CAPÍTULO 03
Um longo suspiro escapou de meus lábios e meu coração agitou ansioso quando as portas do elevador revelam o quarto andar do prédio da Venus. O longo corredor que abriga seis escritórios parece estar mais silencioso que o comum, mas não por muito tempo, pois logo o barulho dos meus saltos preencheu todo o ambiente até eu parasse no fim, diante da última porta à direita onde há uma placa prateada com os dizeres "Kim TaeHyung (Gestor de marketing e vendas)" grafados.
A porta de correr é aberta revelando um espaço comum em todos os escritórios do prédio que antecedem o escritório propriamente dito. Nessa área curta há uma pequena mesa, computador, cadeira e do outro lado da porta principal há uma simples divã de dois lugares que serve como "sala" de espera para algum visitante. Essa extensão era existia para que um auxiliar ou um secretário trabalhasse sem incomodar o superior, ou ser atrapalhado. É ótimo, pois como a área isolada, eu posso dormir ou assistir séries no celular quando bem entender.
O mais importante é que minhas coisas ainda estão intactas, minhas canetas coloridas estão no potinho do Patolino, a lixeira continua cheia de papel de balas, os nichos na parede atrás da mesa ainda estão cheios de plantinhas falsas junto a livros que eu nem sequer li na vida. Tudo continua perfeitamente como deixei e de alguma forma isso me deixa mais aliviada.
Tomada pela confiança, sigo para a porta que finalmente dava passagem para o escritório e a abro sem ao menos bater.
O Kim, que estava diante de uma enorme papelada junto ao CMO, Jung HoSeok, me encara assustado.
ㅡ Perdeu o respeito? ㅡ TaeHyung olhou-me com desgosto.
ㅡ Tanto faz ㅡ balançei os ombros fechando a porta atrás de mim. ㅡ Vou ser demitida mesmo.
Ele não nada disse nada, apenas manteve seu olhar frio sobre o meu caminhar até eles.
ㅡ Por que vai demitir ela? ㅡ HoSeok, famoso por seus sorrisos gentis, indagou ajeitando os fios negros que se desprenderam do penteado formal. ㅡ Se não está satisfeito com o trabalho dela, vamos trocar de secretários, pois a senhora Kang é uma fofoqueira. ㅡ se refere a secretária que deve estar no posto antes de o senhor Jung saber escrever o próprio nome.
ㅡ É uma ótima idéia senhor Jung, aliás meu chefe não é nada legal, ou melhor, ex-chefe, porque ele me demitiu sem motivo nenhum.
ㅡ Por motivo nenhum? ㅡ resmungou consigo mesmo, como se eu tivesse feito a maior besteira do universo.
Tudo bem, confesso que aqueles stories não foram de modo algum educados, mas porra, não acredito ser motivo de demissão. No fundo, acredito que ele estava apenas esperando um único deslize meu para fazer isso, não sei o porquê me detesta tanto. Não que TaeHyung seja um amor com todo mundo, muito pelo contrário, ele é sempre muito reservado, as poucas vezes que o vi sorrir foi quando estava na companhia do senhor Jung, sei que eles são grandes amigos além de colegas de trabalho. Bom, imagino que seu descontentamento comigo seja pelo fato de que uma vez o chamei de filho da puta sem saber que ainda poderia me ouvir, mas foi um acidente. Estava exausta naquele dia, minha cabeça estava cheia de problemas e ele veio me aborrecer só porque esqueci de avisá-lo de um almoço aí, que nem era importante. Foi sem querer.
ㅡ Olha ____, você está atrapalhando nosso trabalho, então assine logo isto e vá embora! ㅡ estendeu uma pasta transparente e voltou a olhar para os papéis que analisava antes.
ㅡ Senhor Kim, antes eu gostaria de ter uma conversa com o senhor. A sós. ㅡ falei um tanto nervosa, por mais que tivesse ensaiado para esse momento diversas vezes no espelho.
ㅡ Nada do que disser vai me fazer mudar de idéia, se é o que está tentando.
ㅡ Tem certeza? Ele murmurou um "uhum" sem paciência.
ㅡ Eu não teria tanta certeza assim senhor. Principalmente após ouvir a bela história que tenho para contar. ㅡ a frase saiu de meus lábios que sorria maliciosamente.
ㅡ O senhor já ouviu falar de um tal de V?
TaeHyung ergueu seu olhar de imediato, completamente tenso.
Aproveitei que somente seus olhos estão em mim e prossigo fazendo um gesto obsceno com minha mão, simulando uma masturbação masculina. ㅡ Ele faz uns vídeos tão legais.
TaeHyung está paralizado, seu olhar preso sobre mim, exala medo. Vejo a dificuldade que tem ao engolir sua saliva.
ㅡ Senhor Jung. ㅡ chamei o outro que ainda estava com a atenção presa sobre os papéis. ㅡ Já ouviu falar do...
ㅡ Hyung, pode nos dar um minuto? ㅡ TaeHyung me interrompeu com a voz firme.
O CMO nos encarou com um semblante de completo desentendimento, porém assentiu. Se levantou da cadeira, alinhou o blazer vermelho em seu tronco magro e saiu da sala sem pressa.
ㅡ O que você quer? ㅡ o Kim indagou irritado, quando ficamos sozinhos.
ㅡ Meu emprego. ㅡ respondi simples jogando-me desleixada contra a cadeira de frente a sua mesa que antes era ocupada por HoSeok. ㅡ E também quero que dobre meu salário, ou todos da empresa vão virar a noite assistindo pornôs.
A bela face contraiu-se em puro furor.
ㅡ Você não teria coragem. ㅡ Levantou de sua cadeira bruscamente batendo as palmas contra o birô.
Eu o analiso de baixo a cima, reparando em cada detalhe de seu corpo naquele terno azul-marinho até que meus olhos encontrem os seus e então ponho-me de pé novamente. Inclino meu corpo sobre o móvel até deixar meu rosto a centímetros do seu. Talvez eu tenha ficado nas pontas dos pés, ele é bem mais alto, mas esse detalhe pouco importa.
ㅡ Sim, V, eu teria. Na verdade, eu adoraria expor esse seu corpinho lindo para todos. Aliás, uma obra de arte dessa deve ser exposta. ㅡ comentei provocante, mordendo o lábio inferior e com os olhos fixos nos seus.
ㅡ Filha de uma puta!
Confesso, ele fica tão bonito puto da vida.
ㅡ Yes, sir. ㅡ debochei, imitando a frase que uma mulher gritava para TaeHyung em um dos vídeos que assisti.
ㅡ Some da minha frente. ㅡ ordenou furioso, com a respiração pesada batendo contra a minha.
ㅡ Eu ainda sou sua secretária?
TaeHyung voltou para sua cadeira massageando suas têmporas em completa chateação. Depois de longos segundos ele respondeu grave e friamente:
ㅡ Ligue para a filial em Busan, confirmando a porra da reunião.
Aquilo certamente era um sim.
Um sorriso ladino tomou meus lábios e ainda com a ideia de fazer dele a minha marionete, eu disse:
ㅡ Não é assim que se pede um favor à sua secretária favorita, senhor Kim.
Furioso, travou a mandíbula, recusando-se a fazer o que era sugerido.
ㅡ Não vai pedir por favor?
ㅡ Por favor. ㅡ disse com muito esforço.
Ah, que divertido!
Faço um sorriso falso para ele e envio um beijo no ar antes de sair da sala com um enorme sorriso de vitória e só não dou pulinhos de alegria, porque encontro senhor Jung ali, sentado no estofado preto.
ㅡ Acredito que o senhor já pode voltar. ㅡ falei para disfarçar meu ânimo excessivo e segui para o meu lugar.
Senhor Jung retorna para a sala e quando fico sozinha pego meu celular e envio uma mensagem para JiSoo, comemorando.
"ÓTIMA NOTÍCIA! CONSEGUI CONVENCER O GOSTOSÃO!"
Eu não falei a ela quais foram meus argumentos verdadeiros para isso, aliás ela acreditou facilmente quando disse que fiz um discurso de desculpas para TaeHyung.
Ah! Estou tão aliviada.
***
Dois dias haviam passado após minha "negociação" com TaeHyung e finalmente eu respirava paz e tranquilidade, pois além de meu salário dobrado tinha meu querido chefe nas minhas mãos. Sempre que, ele soava rabugento eu o lembrava de seu segredo. Não vou mentir, a sua feição de insatisfação com minhas manipulações eram meu pico de diversão no trabalho, por mais que uma vozinha em minha cabeça insistisse em dizer que aquilo era errado.
Depois de uma sexta-feira tranquila de trabalho, onde passei parte do expediente organizando os últimos detalhes para uma viagem à Busan, finalmente chego em casa. Gemi de pura satisfação ao retirar os saltos dando liberdade aos meus pés que passaram o dia sufocados. Sério, se um dia eu for proprietária de alguma empresa, meu código de vestimenta autorizará a trabalhar de pantufas, pois céus, meus joanetes parecem ainda piores depois de uma semana inteira com os pés enfiados nestes sapatos de bico fino.
Em seguida de um banho rápido e "nutritivo" miojo que serviu de jantar, acomodei-me em meu sofá, liguei a tevê e selecionei um filme na Netflix, mas antes que os primeiros frames fossem exibidos, meu celular vibrou sobre o mármore do balcão americano que separa a cozinha da sala.
ㅡ Oi! Mãe.
ㅡ Oi! Meu amor. ㅡ A mulher de olhos miúdos pelo cansaço me mostra seus dentinhos desalinhados com um lindo sorriso. ㅡ Como estão as coisas por aí? Você está bem?
ㅡ Tudo ótimo, estou um pouco cansada, mas faz parte. E... tenho uma grande novidade! Ganhei um aumento.
ㅡ Que maravilha!
ㅡ Eu estou muito feliz.
ㅡ Que ótimo meu amor, eu estava tão preocupada com você, pois parecia tão tristinha ontem.
ㅡ Eu só estava muito cansada. A empresa está com projetos novos e TaeHyung está me matando com tantas tarefas. Tenho uma viagem para Busan e TaeHyung ainda pegou a responsabilidade de fechar contrato com um novo laboratório para formulação de uma nova linha de produtos veganos e graças a isso eu passo o dia mandando e-mails e telefonando para Deus e o mundo.
ㅡ Eu sinto tanto orgulho de você minha filha... e sou tão grata por cada esforço que você faz por nós.
ㅡ Eu faria o dobro se fosse preciso.
ㅡ Eu amo você.
ㅡ Eu também.
Ela sorriu de modo doce.
ㅡ E vocês? Como estão?
ㅡ Eu estou bem, já seu pai está na mesma situação.
ㅡ Alguma novidade da doutora Chae YeeRi?
ㅡ Só saberemos na segunda, ela pediu novos exames e disse que talvez irá precisar aumentar a dose de alguns medicamentos.
Meu peito se apertou ao ouvir aquilo, não me parecia boa coisa.
ㅡ Cadê o papai?
ㅡ Ele está dormindo, voltou bem cansadinho da consulta hoje. ㅡ virou a câmera para meu pai adormecido na cama.
Ele é grandão, mas agora parece tão frágil. A vontade que tenho é largar tudo aqui e correr para cuidar dele, tocar sua mão grande e quente, ouvir sua voz suave falando o português tão bonito e ver seus olhos na cor do mel de perto. Só Deus sabe o quanto sinto falta dele, o quanto eu queria estar ali ao lado dele, da minha mãe também.
Apesar de tantos anos morando sozinha eu ainda não me acostumei com a saudade de estar tão longe. Porra, essa distância nessas circunstâncias é o que mais me machuca.
Sinto vontade de chorar, mas não quero preocupar minha mãe, então forço um sorriso quando volta a câmera para ela.
ㅡ Vai ficar tudo bem, não se preocupe. ㅡ disse mais para mim que para ela.
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