4 - A Lenda
"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
– Cecília Meireles
Os dias passaram arrastados depois que o desaparecimento do irmão Hasan se tornou oficial. Haviam boatos e conversas em segredo entre os grupos de monges e percebi, um pouco tarde, que Devin era responsável por muitos deles. Como ele e o monge desaparecido dividiam uma cela, era a ele que as pessoas recorriam sempre que se deixavam levar pela curiosidade. Não se engane, Christine, mesmo dentro de um templo a curiosidade e a superstição podem ser piores que uma faísca em um tambor de pólvora. E a fofoca é tão antiga quanto esse planeta.
Foi contando com essa distração que planejei minha fuga. Eu já não suportava mais as perguntas, as lendas, os boatos sobre a morte do monge. A túnica dele foi encontrada dois dias depois do incidente no riacho, em fiapos, manchada de sangue e outra substância que não souberam identificar. Bem, embora meu corpo seja quase humano, a magia sempre deixa um rastro. E naquele fatídico dia eu tinha usado muita magia para transportar a mim e Devin para meu quarto, limpos e sem nenhuma evidência do que havia acontecido na floresta.
Os dias estavam mais quentes que o usual naquela época, então muitos dos monges aproveitavam para cumprir suas atividades durante o dia e nas áreas externas. Com a descoberta das vestes do monge morto, no entanto, ninguém mais tinha autorização para sair sozinho. "Há um espírito novo na floresta" — diziam.
Aquele era o único assunto em qualquer momento de reunião e isso incluía, claro, os momentos de refeição em grupo. Uma grande parcela dos monges acreditava que realmente era um espírito novo querendo se alimentar da energia vital deles. Outros ainda achavam que o irmão Hasan estava vivo, ferido e perdido nu em algum ponto da floresta.
— É um tigre... — afirmou Devin, interrompendo as teorias ditas em meio a concordâncias pela mesa. Estava amarrando a túnica novamente, por conta do calor. A cada nova tentativa, mais aberto ficava o decote, revelando a pele bronzeada do corpo definido.
Para não responder, me limitei a encher minha caneca com água, sem olhar diretamente para ele. Os demais haviam esquecido a comida em seus pratos, admirando Devin, pendurados em cada gesto e palavra dele. Essa é uma de suas melhores habilidades, chamar para si a atenção de toda uma sala com muita facilidade.
— Como sabe que é um tigre? — ouvi um dos monges perguntar baixinho.
A pergunta trouxe a minha atenção para a conversa. Estávamos lá no dia, mas fomos encontrados no quarto, limpos. Até então, a única explicação de Devin foi que nossa tarefa havia sido cumprida e por isso estávamos do lado de dentro do templo. Eu acho essa versão difícil de acreditar, Christine, mas ninguém tinha como provar o contrário, estávamos de fato no quarto quando vieram nos procurar para saber do irmão Hasan. Fingi não ver o brilho malicioso no olhar de Devin antes de responder.
— Só um tigre seria capaz de fazer o que fez com as vestes do irmão Hasan. — argumentou.
— Mas um tigre deixaria pelo menos a carcaça, não deixaria? Não havia nada, apenas as vestes rasgadas...
— Não se o tigre tivesse levado o corpo para seu esconderijo. — respondeu. — Duvido muito que os deuses ou espíritos percam seu tempo conosco. Sempre respeitamos as tradições e -
— Então só pode ser um demônio. — me ouvi dizendo, apenas uma desculpa para estudar a reação de Devin.
— Como assim, um demônio? — ouvi alguém perguntar. Não ousei, no entanto, desviar o olhar do rosto de Devin. Suas mãos estavam paradas sobre as tiras da túnica, enquanto me encarava com um ar divertido.
— Ora, se não foi um tigre e nem um dos espíritos que alguns aqui dentro cultuam, só pode ser um demônio.
Eu não tinha nenhuma intenção de chamar a atenção da conversa para mim, mas quanto mais eu pensava sobre a situação, mais eu acreditava que usar meus poderes havia sido uma maldição para aqueles monges. E embora eu também tivesse, minha cara, dificuldade em evitar o "carisma" de Devin, meu medo começava a superar o desejo.
— Que tipo de demônio imagina que seja, Taehyung? — a voz de Devin era perigosamente macia, prendendo mais ainda a atenção de sua plateia. O silêncio era quase palpável e o ar chegou a ficar pesado ao nosso redor. Do mesmo jeito que está agora. Sabe o que é isso, Christine? O prenúncio do caos. Na época eu não sabia, mas hoje, consigo sentir, e até ver, com mais facilidade.
— Do tipo que não se importa com as consequências de nada. Do tipo que pode matar qualquer um de nós com um simples movimento das mãos... — respondi com calma.
Assim como agora me encara enojada, Christine, os outros monges olhavam para nós como se aquela fosse a primeira vez que nos viam. Claro que se eu dissesse algo mais, corria o risco de entregar minha própria natureza. Mas, de certa forma, eu queria muito testar até onde ia o autocontrole de Devin.
— Acha que a floresta tem demônios? Do tipo que controlam a natureza? Que matam? Que tipo de demônios... — fez uma pausa dramática que fez com que os pêlos mais finos do meu corpo se arrepiassem de medo. — Estou curioso, Taehyung...
Engoli em seco, sem saber o que dizer. A mensagem dele era clara, ia perguntar até eu revelar minha verdadeira natureza. Por sorte, os olhos dos demais estavam presos no magnetismo de Devin, porque senti meu cabelo ondulando com a energia tensa do caos que citei. Eu sei, não deveria ter provocado nada disso, mas de alguma forma aquilo me pareceu certo, então continuei, mesmo sentindo que perderia o controle a qualquer momento.
— Acho que temos demônios que não podemos imaginar ou mensurar. Talvez do tipo que usam o sangue de inocentes para se alimentarem.
Juro, Christine, que se não fosse a presença dos meus irmãos monges, Devin teria atravessado a distância entre nós num pulo, e feito comigo o que havia feito ao irmão Hasan. Mas ele se conteve. Por um milésimo de segundo vi um brilho avermelhado nos olhos dele, como se eu tivesse, enquanto o provocava, acertado em cheio a origem de sua natureza. Senti meu sangue borbulhar em resposta e isso mudou a atmosfera tão ou mais rapidamente do que o início daquela conversa.
Devin se jogou no banco e fingiu — a mim pareceu isso, na hora — que não se sentia bem. Os outros, claro, correram ajudá-lo, receosos de que o trauma... Desculpe, não deveria rir, mas é engraçado imaginar que tinham medo de terem traumatizado Devin com o assunto da morte de seu irmão de cela. Tolice sem tamanho, não é? Vou parar de rir, calma.
Como eu ia dizendo, tiveram medo de que o trauma o tivesse afetado demais.
— Acho melhor não criarmos suposições...— o irmão mais próximo de mim disse. — Mais um pouco e vocês vão dizer que devemos fazer oferendas para nos protegermos. — riu ansioso, mas ninguém riu com ele.
— Demônios e monstros são apenas lendas que os mestres criaram para nos manterem disciplinados. — outro completou. Todos pareceram concordar, mas não Devin. Ele ainda me olhava com curiosidade misturada a cautela.
— Tem razão... suposições desse tipo servem apenas para nos assustar. Ainda acho que foi um tigre... A floresta ao nosso redor pode ser traiçoeira, não a conhecemos totalmente, não é mesmo?
Ninguém reparou, mas Devin tinha um discreto ar de riso em seu rosto, usando isso para desviar mais ainda a atenção de sua plateia.
***
— Está disposto a se arriscar apenas para me entregar? — A voz de Devin não me surpreendeu, horas depois.
De certa forma eu esperava que ele viesse até mim assim que eu estivesse sozinho. Demorei em minhas tarefas coletivas enquanto me preparava mentalmente para aquele encontro. Como eu disse, o momento do caos estava bem perto e eu podia sentir, então precisava me preparar ao máximo. Quando finalmente fiquei sozinho, à luz crepuscular do fim de tarde, me encontrava no bosque perto dos budas sonolentos. Ali a minha força era estranhamente maior e, mesmo que não conseguisse controlar completamente as consequências de usar meus poderes, era onde teria maiores chances contra Devin, caso viesse precisar.
— Só quero que assuma seu erro.
— Erro? — bufou com deboche — Eu te salvei, não foi?
— Talvez fosse meu destino ser descoberto. — a verdade, Christine, é que eu estava cansado daquelas discussões feitas através de perguntas. Depois de tanto tempo vivendo entre os humanos, minha crença de que voltaria para minha terra estava quase nula. Acreditava que iria morrer naquele templo de um jeito ou de outro.
— Tudo o que eu quero é te proteger, Taehyung! — ele deu um passo em minha direção e eu me afastei outro, adiar o conflito, como bem sabe, é uma das minhas especialidades.
— Você não pode me proteger para sempre, Devin. — suspirei me virando de costas e encarando a grande estátua de Buda. Em toda a minha vida em Arcádia, nunca me preocupei com deuses além do necessário. Cumpria minhas necessidades e funções e adorava ser desejado pelos humanos quando o véu entre os dois mundos ficava menor. Mesmo assim, nunca fui além.
Naquele momento, naquele lugar, eu me vi pensando cada vez mais naquele homem gorducho sentado com a palma para a frente, os olhos fechados, meditando em sua grandeza de pedra.
— Acha que ele é real? — perguntei ainda sem me virar para Devin. Senti sua presença se aproximando, mas não me afastei. Apenas continuei encarando o Buda gigante, ignorando meu "protetor" e os sussurros dos budas sonolentos ao nosso redor.
— Tão real como você. — respondeu num sussurro.
Senti a mão fria dele se entrelaçando à minha suavemente de modo que desviei meu olhar do Buda e olhei para o gesto. Não tirei minha mão dali, no entanto. Do mesmo jeito que eu temia Devin, eu ainda o desejava. Naqueles dias, não entendia nem mesmo os meus poderes aqui nesse lugar, quanto mais os dele. Quando levantei os olhos e encontrei o amendoado dos olhos dele, o medo sumiu e ficou apenas o desejo. Era isso que ele transmitia sem dizer nada: que me desejava e então o beijei.
Ah, Christine, você também teria dificuldade de resistir àquele charme todo, mesmo com esse seu colar. Devin sempre consegue conquistar as pessoas. Lembre-se disso.
Em pouco tempo estávamos sem as túnicas, suando e respirando com dificuldade. Fiquei apoiado à perna gorducha daquela estátua enquanto Devin me fodia com certa violência, mas não me importei. Estava gostando tanto quanto ele porque me fazia sentir uma vivacidade que poucas vezes senti. Eu diria até que a última vez que senti aquele prazer, foi quando vi Devin devorando o irmão Hassan.
Não vou tentar maquiar minha vida para você, minha cara. Sabe muito bem que eu não sou um homem bom. É por isso que me encontro nesse estado e também por isso que você veio para me matar. Não fique horrorizada. Como já disse, desejo é desejo e eu desejei muito sentir o corpo firme de Devin se chocando contra o meu enquanto eu me apoiava naquela estátua.
Não tive — e não tenho — medo da blasfêmia que foi nosso ato ali, naquele lugar sagrado. O sexo também pode ser sagrado. Na verdade, eu diria que é mágico.
O vento mudou junto com nosso primeiro orgasmo. Ouvi um grito de mulher, mas continuei exatamente na mesma posição, tentando recuperar a respiração, extasiado demais para me preocupar com a vida de uma camponesa. Esse foi meu erro, porque aquele grito e aquela mulher, deu início à lenda que Devin e eu criamos para continuar alimentando o relacionamento que começamos ali.
Também era o começo do meu fim junto aos monges.
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