2 - A caça e os caçadores
Ash finalmente se moveu, a tempo de desviar de alguma coisa que passou perigosamente perto de seu ouvido esquerdo, o fazendo zunir, vidro se quebrou atrás dele. Ele se jogou atrás de uma mesa tombada, quando suas pernas repousaram no chão, alguma coisa pegajosa encharcou sua calça, ele olhou para baixo e encontrou sangue fresco escorrendo lentamente pelo chão, Ash o seguiu com o olhar e depois o desviou rapidamente, a fonte era um membro arrancado de alguém, poderia ser um braço ou uma perna, mas ele não quis descobrir, porque aquilo provavelmente pertencia a uma pessoa que ele conhecia, e ele não podia pensar nisso agora, Ash esvaziou a mente, colocando seu treinamento em prática ele se ajoelhou e atirou.
●◎●◎●
— ...aqueles filhos da puta!
James Campbell ouvia a irmã gêmea xingar e praguejar enquanto pisava fundo no acelerador. Brooklyn Campbell tinha a boca mais suja que ele conhecia, ela sabia insultos e palavrões que nem ele tinha certeza do que significavam, mas nesse momento ele compartilhava do humor dela, a vida deles tinha se transformado em uma catástrofe nos últimos três dias, agora eles corriam para impedir que um desastre ainda pior iniciasse. A caminhonete cantou pneus ao ultrapassar um velho Chevelle champanhe enferrujado, o motorista buzinou e xingou, Brooklyn baixou o vidro da janela do passageiro, colocou metade do corpo para fora e mostrou o dedo do meio para ele, o vento desprendeu alguns fios de cabelo castanho claro de seu rabo de cavalo, ela voltou para dentro e subiu o vidro até a metade, impaciente demais para girar a manivela até o fim, eles já haviam tido uma discussão sobre comprar um carro com vidros elétricos, mas James se recusou a ceder, ela se voltou para ele, suas pupilas estavam dilatadas até a metade, o que não era um bom sinal, sua expressão era uma mistura de raiva e preocupação.
— Mais rápido! — Ela ordenou.
James acelerou, a adrenalina corria por ele, o coração estava descompassado, seus pensamentos a mil, não só os seus pensamentos.
"Acelere, idiota!", rosnou a voz na cabeça dele.
Os faróis de um carro que vinha na direção contrária iluminaram momentaneamente o interior da cabine, ele olhou de relance para Brooklyn, o maxilar dela estava travado, as mãos apertavam as laterais do assento, ela estava tensa, ele a ouviu respirar fundo três vezes, tentando manter a calma, James sentia os próprios ombros doloridos com a tensão de antecipação, ele segurava o volante tão firmemente que os nós dos dedos estavam esbranquiçados, respirando fundo ele ordenou que a voz se cala-se.
James desacelerou lentamente a medida que se aproximavam do bar Burned Souls, o lugar ficava em uma área estratégica, a maioria dos prédios do bairro eram armazéns industriais, o que significa que não havia ninguém na rua a noite, sem nenhum vizinho para reclamar do barulho das "brigas", o que em parte era verdade, mas James sabia que isso ajudava a manter o negócio sujo dos donos em segredo.
Brooklyn indicou que ele estacionasse alguns quarteirões antes, James abriu a porta e saltou para a noite quente de início de verão, não quente do tipo sufocante, ainda tinha uma leve brisa que acariciava levemente o seu rosto. Brooklyn bateu a porta do lado do passageiro, ele lançou um olhar reprovador para ela, que foi elegantemente ignorado, ela contornou a picape pela frente para ficar ao lado dele, James fechou a porta do motorista com mais suavidade, depois de tranca-la ele puxou o pegador três vezes para conferir, se Brooklyn não estivesse tão estressada provavelmente teria feito uma observação debochada, mas o clima estava sério demais para piadas.
— Você acha que eles estão mesmo aqui? — Ela perguntou — Você sabe que tem no mínimo 70% de chances de eles terem nos passado a informação errada.
James trincou o maxilar involuntariamente, ele era o tipo de cara que não confiava facilmente nas pessoas, principalmente quando as pessoas em questão davam razões para não serem confiáveis. Brooklyn inclinou levemente a cabeça para o lado para ouvir melhor, ele fez o mesmo, fazendo o possível para ignorar os outros sons que não eram relevantes, aos poucos James pode ouvir claramente tudo que estava acontecendo dentro do bar. Eles estavam atrasados, o caos já havia começado. Ele e Brooklyn trocara um olhar por uma fração de segundos antes de a garota se virar e correr, sem dar tempo para que ele tentasse impedi-la, James correu atrás dela, ele fora contra essa ideia desde o começo, mas Brooklyn era teimosa e ele sabia que não poderia impedi-la quando ela decidisse alguma coisa, ela o faria de qualquer jeito, com ou sem a aprovação dele, então chegou a conclusão de que era melhor segui-la e impedir que ela fizesse algo impulsivamente, como entrar em um ninho de caçadores armados até os dentes sem um plano, por exemplo. Precisava alcança-la e tentar colocar algum juízo na cabeça dela.
Aquilo não era mais problema deles.
●◎●◎●
Sangue fluiu sobre o pelo pardo de um Lobo, o que atraiu a atenção dele para o Caçador, ele rosnou para Ash com o rosto contorcido e os dentes afiados a mostra, se preparou para saltar na direção do gorato, mas o Caçador foi mais rápido e atirou mais duas vezes, a primeira bala atingiu de raspão a mandíbula do animal, a quebrando com um estalo inaudível naquele barulho, a segunda o atingiu em cheio, derrubando o corpo de Lobo que se transformou em um corpo humano alguns segundos depois. Ash olhou em volta rapidamente, procurando por alguém que precisasse de ajuda, perto do balcão de bebidas havia uma Caçadora com uma Glock 19 e uma expressão determinada no rosto, Ash buscou o nome dela na memória, era Mila ou Maia ou alguma coisa do tipo, ela não parecia nem um pouco perturbada em estar praticamente encurralada por dois Lobos, atirou de modo certeiro no olho de um deles, Ash se levantou rapidamente para se aproximar do balcão e conseguir uma boa mira, ao ficar em pé sentiu a sola do pé descalço sendo rasgada, havia pisado em uma garrafa de cerveja quebrada, alguns cacos de vidro se fincaram em sua pele, mas ele continuou avançando, ele tinha apenas mais três balas e não poderia desperdiça-las, Ash e a garota cujo nome provavelmente começava com M atiraram ao mesmo tempo, a bala dela atingiu o rosto do lobo e a de Ash a lombar, bem no momento em que ele saltava para ataca-la. A garota olhou para Ash furiosa, ele havia acabado com o abate perfeito dela, ela se virou e correu para ajudar os outros. Disponha, Ash pensou, mas não disse nada.
Ele teve um sobressalto quando uma mão surgiu atrás do balcão e o agarrou, puxando-o para o chão, ele apontou a arma para a cabeça de seu "sequestrador", mesmo depois de perceber que era Archie, ele demorou para abaixar a arma, o mais velho apenas encarou, desafiando-o a puxar o gatilho.
— Você estava exposto, idiota! — disse.
Ash não respondeu, ele sabia que Archie não se importava se ele vivesse ou morresse, ele apenas tivera a opção de ajudar um Caçador em perigo e o fez, talvez tivesse um pouco de interesse nisso, Archie queria se livrar da liderança da caçada, mas não podia simplesmente desistir, ele seria visto como um covarde perante aos outros Caçadores, então alegou não ter a saúde estável o suficiente para liderar, deixando o último com sangue Granville além dele em seu lugar, assim que a criança completasse 18 anos, era isso que Ash era para Archie, apenas uma forma menos vergonhosa de jogar a toalha.
— Me dê cobertura — disse para Ash, levantando-se trôpego e ainda bêbado do chão, mas se você pensa que isso afetava seu desempenho na luta, você está enganado, ele atirou em um Lobo que estava perto dele com uma expressão impassível, como se estivesse matando uma mosca, ele não pensaria nisso mais tarde como Ash provavelmente faria, ele sequer se lembraria, era essa frieza e desapego que fazia dele o líder.
Ele o observou de sua posição agachada atrás do balcão, se abaixou para arrancar os pequenos cacos de vidro do pé, depois voltou a posição original, passou alguns minutos assim até ouvir a madeira estalar logo atrás dele, ele se virou e atirou, mas não foi rápido o suficiente, o Lobo saltou por cima dele, empurrando as costas de Ash contra o balcão, fazendo a arma cair da mão dele e deslizar para fora de alcance, ele se xingou mentalmente por ter baixado a guarda, levou a mão esquerda ao cós da calça, onde havia guardado a faca de arremesso, o Lobo percebeu o movimento dele e o mordeu.
Ash gritou, se você nunca foi mordido por um lobo, nunca queira ser, a força da mordida pode chegar a mais se 180 kg, isso se a mordida for dada sem que o lobo tome impulso, agora, se você já foi mordido por um lobo, nunca queira ser mordido por um lobisomem, além da dor lancinante causada pelas mandíbulas poderosas, ainda há o veneno, queimando mais do que ácido no ferimento, subindo pelas veias e se espalhando pelo corpo, o Lobo teria arrancado o braço de Ash, mas ele conseguiu reunir lucidez suficiente para levar o braço livre por cima da cabeça e agarrar o pegador de uma gaveta, ele a puxou e acertou a madeira pesada na cabeça do Lobo, o fazendo soltar o braço do garoto, rosnando com os dentes sujos de sangue, sangue dele, ele se preparou para atacar o Caçador novamente, mas Ash conseguiu alcançar a faca com a mão direita, e quando o Lobo veio para cima dele, ele fincou a lamina no olho do animal, fazendo sague jorrar no rosto do Lobo e respingar no de Ash.
O Lobo desabou para o lado e se transformou no corpo de uma garota asiática, o rosto que um dia deveria ter sido bonito agora estava desfigurado, com o cabo de uma faca se projetando dele, Ash apoiou a cabeça na bancada, o rosto contorcido em agonia, podia sentir o veneno subindo por seu braço, indo lentamente em direção ao coração, queimando como o inferno pelo caminho, o ferimento latejava de dor, como se tivessem fincado várias lâminas incandescentes ao mesmo tempo em seu braço, ele mordeu a mão direita para não gritar novamente, tentando controlar a respiração que vinha curta e descompassada.
A sombra de alguém se projetou acima dele, Ash levantou o olhar e encontrou Dom o encarando de cima, o olhar dele passou da mordia no braço do amigo para o rosto dele, os dois sabiam o que aquilo significa, Ash pensou em quão patético ele deveria parecer, com o rosto contorcido de dor, manchado de sangue e lágrimas. Dom levantou o braço e encostou o cano frio da arma na cabeça loira de Ash, a mão dele tremia levemente, uma lágrima solitária escorreu por seu rosto, Ash esperou pelo tiro, sem desviar o olhar do rosto de Dom em nenhum momento, mas ele nunca veio, Dom abaixou o braço e o observou por um momento, depois travou a arma e se agachou para coloca-la na mão de Ash, os dois se encararam demoradamente, o olhar de Dom dizia: você sabe o que fazer, então ele se levantou e partiu, sem olhar para trás.
Ash levou a arma até a têmpora e a destravou, ele estava prestes a puxar o gatilho quando alguma coisa chamou a sua atenção, o conteúdo da gaveta que ele havia usado como arma estava espalhado pelo chão, e refletindo suavemente no meio de toda aquela tralha — que variava de trapos velhos que ele usava para limpar o balcão a lápis sem ponta e blocos de papel — estava o objeto que ele estivera procurando a dias: uma bala de prata com o nome da família gravado, presa a um cordão de couro, o colar tinha pertencido ao pai de Ash e agora era dele.
Ele observou o colar e pensou em seus pais, pensou se eles haviam hesitado também quando estiveram na mesma situação dele, se também pensaram em fugir, Ash observou o nome Granville escrito na bala e odiou ainda mais a caçada, ela havia tirado seus pais dele e o que ela havia feito para compensa-lo? Nada. Ele travou a arma novamente e a prendeu no cós da calça, depois se inclinou para alcançar o colar, guardando-o no bolso junto com o canivete que tinha pertencido a mãe dele.
Com dificuldade ele se colocou em pé, a visão ficou turva e ele cambaleou um pouco para frente, olhou em volta rapidamente, Ash não havia notado, mas os Lobos haviam recuado por algum motivo, agora os Caçadores se concentravam em cuidar dos feridos e evacuar o lugar, ninguém prestou atenção nele, então ele fugiu pela cozinha, indo em direção a porta dos fundos que dava para o beco, ele sabia o que viria agora, o Burned Souls queimaria, para garantir que nada ali se curasse, tanto os corpos dos Caçadores quanto os dos Lobos arderiam em chamas. Mas não Ash. Ele não morreria ali. Não seria queimado e descartado como seus pais foram, preferia ser enterrado como um indigente a ser jogado fora como lixo. Isso se a transição não o matasse. Podia sentir o veneno subindo por seu ombro, logo ele chegaria ao coração, tinha só alguns minutos para se afastar do bar, ele poderia se esconder em um dos armazéns abandonados ali perto e passar pela Transição ou morrer durante ela, caso o segundo não acontecesse naturalmente, Ash teria até a lua cheia para fazê-lo com as próprias mãos, ele definitivamente não viveria como um monstro, jamais viveria com o risco de se tornar agressivo e machucar alguém inocente.
Ash sabia que se continuasse vivo seria caçado, e ele não estava disposto a dar essa satisfação a eles. Afinal, agora ele era um desertor.
Quando seus pés tocaram o lado de fora e a brisa assoprou seu cabelo, Ash se sentiu totalmente derrotado. Eu tive uma vida de merda mesmo, pensou, com um sorriso amargo no rosto.
Ele começou a caminhar para longe dali, mas então parou, o muro alto do outro lado do beco não permitia que as luzes da rua chegassem até ali, formando sombras densas ao longo dele, tinha alguém escondido nelas.
Ele ficou tenso, se fosse um Caçador nunca o deixaria fugir com vida, o intruso deu um passo para a fraca luz que vinha do bar e Ash franziu o cenho, era uma garota que ele nunca havia visto na vida, tinha o cabelo castanho claro preso atrás da cabeça, ela olhou para ele como um cãozinho que havia encontrado um novo brinquedo para arrancar a cabeça, de uma coisa ele tinha certeza: ela não era uma Caçadora.
— Olha só o que temos aqui! — ela disse.
Ash levou a mão as costas para pegar a arma, mas antes que pudesse puxa-la alguma coisa acertou sua cabeça por trás com um baque surdo, a visão dele escureceu e ele desabou no chão.
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