FELIZ HALLOWEEN, LUPINOS🎃
Preparei este pequeno especial de Halloween (que não é tão pequeno assim, porque ele tem umas 13k palavras, hahaha) para entreter meus queridos leitores de Era uma Vez um Ômega com uma história sobre o passado de Adaman que envolve o romance do nosso casal de reis. Espero que essa aventura dos Jikook divirta vocês e que ela mate um pouquinho a saudade que ficou depois do final de EUVUO.
Não se esqueçam de ⭐VOTAR⭐, porque é sempre muito importante!
BOA LEITURA💜
#LoboDePrata
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♛|Extra 2: Decalque de Almas|♛
Park Jimin amava os outonos de Adaman. Por ser a época das colheitas e da noite luar do pequeno príncipe Yeonjun, o povo realizava festivais animados cheios de banquetes fartos, e essas comemorações aconteciam durante o período de um mês, no mínimo, ininterruptamente.
Jimin também se deleitava com essa estação porque, através das janelas do palácio, ele via o resultado do frio ameno por sobre as matas que rodeavam a capital. Milhas e milhas de florestas ruborizadas pela baixa temperatura, transformando tudo num infinito manto vermelho.
"Vermelho como seus olhos", Jungkook havia lhe dito naquela noite, logo após o jantar no salão com os filhos e a nobreza convidada, durante uma visita à varanda e uma breve olhada no cenário ruge da capital. O rei adorava comparar coisas magníficas com detalhes do corpo de seu marido divino.
Minutos antes, o casal tinha se despedido formalmente dos companheiros de jantar e dado boa noite às crianças, as quais foram entregues aos maravilhosos cuidados do grupo de babás que iriam colocá-las em seus aposentos para dormir. Agora Jungkook e Jimin passeavam de mãos dadas pelas dependências do castelo, trocando comentários, beijos e carícias. O fogo bruxuleante dos castiçais e dos lustres, e o clima sereno naquele momento soava até mais romântico do que durante a primavera.
Em meio a uma conversa descontraída sobre as vantagens do outono e sobre os três anos de idade que Yeonjun iria fazer dali a dois dias, Jimin pensou em algo que o animou.
ㅡ Vamos fazer uma festa para ele com tema Halloween! ㅡ disse, saltando. Os fios de prata de suas roupas reluziram com o movimento.
Jungkook sorriu e o puxou para mais perto.
ㅡ Vossa Magnificência poderia explicar para este leigo o que seria esse tal de Hallow... O que seria esse tema?
ㅡ Dia das bruxas! De onde eu venho, nesta época, as pessoas fazem festas macabras e se fantasiam de monstros ou de personagens de histórias assustadoras. E em alguns lugares, as crianças saem por aí recebendo doces. É divertido. ㅡ Enquanto explicava, Jimin balançou a mão que segurava a do marido.
Jungkook pensou um pouco nas palavras dele, antes de dizer:
ㅡ Mas... por que fazem isso? Não é assustador?
ㅡ É sim, por isso que é legal.
ㅡ E vamos fazer uma festa assustadora para o nosso bebê?
ㅡ Não vai ser assustadora, só iríamos nos fantasiar e preparar um banquete com comidas um pouco diferentes. Por exemplo, Yeonjun ama doce de cereja. A cor do doce lembra sangue, então no banquete podemos fingir que aquilo é algo cheio de sangue. Pegou a ideia?
O alfa segurou uma risada e balançou a cabeça, compreendendo.
ㅡ Bem, entre as nossas crianças, Yeonjun é o mais parecido com você no que se refere a gostar de coisas peculiares, então acredito que a sua ideia possa ser boa para ele.
ㅡ Isso! ㅡ Jimin estalou os dedos e segurou o queixo. ㅡ Mas precisamos pensar nas fantasias. Não sei quais são os monstros famosos do folclore de Adaman... Existe algum livro na biblioteca que fale sobre lendas bastante conhecidas pelos adamantinos?
ㅡ Hm, venha comigo.
Os dois percorreram as alas do castelo até chegarem à imensa biblioteca. Lá, se infiltraram entre as altas estantes, segurando pequenas lanternas à óleo para conseguirem ler melhor as lombadas dos livros enfileirados.
Jungkook guiou Jimin na parte mais funda e deserta do recinto, local em que quase nenhum dos estudiosos e curandeiros reais ia, e que o ômega ainda não tinha dado muita atenção porque ele preferia fuçar a área das enciclopédias e dos pergaminhos sobre alquimia localizada noutro setor.
ㅡ Aqui é tão escuro ㅡ murmurou Jimin, arrepiando-se. ㅡ Lembrei do motivo de eu evitar vir pra cá.
ㅡ E qual é ele? ㅡ Pontos de luz brilharam nos olhos negros de Jungkook.
ㅡ É que essa escuridão toda e esse isolamento me fazem pensar naquela sua noite luar, quando a besta apareceu no castelo e me atraiu até os fundos do jardim de inverno da sua mãe. Lá também estava escuro e deserto ㅡ explicou o ômega, rolando o olhar pelos livros.
Sentiu um aperto aconchegante em sua mão logo em seguida.
ㅡ Vamos encontrar o livro, e então sairemos daqui rapidamente ㅡ murmurou o alfa, apressando o passo.
Eles pararam mais adiante, no finalzinho de uma fileira próxima à parede. Havia algumas tochas acesas por ali, o que amenizou um pouco as sombras entre as estantes.
ㅡ Deve estar por aqui... ㅡ disse Jungkook, inclinando-se a ponto de cobrir o chão com sua longa capa negra. Ele ergueu a lanterna e passou o dedo pelas lombadas dos livros. ㅡ Faz alguns anos desde que peguei para lê-lo, mas lembro de tê-lo colocado aqui, junto com os outros livros sobre mitos e histórias de camponeses.
ㅡ Espera. Então tudo isso aqui é mitologia adamantina? ㅡ Jimin arregalou os olhos enquanto encarava as duas estantes imensas que o circundavam. Havia uma quantidade de livros que saciaria as próximas duas gerações do clã Park.
ㅡ Sim. Quero dizer, tecnicamente sim ㅡ disse o rei, ainda fazendo a sua busca visual. ㅡ Antes de Adaman ser Adaman, o continente era cheio de povos e de cidades separadas. Era um lugar muito diferente do que conhecemos hoje. Por isso há tantas coisas escritas. Elas estão aqui para nos lembrar do passado, mas não temos certeza se todas elas são reais, então ficam na área dos mitos.
ㅡ Uau... ㅡ Jimin se agachou ao lado dele. ㅡ É tanta coisa...
Jungkook lançou a ele um sorriso meigo.
ㅡ Nossas terras são muito antigas, meu amor.
ㅡ Sim, é verdade ㅡ murmurou o ômega, pensativo. Às vezes ele se impressionava com a extensão daquele mundo.
Enquanto o alfa fazia a sua busca, ele decidiu analisar o resto das estantes. Talvez acabasse levando mais de um livro naquela noite, pois tudo parecia interessantíssimo.
Seus olhos então paralisaram sobre um brilho pálido no final daquele corredor, escondido atrás de uma pilha alta de livros sobre um banquinho de madeira. Com uma curiosidade peculiar acesa no peito, ele avançou até lá.
ㅡ Jimin ㅡ escutou Jungkook chamá-lo, mas não parou. Aquela luz o convidava...
O ômega se aproximou da área na parede coberta por aquele brilho, e a encarou atentamente, notando que a luminosidade desenhava um tipo de porta na superfície de pedra.
ㅡ Você está vendo isso? ㅡ murmurou, atônito.
Jungkook se levantou e andou até parar atrás dele.
ㅡ Vendo o quê? ㅡ questionou, franzindo o cenho.
ㅡ Esse brilho. ㅡ Jimin deslizou o indicador pela linha de luz. ㅡ Não consegue ver?
ㅡ Não... Não há brilho algum. ㅡ O rei então ergueu a mão até tocar a do esposo, para tentar sentir algo de anormal naquela parte da parede.
Com esse toque, Jimin assistiu à luminosidade se intensificar e arregalou os olhos, sentindo arrepios. Um instante depois, a parede se abriu sozinha, arrastando-se para trás magicamente.
Isso Jungkook enxergou, e o surpreendeu.
ㅡ Pelos deuses ㅡ murmurou, piscando, e então encarou Jimin. ㅡ Jamais me relataram a existência de uma passagem secreta na biblioteca. É a primeira vez que vejo isso.
ㅡ Por que só agora essa porta apareceu?
ㅡ Talvez estivesse esperando por você, Ômega de Prata. ㅡ Jungkook puxou o canto dos lábios num sorriso.
O ômega chacoalhou a cabeça e segurou a mão dele.
ㅡ Por nós. Esperando por nós dois. Essa porta se abriu depois que você tocou a parede comigo ㅡ disse, enfático, e abriu um sorriso animado. ㅡ Vamos entrar para ver o que é? As vozes estão cantando nos meus ouvidos. Aposto que tem alguma coisa legal lá dentro...
ㅡ Vamos. ㅡ Jungkook pegou a lanterna, entrelaçou os dedos da mão aos de Jimin e o guiou pela escuridão da passagem.
Primeiro, eles passaram por um corredor estreito que acabou num pequeno lance de escadas. Através delas, o casal desceu para mais fundo do subsolo e se deparou com um espaço mais aberto cheio de paredes antigas repletas de teias de aranha.
Em determinado momento, Jungkook reparou em algo rabiscado sobre as superfícies de pedra e ergueu a lanterna para observar melhor. Suspirou ao se dar conta do que era aquilo.
ㅡ Jimin, achamos um tesouro ㅡ disse, radiante.
ㅡ O quê? ㅡ O ômega se concentrou nos desenhos entalhados na pedra e percebeu que eles contavam uma história. Em baixo deles, havia linhas de hieróglifos do que provavelmente parecia ser uma língua ancestral. ㅡ Você sabe o que é isso?
ㅡ Eu creio que é a Balada dos Primeiros Reis. Lembra-se da Ode Alfa que dançamos em nossos bailes?
ㅡ Sim, o que tem ela?
ㅡ Ela foi criada por causa do desfecho dessa balada. ㅡ Jungkook deu batidinhas na parede com um dedo dobrado. ㅡ Os primeiros reis de Adaman...
ㅡ Ah! É aquela história do primeiro Ômega de Prata que já existiu e do alfa que unificou o continente e fundou o reino?
ㅡ Exatamente. ㅡ O rei abriu um sorriso e ergueu mais um pouco a lanterna para que todos os desenhos na parede fossem iluminados. ㅡ Temos poucos registros dessa história, porque aconteceu há milhares de anos, bem antes de o clã Jeon e de todos os outros nascerem. Então isso que encontramos é... é um achado imenso ㅡ suspirou, admirado.
ㅡ Oh... ㅡ Jimin avançou a caminhada, passando ao lado dos murais que narravam, com imagens, cenas de guerras entre lupinos, tragédias naturais e um oceano em tormenta, e duas figuras masculinas se encontrando em vários momentos.
O ômega usou a ponta do indicador para delinear o entalhe na pedra que retratava os chifres de um dos personagens daquela história. Sentiu uma faísca se acender no peito.
ㅡ Você pode me contar um pouco sobre essa balada, amor? ㅡ pediu ao marido, sem tirar a mão da parede. Algo o puxava para aquele mural, e sua mente também estava um pouco tonta.
ㅡ Claro. ㅡ Jungkook pareceu ter reparado no jeito estranho de seu rei consorte, porque segurou a mão livre dele como que para trazê-lo de volta à terra firme. ㅡ Antes, você tinha me pedido um livro com histórias sobre alguns monstros das nossas lendas. Esta é uma oportunidade perfeita para lhe contar que, no princípio, a entidade Ômega de Prata não era nenhum pouco... acolhedora. Era como um monstro temido que representava toda a ira da natureza deste mundo. Os humanos rezavam para que ela não dificultasse ainda mais as suas vidas, no lugar de orar pela sua proteção.
Jimin o encarou com um semblante surpreso.
ㅡ Então quer dizer... ㅡ Ele inflou o peito e abriu um sorriso. ㅡ Quer dizer que eu tenho espírito de vilão dentro de mim?! Haha! Que maneiro!
Jungkook riu, divertindo-se com a maneira de pensar do marido.
ㅡ É. De certa forma, tem sim um lado vilanesco. ㅡ Sua mão acariciou a bochecha corada dele e pensou, ao olhar para aquele rosto macio e lindo, que jamais poderia encontrar uma fera temível ali, ainda que Jimin às vezes tentasse soar intimidante para outras pessoas ou para os filhos quando eles faziam algo de errado.
Eles então avançaram pelo corredor de murais, passando as mãos por sobre os desenhos antigos para sentir os desnivelamentos. Nestes entrementes, Jungkook decidiu começar a narrar a história:
ㅡ Os pergaminhos contam que, naquele tempo, este continente vivia mergulhado num caos lacerante. Não havia paz de fato, pois a maioria dos deuses havia deixado o mundo humano à própria sorte, sofrendo com disputas pelas poucas áreas de terra cultiváveis, e com as imprevisíveis forças da natureza que dificultavam a sobrevivência. Mas, ainda que fosse um cenário de desesperança, havia um homem alfa determinado a salvar o povo dele de todas as maneiras possíveis. ㅡ Ele pausou a narração quando passaram por um mural no qual estava desenhado a figura do alfa da história.
Era um homem grande vestido no que parecia ser uma armadura de couro e pele. Seus cabelos caíam até a base do pescoço, suas mãos enluvadas seguravam uma cimitarra, e seus olhos encaravam Jimin e Jungkook com uma serenidade intrigante.
ㅡ Ele se parece um pouco com você ㅡ murmurou Jimin, analisando os ângulos do rosto desenhado.
O rei ficou pensativo por um instante, antes de murmurar:
ㅡ Talvez porque é um ancestral direto da minha família... O clã Jeon não se misturou muito com outras comunidades desde a sua criação, só com as mais parecidas com eles, por isso manteve vários traços do passado.
ㅡ Ah...
Jungkook acariciou a superfície da pedra e encarou os olhos entalhados.
ㅡ O nome dele foi perdido, então nós o chamamos apenas de Primeiro Rei. Ele conseguiu unir comunidades rivais e achou uma maneira de fazê-las cooperar em conjunto para cultivar as terras férteis. Também as fortaleceu para que soubessem enfrentar inimigos desinteressados em ideais de união. Porém, dizem que o seu maior feito foi ter realizado acordos com marinheiros, porque o mar estava oferecendo muita comida e tesouros. ㅡ Ele afastou a mão da parede e voltou a segurar a de Jimin. ㅡ Mas ainda havia um problema que os impedia de prosperar e ser felizes.
Em seguida, prosseguiram com a caminhada pelo corredor de murais, passando por desenhos de terras que pareciam mortas, com árvores secas e espinhos tomando conta de tudo.
ㅡ Nós, lupinos, precisamos da terra, das matas e da Lua sobre nossas cabeças. Poucos de nós conseguiram se acostumar totalmente com a vida no mar. A maioria ainda precisava sentir o chão debaixo das patas, mas o continente era um local inóspito demais. A única divindade que poderia mudar alguma coisa era o Ômega de Prata, o deus das florestas, mas, como falei antes, sua existência causava temor na humanidade.
O casal parou diante de um desenho que retratava uma figura humanoide com chifres de cervo enormes, tão grandes que caíam pelas laterais, seguindo o curso dos cabelos longuíssimos que cobriam boa parte do corpo e do rosto dele.
Jimin se aproximou da imagem do primeiro Ômega de Prata de todos e o admirou em silêncio. Ele tinha olhos afiados e intimidantes. Não parecia amigável, ainda que fosse lindo e etéreo.
Por um segundo, o ômega jurou ter visto um brilho pálido emanando daquele entalhe na pedra. Seu coração palpitou.
ㅡ O que aconteceu depois para tudo mudar? Como... como o Primeiro Rei e ele ficaram juntos? ㅡ perguntou, ansioso.
ㅡ Levando em conta a tradução da letra da Ode Alfa e da Balada, acredita-se que o Primeiro Rei viajou até onde o Ômega de Prata se isolava e insistiu em se aproximar dele. O que era, no início, uma busca por misericórdia divina, acabou virando um romance. As matas do continente foram salvas depois que eles se uniram e, quando o Primeiro Rei faleceu de velhice, a divindade ômega abandonou sua imortalidade e descansou com ele. Dizem que esse foi o primeiro vínculo lupino a surgir neste mundo.
ㅡ Uau...
Jungkook e Jimin trocaram pequenos sorrisos ao refletirem sobre o final daquela história.
O aperto de mãos entre eles ficou mais forte, mais quente e fervilhante.
ㅡ Ainda deseja continuar a caminhada? ㅡ perguntou Jungkook, olhando para um portal que se abria nos fundos daquele corredor.
Ele se preocupava com a possibilidade de Jimin voltar a ter pensamentos assustadores com a besta do passado, pois, naquele ponto, o breu parecia ainda mais forte, mesmo para os seus olhos extremamente adaptados à profunda escuridão.
Mas Jimin sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.
ㅡ Vamos! ㅡ Ele o puxou e os dois atravessaram a passagem escura em dois tempos.
Após mais um lance de escadas e vários metros de um corredor milenar, o casal chegou a um espaço amplo com teto alto e cheio de pilares sustentando as paredes de pedra. Depois de usarem o fogo da lanterna à óleo para acender as tochas antigas dispostas pelo local ㅡ que surpreendentemente ainda queimavam como se fossem novas ㅡ, eles ficaram estáticos diante da grandiosidade do que tinham descoberto.
Aquele lugar era muito semelhante à sala do trono do castelo, só um pouco menor e mais marcado pela ação do tempo e da natureza. As paredes estavam cobertas por uma infinidade de desenhos e hieróglifos, e, no centro do espaço, havia um trono cinzento todo retorcido, como se tivesse brotado do chão. Mas o mais surpreendente era o imenso tronco de árvore que existia diante desse trono, e que atravessava feito uma lança o teto de rochas, dando a impressão de que a sua copa cheia de folhas devia estar em algum lugar lá em cima.
Jimin tocou-lhe a superfície e notou a cor marfim, a textura peculiar, alguns filetes de água escorrendo pelos desnivelamentos da madeira, e os sussurros sobrenaturais pairando na atmosfera.
ㅡ Isso é a base da Árvore Sagrada que fica no subsolo do castelo, Jungkook! ㅡ exclamou o ômega, sorrindo de orelha a orelha. ㅡ Então, na verdade, a raiz dela nasce aqui...
ㅡ Isso significa que estamos quase embaixo do nosso ninho ㅡ disse o alfa, também sorridente.
ㅡ Ah, verdade! ㅡ O ômega olhou para cima, como se tentando enxergar através do teto e das várias camadas de chão sobre eles.
Enquanto isso, Jungkook rolou os olhos até o trono abandonado e, distraído, aproximou-se dele para analisá-lo melhor.
Passou a mão pela superfície, que não parecia ser feita de prata pura como o trono real, mas sim de uma mistura mais bruta de minerais cinzentos que ele desconhecia. Seus dedos encontraram hieróglifos gravados nas extremidades do assento e se aventuraram por eles, desejando decifrá-los. Ficou tão concentrado nisso que demorou a perceber o silêncio repentino no ambiente.
ㅡ Jimin? ㅡ Ergueu o rosto na direção do local em que o marido estava antes, mas não o encontrou. Tentou uma busca visual pelo recinto, que acabou sem sucesso. Seu lobo interno e seu faro captavam Jimin nas redondezas, mas algo parecia... estranho.
De repente, as luzes das tochas se apagaram, e tudo voltou a ficar profundamente escuro.
As órbitas negras de Jungkook se tornaram dois faróis vermelhos, mais potentes, e continuaram buscando Jimin.
Ele o sentia. Estava bem ao seu lado, mas onde?
ㅡ Jimin! ㅡ exclamou, tenso e receoso com a ausência do ômega.
Foi então que avistou um molde humano brilhando de forma translúcida nos fundos do recinto.
O molde tinha chifres, por isso, a princípio, Jungkook relaxou pensando que era Jimin, mas depois engoliu em seco quando aquele vulto argênteo atravessou o espaço flutuando, formando um rastro de espinhos atrás de si.
Logo se viu envolvido por mãos fantasmagóricas, que seguraram o seu rosto com a mesma firmeza que as mãos do marido ômega teriam.
Dois olhos vermelhos familiares, mas tenebrosos, o encararam como se vissem a sua alma.
ㅡ Igual aos velhos tempos, estamos aqui outra vez ㅡ a entidade prateada sussurrou, sedutora e feral.
Em seguida, Jungkook recebeu um forte empurrão que o levou a cair em cheio no trono atrás de si. Atordoado, viu aquela criatura tão estranhamente parecida com Jimin montar em seu colo e lamber toda a extensão de seu pescoço.
Como se esse ato tivesse lhe absorvido instantaneamente as energias do corpo, o jovem rei foi puxado para um longo sono numa outra era daquele mundo.
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Quando Jungkook abriu os olhos outra vez, ele não era mais o rei de Adaman, filho de Jeon Haerin e de Wang Nara, e membro do clã dos Lobos Noturnos.
Seu corpo continuava praticamente o mesmo, exceto pela barba por fazer, pelas cicatrizes que lhe cobriam os braços de cima a baixo, pelos cabelos negros rebeldes que caíam até alcançar a clavícula, e pelo pulsar do coração no peito. No entanto, ele não era ele, mas sim uma versão antiga, de um tempo ancestral.
Ele era o Primeiro Rei, um homem alfa que, naquele momento, tinha acabado de desbravar uma mata funesta para chegar ao seu maior objetivo: O covil do temido deus das florestas, o Ômega de Prata.
Estava sentado sobre uma rocha diante da entrada do covil. Ao redor dele, tudo era seco e frio, uma pintura mórbida em tons cinzentos. Até a passagem para o lar da divindade não passava de uma fenda bruta na encosta de uma montanha. Nada soava convidativo, nem mesmo o cheiro daquele lugar, o qual lhe causava arrepios constantes.
Jungkook suspirou fundo e, depois de alguns minutos de reflexão, partiu para adentrar o covil. Entrou sem seu coldre com lâminas e até abandonou a sua cimitarra, um item que lhe era tão valioso, porque queria transmitir uma imagem de submissão à entidade que encontraria em breve.
Mas Jungkook não se sentiu mais vulnerável sem aquelas armas, porque, afinal, se o Ômega de Prata o quisesse morto, ele simplesmente iria morrer e nenhuma lâmina humana poderia impedir isso.
Já dentro da passagem estreita no interior da montanha, o alfa caminhou pelas aberturas entre as rochas, guiando-se através de um rastro único e adocicado que não parecia ser de um lupino humano até chegar a um espaço amplo que era iluminado por rochas bioluminescentes azuladas.
Sentiu um tremor ao reparar na existência de uma presença perigosa pelas redondezas, como se houvesse por ali uma fera escondida, aguardando a aproximação dele, sua próxima e tola presa.
Os instintos de Jungkook já apitavam enlouquecidamente antes de ele avistar um círculo formado por fileiras de ossadas humanas sustentadas por espinhos que brotavam das pedras do chão, e que cresciam até o alto do crânio dos esqueletos para moldar chifres assustadores.
"Quanto sadismo...", pensou ele, enrijecendo o corpo.
Fechou os olhos e respirou fundo. Já havia lidado com muitas situações críticas em sua vida, e se arriscado para conquistar a ajuda e o apoio de grupos que, em outros tempos, o matariam na primeira oportunidade. Porém, ainda assim, nada se comparava àquele momento.
Ele nunca antes havia falado com uma divindade, muito menos uma como aquela, que parecia ser tão cruel. Mas era a sua última esperança para salvar a vida das pessoas que o seguiam, então estava pronto para morrer por isso.
ㅡ Pelas conversas de meu povo, corre a informação de que a divindade de prata reside aqui ㅡ disse, em alto e bom tom. ㅡ Se Vossa Magnificência estiver me escutando, eu peço humildemente que me conceda um instante da sua atenção.
Jungkook esperou por uma resposta, mas, por longos minutos, só obteve silêncio. Essa quietude se prolongou tanto que ele chegou a pensar na possibilidade de ter sido ignorado pela entidade escondida por ali.
No entanto, um momento depois as luzes das rochas tremeluziram e a atmosfera se encheu com um inebriante perfume doce.
Por fim, uma risada afiada ecoou dos fundos, tão sobrenatural que fez o jovem alfa travar a respiração.
ㅡ Creio que já faz uns 50 anos desde a última vez em que um lupino mortal teve a ousadia de vir aqui ㅡ disse o dono da risada. A voz dele era suave e etérea. Bela demais para algo que deveria ser tão temível.
Depois de piscar mais uma vez, Jungkook viu dois olhos vermelhos e estreitos brilhando na escuridão distante. Em seguida, enxergou o molde do corpo da entidade que havia aparecido. Era esguio, um pouco pequeno e passava a falsa impressão de ser frágil. Estava sentado numa rocha que se parecia com um trono mal lapidado, e abraçava os joelhos dobrados cobertos por uma longa camada de tecido cinzento.
O Ômega de Prata o encarava com curiosidade e malícia. Seu sorriso era, ao mesmo tempo, a coisa mais linda e mais intimidadora que Jungkook já havia visto.
O alfa curvou a cabeça em respeito assim que saiu do transe do primeiro contato.
ㅡ Obrigado por aparecer diante de mim, Vossa Magnificência ㅡ disse, tentando soar confiante e relaxado mesmo com os instintos apontando que aquela criatura diante dele era totalmente imprevisível.
ㅡ Hm... ㅡ A divindade se levantou do assento e caminhou até o círculo de esqueletos expostos, arrastando atrás de si metros de uma capa branca translúcida e longos cabelos prateados decorados por pequenos ramos de espinhos presos em seus chifres de marfim.
Num gesto frio e indiferente, o ômega tateou as primeiras ossadas pelas quais passou, tocando-lhes os crânios vazios e os chifres de espinhos. Ele parou de andar um pouco depois e se apoiou num ombro ossudo, então lançou outro olhar na direção do mortal.
ㅡ Sinto em você um cheiro de alfa das terras do Sul ㅡ disse, entediado.
ㅡ Está correto.
ㅡ Já fui visitado por uns quatro como você. Acho que este foi um deles. ㅡ O deus apontou para o esqueleto no qual se apoiava. ㅡ Se tivesse invadido o meu local de descanso algumas décadas atrás, nem precisaria falar nada. Sua carcaça já estaria virando decoração.
Encarando o chão, Jungkook tentou controlar a respiração. Demonstrar medo só iria deixá-lo em maiores desvantagens diante daquela criatura sádica.
ㅡ O que fez Vossa Magnificência mudar a sua... hospitalidade? ㅡ perguntou com um leve e insolente sarcasmo na voz.
A entidade puxou um canto dos lábios num sorriso cortante.
ㅡ Estou entediado. É um efeito colateral da imortalidade... ㅡ O ômega roçou o indicador pela lateral do crânio liso, sua unha longa arranhou a superfície. ㅡ Vamos ver o que o novo intruso veio pedir... Hm, deseja ganhar uma guerra?
ㅡ Não.
ㅡ Então... ㅡ Ele passou para o esqueleto seguinte e deu tapinhas na ossada pálida. ㅡ Veio atrás de riquezas?
ㅡ Não, euㅡ
ㅡ Quer que eu mate alguém que é um empecilho para as suas ambições? ㅡ Sugeriu ao se aproximar de outros dois esqueletos.
ㅡ Não...
ㅡ Ah, já sei. ㅡ O ômega caminhou até o alfa e parou diante dele. Jungkook ainda estava de cabeça baixa quando o escutou falar: ㅡ Você anseia se unir a mim carnalmente, para assim se tornar o lupino alfa mais poderoso deste mundo.
Isso surpreendeu o mortal, que reagiu levantando a cabeça e franzindo o cenho, pronto para negar com veemência.
Mas acabou desarmado pelo olhar penetrante do Ômega de Prata, e de sua beleza inumana. Precisou pigarrear para recuperar a própria voz.
ㅡ Eu... Essa opção é absurda e arrogante demais para existir em minha mente, Vossa Magnificência. Na verdade, para existir na mente de qualquer humano...
ㅡ Ah, é mesmo? ㅡ O deus riu. ㅡ Curiosamente, a grande maioria desses esqueletos são de alfas insolentes que vieram até aqui acreditando na existência dessa opção.
Ele passou a rodear o humano, avaliando-o de cima a baixo.
ㅡ Se não quer riquezas, poder ou glória, então o que te trouxe até a morte certa? ㅡ Sussurros arrepiantes brotaram da voz dele.
Jungkook discretamente cerrou um punho para reprimir um estremecimento.
ㅡ De Norte a Sul eu guio grupos de pessoas até locais mais pacíficos e menos difíceis de se viver. O desejo delas pela sobrevivência é o que nos permite ganhar nossas lutas diárias, não é ambição por poder ou riquezas... E glória nenhuma pode ser conquistada num mundo como este, que foi abandonado por tanto tempo ㅡ disse o humano.
ㅡ Abandonado pelos deuses, você diz... ㅡ Os dentes do ômega reluziram, afiados feito navalha.
Jungkook o encarou sem pestanejar. Todos os anos em que passou defendendo a própria gente lhe ofereceram uma audaciosa determinação para aquele momento específico.
ㅡ O que eu vim pedir não tem a ver com conquistas ou acúmulo de ego, mas com a vida de pessoas desesperadas. Lá fora faz frio, a fome reina, a terra é seca e não dá frutos. Os lupinos não conseguem mais caçar, pois as matas são de espinhos e a quantidade de animais não para de diminuir. Eu sei que nada disso é sua obrigação, e que a vida de criaturas como nós, humanos, é tão efêmera para o senhor quanto a das formigas debaixo dos meus pés...
ㅡ Sim... Tão efêmera que me enoja. ㅡ O ômega soprou, e seu hálito doce viajou pelos cabelos de Jungkook, como uma brisa cálida e perfumada de primavera. ㅡ Vocês só vivem um sopro de vida, mas acham que merecem toda a misericórdia deste mundo.
A frieza na fala do imortal silenciou qualquer indício primaveril que tenha surgido naquele momento. Para Jungkook, foi como ver uma árvore secar bem diante de seus olhos. Ele precisou respirar fundo para controlar a angústia e não soar insolente quando proferiu as palavras seguintes:
ㅡ Em minhas peregrinações, eu descobri muitas coisas. Aprendi que, eras atrás, este mundo era belo. Há desenhos em rochas e pergaminhos antigos que relatam sobre os tempos da paz e das boas florestas, e todos eles enfatizam que o paraíso existia por conta de sua influência. Sendo assim, antes, nem tudo era tão efêmero para Vossa Magnificência. A vida mortal valia a pena ser vivida e zelada. Infelizmente, não encontrei a razão que o fez mudar suas ações para com este mundo... ㅡ O mortal abaixou a cabeça e, num ato necessário de demonstração de submissão, dobrou os joelhos até alcançar o chão numa reverência. ㅡ Então, eu humildemente lhe pergunto... Há algo que possa ser feito para que um pouco do paraíso que existia seja recuperado?
O ômega o encarou de cima, em silêncio.
Nestes entrementes, seus lábios carnudos tremeram num riso de escárnio, como se questionasse o que um mero humano poderia fazer para mudar as coisas.
Ele então se agachou, ficando um palmo mais baixo que o mortal, e inclinou o rosto para encará-lo.
ㅡ Vejamos o que pode ser feito... ㅡ A voz do imortal revelava toda a sua indiferença fria. ㅡ Hm, o mar. Dê-me o mar. Se fizer isso, eu devolvo o paraíso que os humanos sonham.
Jungkook piscou, encarando o chão de pedra.
Aquela claramente era uma proposta impossível, uma brincadeira de mau gosto de um deus que não se importava, mas os pensamentos do humano, no lugar de se chatearem, voaram para algo dentro de sua bolsa de viagem.
Ele a tirou das costas cautelosamente e puxou a fivela de couro para abri-la. Em seguida, num movimento que deixou o semblante do Ômega de Prata levemente intrigado, arrancou de dentro uma concha marinha do tamanho de sua mão. Ela era amarela, da cor da areia da praia, e tinha fragmentos irregulares de jóias azuis incrustadas em sua superfície.
ㅡ Eu obtive isto um pouco antes de me dirigir para cá, quando viajei para as praias do norte em busca de uma negociação com pescadores... Ela apareceu para mim depois que salvei uma criança de um afogamento, então decidi mantê-la comigo como um amuleto precioso. ㅡ Jungkook a ofereceu para o imortal, erguendo-a com as duas mãos. ㅡ Vossa Magnificência pediu que eu lhe desse o mar. Não sou capaz de fazer tal coisa, mas posso lhe oferecer algo que o ligue a ele. Se colocar a concha no ouvido, poderá escutar as ondas se quebrando e a brisa marítima. É como se estivesse no próprio oceano.
A divindade encarou o objeto com um semblante apático, e sua mão cheia de unhas longas pairou sobre ele como se estivesse decidindo se o pegaria. Acabou pegando e trazendo-o para perto do rosto. Analisou-o com os olhos estreitos e vermelhos. Por um segundo, sua face ficou ainda mais pálida, bastante lívida.
ㅡ Vá embora, humano ㅡ ralhou num sussurro frio. Sua mão se contraiu ao redor da concha, poderia quebrá-la num piscar de olhos. ㅡ Vá embora enquanto ainda permito que saia daqui vivo.
Jungkook manteve-se parado, cheio de determinação.
ㅡ Vim ciente dos riscos. Estou disposto a arriscar minha vida em troca de qualquer ajuda sua, então, não possoㅡ
ㅡ SAIA DAQUI!
Um tufão brotou com o grito do Ômega de Prata, e acertou Jungkook como um chicote violento, jogando-o para a entrada do covil. O humano conseguiu se proteger de um encontro fatal com as rochas a tempo, ao se transformar num lupino no último segundo. Quando se recompôs, virou sua face animalesca na direção da divindade, mas já era tarde, pois uma barreira de espinhos havia sido formada entre os dois.
Derrotado, Jungkook deu as costas ao covil e trotou para fora da montanha. De volta ao exterior, ele deitou o corpo quadrúpede no solo seco sem se importar com os espinhos que o rodeavam, pois a única coisa que o incomodava naquele momento era o sentimento de incapacidade e frustração. O que iria acontecer com o seu povo dali por diante, já que não havia mais alternativas para se ter esperança?
Não imaginou, contudo, que iria receber uma resposta para essa sua questão logo em seguida, quando sentiu gotas de chuva morna pingando em seu focinho.
Ele ergueu a cabeça e encarou o céu, e então viu nuvens robustas se acumulando no horizonte, prontas para derramar água fresca no solo. Ao mesmo tempo, assistiu aos espinhos das proximidades sendo engolidos pela terra, deixando para trás um rastro verde recém-nascido do que poderia vir a ser um tapete de grama e, no futuro, uma floresta rica.
Jungkook arfou ao se dar conta de que seu pedido ㅡ ou pelo menos parte dele ㅡ havia sido atendido. Ele voltou a encarar a montanha do Ômega de Prata e curvou a cabeça num rápido e alegre gesto de gratidão.
🌕🌖♛🌘🌑
ㅡ Não é necessário que nos pague alguma coisa, jovem líder. Conhecemos a sua reputação, então nos sentimos um pouco mais seguros com a sua presença aqui ㅡ disse um rapaz ômega de uma comunidade nômade que Jungkook havia encontrado acampada pelas redondezas enquanto seguia viagem de volta para casa.
ㅡ Infelizmente, sem a ajuda dos meus irmãos, não sei se posso oferecer tanta segurança assim. Mas, obrigado ㅡ disse ele, abrindo um sorriso gentil que deixou seu anfitrião ruborizado.
ㅡ Hm, disponha. ㅡ O rapaz pigarreou e riu nervosamente enquanto o guiava por entre as tendas do acampamento nômade. ㅡ Você pode descansar na tenda dos meus avós. Ela é grande e confortável, e eles só retornarão amanhã da caçada.
ㅡ Eu agradeço. Diga a eles que não irei ficar aqui por muito tempo, pois pretendo voltar para o meu povo em breve.
ㅡ Viajou até aqui para outra negociação, jovem líder?
ㅡ Digamos que sim...
ㅡ Espero que tenha ocorrido tudo bem.
ㅡ Ao que parece, tive algum sucesso ㅡ disse, um pouco radiante, sentindo o solo úmido e rico debaixo das botas.
Os dois chegaram à tenda onde ele iria passar a noite. Por mais que fosse humilde, ela era grande e realmente aconchegante, com colchões tomados por travesseiros e por cobertas feitas com pele, e alguns totens religiosos pendurados no teto por tranças coloridas.
A atenção de Jungkook se fixou num desses totens. O pequeno artefato de madeira moldava a imagem de um lobo com pelos claros e chifres no alto da cabeça, e a extremidade esquerda de seu corpo era conectada a outro totem, o qual também se tratava de um lupino, mas este tinha pelos escuros e azulados, e nenhum chifre sobre a cabeça.
ㅡ Está admirando o artesanato do meu avô alfa, jovem líder? ㅡ perguntou o anfitrião.
ㅡ É bonito, e também interessante... Suponho que esse lupino com chifres seja a divindade de prata ㅡ disse Jungkook, em dúvida.
ㅡ Está certo.
ㅡ Então, quem é o lupino azul grudado nele?
ㅡ Ah. ㅡ O anfitrião riu. ㅡ É de uma história antiga que meus avós gostam de contar.
ㅡ Eu ficaria lisonjeado se a compartilhasse comigo.
O pedido provocou mais uma onda de rubor sobre a face do ômega. Às vezes, Jungkook soava charmoso sem perceber.
ㅡ Bem... ㅡ O rapaz limpou a garganta. ㅡ Meu avô diz que a Lua entregou seus dois filhos gêmeos para a Terra. Um deles deu vida às florestas, e o outro deu vida às águas. Eram inseparáveis, quase siameses, por isso esses totens foram feitos assim, conectados um ao outro.
O jovem alfa refletiu um pouco sobre aquela história inédita, antes de perguntar:
ㅡ O que aconteceu com o gêmeo que deu vida às águas? Só conhecemos o paradeiro do Ômega de Prata...
ㅡ Meus avós acreditam que ele foi viver nos oceanos, e que por isso lá é mais rico e cheio de vida do que esta terra.
Jungkook tocou os totens e os observou em silêncio por longos segundos.
ㅡ Então ele deixou o irmão sozinho? ㅡ murmurou, lembrando-se da criatura que vivia isolada no covil da montanha.
ㅡ Essa é apenas uma história para criança dormir, jovem líder. Não precisa pensar muito nisso... ㅡ O ômega tirou a mão de Jungkook dos totens com uma carícia. O perfume dele se tornou mais intenso. ㅡ Aliás, gostaria de dormir agora? A noite já reina lá fora, e está frio... Posso esquentá-lo.
Uma sugestão sensual pairou no ar.
Havia meses que Jungkook não se deitava com algum ômega. Suas constantes viagens e migrações o tinham ocupado a mente e o físico por muito tempo. Sendo assim, seu lobo interior acabou se inclinando na direção daquele convite, pois sentir um pouco de prazer depois de ter atravessado tantas tempestades parecia ser uma ideia agradável. Então ele relaxou e se entregou ao desejo carnal.
Colocou o jovem anfitrião sobre o colchão e arrancou-lhe as roupas de baixo sem muita hesitação. Depois de se tocar e liberar feromônios quentes, girou o corpo do ômega para penetrá-lo por trás. Escutou-o gemer num grunhido quando se enfiou nele e passou a fodê-lo num ritmo acelerado nada sentimental, equilibrando o cavalheirismo educado aos instintos brutos.
A respiração cálida embaçou seus olhos e deixou sua mente um pouco tonta. Em determinado momento, enquanto movia os quadris, Jungkook encarou o totem do lupino claro e se pegou pensando no que havia acontecido dentro do covil na montanha.
A concha. O mar. A solidão sem explicação de um deus frio.
Quando o sexo chegou ao fim e o ômega adormeceu sob o seu corpo, ele saiu da tenda e correu para longe na forma lupina, atravessando o cenário da madrugada até avistar novamente a encosta da montanha e a fenda que existia nela.
Ficou um tempo observando aquele lugar sem ter certeza sobre o que tinha ido fazer ali. Não conseguia parar de pensar na história que havia escutado...
Reconsiderou voltar para o acampamento, porque o seu trabalho naquela região já havia sido concluído, e até deu meia-volta para fazer isso, mas nesse momento avistou uma macieira repleta de frutas vermelhas e cheias. Admirou aquela visão rara e milagrosa com água na boca, antes de colher algumas maçãs e partir para dentro da montanha do deus isolado.
Quando entrou no covil, usou sua cimitarra para abrir caminho no meio da barreira de espinhos. Ignorou os esqueletos expostos e seguiu por uma passagem ao fundo, entre as rochas, guiando-se pelo aroma doce e único gravado na atmosfera.
Jungkook parou de andar assim que avistou uma gruta com uma lagoa cheia de bioluminescência azul, cujas margens eram revestidas por um sobrenatural tapete de grama prateada e arbustos repletos de flores vermelhas.
No centro de tudo aquilo, em meio à água brilhante e transparente, jazia o Ômega de Prata. A entidade encontrava-se despida, exibindo uma pele reluzente como pérola. Seus longos e úmidos cabelos boiavam na superfície líquida feito ramos de platina, e emaranhavam-se delicadamente nas pontas dos chifres.
O alfa travou a respiração diante daquela imagem. Era como ver o paraíso dos deuses em pessoa.
ㅡ Você realmente não tem medo da morte. Estou começando a ficar impressionado. ㅡ A voz do deus reverberou pelas paredes de rocha. ㅡ Como se atreve a vir aqui?
O ômega não parecia irritado. Sua pergunta expressava muito mais uma curiosidade intrigada do que raiva.
ㅡ Vim lhe trazer isso. ㅡ O humano pegou as maçãs que havia colhido e as colocou na margem da lagoa. ㅡ De ontem para hoje, uma macieira nasceu e deu frutos próximo à entrada deste lugar. Creio que tenha sido por conta de sua influência... Eu queria lhe agradecer por ter atendido um pouco do meu pedido.
ㅡ Veio me agradecer oferecendo-me as maçãs que eu mesmo cultivei? ㅡ Os olhos vermelhos se fixaram nele.
Os lábios de Jungkook curvaram-se num pequeno sorriso.
ㅡ Meu objetivo é lhe mostrar como Vossa Magnificência é capaz de transformar este mundo num paraíso, se estiver disposta ㅡ explicou, sem medo de soar atrevido. Em seguida, pegou uma maçã e mordeu um pedaço suculento. O sabor adocicado o fez suspirar. ㅡ Faz meses que não encontro maçãs, e creio que jamais experimentei algo tão saboroso na vida.
Com um semblante indiferente, o deus pegou uma daquelas frutas e a analisou. Depois, ele assobiou melodicamente, atraindo uma dezena de pássaros que estavam escondidos em algum lugar no teto da gruta. Os pequenos animais planaram até as maçãs e passaram a devorá-las. A única fruta que restou foi a que estava na mão do ômega.
Nestes entrementes, Jungkook se dividiu entre admirar o grupo de pássaros coloridos que ele nunca tinha visto antes, e perceber que a concha que ele havia dado à divindade estava na outra margem da lagoa, decorando um arbusto como se ele fosse um tipo de altar natural.
ㅡ Acho que agora consigo entender o porquê de Vossa Magnificência ter me exigido o mar em troca de acatar o meu pedido. Descobri que o senhor dos oceanos é seu irmão ㅡ disse, sem tirar os olhos da concha.
O Ômega de Prata deu as costas a ele e jogou a última maçã aos pássaros.
ㅡ O que um mero mortal pode entender sobre esse assunto? ㅡ ralhou, nadando para mais fundo da lagoa.
ㅡ Eu também já perdi um irmão precioso, e sinto a falta dele.
Um resmungo da divindade fez o chão de pedra vibrar.
ㅡ Eu não perdi o meu. Ele fez uma escolha por conta própria e se entregou ao oceano para fazer parte dele ㅡ disse o ômega. Agora apenas o seu rosto permanecia na superfície da lagoa e encarava Jungkook. ㅡ Ele fez o que todos os outros fizeram. Fui o único imortal que restou num corpo senciente. Como você poderia sequer imaginar o que é isso?
ㅡ Eu consigo imaginar que sente falta, porque manteve a concha que lhe dei. ㅡ Jungkook apontou para o objeto sobre o arbusto. ㅡ Ao menos isso sou capaz de entender.
O ômega estreitou os olhos e mergulhou totalmente na água.
Através da transparência límpida da lagoa e da luminosidade azul, o corpo dele pôde ser visto pelo humano, que o assistiu nadar até a margem e emergir bem em sua frente.
ㅡ Os esqueletos lá fora não servem de aviso para você, mortal? ㅡ Ele mostrou a fileira de dentes que continha caninos afiados. Seus cabelos caíram em frente ao peito nu e úmido e pingaram água nas roupas de Jungkook. ㅡ Está ultrapassando alguns limites.
ㅡ Os esqueletos eram de indivíduos que o trataram como algo que devia servi-los. Não têm relação comigo. Mas acho que, se Vossa Magnificência realmente quisesse adicionar os meus ossos à sua coleção, já o teria feito...
O humano desejou desviar o olhar das órbitas vermelhas e intensas do deus, mas não poderia encarar o teto, senão soaria acovardado e suas palavras não transmitiriam confiança; e nem abaixar a cabeça, senão seu campo de visão passaria a se concentrar em algo... belo e desconcertante. Então manteve-se firme enquanto encarava-o a tão poucos centímetros de distância.
Com a resposta dele, o semblante do Ômega de Prata se tornou uma profusão de incredulidade e divertimento, e seus dentes afiados desapareceram por baixo dos lábios curvados num sorriso menos intimidante.
ㅡ De qualquer maneira, suma da minha vista. O cheiro de ômega impregnado em você é nauseante e já consumiu minhas narinas. Não quero mais ser incomodado pela sua presença ㅡ falou, retornando para o fundo da lagoa.
Jungkook se surpreendeu com aquilo. Ele não tinha reparado que pelo seu corpo ainda existia rastros do jovem nômade com quem havia se deitado no início daquela noite, então o constrangimento o atingiu em cheio.
ㅡ Eu... Não havia leitos de água no meio do caminho até aqui, por isso não pude me limpar tão bem... Sinto muito.
ㅡ Hm... ㅡ O ômega pensou um pouco. ㅡ Então eu permito que mergulhe.
ㅡ O quê?
ㅡ Mergulhe na água e acabe com esse cheiro irritante. ㅡ A fala soou como uma ordem.
Um pouco hesitante, o humano começou a se desfazer de suas vestes. Tirou o coldre, as botas, a armadura de couro, a camisa e as calças, depois afundou o corpo despido na lagoa e sentiu um arrepio gostoso com a temperatura morna da água. Mergulhou o rosto e passou as mãos pelo cabelo úmido, em seguida esfregou a pele para se limpar rapidamente.
Nestes entrementes, reparou no olhar curioso do Ômega de Prata.
ㅡ Por que o seu rosto está vermelho? ㅡ a divindade o questionou.
Jungkook sentiu a vergonha ganhar força.
ㅡ É que esta situação é incomum... É desconcertante estar nu diante de um deus.
ㅡ E por quê? É apenas um corpo despido... ㅡ O ômega arqueou uma sobrancelha. ㅡ Ou devo supor que minha nudez neste momento também o deixa desconcertado?
Jungkook se atrapalhou e desviou o olhar. Sua face ardia.
ㅡ Eu não ousaria ㅡ disse da forma mais neutra que conseguiu.
O deus reparou no jeito nervoso dele e o observou em silêncio por um momento, então rolou os olhos para outro canto da gruta e mudou o assunto da conversa com uma pergunta:
ㅡ Como perdeu o seu irmão?
A questão ajudou Jungkook a relaxar um pouco, por mais que a resposta que tinha para dar não fosse nada feliz.
ㅡ Numa disputa por território. A alcatéia em que ele estava foi trucidada ㅡ explicou com um suspiro, encostando-se na margem. ㅡ Eu não queria que o meu irmão tivesse ido. Poderíamos ter fugido com os outros...
O deus refletiu sobre aquilo e murmurou para si:
ㅡ Por que eles sempre são tão egoístas?
Suas palavras foram ouvidas pelo humano, e ele acabou soltando um riso anasalado que contagiou um sorriso singelo na face do imortal.
Os dois trocaram olhares de compreensão e cumplicidade, pois, no fim das contas, eram uma dupla de abandonados.
ㅡ Volte para o seu povo, humano. Vou continuar oferecendo chuvas e solo rico, então não precisa mais estar aqui ㅡ disse o Ômega de Prata, arrastando-se para fora da lagoa. Os longos cabelos dele rapidamente grudaram em suas costas, formando uma capa que batia na altura da dobra do joelho.
Jungkook decidiu acatar aquela ordem de dispensa. Depois de pôr as vestes, ele se dirigiu à saída da gruta. Antes de partir, virou-se para o deus e disse:
ㅡ A propósito, Vossa Magnificência, o meu nome é Jungkook. ㅡ Em seguida, curvou-se numa reverência e partiu para fora do covil.
A divindade acreditou que finalmente havia sido deixada sozinha em seu eterno e confortável isolamento na montanha, sem ninguém interrompendo seus dias calmos e silenciosos. Mas, com o passar do tempo, em seu íntimo, chegou a achar aquela calmaria toda muito entediante, e quase desejou que ela fosse quebrada novamente.
Não esperava que dois dias depois, o humano chamado Jungkook voltaria a invadir o covil com um sorriso determinado no rosto.
ㅡ Você aqui novamente, feito uma erva daninha que insiste em surgir... ㅡ sibilou o Ômega de Prata enquanto desembaraçava alguns fios de cabelo que haviam ficado enrolados na curvatura dos chifres. ㅡ Pensei que fosse retornar para o seu povo.
ㅡ Bem, tive uma pequena mudança de planos. ㅡ O humano balançou os ombros.
ㅡ Isso não é da minha conta. Saia de minha casa, carrapato irritante.
Mesmo com a ordem, Jungkook permaneceu ali.
ㅡ Eu vim lhe fazer outro pedido, com algo em troca. Algo do mar que Vossa Magnificência irá gostar ㅡ disse, dando alguns passos para perto dele.
Dois olhos vermelhos o encararam de soslaio com certo interesse.
ㅡ E o que seria?
ㅡ Irei revelar depois que o senhor realizar o meu pedido. ㅡ Jungkook mostrou a ele um sorriso atrevido.
O ômega soltou o cabelo e estreitou os olhos na direção do mortal.
ㅡ Hm, muito bem... A minha curiosidade supera o meu desejo em acabar com você.
ㅡ Eu agradeço. ㅡ Diminuiu a distância entre os dois dando mais um passo à frente. ㅡ O meu pedido é que Vossa Magnificência me acompanhe num passeio lá fora.
Depois de dizer isso, ofereceu a mão direita ao deus e aguardou pela reação dele.
O ômega encarou aquela mão erguida e pensou um pouco naquela proposta. Seu olhar rolou até a entrada da montanha e se fixou ali por um longo momento, quase dando a entender que iria recusar o passeio.
Mas, no fim, ele aceitou o acordo.
Deu mais uma olhada na mão de Jungkook antes de tocá-la. Sentiu o calor mortal dele, o tremor nervoso e as cicatrizes de batalha, coisas que uma divindade jamais teria e que, portanto, o impressionaram.
Os dois saíram em seguida, e lá fora imediatamente foram abraçados pela luminosidade diurna.
O Ômega de Prata demorou um pouco para se acostumar com aquele brilho intenso, porque há muito tempo não saía de seu covil, mas quando aconteceu, paralisou diante da vista que encontrou.
Ele testemunhou o resultado dos anos em que passou dando as costas para aquele mundo, reparou no chão seco, no ar frio e nos espinhos que tomavam a mata. Mesmo com as mudanças nos últimos dias que permitiram o retorno dos campos verdes e das florestas cheias de folhas, alguns resquícios do abandono ainda eram bastante observáveis e provavelmente iriam perdurar por um bom tempo.
Teria permanecido paralisado e profundamente quieto se o humano não tivesse puxado a mão dele para que começassem a andar.
ㅡ O que exatamente você pretende com esta... caminhada? ㅡ questionou o ômega.
ㅡ Quero tirá-lo daquela montanha e lhe mostrar algumas coisas. O mundo deve ter mudado bastante desde que se isolou ㅡ explicou Jungkook, enquanto o guiava pela mata. Ele tentava não perder o foco ao reparar nos pequenos animais que começavam a segui-los, e na maneira como as árvores inclinavam as copas na direção deles, tudo por conta da influência da divindade.
ㅡ É... De fato, este mundo mudou ㅡ murmurou o ômega, ignorando tudo o que acontecia ao seu redor como se já estivesse acostumado com aquilo. ㅡ Mas acho que já vi o bastante... Não estou tão disposto a fazer uma caminhada desnecessária. Quero voltar.
Ele tirou a mão da de Jungkook e se virou para ir embora. O humano foi mais rápido e se colocou no caminho dele.
ㅡ Se está indisposto, eu lhe ofereço uma opção para que continue comigo. ㅡ Jungkook respirou fundo e deixou o lobo interior vir à tona numa metamorfose. Num piscar de olhos, seu corpo se tornou lupino. Ele ajoelhou as patas dianteiras antes de se oferecer: ㅡ Minhas costas são suas. Monte-me e deixe-me levá-lo.
O deus ponderou sobre aquilo e olhou ao redor com o cenho franzido. A verdade é que encarar aquele cenário triste o incomodava. Mas o humano tinha um dom em ser insistente...
Pensou então na proposta que havia aceitado, no tal objeto marinho que iria receber em troca. Se sustentou com essa ideia e então montou nas costas do alfa em sua frente.
ㅡ Para onde pretende me levar? ㅡ perguntou num tom apático enquanto se ajeitava entre os pelos do lupino.
Sua montaria, no lugar de oferecer uma resposta verbalizada, grunhiu satisfeita e saiu correndo pela mata.
Jungkook atravessou as florestas renovadas com árvores altas, os campos abertos que agora se enchiam de grama robusta, as clareiras bonitas no centro de montes, os riachos limpos e frescos nascidos nos altos das montanhas, e os jardins naturais nos quais flores nasciam selvagens pela primeira vez em muito tempo. Ele mostrou ao Ômega de Prata toda aquela beleza teimosa que estava determinada a vir à tona com força total após receber um simples alento de primavera da entidade, e, no final, correu até uma comunidade humana que avistou em sua viagem pelas redondezas.
Ao longe, apontou para as pessoas que sorriam e dividiam uma refeição, para as crianças que brincavam e para uma área de plantio que agora, com as chuvas mornas e o solo produtivo, já mostravam sinais de que iriam resultar numa boa colheita no futuro.
Interromperam o passeio naquele ponto e descansaram em meio à relva. O Sol já caía no horizonte, escurecendo o lado oposto do céu e oferecendo reflexos de uma cortina carmesim. Sentados à distância, eles conseguiam ver as lanternas e fogueiras que começavam a ser acesas naquela comunidade de mortais. A agitação ali não iria parar nem sob a escuridão.
Nestes entrementes, Jungkook, de volta à sua forma humana, observou o ômega de soslaio, e reparou no ar reflexivo dele enquanto seus olhos vermelhos se concentravam no cenário.
Os cabelos de prata balançavam com a brisa, e os chifres eram iluminados pelos feixes vermelhos do pôr do sol. Aquela figura divina roubou um suspiro do humano e o deixou paralisado por longos segundos.
ㅡ Jungkook...
Assustou-se ao ter o nome moldado pelos lábios carnudos do deus. Ficou a um passo de enrubescer.
ㅡ Hm, sim, Vossa Magnificência?
ㅡ É Jimin ㅡ murmurou o outro, virando o rosto perfeito na sua direção. ㅡ O meu irmão dizia que um dia iriam me chamar de Jimin, então às vezes se referia a mim com esse nome estranho. Acabei me acostumando...
ㅡ Jimin... ㅡ Jungkook testou o nome na boca, verbalizando cada sílaba devagar.
Isso fez o deus se remexer sobre a grama.
ㅡ Qual exatamente era a sua intenção ao me mostrar todas essas coisas, Jungkook? ㅡ perguntou, apontando com o queixo para o cenário diante deles.
O humano abriu um pequeno sorriso.
ㅡ Eu pretendia convencê-lo de que vale a pena se dedicar a criaturas que só vivem um sopro de vida. E não me refiro apenas a humanos... ㅡ Ele exalou um suspiro longo. ㅡ É por causa de todas essas coisas que eu não tive medo de me arriscar ao entrar na sua montanha para falar com o senhor.
O ômega o encarou atentamente com as sobrancelhas arqueadas.
ㅡ Você parece ser um bom líder, humano ㅡ murmurou baixinho, e se pôs de pé em seguida. ㅡ Bem... Está mais do que na hora de retornar.
ㅡ Ah, claro. Vou levá-lo de volta para sua casa.
ㅡ Refiro-me a outro retorno. ㅡ O Ômega de Prata deu um passo à frente e afundou os pés no solo. Em seguida, juntou as mãos na frente do corpo e fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, suas íris vermelhas reluziam como duas estrelas de sangue, e todo o seu corpo carregava um brilho pálido semelhante ao da Lua. Ele parecia um espectro de luz divina, um corpo celeste em meio à terra comum que, mesmo parado, emanava pela atmosfera algo como várias ondas de vibração.
Jungkook reparou que aquele pulsar tinha como foco o chão e tudo o que nascia nele. A grama debaixo de seus pés cresceu, as plantações da comunidade de humanos deu frutos quase que imediatamente, os espinhos sumiram de vista, o chão aglutinou em riqueza e um novo rio podia ser visto se formando ao longe, cortando os campos secos e seguindo para o Sul. Em poucos minutos, aquela terra se transformou num paraíso só visto em sonhos.
O humano ficou tão deslumbrado que só no último segundo percebeu o corpo de Jimin pendendo para o lado. Correu para segurá-lo antes que atingisse o chão.
ㅡ Vossa Magnificência? ㅡ chamou, chacoalhando-o levemente ao perceber a moleza em seu corpo. O brilho pálido ao redor dele já se esvaía. ㅡ Jimin?!
ㅡ Não grite... É apenas exaustão. Vou estar bem depois de hibernar um pouco. ㅡ A voz do deus soou arrastada e distante, seus olhos rubros também pareciam opacos quando se concentraram na face assustada de Jungkook.
Com um meio sorriso, sussurrou:
ㅡ Eu sou imortal, esqueceu-se?
ㅡ Temo que se desfaça ou vá embora, assim como todos os outros imortais.
O ômega balançou a cabeça devagar, negando.
ㅡ Quando nasci, fui condenado a este corpo para sempre, para vagar por aí entre os lupinos... Não acho que sou capaz de ir embora ou de me desfazer.
Jungkook reprimiu um suspiro aliviado e ergueu Jimin no colo. Notou que aquela era a primeira vez tocando o corpo dele com tanta proximidade e se surpreendeu com a leveza e a maciez que encontrou. Também ficou intimamente abalado com o cheiro adocicado ao redor dele. Parecia muito mais forte tão de perto, e com mais poder de abalar suas estruturas.
ㅡ Eu o levarei de volta à montanha para que descanse.
Após dizer isso, o humano partiu para o caminho pelo qual vieram.
Quando chegou lá, sentou o deus em seu trono de pedra, em meio ao círculo de esqueletos. Assim que teve a certeza de que ele estava bem acomodado reverenciou-o e lhe confessou o seguinte:
ㅡ A verdade é que ainda não tenho comigo o objeto que prometi lhe entregar depois que caminhasse ao meu lado. Peço perdão...
O Ômega de Prata riu em silêncio. Não parecia se importar.
Mas Jungkook continuou:
ㅡ Eu cumpro minhas promessas. Irei viajar agora ao litoral para buscar o pagamento que lhe devo.
Curvou o corpo numa reverência profunda e cheia de gratidão pelo milagre que havia sido realizado naquele dia, mas, quando se virou para ir embora, teve a mão segurada pela do ômega.
Embora estivesse fraca, ainda havia uma firmeza divina nos dedos daquele deus.
ㅡ Vai ao mar? ㅡ questionou com a voz cansada.
ㅡ Sim, Vossa Magnificência. O que quero lhe dar é uma coisa muito rara que há lá.
ㅡ O mar não é acolhedor com todos os lupinos.
ㅡ Eu sei, mas espero que ele seja acolhedor comigo.
O aperto ao redor da mão de Jungkook se tornou mais forte, mais urgente, como se não quisesse permitir a partida dele.
Porém, no final, ele foi solto, e Jimin desviou o olhar pesado para longe, como se quisesse adormecer.
No momento em que a respiração do deus se tornou profunda igual a de um bebê passeando no mundo onírico, o humano inclinou o rosto e depositou um pequeno beijo na testa dele. Em seguida, partiu para fora da montanha e seguiu sua viagem até as praias nortenhas.
🌕🌖♛🌘🌑
Passou-se quase um semestre inteiro, e Jungkook ainda não havia retornado.
Nesse meio tempo, o Ômega de Prata hibernou como faria um urso ou um castor, e recuperou sua força para sair vagando pelas florestas. Ficar preso dentro da montanha de repente lhe parecia irritante, principalmente com a ausência daquele humano que nunca mais havia dado notícias.
"Ele provavelmente morreu. Deve ter sido engolido por alguma onda", chegou a pensar, e tentou tratar a ideia com indiferença e divertimento, mas, no lugar, acabou ganhando um profundo desconforto no peito.
Ignorou esses sentimentos esquisitos e continuou insistindo na ilusão de que ainda preferia se manter sozinho, só que a solitude já tinha se tornado solidão para ele, e tudo parecia fora do lugar.
Foi então que, certo dia, o deus sentiu algo esquisito. Dentro de seu peito, o lobo divino grunhiu, fraco e cheio de dor.
Estranho. Anormal.
Sem saber como, ele captou algo de errado em algum lugar no mundo. Em algum lugar onde Jungkook estava. Então, sem pensar muito, dirigiu-se até lá em sua magnífica forma lupina.
Jimin atravessou milhas de distância, sem parar, numa velocidade que se comparava ao vento, até chegar a uma comunidade litorânea de pescadores.
Quando as pessoas daquele local o viram, exclamações assustadas foram feitas e corpos trêmulos se dobraram rapidamente para reverenciá-lo. Terror pairou entre os mortais, os quais só conheciam o Ômega de Prata pelos rumores acerca de seus atos cheios de sadismo. A admiração pela sua bela figura divina também se fez presente, o que deixou as centenas de olhares mortais atordoadas, sem saber como se portar.
Jimin os ignorou, pois sua mente ainda estava naquele incômodo no peito.
Ele avançou pela comunidade e andou pelas casinhas de madeira, buscando com urgência. Nenhum humano ousou impedi-lo.
Quando enfim sentiu o cheiro único de Jungkook, atravessou uma porta e se deparou com a figura do humano deitada sobre uma cama maltrapilha e protegido por uma coberta de tecido grosso.
De longe era possível verificar o estado deplorável em que ele se encontrava. O jovem alfa tossia e contraía o cenho em dor, e seu corpo estava coberto por suor febril. Um humano à beira da morte, Jimin constatou com a boca seca.
ㅡ O que ele tem? ㅡ questionou o deus a uma mulher que passava por ali com um balde de água fria e panos.
Ela quase derramou a água quando notou a presença da divindade.
ㅡ Vo-Vossa Magnificência!
ㅡ Diga de uma vez. O que ele tem?! ㅡ Jimin estava impaciente. Seu lobo se revirava em agonia. Talvez explodisse aquela praia com espinhos.
ㅡ É-é a doença do pulmão, Vossa Magnificência. ㅡ A mulher estremeceu dos pés à cabeça. ㅡ O jovem líder ficou muitas semanas no mar com nossos marinheiros e se arriscou debaixo de tempestades para encontrar um tesouro no oceano. Ele é um alfa muito forte, por isso está lutando contra a doença com muito afinco, mas não sabemos se irá continuar tão firme pelos próximos dias... ㅡ explicou ela.
O ômega cerrou as pálpebras e pressionou as têmporas com os dedos. Sua visão de repente tinha começado a ficar turva.
Com um movimento de mão, dispensou a mulher, que correu para fora no mesmo segundo.
Em seguida, ele se aproximou da cama onde Jungkook travava uma batalha pela vida e se sentou na extremidade dela, bem ao lado do corpo dele
O silêncio pairou entre os dois durante alguns segundos. Foi o tempo que levou para o humano conseguir distinguir o rosto de Jimin de seus delírios febris.
ㅡ Vossa... Magnificência.
ㅡ Por que fez isso? A morte realmente não o assusta? ㅡ O tom de voz do deus soou frio, mas essa frieza estava tomada por melancolia.
ㅡ Hm. ㅡ O alfa respirou com dificuldade. ㅡ Valeu a pena. Eu consegui pagar a minha dívida. ㅡ Sua mão puxou algo guardado debaixo da coberta e colocou aquilo no colo de Jimin.
O deus viu que se tratava de uma ostra cinzenta, e que dentro dela havia uma belíssima pérola pálida que refletia um brilho sutilmente rosado.
ㅡ É uma pérola rara que reluz igual à sua pele, Jimin. ㅡ Jungkook explicou com um sorriso fraco. ㅡ Poucos foram os marinheiros que encontraram uma assim. Segui as instruções deles até ter sucesso em minha busca.
Seu sorriso foi substituído por uma tosse profunda e dolorosa.
Jimin sentiu cada pedaço daquela dor em seu âmago.
ㅡ Sei que não passa de uma joia simples para um imortal que já viu todas as belezas deste mundo, e que é responsável pela maioria delas. Mas espero... Espero que lhe agrade um pouco ㅡ murmurou o humano, ainda lutando para falar.
ㅡ Tolo... Sua tolice me deixou assustado. ㅡ O ômega cerrou os lábios. ㅡ Quase morreu por uma bobagem.
ㅡ A-acho que ainda tenho risco de morrer. ㅡ Jungkook riu como se aquilo não fosse nada. ㅡ Tudo bem. Meu povo está à salvo e eu consegui tirar Vossa Magnificência daquele covil escuro. Estou satisfeito com a vida que tive.
Jimin balançou a cabeça em negação profunda. Estava tão frustrado que, se não se controlasse, iria destruir o teto sobre eles com um piscar de olhos.
ㅡ Não permitirei que morra ㅡ disse, imperativo. ㅡ Viajei até aqui para resgatá-lo de sua própria impetuosidade.
Os olhos do humano piscaram lentamente, acompanhando o ritmo de seus pensamentos sedados pela doença.
ㅡ Como soube que eu estava assim? ㅡ perguntou.
ㅡ Eu senti.
ㅡ Então deuses também são capazes disso...
ㅡ Não. Não é isso. ㅡ O ômega virou a cabeça, sentindo o rosto arder como se fosse um garotinho mortal envergonhado. ㅡ Eu senti você. O meu lobo sentiu o seu e me guiou até aqui como se estivéssemos conectados de alguma forma.
A mão de Jungkook alcançou a dele.
ㅡ Co-como isso é possível?
ㅡ Não sei. Sei apenas que não posso deixá-lo morrer. ㅡ Um brilho triste despontou do olhar de Jimin, uma mera porcentagem do misto de agonia e desespero que pulsava em seu coração.
Ele segurou o rosto do jovem alfa com as duas mãos, e se aproximou para encostar a testa na dele. Sentiu a febre, o suor e os tremores, e então passou a absorvê-los. Absorveu também o amálgama doentio que residia nos pulmões do humano, e arrancou-o como faria com uma erva daninha.
O deus sugou tudo até sentir a doença em seu próprio corpo, e então a liberou para o fundo da terra, onde seria transformada em rocha para o submundo.
Com o alívio, Jungkook relaxou e respirou fundo. Seu corpo agora pedia uma longa noite de sono após tanta luta. Mas ele ainda queria se manter desperto para agradecer e olhar a face daquele deus. Havia sentido muita falta dela.
ㅡ Descanse ㅡ murmurou Jimin, acariciando a bochecha dele. ㅡ Quando estiver recuperado, fale com o seu povo. Lá fora, um mar de gente aguarda ansiosamente pela sua recuperação.
Depois de dizer isso, segurou a ostra com a pérola que havia ganhado e se levantou da cama.
ㅡ Aonde vai? ㅡ Jungkook tentou segurá-lo, mas não conseguiu por conta da fraqueza.
ㅡ Voltarei para a minha montanha. Não quero ficar no meio de tantos mortais, eles... Eles se assustam comigo, e com razão. Estive negligente e agi como uma besta irritada durante os últimos séculos.
Sua decisão fez o humano usar toda a força que tinha para se sentar de repente e segurá-lo pelo tecido da roupa.
ㅡ Então o procurarei lá, e o arrancarei de lá outra vez ㅡ declarou Jungkook.
Os lábios de Jimin formaram um sorriso comovido.
ㅡ Que mortal cheio de atrevimento...
Voltou a acariciar a bochecha do humano, e, nestes entrementes, fixou os olhos nos lábios dele, que agora pareciam saudáveis, rubros e macios, e que jaziam entreabertos, um pouco sedentos por algo.
Inclinou-se um pouco, sentiu a respiração quente de Jungkook em seus cabelos e o olhar intenso dele sobre sua face.
Os feromônios daquele alfa queriam envolvê-lo e consumi-lo, Jimin conseguia perceber. Jimin inclusive desejava que isso acontecesse, mas não ofereceu nenhuma permissão. Ainda não ofereceria.
No lugar, deixou uma provocação. Ele encostou a boca naqueles lábios e depositou um selinho cálido. Em seguida, partiu antes que a profusão de sentimentos que lhe eram estranhos viessem à tona e fossem revelados por meio de flores vermelhas brotando em seus chifres.
🌕🌖♛🌘🌑
Mesmo após semanas, a pérola ainda carregava o cheiro de Jungkook.
Talvez porque ela havia estado com o humano, retendo a essência dele, enquanto a vida se esvaía de seu corpo por conta da doença. Ou talvez porque os pensamentos do Ômega de Prata sempre viajavam até ele quando olhava para aquela pequena joia.
Um dia, aquele cheiro inundou todo o covil do imortal, informando a aproximação de seu dono. O deus já esperava por isso, sentado no trono de pedra no centro do que um dia havia sido um salão mórbido cheio de esqueletos expostos.
Agora não havia esqueleto nenhum, todos foram enterrados, e, no lugar, jazia roseiras brancas florescendo como se estivessem no ápice da primavera.
Então essa foi a visão que Jungkook teve quando retornou à montanha: A divindade de prata rodeada por um mar de flores brancas. Ele quase perdeu o fôlego.
ㅡ A demora é um luxo que mortais não deveriam esbanjar. O tempo de vida de vocês é curto demais para isso ㅡ disse Jimin, num tom de voz profundo. Sua mão segurava uma rosa colhida, e as pétalas dela começavam a ganhar a mesma coloração rubra e incandescente que seus olhos.
Olhos que encaravam o alfa com anseio.
Jungkook ficou parado na entrada do covil apenas por um reles momento, antes de sair atravessando o tapete de arbustos. No meio da beleza branca, encontrou espinhos. Espinhos minúsculos que representavam uma barreira que ainda existia ao redor do coração do Ômega de Prata. O humano a ultrapassou, é claro. Ele ignorou a dor dos arranhões pequenos que foi ganhando durante o percurso, e se aproximou sem hesitar do trono onde o deus estava sentado.
Os dois se encararam em silêncio. Um aroma inebriante sufocava a atmosfera.
ㅡ Os ventos e os pássaros me disseram que você percorreu o Norte e o Sul, e unificou as comunidades que foi encontrando. Parece que agora se tornou um rei ㅡ disse Jimin, arqueando uma sobrancelha. ㅡ O primeiro rei humano deste mundo...
A troca de olhares era fervilhante. As pupilas do humano estavam dilatadas e concentradas nos lábios carnudos do deus, em seu pescoço desnudo, e na forma como o cabelo prateado caía pela lateral, atrevido.
Jimin se inclinou para frente e ergueu a rosa que acabara de tingir, e então a transformou numa coroa vermelha, com ramos incrustados e pétalas petrificadas.
ㅡ Eu te coroo ㅡ disse, provocante, com um timbre etéreo de divindade.
Jungkook pegou aquele presente, olhou para ele e o apertou.
Tomado pelo ardor que eclodia dentro do corpo, colocou a coroa no apoio do braço e, num gesto ansioso, segurou os ombros de Jimin, fazendo-o ficar tão perto que seus lábios quase se tocavam.
Ele abriu e fechou a boca. Um suor escorria de sua têmpora, mas não por conta de algum nervosismo. É que havia aquele desejo irrefreável pulsando dentro do peito...
ㅡ Talvez eu passe dos limites agora. Talvez eu me torne tão ridículo quanto os donos daqueles esqueletos que vieram até aqui atormentá-lo... Mas não posso mais ignorar os anseios que me consomem. ㅡ Encheu os pulmões de ar e encarou o ômega como se tentasse alcançar o cerne dele. ㅡ Faça-me seu. Reine ao meu lado. Deixe-me envelhecer segurando a sua mão.
Jimin arregalou os olhos e piscou.
Jungkook continuou falando, jorrando palavras que tinham ficado acumuladas em sua garganta durante toda a viagem de volta à montanha:
ㅡ Eu sinceramente tentei não incomodá-lo com essa minha impetuosidade humana, e busquei outros meios, outras alternativas... ㅡ Ele engoliu em seco. Suas mãos nos ombros de Jimin acariciavam-no. ㅡ Mas não houve um dia, enquanto estive peregrinando de Norte a Sul, que não passei pensando em seu rosto, em sua voz e até em seu cheiro. Esse perfume, que agora está diante de mim, atormentando-me, tomou os meus sonhos e moldou minha razão. E-eu não sei o que fazer... Então desisti.
ㅡ Desistiu do quê? ㅡ Um tremor perpassou os olhos vermelhos de Jimin.
ㅡ De fingir que não perdi a cabeça por Vossa Magnificência.
Dito isso, afundou os dedos nos cabelos do ômega e o puxou para beijá-lo com ardor.
Uniu os lábios e sentiu a maciez divina, o calor sobrenatural, os feromônios únicos. Tentou internalizar todas essas sensações para que, quando fosse punido pela ousadia, morresse com a melhor das memórias.
Mas ele não foi punido ou afastado. Sequer ouviu um resmungo irritado. No lugar, foi trazido para o trono, que era largo o suficiente para caber dois corpos adultos.
Jimin logo o arremessou contra o assento e montou no colo dele. Segurou-o pelo pescoço, feito uma fera, e sugou sua boca até alcançar a língua.
ㅡ Eu aceito ㅡ murmurou contra os lábios de Jungkook, e essas foram as únicas palavras inteligíveis que ele verbalizou antes de começar a gemer sob os toques do jovem alfa.
As mãos de Jungkook percorreram o corpo dele, despindo-o das vestes claras, do tecido macio, e alcançaram os membros superiores desnudos que logo se mostraram sensíveis. Sua boca desceu pelo pescoço alheio, percorreu a clavícula direita e chegou a um dos mamilos róseos. Sugou aquele botão até intumesce-lo enquanto apertava o outro com os dedos, e fechou os olhos para escutar os grunhidos de prazer que Jimin soltou diante do ato.
Agora, ausente de hesitações, deixou fluir um movimento dos quadris contra a região úmida localizada entre as pernas do ômega. Fez isso até provocá-lo ao núcleo, o que o levou a se livrar de todas as roupas restantes para tomar as rédeas da situação.
Agora Jimin estava completamente nu sobre o colo do humano, sendo coberto apenas por cascatas de fios prateados e chifres delgados semelhantes a galhos de uma árvore fantástica. Ele era todo perolado, róseo e platinado, uma peça divina tingida em tons análogos de cinza, branco e vermelho.
Jungkook engoliu em seco, arrebatado. Sentia-se num sonho impossível.
Sua mão imediatamente buscou aquele corpo imortal e o apertou contra si. Beijou os lábios de Jimin com urgência enquanto suas mãos se aventuravam por baixo do púbis dele, sentindo a umidade crescente e o latejar desejoso. Enfiou os dedos na entrada estreita, um de cada vez, para acomodar o ômega, e roubou-lhe mais gemidos altos, mais espasmos de prazer.
Isso deixou o ômega impaciente. Num gesto apressado, ele arrancou as roupas do alfa e libertou o pênis endurecido dele. Masturbou a glande pulsante com um vigor que deixou Jungkook atordoado, e se ergueu para encaixar-se naquilo.
A penetração veio em seguida, profunda, intensa e quente. Incendiária. Os arbustos ao redor deles quase se desfizeram em chamas, refletindo o calor do Ômega de Prata.
Jimin passou a se mover para cima e para baixo, cavalgando como se Jungkook fosse sua montaria perfeita, feita exclusivamente para ele. Tudo era úmido, ardente e sobrenatural. A sensação das nádegas contra a virilha num movimento rápido, os gemidos altos que provocaram tremores na montanha, e o aroma forte de feromônios sexuais que provavelmente envenenariam quem não estivesse preparado para receber a intensidade daquele deus.
A mente do alfa foi consumida por inúmeras sensações. Ele segurou as coxas de Jimin e passou a desferir estocadas mais fortes e profundas, que eram sugadas como se pretendessem prendê-lo ali, naquele corpo maravilhoso do ômega.
Mas a verdade é que ele já estava preso. Ambos estavam, e não havia retorno para isso. Com uma troca de olhares, os dois souberam que aquele seria um enlace eterno. Não eterno para um humano, cuja eternidade durava uma vida de, no máximo, um século. Tratava-se de algo que ia além do breve tempo mortal. Era um vínculo de almas.
Então assim surgiu o primeiro reinado daquele continente, uma semente do que Adaman viria a se tornar. Ao redor daquela montanha, uma cidade foi fundada, e várias outras surgiram de Leste a Oeste. A população cresceu e o primeiro clã nasceu, formado por príncipes e princesas que carregavam em suas veias os sangue dos reis daquele novo mundo.
Quando a velhice chegou para o primeiro rei, e, com ela, a insistente sombra da morte, o Ômega de Prata profetizou:
ㅡ De hoje em diante, eu serei terra, folha e vida. Farei parte deste mundo e também de outros mundos, se neles existir alguém que anseie pelo paraíso que você me ajudou a recuperar ㅡ disse no leito de morte do alfa com o qual viveu as décadas mais longas, e, ao mesmo tempo, as mais breves que já teve. ㅡ Ainda o verei, e nós nos reconheceremos muito rapidamente, eu sei. Em rocha, madeira e papel a nossa história será contada. Até lá, meu amor.
Ao fim de sua fala, já não se escutava alguma respiração ou outro sinal de vida, apenas o tremor do chão e de brotos de marfim se erguendo ao redor dos dois corpos vazios. Esses brotos se uniram e cresceram até ficarem altos e cheios de folhas vermelhas. Rachaduras se espalharam pelas paredes de rocha, abrindo fendas enormes que causaram a queda do que um dia havia sido o covil da divindade de prata. No final do dia, não existia mais montanha alguma, apenas a copa de uma árvore pálida e vermelha ㅡ com uma profecia entalhada em tábulas anexadas à sua superfície ㅡ, resistindo em meio a ruínas de pedra no centro de uma grande e próspera cidadela.
Foi com essa imagem em mente que Jeon Jungkook, o rei da profecia, despertou naquele subsolo, sentado sobre o antiquíssimo trono do primeiro Ômega de Prata que já existiu, e com os braços ao redor de um Park Jimin adormecido.
ㅡ Hm, amor? ㅡ chamou-o com um sussurro.
Jimin se remexeu no colo dele e balbuciou algumas palavras desconexas como "despertador" e "hora do rango". Depois de um minuto, ele abriu os olhos devagar e encarou o marido.
ㅡ Eu sonhei que você tinha o cabelo mais longo ㅡ murmurou, grogue.
ㅡ Acho que tivemos um sonho igual. ㅡ O alfa abriu um sorriso.
Jimin refletiu um pouco e se sentou.
ㅡ Foi mesmo um sonho? ㅡ perguntou, franzindo o cenho.
ㅡ Acho que não. Creio que tenha sido uma memória.
ㅡ Então... Então estamos no lugar onde tudo começou.
ㅡ É. De fato... ㅡ Jungkook ganhou um ar pensativo. ㅡ E talvez será daquele jeito que tudo terminará.
O ômega olhou para ele e os dois deram as mãos. Os dedos entrelaçados se apertaram.
Nesse momento, um grito infantil reverberou de algum ponto ao longe, provavelmente vindo da biblioteca. Era um choro muito familiar que eles conheciam bem.
Guiados pelos instintos superprotetores, Jimin saltou e correu na forma lupina, e Jungkook o seguiu logo atrás. Eles rapidamente atravessaram o caminho escuro até chegarem ao portal que os devolveu à biblioteca. Assim que passaram pela abertura na parede, ela se fechou e foi como se nunca tivesse existido.
Mais um grito chegou aos ouvidos dos pais, agora mais choroso e carregado por uma sonolência palpável.
Logo a figura de Yeonjun surgiu correndo desengonçado na direção de Jimin e de Jungkook. O bebezinho de quase três anos estava com o rosto todo vermelho e molhado por conta das lágrimas. Quando os bracinhos dele alcançaram o colo do pai ômega, Soobin apareceu no fim de um corredor de estantes. Seu semblante de criança exibia preocupação.
ㅡ Pai Jimin! Pai Jungkook! ㅡ Ele se aproximou correndo. Com seis anos de idade, suas pernas começavam a ficar longas.
ㅡ O que aconteceu? ㅡ perguntou Jungkook, acariciando a cabeça de Yeonjun. O bebê ainda fungava no colo do ômega.
ㅡ Começou a chover com raios e trovões ㅡ explicou Soobin.
Agora que estavam na superfície do castelo, era possível ouvir claramente o céu se quebrando e a ventania molhada atingindo as janelas e as paredes.
ㅡ Ah... ㅡ O casal de reis trocou olhares de compreensão. Yeonjun morria de medo de tempestades e de chuvas no geral, ele sempre dormia com os pais em noites como aquela.
ㅡ Os servos informaram que os senhores estavam aqui na biblioteca, então eu trouxe o Yeonjun para cá, porque ele não parava... uaaah... não parava de gritar. ㅡ Soobin continuou falando enquanto sua boca se abria num bocejo sonolento. ㅡ Yeji e Hyunjin acordaram por causa do grito dele... E eu também... Niki foi o único que continuou... dormindo.
Jungkook e Jimin contiveram uma risadinha.
ㅡ Certo, vamos todos dormir juntos hoje à noite. ㅡ O rei alfa colocou Soobin no colo e o acomodou gentilmente. Bastou esse movimento para que a criança caísse num sono profundo.
Nos braços de Jimin, Yeonjun também já tinha se entregado ao mundo dos sonhos.
ㅡ Jungkook... ㅡ sussurrou o ômega, seus olhos se virando para a parede atrás deles, na qual o portal havia aparecido. ㅡ O que vamos fazer com o que descobrimos lá embaixo?
ㅡ Acho que devemos escrever sobre isso como numa história.
ㅡ Está falando de fazermos um livro? ㅡ Jimin abriu um sorriso. A ideia de o primeiro casal de reis ter um registro de seu romance, assim como Jungkook e ele tinham, o animou e fez seu coração se aquecer.
ㅡ Sim. Podemos começar a escrever no inverno, que é quando passamos mais tempo dentro do castelo. ㅡ Jungkook acariciou o queixo do marido.
ㅡ Ah, eu gostei disso!
O alfa se alegrou.
ㅡ E quanto à noite luar do Yeonjun? Ainda faremos uma festa com esse tema de, hm, Dia das Bruxas?
ㅡ Seria divertido, não? ㅡ Jimin apontou com o queixo para as fileiras de livros que os rodeavam. ㅡ Ainda temos alguns dias, podemos continuar procurando por monstros adamantinos ou por personagens marcantes das lendas do povo.
ㅡ Sendo assim, tecnicamente não precisamos nos fantasiar. ㅡ Jungkook abriu um sorriso enigmático. ㅡ Acabamos de descobrir que, numa coincidência curiosa, os primeiros reis eram bastante semelhantes a nós dois.
ㅡ É verdade... Só preciso aumentar os meus chifres. ㅡ Jimin fingiu uma careta de desgosto. Seu marido gargalhou baixinho para não acordar as crianças.
ㅡ De fato, e eu preciso obter alguma peruca longa. Aí seremos como eles, como os personagens do livro que ainda vamos escrever.
Com as palavras de Jungkook, os lábios de Jimin se abriram num sorriso sereno e um pouco emotivo.
ㅡ É... ㅡ ele murmurou. ㅡ Seremos como o casal principal do nosso próprio livro.
Fim
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#LoboDePrata
Obrigada por ter lido!! Não se esqueça de deixar o seu ⭐VOTO⭐ antes de ir embora~
>> O livro de EUVUO sairá em 2023 pela editora Euphoria. Até a próxima, meus queridos viados mágicos💜💜
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