14. So what?
– Você está bem? – a voz de Lola despertou Julia de seu devaneio. Estava pensando em como as coisas haviam mudado em sua vida desde que começara a trabalhar na Big Hit. Olhou para a amiga e tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi fazer uma careta que foi respondia por outra por parte de Lola.
– Isso foi um sorriso para me tranquilizar?
– Uma tentativa?
– Amiga, estou com você. Maluca nenhuma vai ter coragem de te atacar comigo do seu lado. Vocês não conhecem isso, mas eu cresci brincando de uma coisa chamada capoeira. Vou ser sua segurança pessoal.
A segurança com que Lola dizia isso fez com que o aperto no peito da maquiadora soltasse um pouco. Estavam naquele voo há três horas e havia mais onze pela frente. Seria melhor se dormissem, mas tudo o que ela conseguia fazer era imaginar uma maluca a atacando assim que baixasse a guarda.
Pensava em Jungkook e na bendita foto dela dormindo na cama dele, bêbada e sorrindo feito besta. Por que raios ele teve que tirar aquela foto? Nunca mais baixaria a guarda perto dele, nunca mais deixaria que ele se aproximasse demais. Dali em diante seria um metro de distância no mínimo, a não ser quando fosse maquiá-lo. Não, nem isso. Melhor colocar uma das outras meninas na maquiagem dele. Isso.
O pensamento fez com que ela relaxasse mais um pouco, como se ela realmente acreditasse que fosse capaz de evitar qualquer demonstração de afeto apenas se afastando de Jungkook. Fechou os olhos devagar e o cansaço fez com que dormisse quase imediatamente.
Um solavanco no avião a acordou uma hora mais tarde e por reflexo ela apertou o apoio de mãos da poltrona, buscando a mão de Lola. Mas o toque daquela mão era diferente, maior e estava suada. Olhou para a mão e devagar acompanhou o braço, ate dar de cara com Jungkook cochilando ali, na classe econômica. Puxou a mão rapidamente, despertando-o mais do que o segundo solavanco do avião. Voltou a segurar a mão dele, com medo. Odiava aviões, odiava ter que atravessar o mundo dentro de um deles, mesmo que gostasse muito de viajar e conhecer culturas novas com seu trabalho.
Olhou a volta deles, esperando ver vários celulares apontados em sua direção, porque afinal de contas Jungkook era um astro conhecido no mundo agora e estava ali, sentado com ela na ala econômica daquele voo. Poderia muito bem estar na primeira classe, só ele, os meninos e os empresários, mas estava ali. Ele rapidamente virou a palma da mão para cima, entrelaçando os dedos dele nos dela e apertando sua mão. Seu gesto dizia claramente "estou aqui, não me importo com o que digam".
– Cadê a Lola? – foi a única coisa que conseguiu dizer. O avião voltou a balançar forçando-a a fechar os olhos. Começou a rezar mentalmente. Não sabia exatamente para qual Deus rezava, já que acreditava em muitas coisas de muitas religiões, então simplesmente direcionou sua prece a uma entidade maior.
Foram os vinte minutos mais assustadores da vida de Julia. E os vinte minutos em que Jungkook achou que fosse perder os dedos, tamanha a força que ela colocava na mão ao apertá-los. Sabia do medo dela de avião e com as ameaças da fã desconhecida, decidiu usar os créditos que tinha com o alto escalão da empresa para conseguir ir naquele voo com a equipe. Felizmente a maior parte da tripulação pertencia à Big Hit, o que facilitou muito que a autorização saísse. Mesmo assim tinha acabado na primeira classe, enquanto Julia e Lola estavam na ala econômica.
Quando o sinal de apertar os cintos se iluminou e o piloto anunciou uma turbulência pela frente, a primeira coisa que ele fez foi se levantar e ir até onde elas estavam. Trocar de lugar com Lola havia sido a parte fácil. A parte difícil era não deixar que os passageiros que não faziam parte da equipe ou do grupo de dançarinos não fotografasse. Estava vestido totalmente diferente do que normalmente usava. Ao invés da roupa extra larga e cara, estava vestido como um civil comum. Não usava máscara, pois isso chamava atenção de asiáticos presentes no avião, mas usava um boné preto, a aba bem baixa, escondendo os olhos. Não usava os brincos ou anéis que já tinham virado sua marca registrada, muito menos os tênis excêntricos que ele sabia que Julia e Lola odiavam. Tinha esperanças de que achassem que ele fosse alguém muito parecido com JK do BTS, mas não exatamente ele.
Apertou a mão de Julia numa mensagem silenciosa de que sempre estaria ali por ela, independente dos obstáculos que a vida havia posto. Ela abriu os olhos e o encarou por um tempo, tentando se concentrar naqueles olhos e no toque daquela mão ao invés do balançar assustador do avião.
– Vai ficar tudo bem... é só uma nuvem. – ele sussurrou. As luzes da aeronave piscaram e ela, assim como muitos outros passageiros, gritou assustada, aproximando o corpo completamente do lado onde Jungkook estava na poltrona. Ele continuou sussurrando que aquilo ia passar, que era só uma nuvem. Em algum momento, cansado dela não ouvir nada do que ele dizia, ele começou a cantarolar contra a cabeça dela, apoiada em seu ombro. Era a música que ele havia mostrado dias antes, ainda incompleta.
Aos poucos Julia se deixou levar pela voz baixinha dele cantando aquela música. O coração acompanhando a melodia. Como que respondendo a sua prece, o balançar do avião começou a diminuir e as luzes pararam de piscar eventualmente. O coração dela continuava batendo acelerado de medo. Odiava aquela parte da profissão.
No encosto da poltrona em frente à sua ela apertou um botão do monitor. Queria saber em que ponto do globo eles estavam e se faltava muito para finalmente fincarem os pés em terra firme. Fazer isso fez com que seu estômago revirasse. Ainda estavam sobre o mar, entre os continentes europeu e americano. Haviam algumas horas de voo pela frente ainda.
– Noona?
Ela olhou para Jungkook, que ainda segurava sua mão, e tentou sorrir.
– Pode afrouxar um pouco o aperto, quero continuar com a mão inteira quando chegarmos...
A piada fez com que risse e soltasse os dedos dele. Continuou com a mão apoiada ali, caso a turbulência recomeçasse. Era hora das perguntas.
– Como conseguiu vir nesse voo? Os outros também vieram?
– Não. Vim com um dos empresários. Consegui convencer que seria mais seguro se eu viesse com vocês. Não tive muitos problemas para convencê-los. – respondeu dando de ombros. Era uma mentira leve comparada com a que contara na empresa para que conseguisse aquela autorização. Mas Julia não precisava saber disso.
– A Lola sabia? – ele sorriu culpado. Sim, tinha combinado todo aquele figurino para deixar de ser JK do BTS com ela.
– Não foi muito difícil convencê-la. Naquela festa, quando ela foi contratada, ela deixou bem claro que era nossa fã. Você não lembra porque dormiu, mas foi épico. – respondeu com o olhar perdido em algum ponto no avião. Não era segredo para ninguém que Lola era army, muito menos para ele e os meninos. Mesmo que ela não tivesse realmente confessado isso, eles perceberam logo que ela começou a trabalhar porque não fazia questão de esconder a empolgação sempre que algum deles lhe dava alguma coisa ou perdia algum tempo lhe dando atenção. Como Julia continuou encarando-o, com perguntas estampadas em seu olhar, ele sorriu de novo. – Não se preocupe, não vou deixar nada acontecer com ela. Tenho certeza que ela está curtindo bastante a primeira classe junto com Sejin.
Ficaram um tempo em silêncio, oscilando entre o sono e entre o conforto que era estarem na presença um do outro. Em momento algum soltaram as mãos, mas Julia ficou encarando Jungkook enquanto ele cochilava. Estava com mais medo de se entregar àquele momento do que da turbulência pela qual acabaram de passar. Como colocar distancia entre eles se ele vivia aparecendo sempre que ela precisava? Tentou tirar a mão da dele, mas ele a puxou de volta, abrindo os olhos.
– Ate quando vai fugir de mim? – a pergunta a atingiu de surpresa, fazendo com que arregalasse os olhos. Não conseguiu pensar em nada para responder. – Eu não entendo você, Noona. As vezes parece uma coisa e tenho certeza absoluta dos sinais que dá. Em outras...
– O que?
– Nada. Deixa para lá. – virou-se de lado, soltando um suspiro. Julia tentou puxar a mão novamente, mas ele não deixou, por mais que não estivesse olhando para ela.
– Agora me diz... O que você não entende? – era uma pergunta retorica. Ela sabia muito bem o que ele queria dizer. Nem mesmo ela conseguia entender os próprios sentimentos. Mas queria ouvir a pergunta da boca dele, em voz alta. Quem sabe assim não ia conseguir verbalizar finalmente o que sentia por ele.
– Tem horas que eu tenho certeza e depois parece que criei uma ilusão de tudo isso. Num momento segura a minha mão como se sua vida dependesse disso, para no momento seguinte me afastar e... – suspirou, frustrado. – Não vamos conseguir evitar isso para sempre, sabe?
Ela não percebeu, mas ele já não segurava sua mão. Só se deu conta disso quando ele se levantou e fez uma leve reverencia.
– Preciso voltar ao meu lugar agora que a turbulência acabou. Te vejo no hotel.
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