Prólogo
Nesse momento estou narrando uma história que pode ser minha ou não. Eu posso estar presente nela como uma simples espectadora ou como a própria protagonista, mas acho que isso é algo que nunca poderei revelar. Os fatos que antecedem essa história me fazem crer que tudo na vida tem um porquê e nada acontece sem um motivo ou aprendizado, então se hoje estou aqui contando cada detalhe dessa linda caminhada é porque alguém precisa de um pouco de amor e ficção em sua vida. Assim como Chan também precisou um dia.
Lembro como se fosse ontem, uma chuva forte se aproximava do centro da cidade, era possível ver alguns moradores já abrindo seus guarda- chuvas. Pela janela de seu conversível Chan observava cada passo de Sojin na pequena loja de conveniência. Ele detestava não poder fazer as mínimas coisas com sua namorada por conta da fama, Sojin era seu segredo mais perigoso e também o mais precioso. Sojin era uma jovem comum, acabara de começar a faculdade e a última coisa que Chan queria era envolvê-la em um escândalo. ídolos não podem se relacionar amorosamente por vários fatores, o contrato é somente uma pequena parte. Fãs cobram muito de seus ídolos, querem escolher até mesmo com quem deveriam se casar.
Era uma vida solitária, mesmo com tanta gente ao seu redor.
Sojin sorri animada para a atendente, ela lhe entrega as sacolas e faz uma pequena reverência. Chan viu a pequena garota abrir o guarda- chuva e correr em direção ao seu carro, olhando sempre de um lado para o outro, para não ser seguida. Era horrível viver assim...
— A senhora do balcão disse, que tem algo para você aí dentro. — Sojin falou sorrindo lindamente.
— Com toda certeza é o meu kinchi, ela nunca esquece — Chan falou enquanto fuçava a sacola.
Dentro da mesma, Chan encontrou um pedaço de papel dobrado ao meio.
— Recebo bilhetes amorosos da vovó da lojinha agora? — Sorriu Chan.
— Ah, deixa eu ler? Isso é tão fofo — Sojin, pegou o papel da mão de Chan nitidamente feliz, porém o sorriso no rosto da garota foi morrendo aos poucos.
Ela passou a olhar para trás do carro aflita.
— O que está escrito aí? — Chan falou retirando o papel delicadamente da mão de uma Sojin apavorada.
— " Nem tudo que parece realmente é... Você prometeu ser o príncipe da nação, o amor de todas nós. Você mentiu. O príncipe virou sapo, nos traiu da pior forma e agora irá pagar. Os dois irão..."
Estava atônito, olhando de um lado para outro. Eles não poderiam ter sido seguidos, Chan tinha feito tudo certo, até mesmo trocar de carro para que ninguém reconhecesse seu carro de uso habitual. Deu partida no automóvel para poder sair dali o mais rápido possível, ele precisava levar Sojin a um lugar seguro. O lugar secreto deles se tornou bastante perigoso.
— Não coma nada dessa sacola, elas têm a péssima mania de gostar de envenenar seus ídolos.
— Elas? — Questionou Sojin confusa.
— Fãs com problemas mentais, desequilibrados emocionalmente. — Chan bateu com força no volante — Eu já tinha ouvido falar, mas nunca imaginei que teria algum fã assim.
— Agora ela vai me perseguir ou algo assim? Não sei se posso lidar com isso.
— Nunca pensei em dizer isso, mas teria sido mais fácil para você se tivesse escolhido o Kyle.
— Eu realmente não entendo. — Ela o encarou nitidamente aborrecida — Ele é como um irmão para mim e você é o amor da minha vida, eu não vejo sentido nessa disputa descabida. — Realmente Sojin não via motivo para toda essa picuinha entre os dois, sempre fora bem clara com seus sentimentos e nunca deu motivos para nenhum dos dois interpretarem de outra forma.
Entretanto, Chan tinha seus motivos.
— Eu poderia facilmente te fazer entender os meus motivos, mas Kyle virou um assunto desagradável para mim.
— Ele é seu melhor amigo, seu irmão, assim como krystian, Jay e Lee. Eu não quero ser um muro entre vocês, por favor não me reduza a isso. — Suplicou Sojin.
— Só eu sei o que sinto quando ele te olha, o modo que ele te trata e tenta se sobressair a tudo que eu faço. Eu não comecei essa disputa.
— Tem razão, seu ciúme começou — Rebateu Sojin encarando o rosto duro de Chan.
Chan tinha razão em ter ciúmes, Kyle estava perdidamente apaixonado pela namorada do amigo. Não foi algo premeditado ou simplesmente sujo, só aconteceu e ele não sabia lidar bem com aquilo. Sojin era tão clara e direta que nunca imaginou que o amigo poderia nutrir algum sentimento por ela, mas o que Sojin tinha de sinceridade ela tinha de ingenuidade. E mal notou que kyle estava fazendo de tudo para ter sua atenção e conquistá-la de alguma forma, acho que nem mesmo kyle notará que o que ele fazia era nocivo para Chan e a irmandade que tinham.
Eu não posso dizer a vocês que o que aconteceu depois foi bonito e agradável de se presenciar, muito menos que é uma história feliz. Mesmo que seja algo que precisa ser contado, não sinto que seja confortável de se escutar. Algo nessa noite mudou Chan completamente, e não estou dizendo que ele superou os conflitos que tinha com kyle e muito menos que seu ciúme atrapalhou a sua relação.
Foi bem pior...
Chan estava tão imerso na discussão que estava tendo com sua namorada, que ao menos tinha notando uma vã que vinha sorrateiramente atrás deles. A garota enfurecida que os perseguia habilmente pela estrada chuvosa, só pensava em uma coisa; se livrar da intrusa e ser lembrada pelo seu amor para sempre. E ela não mediria esforços para isso.
Quando uma curva perigosa se aproximava, Chan sentiu uma batida em seu carro, depois outra, e outra em seguida. Sojin olhou para trás e viu uma jovem de máscara, contudo já era tarde demais para avisar a Chan. O carro já derrapava em meio a pista molhada, capotando logo em seguida. A garota não esperou para ver o que tinha acontecido, deu partida na vã sumindo em meio a tempestade.
Tonta e sem entender nada, Sojin despertou no meio dos destroços do carro. Ela não sentia nenhuma dor, porém sabia que estava presa. Olhou para o lado e viu Chan desacordado e livre das engrenagens, Sojin analisou o carro destruído e notou o vazamento de gasolina do escapamento. Ela sentia que precisava tirar Chan dali. Com uma difícil decisão tomada, Sojin juntou o resto de força que lhe restava e empurrou Chan para fora do carro. Com o impacto e a voz de Sojin o gritando de longe Chan se arrastou inconscientemente de suas ações até a beira da estrada, sentindo o impacto de uma explosão o levando ao escuro novamente.
— Viva Chan, por mim...
Chan despertou dentro de um quarto incrivelmente branco que cheirava a produtos esterilizantes, notou uma quantidade enorme de fios conectados a si. Em um rompante suas memórias voltaram de uma única vez, e uma agonia tão grande lhe tomou que ele começou a gritar desesperadamente. Sentindo algumas mãos lhe segurarem e logo depois um abraço acolhedor que ele sabia ser de Krystian, Chan foi se acalmando. Porém a dor? Ela ficaria presa nele pelo resto de sua vida.
— A Sojin... ela... — Chan já sabia a resposta, ele não sentia mais a presença alegre da namorada. Em seu consciente ele já sabia de tudo que acontecera naquele carro e se culpava mortalmente por não ser ele em seu lugar.
— Sinto muito cara, não sei nem o que lhe falar. — krystian sussurrou para Chan. Krys era como um pai naquele círculo de amigos desordeiros, era o cara que sempre estava ali para apaziguar a situação ou somente para dar aquele conselho que só um irmão mais velho poderia. Krys não era mais velho que os outros, talvez alguns meses, mas isso já lhe dava uma maturidade nítida entre os amigos.
Lee se aproximou da cama de seu amigo mais velho e segurou sua mão. Era doloroso ver o cara mais forte que ele conheceu totalmente destruído. Lee tinha em Chan sua rocha, aquele amigo que sempre estava forte para te confortar em meio às tempestades da vida. O problema é que a tempestade tinha destruído Chan e Lee não fazia ideia de como se tornar uma rocha para o amigo
— Você precisa de alguma coisa? — foi a vez de Jay perguntar. Chan queria dizer ao amigo que a única coisa que ele precisava era da namorada, mas ele sabia que nem mesmo todo dinheiro que a família do amigo tinha poderia trazer Sojin de volta. Algo ainda mais doloroso fez Chan olhar a sua volta, ele ainda não tinha ouvido o choro de kyle ou nem o visto quebrar nada no quarto com seu jeito desastrado. Por mais que sentisse ciúmes do amigo, ele era a única pessoa que entendia o que estava sentindo, afinal Kyle também perdera a garota que amava.
— O Kyle, onde ele está?
— Ele desapareceu logo depois do funeral, a família da Sojin não quis esperar você acordar. — O golpe poderia ter sido menor, mas Chan não fazia ideia de que estava desacordado por tanto tempo e muito menos que não poderia dar o último adeus a sua namorada. — Na verdade irmão, a família dela abriu uma ação judicial contra você, eles juram que você estava embriagado e por isso capotou o carro.
Sim, a situação não poderia ficar mais trágica. Não bastava Chan ter perdido tudo naquela maldita noite, ele ainda seria acusado de ter matado a própria namorada. Por mais que Chan fosse um tanto quanto caótico, se embriagar não era algo que ele costumava fazer. Ele era problemático, era consumido pelos holofotes e tinha uma vida conturbada por trás de todo o brilho que iluminava os palcos. A morte de Sojin foi o pontapé inicial para a completa confusão que era Chan, ele nem fazia ideia do quanto sua vida mudaria depois daquele dia.
— Eu não bebi uma gota de álcool. Um carro bateu na minha traseira várias vezes até eu perder o controle da direção. — Chan coloca as duas mãos no rosto desesperado. Ele não podia ser responsabilizado por aquilo, ele merecia justiça, Sojin merecia. — Eu nunca faria nada para machucá-la. Eu não sou irresponsável a esse ponto, vocês me conhecem melhor que qualquer um.
— A JP Entertainment já enviou uma nota às autoridades com seus exames comprovando sua inocência. E mesmo que aqueles sanguessugas não tivessem esclarecido essa merda, nunca acreditaríamos que você faria algo assim. A família da Sojin só quer alguém para culpar, Kyle também. Eles precisam de um vilão, de um motivo, você sabe a verdade e no momento é só o que importa. Você não tem culpa de nada!
— Sim, eu tenho! Como eu pude pensar que poderia ter um relacionamento saudável e trabalhar nessa indústria maldita? Como eu fui burro ao ponto de achar que eu poderia escolher meu próprio destino? Tudo é ditado por eles — Chan apontou para janela, onde se podia ouvir um enorme coro de fãs suplicando por notícias — Eu não quero mais elas aqui, eu não quero ouvir esse som agourento. Elas parecem parcas anunciando morte e destruição, isso parece uma súplica para que eu acabe logo com a minha vida. Só tirem esses monstros de perto de mim.
Chan poderia estar abalado naquele momento, mas a raiva por aquelas pessoas que se auto intitulavam fãs, se perdura. É meio ilógico esse pensamento, como podem amar tanto uma pessoa mas fazer mal a alguém importante para ela? Garanto que esse era o que martelava na mente de Chan nesse momento.
— Eu preciso sumir daqui, eu não vou mais conseguir fazer isso. Eu quero morrer, quero que a minha imagem desapareça da mente dessas pessoas. Jay não tem nada que você possa fazer para me ajudar a sumir? Você perguntou se eu precisava de alguma coisa, eu preciso que o Chan morra. — Seus amigos não entendiam aquele pedido, Jay não sabia o que estava por trás daquela súplica infundada. — Eu preciso que me ajudem, ou vou acabar com a minha vida.
— Por Deus Chan, larga toda essa merda e viva uma vida normal longe de toda essa pressão. — Krys não percebeu que era exatamente isso que Chan queria, contudo ele não seguia mais ser ele, não conseguia ser o Chan de sempre.
— Você acha que poderei viver livre de tudo isso? Acha mesmo que vão me deixar cair no esquecimento? Eu sempre vou ser esse holofote ambulante, atraindo esse tipo de gente doentia. Eu quero que o Chan morra e eu possa viver a minha medíocre vida da melhor forma que eu conseguir.
— Está querendo forjar a própria morte? Isso é crime, você tem contratos, família e uma multidão de pessoas à sua espera. Erga a sua cabeça e declare a todos que você não quer mais isso para sua vida e que está se desligando da indústria. Eu não vou deixar você fugir de seus problemas e destruir tudo que você é, a Sojin não iria querer isso. — Krys era a voz da sanidade em meio ao turbilhão que Chan sentia, ele sabia que forjar a própria morte era algo surreal até mesmo para Jay e sua fortuna incontável. Mas ele queria uma outra vida, um novo nome e que se alguém o reconhecesse na rua pudesse falar que era engano. Ele queria que Chan morresse junto com Sojin.
— Eu posso conseguir com os advogados do meu pai um novo registro, você pode ir para longe e recomeçar. Mas forjar a sua morte é burrice, vamos deixar que você caia no esquecimento. Vou lidar com a multa da quebra de contrato e alegar que você não tem condições de cumprir sua parte do acordo. Mas é só o que posso fazer Chan, afinal você precisa colocar sua mente em ordem antes de tomar qualquer decisão.
— Eu já me decidi! Chan não existe mais.
Eu gostaria de contar que Chan desistiu da ideia absurda de acabar com a própria vida, mas aí eu estaria romantizando a verdade. A realidade é que Chan tentou de tudo para apagar a si mesmo da história e ser esquecido por todos a sua volta, mas falhou todas as vezes. Ele realmente sumiu da vida de todas as pessoas que o acompanhavam, mas tinha uma coisa que se negava a sumir da vida de Chan, a enorme necessidade de fazer música e tocar as pessoas com ela. E depois de três anos essa necessidade se tornou tão sufocante que me permitiu contar a vocês essa história.
Quando um avião pousou no aeroporto de Incheon a exatos três anos depois, o destino tratou de revirar tudo que conhecemos. E quando achei que nada poderia mudar na vida de Chan a música retomou seu lugar de direito. Talvez a morte de Sojin seja só o começo e não o fim.
Agosto de 2021...
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