8. Best of me
Lola nem viu quando Julia foi levada para dentro por estar alterada. Ela estava tão alterada quanto, mas não se importou, estava cantando num karaokê com seu bias*, cantando suas músicas favoritas.
Em algum momento uma música dançante começou a tocar e ela fez menção de dançar entre Taehyung e Jimin, os únicos ainda acordados junto com ela. Mas apesar do sangue brasileiro correndo em suas veias, o dom da dança não pertencia ao mesmo corpo e ela acabou tropeçando nos próprios pés várias vezes antes de desistir. Estava tão feliz que riu de si mesma até as lágrimas.
– Onde está a Julia para ver minha proeza de dança? - perguntou parando de dançar e olhando a volta. – Meu Deus, acho que exagerei no "a vontade" e fui ficando mesmo! Cadê todo mundo? – perguntou atônita.
– Vou procurar. – respondeu um Jimin sorridente com o rosto rosado da dança e do álcool. Não esperou pela resposta de Lola e de Taehyung e saiu deixando-os sozinhos ali.
– Acho que vi alguém a levando para dentro porque estava quase dormindo aqui fora. – respondeu V olhando para a porta por onde Jimin havia acabado de desaparecer. Lola sentiu um arrepio involuntário que não tinha nada a ver com seu sexto sentido. Estava sozinha com ele e só naquele momento se deu conta. Seu coração começou a bater acelerado de novo e se sentiu entrando no que ela chamava de "modo army" novamente.
– Não precisa se preocupar, ela vai ficar bem... – falou Taehyung interpretando errado o silêncio de Lola.
Os dois se encararam por um tempo e o arrepio se repetiu na base da espinha de Lola. O olhar dele dizia muita coisa e ela queria poder entender todas, mas continuou parada no mesmo lugar, pois tinha acabado de ser contratada e tinha medo de bancar a fã maluca apaixonada. Sorriu sem jeito.
– Não sei se vou ter coragem de te dar conselhos do que vestir, sabia? – falou em inglês. O olhar dele ficou confuso e então ela repetiu em um coreano cheio de sotaque, consequência do soju que corria nas veias.
– Acho que estou em boas mãos, vi seus desenhos. Não os da entrevista, os outros. – falou. – A noona me mostrou. – completou ao ver a expressão de duvida de Lola. – Quero te mostrar uma coisa. – Antes que Lola se desse conta, Taehyung segurou a mão dela e a levou para dentro.
Passaram por várias portas em alguns corredores, mas entraram na ultima porta no final do corredor. A casa estava bastante silenciosa o que fez com que a moça se perguntasse que horas eram. Será que os coreanos se importam com essa mania brasileira de ir ficando até que seja a última pessoa na festa? Taehyung com certeza não parecia se importar.
Assim que entraram ela soltou um suspiro. Estava no quarto dele. Não era muito grande, mas o que a fez suspirar eram as fotografias espalhadas pelo ambiente. Sabia que ele gostava de arte, mas nunca havia imaginado que era naquele nível. Havia fotos em molduras elegantes por todo o lugar, algumas no chão, poucas nas paredes, várias menores nas superfícies.
Mas ele não soltou da mão dela assim que entraram. Contornaram uma escrivaninha e entraram num closet que Lola consideraria muito grande se fosse para um homem comum – um brasileiro, no caso – mas que achou num ótimo tamanho para Taehyung.
A primeira coisa que ela reparou foi no cheiro do lugar, uma mistura do perfume dele com algo que remetia a natureza. Quase fechou os olhos apenas para ficar respirando aquele cheiro por muito tempo e poder identificar todas as nuances dele. Mas não teve mais do que trinta segundos para reparar nisso, Taehyung havia soltado sua mão e a encarava esperançoso.
– O que acha? – perguntou abrangendo o closet com uma das mãos e mostrando suas roupas.
– Quer que eu analise seu closet? Tipo, agora? Mas estou bêbada! – respondeu estupefata. A verdade é que tinha poucas palavras para aquele momento e não tinha ideia de por onde começar. Havia influência de todos os tipos dentro daquele closet e se viu tentada a ir direto para uma prateleira cheia de chapéus apenas para ver se tinham gostos parecidos como Julia vivia dizendo. – Eu não sei nem por onde começar! – completou sendo sincera, os olhos castanhos bem abertos encarando tudo.
– Não! Não quero que analise isso agora... estou apenas te mostrando. É o suficiente para que possamos trabalhar por muito tempo juntos? – ele respondeu rindo.
– Você é muito lindo, sabia? – ela falou, em português, por medo dele acabar se ofendendo com seu jeito atirado. Ao contrario de Julia, Paola sabia muito bem de seus sentimentos por Taehyung. Sabia deles desde que havia conhecido o grupo e aquela "festa comemorativa" por ter sido contratada só havia selado isso. Era apaixonada por ele, não tinha mais como fugir desse fato.
– O que? – ele a olhou confuso, sem entender nada do que ela havia dito.
– Eu disse em português que agradecia por me mostrar tudo isso. – ela respondeu em coreano. Mentiu. Não queria perder o emprego antes mesmo de começar e muito menos assustar um dos caras que ia ajudar a vestir dali para frente.
– É a primeira vez que alguém além dos caras e dos empresários entra aqui... – confessou ele sem jeito.
– Obrigada duas vezes, então. – Lola sorriu. Num impulso que ela justificou como sendo o soju em suas veias, ela diminuiu a distância entre eles e o abraçou com carinho. Era difícil resistir a vontade de fazer mais que aquilo, mas não conseguiu se segurar. Sentiu nele o mesmo cheiro que sentia dentro daquele closet, um campo aberto, flores e mais alguma coisa que não conseguiu identificar de primeira. Poderia ficar ali para sempre, abraçada nele ao redor de muitas roupas, seu universo perfeito. Fechou os olhos, aproveitando aqueles poucos segundos de felicidade antes de se matar de trabalhar e perder todo o encanto por aquele emprego dos sonhos.
Taehyung piscou algumas vezes confuso, os braços esticados ao redor de Lola, sem saber se poderia abraça-la de volta sem parecer que a estava assediando ou se se afastava dela. Acabou ficando parado ali, sentindo a onda de carinho vindo dela e querendo retribuir sem parecer invasivo. Quando ela se afastou, percebeu pequenas lágrimas se formando ao redor dos olhos amendoados dela. Sorriu sem jeito.
– Obrigada por me mostrar isso. Nunca vou esquecer esse dia, mesmo estando bêbada como estou. – falou dando risada.
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Vocabulário:
*bias: quando a pessoa tem um membro favorito num grupo musical, ele é chamado de bias.
army: nome dado ao fã clube (fandom) do BTS.
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