21. Pied Piper
Ficar para trás não tinha sido uma escolha aleatória. Tinha decidido ir embora por último apenas para evitar o desconforto perto de Jungkook. Ele não havia entendido sua última noite juntos como despedida e acabaram brigando. O choro dele ainda ecoava na memória dela.
Se fechasse os olhos, veria a cena toda de novo. A mão dela acariciando o rosto dele de leve, vendo-o sorrir feliz logo depois de uma das melhores noites da vida dela. Mas tinha que dar um fim naquele... naquilo que tinham. Não conseguia nem nomear.
– Está chorando, noona?
– Não é nada... – ele se apoiou em um cotovelo e secou uma das lágrimas que insistiam em escorrer pelo rosto dela. Julia segurou sua mão e fechou os olhos, guardando tudo aquilo no coração. Era hora de fechar essa porta e trancar com todas as chaves que tinha, pela segurança dos dois, pela carreira dele, pela carreira dos meninos.
– Jungkook-ah.
– Hmm?
– Não quero mais que venha ao meu quarto.
– Como assim?
Ela o olhava com intensidade, esperando que ele entendesse seus silêncios como sempre havia feito, desde novinhos. Ele ficou olhando aqueles olhos castanhos com atenção, desviando de um para o outro e pensando em tudo o que haviam passado, até se lembrar do bilhete e das ameaças. Finalmente entendeu a implicação por trás da frase dela, o sorriso esmorecendo imediatamente, dando lugar a uma expressão de choque e tristeza.
– Por que? – perguntou sentando-se na cama.
– Não quero mais que fale comigo como se fossemos íntimos. Prefiro que me trate por "maquiadora" ou Julia-ssi. – ela continuou. Estava ignorando a pergunta dele. Se desse atenção, ia acabar perdendo a coragem.
– Por que!? O que eu fiz de errado? Você não gostou? Não gosta mais de mim? – ele emendava uma pergunta na outra, horrorizado, tentando entender como era possível alguém ser tão fria logo depois de ter sido tão... bom, quente. Julia fechou os olhos, já sem conseguir controlar as lágrimas.
– A partir de amanhã, outra pessoa vai te maquiar e eu vou apenas gerenciar de longe, como líder de equipe que sou. O mesmo vai valer para os outros meninos. Vou montar os conceitos em conjunto com a equipe e outras maquiadoras vão colocar em prática. – falou sem olhar nos olhos dele.
Ela se olhava no espelho do camarim, voltando ao presente com lágrimas nos olhos. Tinha sido dura com ele e desde então ele cumpria tudo o que ela havia pedido. Evitava qualquer tipo de contato e quando acabavam sozinhos, ele era o primeiro a sair. Para evitar o jantar de comemoração pelo sucesso do show, ela e Lola haviam decidido ficar para trás na organização de tudo. Pretendiam sair para conhecer São Paulo juntas, logo em seguida.
Guardou o último estojo de bases na caixa grande que usavam para isso quando ouviu um som estranho a porta. Ainda não tinha ido procurar o chapéu que Lola havia pedido e deduziu que o som era o da amiga procurando. Se não se enganava, era um dos chapéus favoritos de Taehyung e provavelmente Lola estava desesperada tentando encontrar.
– Não comecei a procurar ainda, amiga, mas eu te... posso ajudar?
Havia uma pessoa dentro da sala com ela. Não reconheceu de imediato, mas imaginou que fosse Jungook, pois usava um daqueles chapéus ridículos que ele ainda guardava por se lembrar de quando se reencontraram, além de uma máscara idêntica. Só depois que a pessoa deu um passo para dentro da sala que ela percebeu que a altura era diferente e que a pessoa segurava uma chave de fenda grande numa das mãos.
Instintivamente Julia deu um passo para trás, tentando alcançar o celular deixado ao lado da caixa de bases. A pessoa deu outro passo para frente. Quando ela levantou a cabeça, Julia percebeu que era uma moça coreana. Ela chorava, mas não de tristeza. A maquiadora podia sentir o ódio dela vindo em ondas fortes em sua direção, mesmo estando parada àquela distância.
– O que quer? – perguntou, tentando ganhar tempo. Julia falava num tom normal, esperando sinceramente que Lola a ouvisse conversando da sala ao lado e viesse verificar quem era.
– Saber por que você. – respondeu a moça. Julia estava certa, ela era coreana, reconheceu o sotaque de Busan naquela mísera frase.
– Quem é você? – perguntou. Assim como a moça, ela deixou o sotaque de sua cidade natal sobressair. Esperava que fosse alguém totalmente desconhecida, mas o fato dela ser de Busan a deixou com medo de ser o oposto. Não saberia lidar com a ameaçar de alguém conhecido. Tentou relembrar todas as amizades que ela e Jungkook tinham em comum dessa época e chegou a conclusão de que tivera poucas com meninas. A maioria a odiava por andar com ele mesmo sendo mais velha. Torceu para essa moça a sua frente não ser uma dessas. – Foi você que me enviou a carta? – perguntou, aumentando um pouco o tom de voz.
– Gostou? Usei sangue de galinha misturado ao meu... tenho certeza que ainda estão tentando definir que tipo de DNA tem naquela foto.
O jeito como ela riu e desdenhou fez os cabelos da nuca de Julia arrepiarem de medo. Nunca havia olhado para uma chave de fenda com medo, mas pela primeira vez estava aterrorizada com a que aquela garota segurava.
– Hoje é a vez de usar outro tipo de galinha. – se alguém contasse a ela que ouviria essa frase como uma ameaça, ela teria dado risada na cara da pessoa. Que tipo de frase era aquela? Aquela pessoa com certeza assistia dramas demais ao invés de viver. Algo em seu rosto deve ter transparecido, pois a garota bufou frustrada e Julia teve poucos segundos para reagir.
Conseguiu desviar por pouco do impulso que a menina deu em sua direção, a ferramenta apontada como uma arma – e com certeza machucaria como tal – e acertando a superfície do balcão. Julia gritou, jogando a caixa de maquiagens na direção da garota e tentando desviar em direção à porta.
– Julia? – ouviu a voz de Lola chamando do outro lado da parede.
– AQUI! ACHEI SEU CHAPÉU, MAS ESTÁ SUJO!! – dizer que o chapéu favorito de Taehyung estava sujo com certeza faria Lola aparecer em segundos, ela tinha certo xodó pelas peças do garoto, e os chapéus eram seus favoritos. Mas o grito dela irritou mais ainda sua atacante que avançou novamente. Dessa vez ela conseguiu arranhar um dos ombros de Julia antes que a maquiadora conseguisse desviar.
Segurando o ombro, Julia tentou correr, mas a garota a alcançou com certa facilidade, se jogando sobre ela de modo que ambas caíram. O chapéu da moça havia caído e Julia pode ver a parte superior de seu rosto com clareza. Estava caída no chão enquanto a garota sentava sobre ela, batendo o cabo da chave de fenda ao redor da cabeça da maquiadora, ameaçadoramente. O som que a chave fazia ao bater no chão era assustador e Julia não conseguia pensar em outra coisa além de pedir socorro.
Abriu a boca com essa intenção, mas a chave parou no ar antes que ela conseguisse verbalizar o pedido. Uma mão segurava o braço da garota no ar, com força. As duas levantaram o olhar para a mão que a segurava e deram de cara com Taehyung. Atrás dele, Lola já falava ao celular, chamando a policia. Falava num português rápido e desesperado que nem em sonho Julia seria capaz de entender, mas pelo olhar da amiga soube que a ajuda estava vindo.
– Oppa*! – a garota soltou a chave de fenda imediatamente, começando a chorar assim que reconheceu Taehyung segurando seu braço.
– O que pensa que está fazendo? – ele perguntou, chutando a ferramenta para longe deles para que ela não voltasse a atacar ninguém. Julia aproveitou o choro e o choque daquela maluca e a empurrou para longe, saindo de baixo dela e correndo para os braços de Lola. Chorava desesperada, querendo correr dali e nunca mais voltar. Seu coração batia desesperadamente no peito e se não fosse Taehyung, tinha certeza que nunca seria grata à força com que ele batia como estava naquele momento.
– ONDE VOCÊ ESTAVA?! – ouviu Lola berrar para a porta. Assim que se virou deu de cara com o segurança que deveria levá-las junto com as coisas para o hotel antes da merecida folga. O cara olhava estupefato para a cena a sua frente.
Taehyung ainda segurava um dos braços da fã, enquanto ela chorava desesperadamente – ninguém sabia dizer se era de emoção ou de medo por ter sido pega – e Julia e Lola abraçadas uma na outra. A vontade que a brasileira tinha era de voar no pescoço daquela maluca e encher ela de tapa até cair na real, mas não podia fazer nada ou ela seria a presa, por mais que estivesse "em casa" e a garota não. Ainda era uma garota negra de origem pobre que estava reagindo exageradamente a uma estrangeira.
– O que houve? – perguntou o segurança. Lola e Julia olharam para ele em choque pela pergunta.
– Você só pode estar de brincadeira com a minha cara. – falou Lola, indignada. – Alguém me segura antes que eu cometa um crime aqui. – completou em português. Ninguém entendeu, mas a conotação fez Taehyung soltar uma risada breve antes de voltar sua atenção para a fã.
Delicadamente, olhando nos olhos da moça e sem soltar uma de suas mãos, ele retirou a máscara que cobria o rosto dela. Não sabia quem era, mas tinha a impressão de que já havia visto a moça em alguns fan meetings, levando mais tempo parada com Jungkook do que os outros nessas ocasiões.
– Como se chama? – perguntou a ela tranquilamente. Estava ganhando tempo.
- Park Soo Jin. – respondeu. Ainda chorava, mas de emoção por ter Kim Taehyung interagindo consigo.
– Soo Jin-ah. – começou ele. Ajudou a moça a se levantar e a afastou das outras duas moças. O segurança tentou se aproximar, mas Taehyung fez sinal de que ficasse onde estava até ele terminar. – Por que fez isso? – perguntou com simplicidade.
A moça desviou os olhos dos dele e olhou para Julia, parte do ódio dela transparecendo de novo. Como estava desarmada, não fez nada além de desejar a morte da maquiadora em silêncio. Quando voltou a olhar nos olhos de Taehyung ele percebeu que se demorasse um pouco mais, podia ter sido tarde demais.
– Oppa. Por que deixou que ela o roubasse de você? – perguntou. Estava se referindo a Jungkook e a uma crença compartilhada com parte das fãs de que eles eram namorados. Lola revirou os olhos. Então tudo aquilo estava acontecendo por causa de um ship inexistente? Soltou um muxoxo de desagrado, ficando cada vez mais indignada com toda aquela situação. Taehyung tentou não dar atenção aquilo e fazer com que Soo Jin focasse apenas nele, mas ela já olhava para Lola com o mesmo ódio que sentia por Julia e isso deixou o cantor preocupado.
– Vocês deveriam ser almas gêmeas, Oppa! – ela olhava agora nos olhos de Taehyung, procurando algum sinal de que o que ela dizia era verdade, ele e Jungkook pertenciam um ao outro e aos fãs, só.
– Jungkook e eu somos irmãos, Soo Jin-ah. Eu o amo muito, sim, mas somos irmãos. Crescemos juntos.
– Mas e todas as demonstrações de carinho e gestos e presentes e anéis e...?
– Temos muita intimidade, é verdade, mas é porque moramos juntos, vivemos juntos, fazemos tudo juntos.
– Você não o ama, oppa?
– Claro que amo. Vou amar Jungkook para sempre. Como um irmão.
As palavras de Taehyung, ao invés de acalmar a fã começaram a deixa-la mais irritada. Só Lola percebeu a mudança sutil na posição em que ela estava com relação a Taehyung e o modo como o olhava já não tinha aquela adoração de instantes. Ele estava em perigo. Ligou de novo para a polícia, esperando que eles chegassem logo, mas estavam no Brasil e quase sempre isso demorava mais do que deveria.
O gesto dela com o celular não passou despercebido de Soo Jin, que empurrou Taehyung com força e correu na direção dela e de Julia, as mãos à frente, gritando feito uma louca. Sua intenção era pegar a maquiadora, mas esta foi empurrada longe por Lola que acabou com as mãos da fã ao redor do próprio pescoço.
Foi tudo muito rápido, em um segundo estava discando 190 e no segundo seguinte uma maluca estava por cima dela, apertando sua traqueia como se fosse feita de papelão. Não teve tempo de reagir – ninguém teve – e a força da moça a surpreendeu. Lembra-se apenas de sentir a cabeça batendo em alguma coisa antes de perder a consciência.
***
Abriu os olhos num lugar completamente diferente. Estava escuro e uma televisão colocada no alto exibia Fantástico num volume bem baixinho. Tentou mover a mão, mas algo a segurava no mesmo lugar, como um peso que ela não conseguia levantar, mas seu movimento fez com que esse peso diminuísse imediatamente. Viu quando a cabeça de Taehyung levantou e olhou para a mão que ela havia tentado mover.
Quando os olhos deles se encontraram, ela percebeu que ele havia chorado. Estavam vermelhos e inchados e provavelmente não havia tido tempo de Julia maquiá-lo. Lola tentou sorrir, mas sentiu a cabeça latejar em protesto. Tentou falar, mas a garganta doeu e não conseguiu produzir nenhum som além de um chiado rouco. Um canudinho foi colocado próximo aos seus lábios e ela conseguiu sorver um pouco de água. Sentiu vontade de chorar ao ver o alívio nos olhos de Taehyung.
– O que houve? – murmurou. Sua voz era nada além de um sussurro quase inaudível, mas fez com que mais gente aparecesse no seu campo de visão.
– Unnie! – era Julia, do outro lado da cama, os olhos tão vermelhos e tão inchados quanto os de Taehyung. A visão estranhamente deixou Lola com vontade de rir, impressionada com a facilidade com que os coreanos choram.
– Não diga nada. O médico disse que você tem que descansar. – Taehyung falou. Passou a mão de leve no cabelo dela, enquanto a outra continuava segurando sua mão. Lola olhou para Julia e a comunicação silenciosa começou.
– Ela foi presa. A polícia chegou bem na hora que ela bateu sua cabeça no chão. Você ainda conseguiu empurrá-la longe, mas desmaiou em seguida. Viemos para cá imediatamente. A empresa vai cobrir tudo, não se preocupe. – respondeu a maquiadora, sabendo exatamente quais perguntas a amiga queria fazer.
Ainda sentia o coração apertar com a visão que teve da fã estrangulando sua melhor amiga e batendo sua cabeça no chão com força várias vezes. A única coisa que conseguia sentir era culpa. Por sua culpa a amiga agora estava em observação num hospital depois de ter batido a cabeça e perdido a consciência. Por sua culpa Taehyung, Jungkook e Jimin estavam com a carreira em risco. Por sua culpa uma fã estava presa num país estrangeiro depois de ter perdido o controle. Sem perceber começou a chorar novamente, querendo que tudo aquilo acabasse.
– Eu sinto muito, Lola. Sinto muito mesmo.
– Noona, não foi culpa sua. – Taehyung respondeu. – Você não tem culpa da mente daquela moça ter criado uma situação que não existe. O fato de você e Jungkook terem alguma coisa foi uma desculpa para que ela expusesse seu fanatismo. Não é sua culpa, Noona. – Lola concordou com a cabeça, balançando-a duas vezes e parando com uma careta. Ainda sentia dor.
Uma enfermeira entrou em seguida, colocando os dois para fora. Havia acabado o horário de visita e pela idade, Lola não podia ter um acompanhante a noite toda no hospital. Quebrando todos os protocolos, Taehyung beijou a estilista na boca, surpreendendo ela mesma, Julia e a enfermeira.
– Amanhã vamos voltar a viajar. Por favor, fique boa para ir comigo.
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Vocabulário:
*Oppa: tratamento entre uma mulher mais nova e um homem mais velho.
Unnie: tratamento entre duas mulheres de idades próximas, significa irmã.
fan meeting: evento onde idols e fãs se encontram por alguns minutos.
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