente. — Eu sempre achei o formato da revista ultrapassado. Acho as receitas da Laura incrível, mas nós nunca iremos cozinhar nesse lugar. E os tempos são outros, não é porque somos mulheres que devemos ser burras e não discutir sobre assuntos cuja a sociedade denominou "somente para homens". Eu estou farta de ser rebaixada pelo meu sexo. E não vejo o porquê não discutir sobre determinados assuntos dentro da escola, visto que um ambiente escolar deveria ser um lugar para compartilharmos conhecimento.

— Eu concordo com você, Luiza — Anita parecia civilizada demais o que me assustou um pouco. — Mas nós devemos tomar cuidado com certos ideais, e expor os dois lados sempre e não apenas aquele que você acredita ser o correto.

— Não estou entendendo o seu raciocínio... para você o professor errou por demonstrar apenas um lado da história?

— Exatamente. Ele trata grupos de luta armada comunista como se eles fossem heróis.

— Bom, sobre isso não posso opinar, porque não sei ao certo o que é comunismo. Ouvi a minha vida inteira que é algo errado e ruim, mas não sei de onde essas ideias veio, meu conhecimento sobre esquerda e direita é raso e superficial. Não faço ideia do que é formada a filosofia que você diz que o professor Lucas segue.

— Talvez você tenha razão — Anita falou pensativa.

— Razão? Anita Rangel concordando comigo? Meu Deus isso realmente deve significar algum sinal do fim dos tempos.

— Não seja tola. Eu quis dizer que talvez você esteja certa sobre o modo como nós mulheres somos tratadas. Em uma escola para garotos provavelmente eles já discutiram sobre política e o comunismo.

— E aonde você aprendeu tudo isso?

— Meu pai. Você pode pensar o que quiser sobre ele, mas você jamais vai poder dizer que ele nunca conversou comigo sobre política.

— Isso é ótimo, Anita. Mas provavelmente ele tenha mostrado para você apenas o lado em que ele acredita assim como o Lucas fez com a gente.

— O que está querendo dizer? Que o meu pai me doutrinou?

— Somos todos doutrinados, Anita. O Lucas na aula nos mostrou que os "bandidos", como você mesma disse, são os heróis. O seu pai apenas inverteu a situação, ele disse a você que ele e os seus soldados é quem são os mocinhos.

— E quem é o mocinho e quem é o vilão? — Anita franziu o cenho.

— Somos pessoas, Anita. Pessoas que acreditam em seus ideais e que lutam por eles. Mas existe o certo e o errado. E com certeza torturar pessoas não é certo.

Anita abaixou a cabeça e respirou fundo ela pareceu discordar de Luiza, pegou o lápis e voltou a fazer suas tarefas.

— Eu não entendo nada de política — Cida falou com o olhar distante. — Mas sei bem o quanto a vida é injusta para pessoas como eu.

— Pessoas como você? — Laura ergueu a cabeça e inquiriu com as sobrancelhas franzidas.

— Sim, negros. Minha mãe sofreu muito para conseguir entrar na faculdade e sofreu mais ainda quando se envolveu com o meu pai. Meus avós nunca quiseram me conhecer. Eles fingem que eu não existo. Deserdaram o meu pai quando ele casou com a minha mãe. Nunca aceitaram o casamento de um homem branco com uma mulher negra. Mas enfim, meu pai acabou virando um encostado. Ele não consegue ficar mais de três meses em um emprego. Nunca havia precisado trabalhar. Minha mãe é quem sustenta a casa. O casamento deles é tão...

Cida se calou. Seus lábios se selaram não a permitindo concluir a frase.

— Anita pode dizer o que quiser, mas é por isso que eu gosto do Lucas. — Anita olhou para Luiza quando ela começou a falar. — Ele é o único que quer nos escutar.

—Você gosta do Lucas por outros motivos.

— Sim, tem razão. — Luiza sorriu. — Além de lindo e sensual, ele é inteligente.

— Você não devia falar assim dele — Anita falou e até mesmo Cida concordou com ela. — Ele é nosso professor e é mais velho. Bem mais velho.

— Ele tem 26 anos, e eu já sou maior de idade — Luiza revidou.

— Ele não é para você. Ele é um fracassado. — Anita contorceu o rosto como se sentisse pena de Lucas ou nojo, talvez os dois.

— Fracassado? — Luiza arqueou uma sobrancelha de modo desafiador. — Só por que ele não é um coronel e não mora em uma bela casa com rosas vermelhas no quintal?

— Que futuro você teria com ele, Luiza? Nenhum. Ele jamais poderia lhe oferecer uma casa confortável. Uma situação financeira estável.

— Eu posso trabalhar e conseguir tudo isso sozinha. Não preciso que nenhum homem me ofereça isso.

— Não seja idiota! Você dependeu a vida inteira do seu pai. É um homem quem paga as suas contas, sabia?

— Logo eu vou sair desse lugar e não vou mais precisar do meu pai. — Luiza ficou vermelha de raiva, com o tom de voz mais alto que o comum. — Vou embora desse lugar e não vou mais precisar dele. E quanto ao Lucas eu gosto dele sim e a sua irmã também gostava dele.

— O que você quer dizer com isso?

— Sua irmã era "amiga" do Lucas, você não sabia?

Anita ficou irritado com o comentário de Luiza. Ela levantou da mesa, organizou os seus livros e os jogou dentro da bolsa que depois colocou sobre o ombro.

— Falo com você depois do almoço, Laura — ela se despediu rispidamente com aquele tom de voz grave e áspero.

Assim que ela sumiu de nossas vistas Cida cutucou Luiza com força.

— Por que você falou aquilo? — ela a repreendeu.

— Escapuliu. — Luiza deu de ombros. — Aí Anita é muito dramática!

— Dramática? Você acabou de falar da irmã morta. Irmã que foi morta aqui nessa escola, e você ainda diz que ela está sendo dramática?

— Você está defendendo-a? — Luiza franziu a testa horrorizada.

— Não estou defendendo a Anita, mas você foi longe demais. Você sabe tudo o que ela passou na antiga escola e agora ela está aqui sendo obrigada a conviver com o fantasma do assassino da irmã dela.

Luiza fez uma careta como se não se importasse. Cida respirou fundo e retornou aos estudos, mas eu ainda não havia entendido o que ela queria dizer com "você sabe o que ela passou na antiga escola". Luiza e Laura podiam até saber, mas eu não fazia ideia do que havia acontecido.

*

Depois do almoço caminhamos pelo cemitério lúgubre até a entrada principal do internato. O túmulo de Melissa Rangel estava intacto quando passamos por ele, tentei não o notar, mas foi impossível quando eu reparei Anita se inclinando sobre o túmulo da irmã e repousar sobre a lápide uma flor branca, que com certeza ela havia pegado do jardim que a irmã Carla cuidava nos fundos da propriedade. Ela viu que eu a olhava e me lançou um olhar frio. Seus olhos me fuzilaram, continuei a andar e imediatamente me coloquei atrás de Cida e Luiza. Eu não sabia se sentia pena de Anita ou se ignorava aquele episódio inoportuno. Escolhi a primeira opção.

Fizemos uma fila para entrar no velho ônibus que nos levaria a cidade. A irmã Judith nos deu um sermão antes disso e nos disse que como hoje não teria filme na praça voltaríamos mais cedo. Cerca de seis horas da tarde para o jantar.

Irmã Matilde inspecionava as nossas roupas para ter certeza de que não estávamos vulgares para ir até a cidade. Ela implicava com tudo, até mesmo com as botas de cano alto e o vestido hippie de Luiza.

— Você parece uma prostituta. Isso não é jeito de se vestir. Na próxima vez você não vai pisar no ônibus com essa roupa, estamos entendidas?

Luiza assentiu e depois revirou os olhos e entrou no ônibus. Logo depois era a minha vez. Irmã Matilde olhou bem para a minha calça de cintura alta e boca de sino e para a minha camiseta verde musgo, e então acenou para que eu entrasse.

— Sua camiseta é horrorosa — ela falou assim que eu passei por ela.

Cida estava muito bem vestida, com uma jaqueta jeans cobrindo uma camiseta branca e calças tão longas quanto a minha. Seus cabelos crespos estavam soltos e os seus cachos se moviam com a brisa quente que nos envolvia.

— Seu cabelo. — Irmã Matilde apontou para o cabelo de Cida. — Prenda-o.

Eu encarei Cida enquanto os meus pés estavam presos no degrau da escada. Nenhuma de nós entendeu o que estava acontecendo.

— Achei que seria bom deixá-lo um pouco solto. Eu prendo ele a semana inteira, sinto até dor de cabeça.

— Não me interessa. Prenda esse cabelo horroroso. Ele é ruim. Armado. Parece uma palha de aço. Prenda-o. Você está ridícula, e eu não posso permitir que uma aluna do nosso colégio saia assim na rua.

Cida abaixou o rosto envergonhada. Uma lágrima desceu pelo canto do seu rosto. Aquilo foi doloroso e humilhante demais. Fiquei sem reação e assisti irmã Matilde tratar Cida com requintes de crueldade. Meu coração se encheu de raiva. Raiva daquela mulher que dizia ser cristã, mas não era.

— Laura me dê o seu lacinho. — Irmã Matilde apontou para os cabelos castanhos claros de Laura que estavam presos em um rabo de cavalo alto.

Laura hesitou por um momento. Seus olhos pareciam duas órbitas prestes a saltarem do seu rosto pálido salpicado de sardas e pintas. Até Anita parecia estar constrangida. Notei isso ao perceber ela se encolher no seu vestido azul marinho.

— Ande logo sua inútil e me dê o laço! — A irmã gritou com Laura que acabou cedendo e soltando os seus cabelos lisos.

Irmã Matilde pegou o laço e se aproximou rudemente de Cida. Sua expressão demonstrava toda a humilhação que ela sentia. A irmã prendeu os cabelos de Cida de um jeito bruto. Seus longos dedos finos se afundaram nos cabelos crespos de Cida e se entrelaçaram furiosamente sacudindo a cabeça da menina. Ela puxava os fios negros que formavam cachos bem fechados. Ela queria machucar Cida e conseguiu.

— Agora sim. — Ela olhou para Cida que estava agora com os cabelos presos. Irmã Matilde tratava aqueles fios crespos como um leão que precisava ser domado. — Fica bem melhor preso. Na próxima vez que eu a vir de cabelo solto por aí, vou te trancar no calabouço durante uma semana.

Cida assentiu, mas eu vi que os seus olhos estavam vermelhos e que ela lutava para segurar as lágrimas, além dos punhos cerrados prontos para bater na face disforme da irmã Matilde.

Me senti inútil diante daquela situação. Eu queria dizer algo, desafiar a irmã. Abri a boca para falar algo, mas a voz falhou, ficou fraca e a única coisa que saiu da minha boca trêmula foi um grunhido. Mas não era só eu que havia fraquejado e não defendido uma amiga. Luiza olhava a situação tão chocada e covarde como eu. Sua cabeça para o lado de fora da janela com a boca entreaberta e o som dos ruídos tênues que saiam dos seus lábios preenchidos com batom rosado. As demais garotas sem saber o que dizer... ambas concordamos que essa humilhação tinha um cunho mais profundo.

— Eu gosto do seu cabelo, Cida — falei de repente, conseguindo transformar os grunhidos em uma frase de conforto para a minha nova amiga. — Ele é lindo e deveria ficar solto.

— Também gosto do seu cabelo — Laura concordou comigo, nenhuma de nós estávamos mentindo, gostávamos mesmo dos cabelos de Cida.

Cida nos olhou e agradeceu baixinho. Irmã Matilde nos fuzilou com o olhar e acenou para que Cida entrasse no ônibus.

No caminho para a cidade me sentei sozinha do lado da janela. Luiza sentou ao lado de Cida, enquanto Anita e Laura estavam sentadas perto da irmã Judith que cantava alegremente hinos da igreja. Irmã Matilde ficou no internato e durante o caminho ninguém comentou sobre o que havia acontecido. Mas assim que chegamos no centro da cidade, Cida levou a mão até o rabo de cavalo no topo da sua cabeça e desfez o penteado da irmã, libertando os seus cabelos que balançaram com o vento que entrara pela janela. Cida olhou para mim e para Luiza e sorriu feliz pelos seus cabelos crespos finalmente estarem livres e soltos, como sempre deveriam estar.

*

O ônibus parou em frente da lanchonete da dona Lurdes. Assim que descemos Cida e Luiza apressaram os passos e eu as segui. Viramos e entramos em outra rua. Luiza avistou um fusca verde parado na esquina e acenou freneticamente para ele que buzinou. Ela nos olhou e sorriu, e correu até o fusca onde entrou. Eu e Cida ficamos observando-a partir. Cida parecia estar acostumada com isso e piscou para mim.

— Volto antes das seis! — ela gritou para a amiga enquanto o carro ia até uma direção desconhecida para mim.

— Quem é? — indaguei.

— O namorado dela — Cida me respondeu enquanto voltávamos a caminhar em direção à rua principal.

— Ela tem namorado?

— Sim, ele é mais velho. Não comente com ninguém, ok?

Assenti, eu não iria me meter na vida da Luiza.

— Você namora, Sofia?

— Não — respondi —, nunca namorei.

— Você já beijou pelo menos?

—Também não.

— Por quê? Você não é feia e nem desagradável? Não havia garotos em São Paulo? — Ela riu.

— Havia sim, mas nenhum que eu realmente quisesse beijar.

— Bom, espero que aqui você encontre alguém. Quando tem filme na praça alguns rapazes de Bem- Te- Vi vêm aqui na cidade. Talvez você se interesse por alguém. Tem vários rapazes bonitos.

— E você encontrou alguém?

Cida sorriu tumidamente.

— Sim, o nome dele é Felipe, ele é soldado, sabia? Homens de farda são tão lindos. Luiza não gosta muito dele. Ela diz que eu não devia me envolver com um militar, mas eu não me importo. Felipe é incrível. Diz que sou linda, que a minha pele é perfeita. E além disso beija muito bem.

— Você acha que ele é... Você acha que é verdade aquilo que falam? Que eles torturam pessoas?

— Ora eu não sei, Sofia. Mas eu tenho certeza que o meu Felipe não é assim.

— Então, você discorda do professor Lucas?

— Não sei, talvez sim, talvez não. Mas de uma coisa eu sei Felipe não machuca pessoas.

— Você parece Anita dizendo que o pai dela não machuca ninguém.

Cida me olhou irritada, confesso que fiquei chateada com a ingenuidade dela em relação a isso. Mataram o meu pai. Era difícil para mim enxergar os militares como caras bonzinhos, mesmo sabendo que eles são pessoas e que ninguém é inteiramente ruim.

— Você não conhece o Felipe, Sofia. Não pode julgar quem você não conhece.

— Me desculpe, não quis ofender — eu disse.

— Minha mãe me deu um dinheirinho, vou poder comprar um livro novo para o clube de leitura — ela falou mudando de assunto.

Paramos em frente a uma livraria e Cida me puxou para dentro dela. A livraria era abarrotada de livros de todos os tamanhos e cores, várias prateleiras se erguiam e se estendiam por toda a parte. Atrás do balcão um rapaz baixo, moreno com o cabelo partido ao meio com um penteado cafona nos olhava com desdém.

— Oi, Juca — Cida o cumprimentou.

O rapaz que estava sentado com os pés em cima do balcão acenou com a cabeça.

— Quem é essa loirinha aí? — Ele apontou para mim.

— Sofia, aluna nova — Cida o respondeu.

— Oi, moça — ele tentou dizer de um jeito sedutor, mas a sua voz falhou e Cida riu dele.

— Nem tente, Juca — ela o alertou. — Esconderijo.

— Palavra chave? — ele perguntou.

— Eu já disse sua besta — ela falou e seguiu até o fim do corredor estreito entre as estantes de livros e chegou até uma enorme porta de ferro.

Juca nos seguiu com um molho de chaves balançando em suas mãos.

— Você deveria ler bons livros — ele disse enquanto estava apoiado na porta.

— E você deveria cuidar da sua vida — Cida revidou, mas logo sorriu para ele. — Que foi, Juca? Eu vou pagar.

Ele revirou os olhos e suspirou alto e então abriu a porta.

— Você sabe, né? Sigilo — falou olhando diretamente para mim.

Cida entrou no que parecia ser um porão. Nós descemos uma escada e me deparei com vários materiais e ferramentas de construção até chegar em uma mesa com caixas e mais caixas cheias de livros. Tossi com a poeira do lugar invadindo as minhas narinas. A pouca luz fez com que eu escancarasse os olhos para poder enxergar.

— São livros censurados pelo governo — Cida disse tranquilamente enquanto ela retirava alguns exemplares da caixa e os inspecionava.

— Ande logo, Cida. Não posso deixar a livraria sozinha. — Juca resmungou, ele estava parado na escada.

— Pode ir, a gente sabe se cuidar sozinha. Se eu precisar de algo te chamo.

Juca hesitou por um momento, entretanto acabou cedendo e o som da porta batendo com força foi um aviso de que estávamos sozinhas.

— Então — comecei —, esses livros são proibidos? Isso não é crime?

— Sim, mas o Juca só vende esses livros porque ele precisa de dinheiro, e os livros censurados são os mais procurados.

— E por que esses livros foram proibidos?

— Bem, alguns são políticos demais. — Cida pegou um exemplar com letras vermelhas e mostrou para mim. A capa tinha as seguintes palavras cravadas: "Manifesto Comunista de Friedrich Engels e Karl Marx" engoli em seco. — Outros são censurados porque ferem a "moral e os bons costumes".

Depois de dizer essas palavras ela pegou um exemplar cuja a capa era cafona demais. Ela trazia um homem seminu com os seus braços longos e fortes e barriga definida. O homem segurava em seus braços uma mulher loira que parecia arder com o toque dele.

— "Meu primo, o assassino" — Cida leu o título. — Interessante. Parece perfeito para o clube do livro.

— É um livro apropriado? — perguntei com uma sobrancelha arqueada.

— Sofia, esse livro foi censurado, é óbvio que não é apropriado. É um livro erótico.

Enrubesci. Esse não era o tipo de livro que eu leria.

— Fique calma, mulher — Ela riu da minha cara de patética. — É só um livro, todas nós somos virgens... bem quase virgens. — Sorriu novamente. — Esses livros são interessantes, porque com eles a gente aprende mais do que nas aulas de ciências. Além disso, todo mundo gosta de histórias em que o galã é sarado e sensual. Porque vamos combinar, né? Na vida real esse tipo de homem não existe, então não custa sonhar.

— Bom... é... tudo bem — gaguejei.

— Escute, Sofia, ninguém pode saber que o Juca vende esse tipo de livro, você sabe, né?

Confirmei e ela sorriu para mim com o livro novo contra o seu peito. Saímos do suposto porão. O ar fresco e o cheiro de livros novos bateram em meu rosto, respirei fundo e caminhei até o balcão.

— Por que as capas desses livros são tão ridículas? — Juca perguntou a Cida, mas havia uma certa presunção na sua voz.

— Não julgue um livro pela capa.

— Me desculpe Cida, mas eu julgo sim. Se o autor não teve a decência de se preocupar com a capa do livro, imagine o conteúdo?

— O autor não é responsável pela capa.

— Francamente, se for pra lançar um livro com uma capa horrorosa eu prefiro nem ser publicado.

— Não se preocupe, amigo Juca, ninguém vai querer ler os seus escritos sobre a dona Augusta.

— Os meus escritos são ótimos.

— Ok, vou fingir que acredito.

Passamos o resto da tarde na lanchonete da dona Lurdes. Cida prometeu me levar no próximo sábado no ateliê da Dona Augusta, de acordo com ela a mulher era um mistério.

— Ela é mãe do Monstro — Cida me disse tranquilamente e eu acabei engasgando com o milk-shake.

— Mãe?

— Sim, ela foi embora quando ele era criança. A mulher é muda, não fala um pio.

Endireitei-me no banco, e tratei de mudar logo de assunto. Monstro era o último assunto que eu gostaria de falar. Dona Lurdes nos encheu de mimo e nos contou algumas novidades, tudo sobre gente desconhecida e nada importante.

Voltamos para o internato bem na hora do crepúsculo. O sol já ia embora e dava lugar a lua charmosa que carregava consigo uma bruma espessa de prata que nos embriagou com o seu brilho da noite.

Quando voltei para o dormitório para buscar algumas roupas para o banho, notei algo diferente em minha cama. Aproximei-me e vi uma estrela de papel com seis pontas. Peguei a estrela que havia sido feita com uma folha de caderno e abri. Dentro dela as seguintes palavras estavam desenhadas através de uma caligrafia deforme. Meu coração acelerou freneticamente ao ler: ANITA.

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