8 - Cicatrizes
"Não acredito em pecado, nem no original nem em outro, mas acredito que as pessoas fazem mal a outras e que imaginar que isso pode ser diferente é apenas pedir para se decepcionar."
- A Menina Submersa (Caitlín R. Kiernan)
Não era a toa que a sala de música era o lugar favorito de James, a pesada porta dupla com notas músicas entalhas na madeira se abriu para o ambiente que era de longe o mais elegante de todos na casa, o chão era coberto por um tapete bordô, as paredes eram brancas com meias-canas douradas, as pesadas cortinas beges cobriam as janelas que iam do teto até o chão, James as abriu, deixando a luz azulada da noite e o vento fresco entrar, os instrumentos estavam espalhados pela sala de forma estratégica, alguns em exposição em seus suportes e outros guardados em suas capas, mas havia um instrumento em evidência, o imponente piano de cauda branco ficava logo no centro do salão, o garoto sentou-se no banco de frente para ele e respirou fundo, absorvendo a atmosfera ao seu redor, ele passou os dedos suavemente sobre as teclas de forma quase reverente, e então começou a tocar, a música fluiu delicadamente, preenchendo a noite silenciosa com uma melodia doce, otimista e apaixonada, James fechou os olhos e se deixou navegar pelas notas, naquele momento ele não estava mais preso dentro de si mesmo, ele poderia viajar para qualquer lugar que aquele som alcançasse, ele conhecia aquela música como conhecia o próprio nome, seus dedos se moviam praticamente sozinhos, uma memória de anos tocando a mesma música toda vez que seu espírito estava inquieto, deixou um leve sorriso se formar em seus lábios, a música era uma extensão dele, quando James tocava ele era um imensidão infinita e pacífica.
Ele ouviu a porta sendo aberta vagarosamente, não precisou abrir os olhos para saber que era Brooklyn, seus outros familiares não tinham tanta delicadeza ao interromper os momentos de concentração de James, ela fechou a porta da mesma forma que abriu, depois puxou uma cadeira almofadada que estava em um canto e sentou-se perto do piano, James olhou para ela, mas continuou tocando, ele notou que a irmã tinha uma caixa de metal sobre o colo, o cotovelo direito estava sobre ela, e a cabeça apoiada na mão pálida. Brooklyn esperou pacientemente até a música terminar.
— O que você tem aí? — James perguntou, se virando de frente para ela.
A garota endireitou a postura e estendeu a caixa para ele, o objeto estava enferrujado em alguns lugares e produziu um som agudo ao ser aberto, dentro tinha vários envelopes pequenos, James pegou um, era um pouco maior que a palma da mão, provavelmente um daqueles envelopes usados para deixar cartões em flores, mas dentro havia apenas um pedaço de papel com alguns números que pareciam ter sido escritos as pressas, ele virou o envelope e o nome que estava escrito atrás dele fez toda a tenção voltar aos ombros de James: Catarina Granville.
Granville.
— São coordenadas — Brooklyn explicou, chamando a atenção dele — Todas em um perímetro de duzentos quilômetros ao redor da nossa propriedade.
— Você perguntou a ele sobre isso? — perguntou se referindo a Ash, pensar em como o Lobo o fez descer até o porão contra a vontade dele fez James ficar com a guarda alta.
— Não — Brooklyn colocou os cotovelos sobre os joelhos e apoiou a cabeça nas duas mãos, o cabelo comprido caindo ao redor dela como uma cortina — Eu e o tio Yuri estávamos discutindo sobre isso, ele diz que devemos perguntar e eu acho que não deveríamos revelar que temos essa informação até sabermos o que significa. Eu achei que você poderia dar uma terceira opinião.
James guardou a carta de volta na caixa e suspirou. “Eu sei que você quer ir lá em baixo”, o Lobo provocou.
— Não! — James deixou escapar em voz alta, Brooklyn franziu a testa, mas esperou que ele continuasse — Quero dizer... você o trouxe aqui para isso, para conseguir informações, precisamos usa-lo.
— Tudo bem, dois contra um — Brooklyn suspirou e levantou-se, pegando a caixa das mãos de James e colocando embaixo do braço, ela caminhou até a porta, mas se deteve com a mão na maçaneta, se virou para ele com os lábios crispados — Mais uma coisa: você poderia ficar de olho no papai? Estou preocupada com ele.
— Por que eu?
— Por que ele também é seu pai, idiota! — ela respondeu, depois desviou o olhar — E também... acho que ele está chateado comigo. Não posso culpa-lo, todos os outros estão.
E então ela saiu, deixando James no salão agora silencioso.
●◎●◎●
Ash havia contado dois dias desde que Moereen lhe fez a proposta de entrar para a alcateia, ele não a tinha visto desde então, nem James ou Brooklyn, quem trazia a comida para ele nos últimos dias era um homem com uma cicatriz do lado esquerdo do rosto, logo abaixo do olho, Ash tentou falar com ele, mas o homem não se dignou a lhe dirigir a palavra. Ficou levemente agradecido por não ter visto a mulher depois daquele dia, não sabia quanto tempo tinha até a lua cheia, mas imaginava que fossem poucas semanas, de qualquer forma a resposta ainda seria não.
Ele ouviu passos se aproximando e então um crank alto como o de uma alavanca sendo puxada, a luz preencheu todo o lugar, Ash precisou piscar para se acostumar a claridade depois de ter ficado tantos dias na escuridão, ele viu barras de ferro do outro lado do corredor, confirmando sua teoria de que haviam mais celas além da dele, os irmãos Campbell surgiram em frente as grades, os olhos do garoto se moveram para James, que pareceu desconfortável ao perceber que estava sendo observado, mas sustentou o olhar de Ash, ele usava uma camiseta de mangas compridas do mesmo tom de verde escuro de seus olhos e jeans que pareciam velhos e desbotados.
— Mandamos consertar as luzes especialmente para você, gracinha, deveria ficar agradecido — disse Brooklyn, usava um vestido azul bebê e botas de cano baixo, o cabelo castanho geralmente liso, caía em ondas largas pelas costas dela, quase a fazia parecer uma garota legal, quase.
— Ah, eu estou lisonjeado — Ash disse levando a mão direita ao peito e dando um sorriso venenoso — A que devo a honra dessa visita?
— Viemos fazer negócios — Ela respondeu.
— Negócios? — o ex-Caçador perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— O que você quer por algumas informações? — perguntou James se aproximando da cela, o Ash notou que ele carregava uma caixa embaixo do braço.
O prisioneiro deu um sorriso de lado.
— Isso depende do que querem saber.
Os gêmeos trocaram um olhar.
— Queremos saber quem é uma pessoa.
Ash estava começando a ficar interessado, não que ele se importasse em entregar os outros Caçadores, faria isso com prazer, ainda mais se ele fosse ganhar alguma coisa com isso além de seu próprio deleite.
— Bem esses são os meus termos — Ash levantou o queixo na sua melhor pose de negociante, ele pensou em quão sujo estava se sentindo — Eu quero tomar um banho.
James olhou incrédulo para ele e Brooklyn explodiu em uma gargalhada.
— Só isso? — a garota perguntou.
— Não, eu também quero ser libertado dessa maldita corrente — eram dois pedidos que pareciam razoáveis, e Ash torceu para que os Campbell não notassem o seu plano de fuga por trás deles.
A risada de Brooklyn cessou e ela adquiriu uma expressão pensativa e olhou para James, Ash já havia percebido como eles pareciam se comunicar sem precisar de palavras, ele se perguntou se teria gostado de ter um irmão gêmeo com quem compartilhar uma linguagem secreta, mas acabou afastando a ideia.
A Loba suspirou, voltando-se para Ash novamente.
— Tudo bem — disse ela, tirando um feixe* de chaves do bolso — Eu vou tirar a sua corrente agora e dependendo da qualidade da informação que você me passar o seu banho pode ser arranjado.
Ash deu de ombros, de qualquer forma era ele quem estava saindo na vantagem ali, Brooklyn deslizou o ferrolho para abri-lo com um rangido, ela entrou na cela sem a hesitação que James tivera e se agachou para a abrir o cadeado da corrente, os elos de ferro tilintaram ao atingir o chão, o tornozelo de Ash estava livre, Brooklyn se pôs em pé, ela estava em uma posição vulnerável estando assim tão perto dele, o garoto poderia facilmente derruba-la puxando-a pelas canelas e correndo para a porta aberta, é claro que isso envolveria nocautear James também sem o elemento surpresa a seu favor, o que seria bem mais difícil, mas era isso que ele teria feito, se Brooklyn não tivesse antecipado o movimento dele como se lesse sua mente, a garota chutou o peito do prisioneiro com força, era como ter sido atingido com uma bigorna, o loiro foi jogado contra o chão pelo impacto, a parte de traz da cabeça batendo violentamente contra o piso de concreto, a visão ficou escura, ele piscou tentando fazer os olhos entrarem em foco, sentiu o gosto metálico de sangue na boca, teve dificuldade para fazer o ar entrar em seus pulmões.
— Não me teste, Cinderella — Brooklyn dobrou os joelhos para se aproximar dele, o rosto dela parecia embaçado para Ash, a voz baixa e ameaçadora — Eu salvei a sua vida e posso transforma-la em um inferno com a mesma facilidade.
— O inferno é a minha zona de conforto — Ash disse com voz fraca, ele tentou rir, mas acabou saindo apenas um engasgo.
O rosto da garota estava focado apenas o suficiente para Ash notar um sorriso afiado, ela se levantou e saiu, trancando a cela, desta vez com o cadeado que estivera na corrente, eles esperaram pacientemente até que Ash se recuperasse, ele levantou-se com a mão sobre o peito, o lugar onde havia sido atingido ainda estava doendo, mas a dor não era tão intensa quanto a de uma costela quebrada, Ash imaginou que ficaria com um hematoma enorme no formato da sola tratorada da bota de Brooklyn, mas ele não checaria na frente dela, não daria a ela essa satisfação.
— Tudo bem — disse Ash, se colocando em pé, a visão começando a entrar em foco, se aproximou das grades, envolvendo os tubos de ferro com as mãos, tentando não parecer que estava usando-os como apoio, apontou com o queixo para caixa que James segurava — O que você tem aí?
James apoiou-a no antebraço esquerdo e a abriu para que Ash visse o conteúdo no interior, havia vários envelopes dentro, ele estendeu o braço por entre as grades e pegou um deles.
— São coordenadas — disse ele ao analisar a carta.
— É, nós sabemos — disse Brooklyn, ela fez círculos no ar com o dedo indicador, sinalizando para virar o envelope.
Ash sentiu todo o sangue gelar em suas veias ao ler o nome escrito em uma caligrafia mal feita, ele só tinha ouvido aquele nome poucas vezes nos últimos anos, ainda assim o fantasma de um rosto surgiu em sua mente, uma memoria antiga e embaçada que o impedia de ver o com detalhes, mas ele tinha quase certeza que se lembrava da voz dela quando cantava.
— Você a conhece? — James perguntou quando o outro garoto não disse nada.
Ele se manteve em silêncio por mais um longo minuto antes de jogar a carta de volta na caixa como se o papel estivesse envenenado.
— Ela é minha mãe.
— Sua mãe?! — Os Campbell disseram em uníssono, sobrancelhas levantadas e olhos arregalados.
Ash achou a reação deles engraçada, Brooklyn foi a primeira a recuperar a compostura.
— Por que a sua mãe escreveu essas coordenadas? — ela perguntou.
— Bem, tem bastante coisas que eu não sei sobre a minha mãe — Ash disse, a voz saiu mais amarga do que ele gostaria — Ela morreu quando eu tinha quatro anos, ou era uma desertora.
— Assim como você — Brooklyn disse.
Ash precisou de toda a força de vontade que tinha para manter a expressão neutra.
— Não foi isso que eu quis dizer — ele disse, na defensiva — Quando alguém deserta da Caçada todos os pertences do desertor são queimados: fotos, documentos, objetos pessoais... é como se ele nunca tivesse existido. Por isso eu não sei quase nada sobre ela, mas como um filho abandonado, eu prefiro acreditar que ela morreu.
— Eles fazem o mesmo com os que morrem? — James perguntou, enrugando as sobrancelhas escuras.
— As vezes — Ash deu de ombros — Se o Caçador recusar se matar depois de ter sido mordido eles o apagam, nos dois sentidos.
— É o que eles teriam feito com você — James disse pensativo.
— É o que provavelmente já fizeram comigo — O ex-caçador disse, então completou: — Ou o que farão quando me encontrarem.
Alguns minutos se passaram, gêmeos ficaram em silêncio por um momento absorvendo as informações, Brooklyn suspirou e apoiou as costas nas grades da cela oposta a de Ash.
— Sabe, eu entendo você — ela disse, os dois garotos a olharam com as testas franzidas, ela continuou — Estou falando da Transformação, é claro.
— O que isso tem a ver? — Ash perguntou, confuso com a súbita mudança de assunto, apesar de ter certeza que era algum tipo de truque.
— Com a sua mãe? Nada eu suponho — Ela cruzou os braços em uma pose casual, ele pode ver o brilho de divertimento nos olhos dela, ele sabia que ela estava criando uma armadilha para ele, tecendo uma teia para que ele se prendesse nela — Mas você deve estar nervoso por causa da “hora de morfar”.
— Por favor não diga isso — James fez uma careta.
Brooklyn soltou um risinho.
—Jemmy nunca gostou dos Power Rangers — ela se virou para o irmão e fez um beicinho — Ele nunca queria brincar comigo, então eu e minha mãe fingíamos ser Rangers, ela sempre me deixava ser a rosa, apesar de eu saber o quanto ela gostava dessa cor.
Ele ainda não sabia aonde ela queria chegar com esse assunto, mas pela primeira vez desde que os conhecera, Ash viu James sorrir, era um sorriso inocente e frágil, quase imperceptível, mas o suficientemente para suavizar a expressão dele, fazendo seus olhos brilharem.
— E você, Cinderella? — Perguntou Brooklyn, voltando a atenção para Ash novamente — Você se lembra como eram os seus pais?
Então era isso? Ele deveria ter imaginado.
— Não, eu era muito jovem, meu pai morreu mais ou menos naquela época também. Eu sei que ele se matou pela caçada por que ainda existem fotos e algumas coisas dele — Ash respondeu, e então continuou com um sorriso sádico no rosto — Eu fui criado pelo meu tio.
— E como ele é? — Perguntou a garota.
Ash abriu a boca para responder, mas acabou soltando uma gargalhada fria e sem humor, quase cruel.
— Você quer saber como ele é? — Perguntou, ainda com uma expressão assustadora no rosto.
Ele soltou as barras de ferro da cela e se virou de costas para os Campbell, puxando a camiseta suja que estava vestindo por cima dos ombros para tira-la. James e Brooklyn prenderem a respiração, as costas de Ash eram cobertas de cicatrizes de vários tipos, a maioria ele havia conseguido durante as Caçadas, mas boa parte delas era resultado dos espancamentos de Archie, a maior delas descia pelas costas de Ash do ombro esquerdo até mais ou menos a altura dos rins, tinha várias cicatrizes de cortes de facas, formando linhas rosadas, algumas eram mais proeminentes que outras por terem sido reabertas, também tinham marcas irregulares de queimaduras, e outras que Ash nem se lembrava de como tinha conseguido, mas as mais impressionantes delas eram as incontáveis marcas arredondadas feitas pelas pontas incandescentes dos cigarros do tio, eram tantas que Ash já havia perdido a conta, estavam espalhadas pelas costas dele entre as demais e subindo pelos ombros.
— Ele é um filho da puta! — Ash disse, com a voz baixa e coberta de ódio.
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Notas:
*Feixe: [Por Extensão] Quantidade excessiva de alguma coisa: feixe de críticas.
Reunião de objetos que estão ligados por algo em comum: feixe de madeira.
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