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1 - o início

"Das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda."

Provérbio chinês


Como posso descrever meu mundo? Foram tantos séculos longe dessa terra que às vezes tenho a impressão de que a criei na imaginação. Passei tanto tempo entre vocês, humanos, que muitas vezes me confundo entre o que conheci lá e o que conheci aqui. Mas vou tentar te dar um breve panorama desse lugar mágico. Sei que hoje está familiarizada com a magia, por conta do seu legado ancestral. Mas talvez o que eu vou te contar fuja do que conhece como mágico e te coloque num novo patamar místico.

A idade não é a mesma coisa aqui e lá, então vou dizer apenas que eu era muito, muito novo e imaturo quando toda a comoção aconteceu. Ainda assim, já era muito, muito mais velho do que o humano mais velho vivo hoje em dia.

Você se apaixonaria por Arcádia assim que pusesse seus pés lá, minha doce Christine. É um lugar que vocês chamariam de utópico porque tudo o que há de ruim aqui, nunca existiu lá, nem mesmo o Tempo. Envelhecer é uma coisa que acontece apenas para as árvores e ainda assim porque elas escolhem ser desse jeito. Lá, eu não precisaria fazer nada do que fiz para poder me manter vivo e jovem.

As cores, os cheiros, os sons, tudo é absolutamente diferente do que o que existe aqui nesse lugar. Durante todo o meu curto período de vida lá, não houve nada que me fizesse acreditar ou ter ciência da existência das sombras do mundo. Sabia que a minha dimensão estava entrelaçada à terrestre, porque vocês, mortais, dependem dessa magia e dessa energia para que as coisas fluam e o destino aconteça. Porém vivíamos numa harmonia onde nossa única função era manter o véu que separava os dois mundos em sincronia. Onde há luz, há sombra e onde há dúvida, há brecha para a desarmonia. E a sombra sempre vem.

Um dia ela foi a Arcádia. Não sei explicar exatamente como, porque começou muito sutilmente, se passando por um de nós. Sei que parece ilusório, mas os pecados que vocês têm aqui, não existiam lá até que isso começou. Um novo ser estava entre nós e apesar de parecer conosco a ponto de nunca ser descoberto, seguir nossas tradições, usar da mesma magia, era diferente de tudo o que conhecíamos. Diferente até dos humanos, que eu acreditava ser a espécie mais fascinante e com a maior capacidade para transformações significativas que existe entre os mundos.

Surgiu a ambição, a soberba, a inveja, o desejo, a ira e consequentemente o ódio. Os mais novos, como eu, foram os primeiros a sentirem essa energia. E como era bom sentir tudo o que eu senti, Christine. Foi bom sentir desejo, descobrir o prazer, a carne, o prazer em dar prazer. Mas tudo tem um preço e talvez esse tenha sido o meu, porque é a única explicação que encontro para ter sido jogado aqui. Eu já não queria conceder desejos, pegar presentes, cultivar o véu dos sonhos como antes. Queria participar deles, ganhar presentes mais dignos, maiores, melhores que os dos meus irmãos. Eu queria ser adorado.

E então fui cuspido para esse plano. Esse não é meu corpo, Christine. É confortável viver nele, confesso, mas em Arcádia não é assim que me pareço. Assumi esse rosto porque é muito bonito, harmonioso e semelhante ao que tive uma vez. Mas meu corpo é diferente do corpo que eu tinha lá. É difícil de explicar como, mas é. Graças a ele, eu pude me misturar aos humanos por muito tempo, mas, claro, o tempo aqui é diferente, então isso durou bem pouco, como pode ver.

Quando o portal fechou, fui lançado numa montanha no interior da Ásia, muito provavelmente na China, mas não sei definir com precisão. O país não era um mistério desconhecido para a minha raça, aquele portal tampouco. Quando era fácil ir e vir, fomos considerados celestiais responsáveis pela proteção do portão entre o mundo humano e o divino. Claro que não somos deuses, mas naquele tempo qualquer sinal de magia era considerado divindade ou, na pior das hipóteses, sinal do demônio. Na Europa fomos considerados deuses por muitos séculos, depois o cristianismo chegou e nos transformou em demônios. Mas os países ancestrais da Ásia sempre aceitaram melhor os mistérios do mundo, então fui "abençoado" por cair justo ali.

Foi um grupo de monges que me encontrou. Não sei como o portal me lançou para fora, sei apenas que não fui o único. Não encontrei outros, caso esteja se perguntando isso, mas podia sentir que não era o único nesse planeta mundano. Esse grupo de monges me acolheu como um deles e é onde vou começar a história sobre esse colar peculiar que herdou de sua avó.

A primeira coisa que vi quando abri meus olhos, foi que as cores eram menos intensas e eu era capaz de sentir dor. Meu corpo doía em partes que eu nem sabia que existiam ou fossem capazes de doer. Custei a adaptar minha vista a essa atmosfera densa que temos aqui. Ao mesmo tempo que eu via as cores mais fracas do que são, eu também via suas várias camadas cromáticas, como se os comprimentos de onda das cores atravessassem as minhas retinas de várias maneiras diferentes.

Perdão, estou ficando técnico demais, verdade. É preciso um físico para explicar isso, mas basicamente é como se eu visse tudo mudando de cor o tempo todo até me ajustar. Eu me surpreendi com isso porque nunca tive uma experiência similar, nem antes e tampouco depois. Talvez se não conseguir cumprir sua missão hoje e eu finalmente abrir o portal, isso volte a acontecer quando voltar para lá.

Quando meus olhos se acostumaram a claridade daquela manhã - porque cheguei à Terra numa manhã de primavera - pude ver a copa das árvores e algumas poucas nuvens no céu. Havia também a parte superior de um arco de pedra, tão antigo que havia várias camadas de musgo em algumas partes e plantas infiltradas em outras, com raios de sol passando através dele como que me indicando que foi por ali que vim. Logo um homem apareceu de ponta-cabeça no meu campo visual e disse alguma coisa que não entendi. Era uma língua que não me era familiar. Abri a boca para pedir ajuda, mas nada do que eu pensava era verbalizado, então eu perdi a consciência. .

Quando reabri os olhos, estava em um ambiente fechado. Foi o forte cheiro de incenso que me despertou e quando me levantei pude ver que havia sido recolhido a um templo religioso. Meu corpo era o de um humano e de alguma forma meu rosto assumiu um aspecto que agradava aos olhos. Pisquei várias vezes no mesmo lugar, ainda desorientado. Outro monge entrou no meu campo visual e a visão dele me deixou sem ar.

Era tão bonito e tão carismático que foi como se eu não tivesse deixado minha terra em momento algum. Os olhos dele me sorriram antes dos lábios e me vi preso naquele olhar por vários minutos.

— Você está bem? Consegue entender o que eu digo? — falou lentamente. Meus olhos naturalmente foram de seus olhos amendoados e gentis para os lábios dele.

Num primeiro momento, como já mencionei, não entendi muita coisa do que ele dizia. Os sons aqui são tão diferentes quantos as cores, mas minha natureza mística ajudou fazendo com que eu pelo menos entendesse que aquilo era um jeito de vocês se comunicarem. Devo ter arregalado os olhos diante da proximidade e da estranheza que ele me provocava, porque sorriu e afastou-se, sentando-se sobre os próprios pés e aguardando que eu me levantasse.

A muito custo pude me colocar sentado e observar meu corpo. Não havia cicatrizes ou marcas que indicassem de onde ou como eu tinha vindo. Estava vestido com as mesmas roupas simples do monge, uma túnica marrom, amarrada na cintura, calças de algodão cru e mais nada. Abri e fechei as mãos, observando-as com atenção. Nada aconteceu, naturalmente, mas eu esperava que algum tipo de luz indicasse a presença dos meus poderes.

— Sente alguma dor? — perguntou ele, abaixando a cabeça e me forçando a encará-lo. Diferente da primeira vez, eu o entendi claramente naquele momento, mas ainda não sabia se conseguiria me comunicar. — Você foi encontrado há cinco dias. Lembra-se de alguma coisa? — ele continuava usando aquele tom lento, quase como se eu fosse estúpido e isso me irritou um pouco, admito.

— Onde estou? — perguntei finalmente.

De alguma forma a minha mente assimilou muito rapidamente sua língua primitiva e eu falei como se a usasse desde sempre. Não me olhe assim, Christine, estou contando o que aconteceu de fato. Não posso deixar minhas impressões sobre seu mundo sem uma explicação. Era tudo novo para mim, tanto quanto a magia, hoje, é novidade para você. Sei que a sente no sangue desde o dia em que nasceu, faz parte de você, assim como faz parte de mim. Foi isso que me ajudou naquele tempo. De alguma forma meu corpo e a minha energia haviam se alterado para que minha fisiologia se aproximasse da de vocês, humanos. E isso inclui a linguagem, obviamente.

— Esse é o Templo da Alma. — respondeu o monge com simplicidade.

— Templo...?

— É... Da Alma. Como se sente? — perguntou abrindo bem os olhos e sorrindo empolgado. — Posso te mostrar o lugar, se estiver se sentindo melhor. — completou já se levantando.

Quando ele ficou de pé, pude ver o quão bonito e atlético ele era. Certamente era vaidoso, pois não desviou o olhar nem mesmo ao perceber que eu o encarava por conta da beleza. Sutileza nunca foi meu forte, demorei anos para esconder meus desejos atrás de uma expressão mais neutra. Ele riu baixinho e esticou a mão para me ajudar a levantar. Assim que o fiz, voltei a encarar meu próprio corpo. Não era tão atlético quanto o dele, sendo bem mais magro e uma cabeça mais alto do que ele, mas ainda assim é um belo corpo. Não senti a magia nele, entretanto, e isso me deixou assustado a ponto de sentir meus olhos arderem.

— Você está bem? — perguntou ele.

— Eu... Como vim parar aqui? — perguntei finalmente o encarando.

— O irmão Kai o encontrou próximo aos pés da montanha do Buda. Estava nu e não dizia coisa com coisa. — explicou. — De onde vem? Qual sua língua natal? — perguntou curioso.

Não soube responder porque até então não entendia muito bem o que havia acontecido comigo. Sabia apenas que aquele lugar, esse novo corpo, a falta dos meus poderes, eram assuntos urgentes e que eu precisava sair logo. Mas como pode imaginar, o Templo das Almas é num lugar extremamente difícil de alcançar.

Hoje ele já não existe no mapa, mas naquela época apenas os monges e alguns camponeses sabiam sua localização exata. Sua existência era conhecida, sim, mas apenas os peregrinos mais dedicados conseguiam alcançar a graça de encontrá-lo. E para aquele monge, minha jornada era um caso desses, de graça alcançada. Ficou me encarando enquanto esperava pela minha resposta, mas eu não sabia como responder.

— De onde eu venho não importa, para onde vou sim. — respondi enigmaticamente.

Ele ficou um tempo me encarando em silêncio, a boca entreaberta e os olhos levemente em choque. Talvez estivesse avaliando se minha resposta era sábia ou apenas distrativa. Não vou saber dizer, vai ter que definir sozinha, sei apenas que ficamos assim, nos encarando alguns minutos antes dele enfim se dar por satisfeito e endireitar a postura. Mostrou-me o templo com calma, explicando o que cada sala, cada estátua, cada símbolo significava.

Paramos ao fim do dia sob uma estátua enorme de um homem careca e gorducho, exibindo uma mão espalmada para a frente e as pernas dobradas sob seu corpo pesado, sentado em posição de lótus. Pela primeira vez na minha existência eu me senti minúsculo. Havia algo de sobrenatural naquela estátua, mas eu não consegui definir de imediato. Era a mesma sensação de quando recobrei consciência na floresta, logo depois de ser cuspido de Arcádia. Como se estivesse sendo observado, analisado e julgado.

Senti meu corpo enfraquecer e fui prontamente amparado pelo monge. Com facilidade ele me carregou nas costas até chegarmos à cela onde eu ficaria dali em diante. Assim como ele, os outros monges acreditavam que eu havia chegado para ficar. E por isso ganhei túnicas, incenso, uma cumbuca de bronze onde deveria colocar água, um prato manchado e itens básicos de higiene.

Fui acolhido como um irmão e eles passaram a me chamar de Taehyung. Meu nome significa "todos os desejos se realizam" e achei bem auspicioso. O monge, descobri ainda naquele dia, atendia pelo nome de Devin e sua origem era tão desconhecida quanto a minha, porque apesar dele falar a língua daquela região sem sotaque algum, ele não se parecia em nada com os camponeses que viviam próximo ao templo.

Nunca fui questionado, depois disso, sobre minha origem e acredito que Devin também não. Por sermos ambos estrangeiros, acabamos nos aproximando, tanto espiritual quanto fisicamente.

Os dias viraram semanas, e então viraram anos. Aos poucos fui me acostumando com minha nova vida e rotina, mas sofri na adaptação. Havia a língua, a cultura, os costumes, as restrições. Era uma vida muito dura, até mesmo para eles que estavam acostumados. Veja bem, não posso me considerar humano porque vivo mais tempo do que vocês, consigo controlar elementos da natureza com mais facilidade e até manipulá-la caso queira. Mas isso requer energia demais e em pouco tempo eu me encontrei esgotado. A fé dos meus irmãos monges e a crença em um Nirvana me deu forças e me ajudou a me recuperar. Também não posso ser considerado um changeling – uma fada, no seu linguajar vulgar – porque apesar de viver mais, não sou imortal e controlar meus poderes requer magia avançada que despende muita energia.

Vamos fazer um salto no tempo, porque provavelmente esses detalhes técnicos estão te entediando e sabemos que nosso tempo é curto. Sinto a magia do seu "amigo" se aproximando e isso significa que ele já nos localizou.

O tempo começou a fazer efeito em meu corpo depois de uma década no templo. Eu passava a maior parte do meu dia meditando ou caminhando pela floresta e pela montanha ao redor do lugar. Ainda sentia a magia do mesmo jeito que no primeiro dia, mas não me atrevi a visitar a estátua do Buda até que me senti atraído por ela.

Era como se aquele homem de pedra, gordo e careca me chamasse pelo nome, mas não o nome que me deram. Meu nome real. Meu nome feérico.

Atrás da estátua dele há um monte que é onde ela fica escorada. Provavelmente foi esculpida direto na pedra, não sei dizer. O fato é que fui até a estátua e apesar dele sorrir e manter os olhos fechados, senti meu corpo sendo alterado por aquela presença. A floresta respondia e foi como se as árvores se movessem numa dança esquisita por conta do vento.

Resolvi escalar esse monte e do outro lado, havia estátuas menores espalhadas pelo chão até o pé dele. Eram cabeças de pedra, algumas sorrindo, outras orando, outras dormindo. Eram muitas e todas grandes o suficiente para um homem adulto sentar-se sobre elas para meditar. Daquele lado da floresta a sombra provocada pelas copas das árvores era mais densa e eu levei um tempo até meus olhos se adaptarem. Senti de novo aquela energia me observando, me chamando pelo nome.

Devo ter saído da trilha usada pelos monges nesse momento. Sei que um par dessas estátuas sorridentes me atraiu mais do que as outras. Senti o vento mudando seu curso algumas vezes enquanto eu andava naquela direção. E de alguma forma a luz foi diminuindo cada vez mais conforme eu me aproximava. Uma das estátuas dormia apoiada na outra, que estava de olhos fechados mas exibia um sorriso de quem escondia um segredo.

Ouvi meu nome ser sussurrado por elas, mas suas bocas não se moviam, apenas meus pés e meu desejo inesperado de tocá-las. Minha língua materna era pronunciada vindo de tudo ao meu redor, as estátuas repetiam meu nome, as árvores cantavam e o vento sussurrava feitiços em forma de música. Lembro de ter chegado a cantarolar baixinho um desses feitiços quando finalmente alcancei as estátuas.

Então tudo ficou silencioso e pesado e eu finalmente toquei a testa da estátua que dormia. Ela abriu os olhos e no mesmo instante eu vi você, vi os olhos de Evangeline, vi Naná e vi Devin. Ele me encarava do outro lado da estátua. Mas na hora não entendi, porque nesse mesmo instante senti meu corpo ser sugado tão intensamente que perdi a consciência de novo, dessa vez beirando a morte. 

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