19. Fake Love
Cem dias. Cem dias que havia tido a melhor noite de sua vida. Cem dias trocando mensagens e olhares com aquele que achava ser o homem de sua vida. Seu coração acelerava só de se lembrar da sala de dança. Nunca mais assistiu nenhum ensaio deles depois daquela noite. E agora estava sozinha. Viu Taehyung saindo da suíte de longe, escondida atrás de um vaso gigante que ornamentava o corredor daquele andar. Ele parecia furioso. Quando a porta bateu ela chegou a dar um pulo no mesmo lugar, assustada com a força com que ele havia fechado. Nunca mais olharia na cara dela, ela tinha certeza.
Soltou um suspiro longo, segurando a vontade de chorar, de correr atrás dele e pedir desculpas, de gritar por ele e pedir um beijo. Não sabia qual dessas coisas tinha mais vontade, mas a que venceu foi a de chorar. Sentiu as lágrimas se formando sem comando, lavando seu rosto conforme caiam.
– O que houve?
Lola deu mais um pulo de susto, olhando para trás e dando de cara com Yoongi parado ali. Assim que ela se virou para ele, a primeira coisa que ele reparou foram os olhos vermelhos, as lágrimas correndo pelo rosto e o coração partido dela. Olhou para o fim do corredor, na direção onde ela olhava e viu Taehyung entrando no próprio quarto. Não foi difícil somar as informações.
– Vocês brigaram?
Lola ficou muda. Não sabia exatamente como responder aquela pergunta. O que tinha com Taehyung era segredo – pelo menos ela achava que era – e a única pessoa com quem podia falar estava passando pela mesma coisa com outro membro do grupo. Não tinha com quem conversar sobre suas dúvidas, seus medos e aflições e a pergunta de Yoongi fazia com que se sentisse sozinha no mundo por não poder desabafar, mesmo sabendo que ele seria no mínimo gentil em ouvir.
– Eu... – murmurou sem conseguir dizer mais nada.
– Quer dar um volta? Não precisa me contar se não quiser... Mas você parece que precisa de um pouco de ar fresco...
Lola olhou para o fim do corredor de novo, para a porta onde Taehyung havia acabado de bater também. Precisava de uma bebida. E de um ombro amigo. Olhou para Yoongi e sentiu seu lado fã brigando com seu lado "preciso de um amigo e não de um ídolo". Limpou as lagrimas e tentou sorrir.
– Não quero te incomodar...
– Quem disse que me incomoda? Eu ia sair para dar uma volta mesmo. Vim chamar um dos caras, mas acho que você precisa mais do que eles. Vamos, quero conhecer a cidade. – ele não esperou a resposta dela, ajeitou o gorro de lã que usava e depois enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, saindo em direção ao elevador. Lola ficou parada no mesmo lugar, olhando para a porta do elevador aberta e depois para o fim do corredor. Soltou um suspiro e seguiu Yoongi.
Assim que as portas do elevador se fecharam, uma das portas no fim do corredor se abriu, mas nem Lola nem Yoongi viram quem era. Dentro do elevador, Lola parou para olhar Yoongi e sua roupa.
– Você ia sair vestido assim? – apontou para ele. – Comigo?
– Por que, está feio? – perguntou ele olhando para si mesmo e depois para ela.
– Não... mas tipo, você sabe que qualquer foto sua com qualquer pessoa vai virar uma tempestade, não é? – comentou. Estava pensando em sasaengs, imprensa e todas as fãs ciumentas que havia no mundo. Ela sabia que não daria conta de uma ameaça com a delicadeza com que Julia estava lidando. – Sabe, eu não sou figurinista do grupo mais popular do mundo, mas eu conheço alguns truques... E não quero nenhuma maluca correndo atrás de mim achando que roubei Min Suga dela. – brincou.
Pararam no andar da sala de costura. Estava mais para mais uma suíte reservada só para isso, mas ela gostava de fingir que era um andar só para si mesma porque seu quarto ficava bem ao lado. Assim que entraram sentiu aquele frenesi que nunca passava, independente de há quanto tempo estivesse trabalhando para a Big Hit, ao ver todos os figurinos do BTS. A visão a fez exibir um sorriso triste, teria que escolher entre trabalhar com eles ou amar Taehyung de longe.
– Tem certeza que vai dar certo isso? – ouviu Yoongi perguntar. Ele a encarava preocupado.
– Tudo bem... é rápido. Só preciso fazer você não ficar tão Suga assim. Tire a roupa.
Yoongi arregalou os olhos, em choque, provocando a risada alta de Lola. Ele cruzou os braços na frente do corpo, tentando se esconder.
– Nossa, assim, do nada? Você é muito direta, Paola-ssi.
– Engraçadinho.
Riram juntos. Aos poucos, a brincadeira, o papo leve e as tentativas de descaracterizar Yoongi de Suga fez com que o aperto no coração da estilista afrouxasse um pouco. Ele sabia ser um bom amigo e ela seria eternamente grata. Não tinha tido necessidade de explicar nada sobre seu choro, sobre Taehyung bravo ou sobre ela estar no corredor dos quartos deles sem permissão. Yoongi parecia saber de tudo isso sem que ela dissesse nada. Depois de vinte minutos, ele já não parecia o rapper mais falado do momento. Parecia apenas um garoto de vinte e poucos anos, passeando pela cidade.
– Agora só ajeitar seu cabelo e estamos prontos. – assim que colocou as mãos no cabelo dele, a senha da porta foi digitada e a porta se abriu. Taehyung não entrou, apenas abriu a porta e olhou para a cena que se desenrolava. Viu as mãos de Lola no cabelo de Yoongi, as roupas normais dele no chão, o sorriso esmorecendo no rosto dos dois.
– Certo. – murmurou antes de virar as costas e sair.
– Merda. – sussurrou Lola em português. – Taehyung! Kim Taehyung! – chamou.
***
Toda vez que o telefone tocava, Julia desligava antes de completar o primeiro toque. Andava de um lado ao outro no próprio quarto, o celular na mão e o coração perdido em algum ponto no estômago. Não queria ter fingido que ia se encontrar com Jungkook apenas para que ele e Taehyung ficassem no mesmo ambiente. Mas também não queria se iludir achando que um dia eles viveriam o amor que tinham um pelo outro. Estava de coração partido tanto quanto ele, mas alguém precisava manter os pés no chão e ela tinha que ser essa pessoa, apesar de não querer de jeito nenhum.
Em algumas semanas estariam de volta na Coreia e então não teria mais como fugir da fã doida que escrevia cartas ameaçadoras usando sangue. O celular apitou de novo, mas dessa vez com notificação do twitter. Assim que abriu o aplicativo e passou os olhos pelas tags, soube que fez a coisa certa. Ali estava uma foto de Taehyung e Jungkook na varanda da suíte, há menos de uma hora depois dela não ter ido ao encontro. Aquela foto era a prova de que estavam sendo observados, independente de em que parte do mundo estivessem. Sempre tinha alguém de olho neles e era isso o que mais assustava.
Claro que o encontro casual de dois membros do BTS numa suíte que não era a deles estava sendo distorcida nas redes sociais. Ela conhecia bem a fama de casal que eles tinham entre si e com Jimin. Todos eles sabiam. Mandar Jungkook encontrar-se com ela ali tinha sido um jeito de testar se essa teoria de que estavam sendo observados era real. Com certeza a fã que havia roubado os celulares deles também seguia essas hashtags nas redes sociais. Imagine se fosse ela no lugar de Taehyung na foto.
Sentou-se na cama, olhando para o celular sem saber exatamente como agir dali em diante. Sentiu uma vontade imensa de chorar, de fugir, não pela primeira vez e, com certeza, não pela ultima. A batida na porta a fez pular.
– Kim Ji Hu! – ela congelou. Era Jungkook. – Abra. Precisamos conversar.
– Não há nada para conversarmos, Kookie. – respondeu se aproximando da porta, mas sem abri-la.
– Abra a porta, Julia.
– Usar meu nome real ou meu nome ocidental não vai me fazer abrir a porta, Jeon Jungkook. Vá embora. – respondeu. Encostou a cabeça na porta, querendo mais do que nunca abri-la e se jogar nos braços dele, pedir perdão, mas sabia que não podia.
– Por quê? – foi uma pergunta simples.
Do outro lado da porta, ele também havia se apoiado nela, de olhos fechados. Bateu mais uma vez, de leve, apenas para ter algo a fazer com as mãos.
– Por favor, Noona.
Ficaram assim, em silêncio, apoiados na porta por um longo tempo, ambos perdidos nas memorias que tinham desde antes da fama dele até o bilhete escrito em sangue. Tudo por causa de um maldito celular. Julia não aguentou mais e abriu a porta, tirando o apoio de Jungkook que literalmente caiu para dentro do quarto.
– Ai! – exclamou ao bater no chão e olhar para ela dali. Julia ainda usava o vestido que tinha colocado para o encontro. Estava linda. E daquele ponto de vista, ele esqueceu brevemente o que tinha ido dizer. Ignorando-o, Julia passou por cima e olhou os dois lados do corredor que dava para seu quarto. Estava deserto. Sabia que a empresa havia desligado as câmeras de segurança do hotel nos corredores por onde eles passavam e colocado as próprias câmeras assim como um segurança em cada acesso para os andares. Isso acontecia desde que saíram da Coreia, mesmo assim ela queria conferir se não havia mais ninguém ali além de Jungkook. Quando entrou, ele já estava de pé, ainda coçando a cabeça por causa do impacto.
Não havia muito o que dizer, então ficaram parados se encarando por um tempo antes de correrem para os braços um do outro, se abraçando apertado. Julia começou a chorar imediatamente, chateada com toda aquela situação. Não queria abrir mão dele, do amor que sentia por ele, mas havia um universo de medos entre esse desejo e a realidade. Jungkook a apertou, afundando o rosto no cabelo cheiroso dela, passando a mão de leve neles. Deixou que ela chorasse tudo o que precisava chorar, sempre fazendo carinho no cabelo e nas costas dela.
Assim que se afastaram, ele se abaixou para ver o rosto dela. Estava inchado e vermelho por causa do pranto, mas linda assim mesmo. Sorriu gentil, levantando seu rosto delicadamente com um toque no queixo. – Melhor? – perguntou. Secou as lágrimas dela com as mãos e beijou os olhos dela devagar.
Julia sentiu o coração expandindo, mas não chorou de novo. Aquele gesto simples dele secando suas lágrimas e beijando seus olhos derreteu toda a determinação que tinha de terminar aquilo que ela nem sabia nomear. Estavam namorando? Tinham um relacionamento? Eram apenas amigos que se beijavam? Não. Amava aquele garoto, isso ela sabia. E foi isso o que a fez beijar os lábios dele com voracidade.
Jungkook foi pego de surpresa por aquele beijo, mas não se afastou. Arregalou os olhos por alguns segundos, para no momento seguinte puxar Julia para si e corresponder com a mesma intensidade. Era um beijo longo, voraz, sofrido. Afastaram-se por um tempo, ambos respirando com dificuldade, e se encararam numa conversa sem palavras.
Julia voltou a puxar ele para si e a beijá-lo como se sua vida dependesse disso. Deixou que suas mãos fossem sozinhas para a barra da camiseta que ele usava e a puxou para cima, afastando a boca da dele apenas por alguns segundos para que pudesse tirar aquilo do caminho. Ele não protestou, levantou os braços e deixou que ela guiasse ambos até a cama.
Assim que ele caiu deitado, ela tirou o próprio vestido, ficando apenas de calcinha e sentando no colo dele. Voltaram a se beijar. Nenhuma palavra precisava ser dita. Para Julia aquela seria sua despedida. Para ele, sua comemoração de cem dias com ela.
***
– Taehyung. – Lola o alcançou quase na porta do próprio quarto, localizado no mesmo andar que o ateliê improvisado. Segurou o braço dele com delicadeza, fazendo com que ele parasse no caminho até o elevador. Desejou não ter conseguido pará-lo quando viu a expressão de desprezo no rosto bonito dele. Aquilo doeu mais do que qualquer coisa.
– Foi por isso que não respondeu minhas mensagens? Ia sair com Suga-hyung*? – ele perguntou. Não a olhava nos olhos, magoado com a cena que havia visto. Não queria admitir, mas estava com ciúmes e não podia controlar todos os pensamentos errados que passaram e ainda passavam por sua mente ao testemunhar aquela cena.
– Não, eu...
– Não ia sair com ele? Então o que? Estava começando a brincar com os sentimentos dele como fez comigo? – respondeu. Lola arregalou os olhos, em choque com aquela frase.
– Você entendeu tudo errado. Estávamos só conversando.
– O fez tirar toda a roupa enquanto "apenas conversavam"? – a cada pergunta a voz dele ficava mais baixa, mais grave e mais perigosa. Lola ficou com medo de se embananar com o coreano tentando se explicar, então apenas começou a responder em inglês, porque se sentia mais segura.
– Não é nada disso. Está me magoando, Taehyung. – respondeu. Sentia o nó se formando na garganta, com vontade de chorar, mas segurou mais um pouco. Precisava se explicar antes.
– O que então?
– Eu vi quando você saiu da suíte dos quadros... Assim como o Yoongi também viu. Ele me flagrou ali te espiando. – abaixou a cabeça, chateada. – Chorando... – sussurrou. Uma lágrima escapou dos olhos dela, fazendo com que levantasse a cabeça e tentasse reprimir todas as outras que queriam vir em seguida. – Ele tentou me animar, me chamando para dar uma volta, respirar ar fresco. Mas ele é o Suga, do BTS, assim como você é o V, do BTS. E eu sou só eu... Paola Ferreira, brasileira, funcionária da sua empresa.
As mãos de Taehyung abriram e fecharam ao lado do corpo. Ele tinha vontade de secar aquela lágrima dela, de abraça-la e não ouvir mais nada. Mas seu coração ainda estava cheio de ciúmes e queria ouvir mais, precisava ouvir mais. Então ele continuou parado, quieto no mesmo lugar, apenas observando as tentativas dela de conter o choro.
– Fui eu que sugeri que ele trocasse de roupa. Desde a história da ameaça que a Julia recebeu, não consigo dormir sem sentir medo de quando for a nossa vez. Já imaginou como vão reagir quando souberem que não namora Jimin ou Jungkook, mas que na verdade está saindo com uma estrangeira? – ela falava misturando coreano e inglês, por conta da insegurança e do nervosismo, mas ele conseguiu entender tudo o que ela dizia. – Que está saindo comigo...? – completou num sussurro.
– O que é que tem? – ele sussurrou em resposta. Não via problema em sair com ela. Não entendia por que deveria ver um problema em sair com ela. Mesmo que tivesse que cumprir seu contrato com a empresa, não via necessidade de viver como um padre até que ele acabasse. Lola levantou os olhos, incrédula, começando a ficar irritada com a passividade dele.
– "O que é que tem?" – perguntou. – Você é Kim Taehyung! E eu sou uma costureira negra, estrangeira, de família pobre que trabalha para você. Isso o que tem. Se me fotografam andando na rua com Suga e, em seguida, me fotografam andando com você ou tendo um jantar, ou sorrindo com você... o que acha que vão dizer? Vão tirar a mesma conclusão que você teve só de me ver no ateliê com ele! Não consegue enxergar problema nisso? De verdade? – perguntou. Estava chorando, não conseguiu segurar mais.
Como ele não dizia nada, ela pegou o celular e abriu o aplicativo do twitter. Ali estava a foto dele e de Jungkook na varanda da suíte dos quadros. Abriu a foto e mostrou para ele. – Sabe o que está escrito aqui? Que vocês são almas gêmeas, que estão tendo um encontro secreto na semana de folga entre um show e outro. – falou. – E o encontro de vocês foi apenas um teste que eu e Julia quisemos fazer.
– Nos usou para um teste? – ele finalmente falou. Lola fechou os olhos com raiva da mudança de foco dele.
– Não tente mudar o foco. – ela respondeu, encarando-o. Pela primeira vez ele viu fúria nos olhos dela. O castanho estava mais claro e mais intenso do que nunca, fazendo com que ela parecesse uma deusa furiosa e o coração dele pulasse uma batida. – Eu tentei fazer com que Yoongi parecesse menos com o Suga. O levei para o ateliê apenas para transforma-lo num cara normal e protege-lo dos paparazzi. Do mesmo jeito que fiz com Jungkook quando saímos da Coreia para essa turnê. Do mesmo jeito que eu faria com qualquer um dos membros apenas para proteger vocês dessas malucas que se acham mais fãs do que eu só porque estão dispostas a qualquer coisa. – ficou em silêncio, desviando o olhar do dele e olhando novamente para a foto escura dele com Jungkook no celular. Guardou o aparelho no bolso de novo e levantou os olhos para Taehyung.
– Eu te amo, Taehyung. Nunca teria nada com nenhum dos outros membros, por mais que eu seja fã do grupo todo e ame cada um dos meninos. Foi para você que eu dei meu coração.
Aquela afirmação o pegou desprevenido e tirou qualquer fala que pudesse formular para ela e continuar aquela conversa. Estava sem palavras.
– Meu coração sempre vai ser seu, Tae. Sempre foi, desde antes de nos encontrarmos pessoalmente. Mas... – ela segurou a mão dele por um tempo, sentindo o calor dele e se lembrando de todas as vezes que ele a tocou. Levantou os olhos para os dele e exibiu um sorriso triste antes de diminuir a distância e beijar seu rosto. – Eu te amo. – falou em português antes de soltá-lo e ir para o próprio quarto.
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