Principium
PRIMIS
— Você está pronto? — o ser em meu quarto me perguntou.
— Não, eu quero dormir mais — respondi sonolento.
— Você sabe que eles vão vir te acordar em breve — ele suspirou.
Por um momento eu apenas o observei, sua pele era branca, levemente bronzeada. Seus cabelos castanhos lisos eram curtos e agora pareciam bagunçados, com vários fios sobre a sua testa, chegando nos olhos. Ele olhava para a porta, mas de onde eu estava conseguia ver seus olhos azuis brilhantes. Eu amo olhar para seus olhos, eles me confortam e me fazem acreditar que, de algum jeito, as coisas ficariam bem.
— Hoje é o dia do teste final, — ele suspirou — e eu espero que você perca.
— Sabe, os anjos guias deviam torcer por seus protegidos — eu brinquei, mesmo que no fundo, aquele misto de medo e agonia estivesse presente.
— Eu sempre torço pelo seu bem, mas ser o escolhido para ir até as ruínas de Domus Ignis e selar o portal entre o nosso mundo e Gehenna, não é o que eu queria para você.
— Os outros anjos estão incentivando seus protegidos, você está pedindo que eu perca? — digo risonho, Louis negou com a cabeça e aquele sorriso de canto.
A cada cem anos ocorre uma competição entre todos os reinos do nosso continente. Os Illustratus percorrem todos os reinos por meses, até anos, para encontrar jovens que possuem magia pura em seus corações. Quando eles os encontram, levam esses jovens para o Castelo Alto, onde somos treinados por muito tempo pelos próprios Illustratus.
Illustratus é um grupo formado pelos magos mais fortes de todo o continente, os melhores e mais poderosos de todos os reinos. São eles que mantêm o equilíbrio entre o nosso mundo e Gehenna, impedindo que os demônios escapem do mundo deles e invadam o nosso.
No passado, houve muitas batalhas e guerras sangrentas, os demônios foram liderados pelo Anjo Obscuro, uma figura que até hoje, séculos depois de ter sido preso em Gehenna, ainda causa calafrios em todos. Muitos morreram, até que os Illustratus conseguiram prendê-lo em um vulcão adormecido, depois passaram anos limpando o continente de seus seguidores demônios.
Ainda havia casos de possessões ou de pessoas que usavam magia proibida, desencadeando vários problemas, caos e mortes. Em todos os casos, os Illustratus tiveram que interferir, o conhecimento de magia deles é milenar e eles tiveram que abdicar de suas vidas para viver em função da magia.
Nós mal podemos ver seus rostos quando vivemos em qualquer um dos reinos, eles sempre usam as túnicas vermelhas que os cobrem por inteiros e as máscaras brancas. Eles não podem revelar seus nomes ou receber qualquer retribuição ou dinheiro pelo que fazem. Seus dons devem ser usados unicamente para o bem, e quando um Illustratu escolhe alguém para se juntar ao Castelo Alto e estudar com eles, é a maior honra que uma família pode receber.
Quando eu tinha 12 anos, eu estava no gramado, tinha acabado de alimentar as ovelhas quando três pessoas a cavalo se aproximaram. Meu primeiro instinto ao ver aquelas figuras vestidas de vermelho e com máscaras brancas, foi me esconder. Meu coração disparou e fiquei atrás de uma das árvores perto da minha casa.
Minha mãe passou pela porta, parecia surpresa e assustada com aquelas figuras imponentes. Eu sabia quem eram, nós aprendemos sobre Illustratus na escola, mas como eu morava em um vilarejo afastado da capital, era raro encontrar com um deles, principalmente com três e na minha casa.
— Harry? — minha mãe perguntou assustada ao Illustratu que conversava com ela — Harry, venha aqui!
Saí de trás da árvore com medo, mas caminhei vacilante em direção a ela. Minhas pernas tremiam, meu coração estava disparado e, lá no fundo da minha mente, uma voz trêmula sussurrou: Corra, fuja.
Mas eu não fugi.
— Eu tenho que ir? — perguntei aflito. Eu não queria ir embora, eu tinha meus amigos, eu tinha a minha escola, eu tinha meus animais e não queria ficar longe da minha família.
— Sim, meu amor — minha mãe parou de fazer minha mala e me abraçou com força — isso é uma honra muito grande, quer dizer que eles te consideram tão especial, que querem que você seja aluno deles.
— Mas eu não quero ficar sem você — me agarrei a minha mãe, as lágrimas caindo de meus olhos.
— Também vou sentir muito a sua falta, todos os dias. Mas você vai ter uma vida melhor, vai ter educação de verdade, roupas boas, comida farta — minha mãe me falava e, apesar de eu saber que ela estava triste com a minha partida, eu via como estava feliz por eu ter sido um escolhido.
Os Illustratus, ao contrário do que eu pensava, eram legais. Eles ficaram sentados na nossa cozinha simples, levantando o necessário de suas máscaras para poderem beber água. Não reclamaram de nada, não se importaram se nossa casa era humilde, ainda mais comparada a um castelo. Eles riram de algumas coisas e explicaram tudo que meus pais perguntaram. Me deram tempo para me despedir dos meus pais, da minha irmã e de cada uma das minhas ovelhas e galinhas.
— Aqui — um deles falou comigo enquanto eu estava no gramado, dando uma última olhada no lar que nasci, cresci e agora estava abandonando.
— O que é? — perguntei, recebendo a pedra azul que ele colocou na minha mão.
— Esse cristal se chama Anima Lucis, sabe o que quer dizer? — eu neguei com a cabeça e ele afagou meus cabelos — A tradução seria algo como Alma de Luz, ele canaliza a magia que flui do nosso corpo e mostra sua essência. Entenda Harry, pode não parecer, mas todos os seres humanos têm um pouco de magia dentro de si e cada um demonstra de um jeito, mesmo que passe despercebido. Mas alguns de nós tem uma fonte primária em nossas almas, nos tornando uma grande fonte de energia mágica. Por isso que meus companheiros e eu sempre percorremos o continente, buscando jovens especiais como você, para lhe ensinar como controlar e usar sua magia para o bem.
— O que eu faço? — perguntei confuso.
— Mantenha o cristal dentro das suas mãos, feche os olhos e respire fundo, pense em tudo o que você gosta, tudo o que você ama, sinta o vento ao seu redor, sinta os cheiros, escute os sons dos animais — ele disse com a mão no meu ombro, me confortando — deixa a magia fluir de você.
Mesmo incerto, eu fiz o que ele pediu. Primeiro não aconteceu nada, mas aos poucos meus sentidos foram se aguçando, eu sentia minhas roupas sobre meu corpo, o vento batendo em minha pele, os aromas à nossa volta invadindo minhas narinas e o cristal na minha mão.
Pensei na minha mãe e no quanto eu a amava, na minha irmã e no meu pai e em como eles me faziam sentir bem. Na minha escola, nos meus amigos, nas comidas que eu gosto, em brincadeiras que eu gostava quando era menor... Então o cristal na minha mão se aqueceu e quando abri meus olhos, ele brilhava muito, com uma luz turquesa forte e quentinha.
— Isso foi impressionante — o mascarado me disse e eu quase podia ouvir o sorriso em sua voz — estou muito feliz que se juntará a nós, Harry, prevejo um futuro esplêndido.
Eu sorri com aquilo e devolvi o cristal para ele. A notícia da minha partida percorreu muito rápido meu vilarejo e todos quiseram se despedir de mim. Mesmo aqueles com quem eu não tinha muito contato, vieram me abraçar e dizer o quão orgulhosos estavam. Na verdade, nunca houve um escolhido de Holmes Chapel, afinal o continente é tão grande e os escolhidos são tão poucos. Meu vilarejo fez um grande jantar para celebrar, mesmo que os Illustratus não tenham ficado tanto tempo e tenham se recolhido ao quarto da pousada, eu fiquei o máximo que pude, afinal eu não sabia quando veria aquelas pessoas de novo.
Quando chegamos a Castelo Alto, eu entendi o nome. Era um grande castelo, no alto de uma montanha, tão alta, que a vista do meu quarto eram as nuvens. Todos me trataram bem, conheci os outros alunos e, certo, havia alguns que eram esnobes e implicantes, como em toda escola, mas nunca houve um grande problema. Fiz amigos, os professores eram atenciosos e aprendi coisas que nunca imaginei que existissem.
Sempre era reforçado que nosso papel, como possível Illustratus, era fazer o bem. Deveríamos nos doar a nossa causa e abdicar de tudo, nossa vida agora era garantir que o bem prevaleça e impedir os demônios de tomarem conta da Terra novamente.
Quando completei um ano no Castelo Alto, eles tiveram certeza de que ali era o meu lugar. Eu passei pelo ritual do Anjo Guia, onde eu deveria encontrar o anjo que me guiaria pela minha jornada. Eu dominava magias básicas e como era proibido que nós usássemos armas, pois deveríamos representar apenas o bem, quando fui colocado em sono para atravessar a Floresta dos Sonhos, eu só podia contar comigo mesmo.
A Floresta dos Sonhos é um plano alternativo, onde nossa mente fica quando estamos inconscientes, quando mais para o fundo, mais densa e assustadora ela é, e era para ali que eu tinha que ir.
A cada passo eu sentia mais medo, meu coração voltava a acelerar e eu prendia a respiração. As árvores já não eram tão bonitas e a escuridão ia ficando cada vez maior. Eu podia ver sombras se arrastando ao meu redor, vozes sussurrando coisas que eu não conseguia entender, mas eu não podia parar. Deveria chegar até o lago e encontrar meu Anjo Guia.
Esse caminho era para mostrar para os Anjos que eu estava disposto a tudo e que merecia sua benção e mentoria na minha jornada. Eu faria valer a pena a confiança que eles estavam depositando em mim. Mesmo tendo apenas treze anos e estando aterrorizado, eu sabia que tinha que seguir em frente.
"Só mais um pouco"
Uma voz sussurrou, a única que eu consegui entender. Me assustou, mas me agarrei ao fato de que alguém estava tentando me ajudar. Eu segui em linha reta, ignorando a vontade avassaladora de olhar em volta ou de explorar o lugar.
Já quase não havia iluminação, eu me guiava pela parca luz que eu mesmo projetava, usando um pouco da minha magia. Sentia coisas se arrastando pelos meus pés, esbarrando pelos meus braços e pernas, galhos me arranhavam, mesmo eu sabendo que eles não estavam ali antes. Os sussurros assustadores continuavam, uivos gelavam meu coração, eu ouvia passos e, por muitas vezes, ouvi passos atrás de mim.
"Não olhe, apenas siga em frente"
— Sim — eu murmurei para mim mesmo. Eu não sabia se eu estava obedecendo cegamente ou se era só o meu medo que me impedia de olhar.
O fato é que eu segui o caminho, por mais tortuoso que fosse. Caí algumas vezes, ralei meus joelhos e mãos. Machuquei meu rosto, mas apenas me levantava e seguia em frente. O frio estava cada vez pior, o sentia nos meus ossos, meus dentes batiam e eu queria muito chorar.
Não tinha mais o que fazer, eu poderia tentar voltar para o ponto de onde parti, tentando buscar conforto e segurança. Mas aquilo seria desistir e eu não queria isso. Queria ser digno e ajudar a todos, assim como meus mestres ajudavam.
E, também, tinha alguma coisa atrás de mim e eu não sei se queria ou conseguiria encarar o que quer que fosse.
Ao longe, por entre as árvores, eu vi um pequeno brilho ondulante. Era o lago, eu sabia que era. Eu estava próximo, apenas alguns minutos de caminhada, eu iria conseguir, eu iria passar no teste, vencer o ritual, encontrar meu Anjo Guia e seguir na minha jornada.
As lágrimas de alívio que escorreram pelo meu rosto, foram trocadas imediatamente, pelas de medo. Ouvi rosnados muito altos, gritos e passos pesados se aproximando. Meu corpo congelou e por mais que minha mente gritasse "Corra", eu não conseguia me mover.
As folhas ao redor se mexeram e eu cheguei a sentir uma lufada de ar quente nas minhas costas. Algo roçou no meu braço e eu apertei meus olhos com força. Porém, as folhas do meu lado direito se mexeram e senti uma brisa me tocando, um certo alívio veio junto. O quer que estivesse atrás de mim, humano ou não, soltou um ofegar surpreso. Algo estava do meu lado e essa imagem assustou a figura atrás de mim.
— Corra até o lago e não olhe para trás — a figura do meu lado falou em voz baixa, era a mesma voz que tinha me avisado que faltava pouco — Agora!
Meu corpo saiu do transe e eu corri desesperadamente, sabendo que a minha vida dependia daquilo. Se eu morresse na Floresta dos Sonhos, eu morreria no plano real também. Gritos de dor e uma briga vinham de trás de mim, mas eu fiz o que a figura misteriosa pediu, não olhei.
Cheguei no lago ofegante, corri até sua margem, caindo de joelhos na terra e pedras, minhas mãos tocando a água. A lua não estava visível, mas havia estrelas brilhantes no céu que iluminavam o local, fora que a água parecia ter luz própria. Respirei fundo, sentindo o alívio, eu estava vivo e tudo ficaria bem.
— Parabéns — a mesma voz de antes soou do meu lado e desviei meus olhos das estrelas para ele.
Ele era mais velho do que eu, mas não parecia ter mais de vinte anos. Seus olhos azuis eram da mesma cor da água e pareciam brilhar tanto quanto ela. Seu rosto era desenhado como de um anjo e seu nariz parecia um botão, ele sorria para mim, e foi o sorriso mais lindo que já vi.
— Obrigado — sussurrei.
— Muitos não conseguem atravessar a Floresta, alguns desistem e outros se perdem para sempre. Não seja modesto, você foi incrível — ele realmente parecia feliz pela minha vitória. — Qual o seu nome?
— Harry — respirei fundo, minha respiração ainda voltava ao normal — e o seu?
— Essa é difícil, já tive tantos nomes, alguns em línguas mortas e outros que nem sei se valeriam a pena repetir, — ele falou brincando — mas eu gosto de Louis.
— Louis é um nome muito bonito — eu concordei.
— Engraçado, sabia que Louis significa "Guerreiro glorioso" e Harry significa "Príncipe do lar"? Também podemos substituir por Comandante ou Governante.
— Por que isso seria engraçado? — sorri para ele.
— Porque eu vou lutar por você Harry, vou estar do seu lado, mesmo nas vezes que você ache que não. E, um dia, você será aquele que comandará.
— Não, meu objetivo é ser um Illustratus, por isso que vim até aqui.
— Nem todos o que vem até aqui tem motivos tão nobres ou querem seguir pelo mesmo caminho que você. Alguns homens, atravessam essa jornada para terem Anjos Guias que os ajudem a governar seus reinos. Eu posso te guiar por qualquer caminho que você escolha, quer mesmo abdicar de tudo?
— Não sei se isso é um teste, mas eu ainda prefiro seguir o caminho que escolhi — eu disse confiante.
— Vamos definir uma coisa aqui já, eu não minto para você, ok? — ele me perguntou — Serei seu Anjo Guia, se você me aceitar, estarei com você o tempo todo, vou te ajudar quando puder e te dar bronca quando precisar. Nossa relação será totalmente honesta, tudo bem?
— Sim — concordei na mesma hora.
— Então vou te perguntar de novo, quer abdicar de tudo o que você pode ser e conquistar, para ser um Illustratus?
— Sim, eu quero — respondi sincero.
— Eu gosto de você — ele sorriu para mim. — Venha, vamos fazer o ritual.
Ele se levantou, era mais alto do que eu e abriu suas asas, que saíam das suas costas e brilhavam brancas e douradas. Aquela imagem era a mais linda que já vi, tanto que demorei alguns segundos apenas o admirando. Louis riu baixinho e me estendeu a mão.
Fiquei na sua frente, ele segurou o meu antebraço esquerdo com a sua mão esquerda e eu fiz o mesmo. Então sua mão direita ficou na minha nuca, coisa que eu o imitei.
— Harry, você me aceita como seu Anjo Guia? — ele perguntou olhando em meus olhos.
— Eu aceito, você me aceita como seu protegido? — devolvi a pergunta, porque eu já tinha estudado aquele ritual e sabia como funcionava.
— Eu aceito — ele respondeu.
Linhas douradas surgiram na nossa pele, eram desenhos intricados, como pequenos fios de ouro, que envolviam nossos braços, nos amarrando um ao outro.
— Esse lago é feito de magia pura, um juramento aqui nunca é quebrado. Eu te juro que te protegerei e te guiarei pelo caminho pelo qual está destinado.
— Eu te juro que eu...
— Não jure nada — ele me interrompeu.
— Por quê? — perguntei confuso, não era assim que o ritual era para ser feito.
— Porque você é novo demais para fazer um juramento inquebrável. Espere crescer o suficiente para entender tudo o que realmente acontece à sua volta e descobrir tudo o que você pode fazer. Quando souber a verdade e você decidir o que quer ser, voltaremos aqui e você me jura o que for melhor, tudo bem? — ele me perguntou com ternura.
— Sim — respondi um pouco confuso, mas decidi confiar nele.
— Esse será nosso segredo.
Ele disse antes de beijar minha testa e selar nosso compromisso para sempre.
— Harry! — Louis gritou, me chamando de volta das minhas lembranças — Dormiu de novo? Seu dorminhoco.
— Não, eu só estava lembrando de coisas — abracei meu travesseiro e sorri olhando para ele, continuava tão bonito quanto no dia que eu o conheci há seis anos. Talvez até mais. — Quando voltaremos ao lago?
— Nós já fomos algumas vezes — ele respondeu, chegando perto de mim e passando a mão no meu cabelo.
— Você sabe do que eu estou falando — fiz careta e ele deu aquele sorriso de canto.
— Eu sei, mas ainda não é o momento.
— Quando será? — insisti.
Louis era o melhor Anjo Guia que eu poderia ter. Ele me ajudou e me confortou todas as vezes que precisei, cuidou de mim de um jeito que ninguém nunca fez ou faria. Não tem como eu pôr em palavras o que ele era para mim, talvez o mais perto, é meu tudo.
Eu o admiro e o amo, em todos os sentidos da palavra, mesmo sabendo que meus sentimentos não deveriam existir, já que ele é um anjo e eu estou estudando para ser Illustratu, o que significa abdicar de tudo, inclusive do amor.
— Logo, eu prometo — ele se abaixou e beijou minha testa. Fechei os olhos e senti o contato dos seus lábios contra minha pele, era o contato mais íntimo que poderíamos ter, por isso eu valorizava cada vez que acontecesse.
Suspirei quando ele se afastou, tomando seu lugar de sempre em cima da minha mesa de estudos, ele adorava ficar sentado ali em cima, apenas observando o resto.
— Você parece mais uma coruja do que um anjo — eu zombei e ele riu, mostrando o dedo do meio para mim — isso não é muito angelical.
— Não sou como os outros — ele respondeu jogando o cabelo para trás exageradamente.
— Chance disse que o Anjo dele é mal-humorado e cheira a lenha — eu disse me levantando. Foi um suplício sair da minha cama quentinha — também disse que não é muito bonito.
— Sua sorte é que os outros Protegidos não podem me ver, ou todos correriam me fazendo ofertas para te trocar por eles. E você é tão chato às vezes, que eu talvez trocasse.
— Babaca — eu ri, jogando o travesseiro nele, que se desmaterializou na hora.
— Tão lerdo — ele sussurrou no meu ouvido — até mais tarde.
Então ele sumiu de novo.
A única pessoa que pode ver, ouvir ou tocar um Anjo Guia é o seu Protegido. Nem mesmo os Illustratus podem ver o Anjo Guia de alguém, é uma ligação única. Então quando os outros e eu descrevíamos nossos anjos, nunca tínhamos a certeza de que a pessoa estava falando a verdade. Por exemplo, todos sempre acham que eu estou exagerando quando falo da beleza do Louis. Já Elias, um dos meus colegas, jurava que o Anjo Guia dele é uma mistura de Chow Chow com Poodle e uma senhora fumante de cem anos.
Suspirei e fui me arrumar, logo viriam me chamar e eu precisava estar pronto, afinal, aquele dia era muito importante. Tomei banho e fiquei um bom tempo embaixo da água. Eu estudei, treinei e pratiquei sem parar por sete anos. Virei noites acordado aprendendo línguas antigas, algumas não existindo mais a séculos. Sei toda a história da Guerra Demoníaca e consigo descrever perfeitamente a figura do Anjo Obscuro, a mais cruel criatura que já existiu.
Aprendi a controlar minha magia a ponto de poder conjurar matéria a partir da energia. Posso recitar os mais antigos feitiços, distinguir perigosos venenos e controlar ambientes. Viajei com Illustratus e participei de pequenas missões, até mesmo de exorcismos, mas naquele dia era quando eu ia provar o meu valor.
Nem todos que são escolhidos pelos Illustratus conseguem chegar ao final do treinamento, muitos se perdem pelo caminho, desistem e até mesmo morrem. Mas aquele dia, é quando chega a data da competição para escolher o Protegido que irá até Domus Ignis o selar pelos próximos cem anos. Cada rei pode indicar um Protegido que tenha vindo do seu reino, e eu fui escolhido pelo meu.
Em minutos viriam me chamar, e eu entraria em uma competição na qual poderia morrer, mas se fosse vitorioso, conseguiria o que tanto busquei por todos esses anos. Eu seria um Illustratus, mas desistiria de tudo, incluindo de Louis.
— Você demorou, como sempre — Louis estava deitado na minha cama, como se ela fosse dele.
— Hoje eu posso — respondi, pegando minhas roupas e me vestindo rapidamente — não é todo dia que você participa de uma competição mortal para ter o direito de arriscar sua vida selando o Rei dos Demônios no seu túmulo.
— Sim, como é mesmo o nome dele? — Louis se fez de esquecido e eu revirei os olhos, ele sempre fazia aquilo - Choronzon, o "morador do abismo" — ele riu — é um péssimo nome, até mesmo para um demônio.
— Louis — neguei rindo.
— Sério, é até um pouco patético. Como você vai ter medo de alguém chamado Choronzon? Se eu encontrasse com essa criatura e ele me fala: "Sou Choronzon", eu ia rir tanto que nem ia ter luta e ele ia conseguir me matar fácil. Bem, talvez seja por isso que ele ganhou tantas batalhas, não é que ele é forte, é que pegava todo mundo desprevenido enquanto riam dele.
— Ele não é só um demônio qualquer, é o Rei deles. E você não deveria zombar da criatura mais poderosa e cruel que já existiu.
— Vocês que zombam de nós, quando o chamam de "Anjo Obscuro" — ele deu de ombros — e o que ele vai fazer? Sair de um vulcão adormecido e vir até aqui?
— Você é um idiota — eu ri da sua imitação de Enguerrand, o Illustratu mais velho e líder de todos os outros. — E ele disse que o papel do Selador é exatamente evitar que isso aconteça.
— Tanto faz — ele zombou.
— Tem alguém que você respeita? — perguntei, me divertindo com ele.
— Você — ele respondeu sinceramente — por isso que eu gostaria que você perdesse.
— Você nunca quis que eu me tornasse o Selador — falei baixo, e ele chegou mais perto de mim.
— Ainda não quero. Você, assim como os outros, são jovens demais para essa responsabilidade. Enguerrand é o líder, ele que deveria selar o portal para Gehenna.
— Ele fez isso quando foi a vez dele, agora é a minha — respondi encarando os olhos azuis. — Espero que você esteja comigo durante a competição.
— Eu estarei — ele respondeu, tão próximo — eu sempre estarei com você, mesmo que torça para que outro vença.
— Louis — eu falei para o nada, porque ele já tinha ido embora de novo.
Bateram na minha porta, apenas suspirei e a abri. Um dos Regidos estava me esperando, com meu manto em suas mãos.
Regidos eram pessoas que se entregaram a magia proibida e foram consumidas por elas. Seu corpo estava conosco, mas a alma perdida. Eles serviam como empregados, cumprindo funções no automático, mas sem realmente ter alguém dentro daquele corpo. Eles usavam roupas pretas e máscaras de ferro, para que não víssemos seus rostos.
Abel, um dos meus professores preferidos, explicou que a máscara nos impedia de ver como seus rostos ficaram retorcidos pelo uso da magia proibida. Quando ele mostrou algumas fotos, alguns Protegidos vomitaram de tão horrível que era. Mas a máscara também nos protegia, porque já houve casos do Regido ser conhecido de um Protegido, que ficou louco com a visão, ou tentando salvar a pessoa, mesmo que não houvesse como salvá-la.
— Obrigado — eu disse pegando meu manto verde e azul, mesmo que o Regido não pudesse me responder.
Segui pelo corredor até a sala de jantar, uma refeição especial tinha sido feita para todos os Illustratus e os dez Protegidos escolhidos. Encontrei com meus colegas, nos cumprimentamos dos nossos lugares e esperamos. Os Illustratus usavam mantos vermelhos, mas não máscaras.
Desde que passei pelo ritual da Floresta dos Sonhos, me foi permitido ver seus rostos. Eles eram doze homens de diferentes idades e etnias, sem as máscaras, poderiam andar entre as pessoas comuns e os outros nunca saberiam que eles estavam diante de pessoas tão poderosas. Mas eles escondiam suas identidades exatamente para que os povos não soubessem quem eram, eles não podiam ter fama ou reconhecimento.
Existiam vários Protegidos treinando no Castelo, se preparando para o uso da magia, mas pouquíssimos chegariam ao posto mais alto. Muitos iam sendo colocados em alguma das funções, de acordo com suas habilidades, e só os melhores continuavam, até que os reinos escolhessem quem iria para a Competição.
Na hierarquia da magia, os Illustratus eram os mais altos, mas havia os Inspetores, Guerreiros e os Comandantes, cada um com sua função. Os Inspetores eram os que mudavam para alguma região e eram responsáveis por verificar se aquela região estava seguindo as regras e tudo estava sob controle. Os Guerreiros eram o que o nome sugere, eles lutavam em nome dos Illustratus, entrando em guerras que às vezes aconteciam com os outros continentes. Os únicos que empunhavam armas, e só lutavam quando era necessário.
Já os Comandantes, eram os que viajavam por todo o continente, lideravam os outros e recebiam ordens diretamente dos Illustratus. Louis sempre me dizia que eu deveria ser um Comandante, ele tentou me convencer várias vezes disso. Ele nunca quis que eu fosse um dos escolhidos.
Inspetores, Guerreiros e Comandantes podiam ter uma vida, casar-se, ter família, ter uma casa. Mas os Illustratus não, e eu estava próximo de me tornar um.
— Hoje é um dia muito especial para todos os reinos — Enguerrand disse, levantando sua taça — entre nós está o próximo Selador, a pessoa que garantirá a nossa sobrevivência por mais cem anos. Em nome de nossa irmandade digo a vocês, Protegidos, independente de quem ganhar a Competição, estamos todos orgulhosos. Vocês são nosso futuro. Honra e glória a todos.
— Honra e Glória — todos nós repetimos.
Enquanto eu comia, aquela sensação de medo foi se arrastando para mim, pouco a pouco, como uma nevoa tomando conta do ambiente. Olhei para os outros Protegidos e eles também pareciam assustados. Chance e Pete pareciam que vomitariam a qualquer minuto.
Me forcei a comer, parecia que tinha um bolo na minha garganta, mas eu tinha que me preparar. As conversas foram poucas, logo após isso fomos levados para nos preparar. Eram pequenas tendas que ficavam ao redor de uma imensa floresta, tão densa quanto um labirinto.
— Harry, é a sua chance, pode desistir — Louis pediu, ele esperava por mim na tenda.
— Obrigado, prefiro ficar sozinho por enquanto — eu disse ao Guerreiro que me acompanhou até a minha tenda.
— Tudo isso é ridículo e eu não estou com bom pressentimento — Louis falou mais alto, se sentando no encosto da cadeira e colocando os pés no assento.
— Certo, voltarei para te buscar em breve — o Guerreiro me respondeu. Uma das vantagens de ninguém mais poder ver Louis, a não ser eu, é que não viam como ele era mal-educado.
— Não finja que eu não estou aqui — o de olhos azuis reclamou.
— Não estou fingindo — suspirei, me sentando no tapete no chão. — Eu preciso me concentrar.
— Tem algo errado, eu não estou gostando disso — ele falou, seus olhos vagavam da fenda da tenda para mim — o ar está diferente, você não consegue sentir?
— Talvez você esteja tão ansioso quanto eu — tentei, sentindo minha respiração se alterar.
— Não é isso, tem algo errado — ele insistia e parecia transtornado. — Eu não gosto desse cheiro.
— Do que você está falando?
— É cheiro de enxofre — ele praticamente sussurrou, mesmo que ninguém mais pudesse ouvi-lo.
— Não estou sentindo nada.
— Está fraco, mas eu acho que vem da floresta, tem alguma coisa que não é boa andando por lá.
— Os obstáculos seriam cruéis, todos os professores falaram isso. Eles querem nos levar ao máximo para...
— Por que você não me escuta? — ele gritou, ficando de pé e andando pelo lugar — Vá embora, por favor!
— Eu não posso — tentei argumentar — eu consigo, vou ficar bem.
— Você confia em mim há tanto tempo, por que agora não?
— Eu confio em você, assim como confio que você estará ao meu lado e me ajudará.
— Mesmo que você ganhe, o que eu espero que você não consiga, como será quando te levarem para as ruínas de Domus Ignis? Anjos Guia não podem pisar lá, você sabe que é proibido para nós, não posso te deixar sozinho.
— Louis — parei na sua frente, colocando minhas mãos em seus ombros — vai ficar tudo bem, eu...
— Não prometa que tudo vai ficar bem se você não sabe se conseguirá cumprir — ele vociferou me encarando. Eu não era o mais baixo entre nós, mas ele ainda tinha o mesmo poder sobre mim, mesmo se passando seis anos.
— Então eu te juro que darei meu melhor e que não desistirei — falei com uma confiança muito maior do que eu sentia.
— Harry — ele rosnou e me abraçou com força.
Seus braços envolveram meu corpo, me prendendo a ele. Não perdi tempo e o agarrei como a tábua da minha salvação. O que fazia sentido, já que era assim que eu o via.
— Harry, — o Guerreiro me chamou do lado de fora — chegou a hora.
— Eu estarei lá, eu sempre estarei lá — Louis disse puxando minha cabeça e unindo nossas testas.
Então, em vez dele beijar minha testa como sempre fazia, ele raspou seus lábios nos meus. A eletricidade percorreu meu corpo, eu senti uma necessidade que nunca tinha sentido. Se houvesse uma chance de ele existir na minha vida, se pudéssemos ficar juntos, eu teria desistido de tudo.
Mas não havia.
— Harry — me chamaram de novo.
— Eu estarei lá — Louis murmurou de novo e sumiu na minha frente.
— Eu estou indo — avisei o Guerreiro, arrumando meu manto e saindo para encarar meu destino.
Te vejo errando e isso não é pecado
Exceto quando faz outra pessoa sangrar
Te vejo sonhando e isso dá medo
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar ao menos mande notícias
Cê acha que eu sou louca
Mas tudo vai se encaixar
Betado por TG
Sigam a Equipe e eu nas nossas redes sociais (sério, sigam logo porque vocês não vão se arrepender...)
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