Boy Meets Evil
Ao contrário da primeira vez que Hoseok dançou sua música, quando ela conseguiu apenas assistir embasbacada aquele homem se transformar completamente, dessa vez Tati prestou atenção em todos os movimentos que ele fazia. E cada vez que ele fluía de um passo ao outro durante a música, ela era transportada para uma nova cena no videoclipe mental que começou a se formar instintivamente. Realmente não ia precisar de dançarinos auxiliares e quanto mais ele dançava, mais certeza ela tinha. Entendeu, finalmente, o motivo de todos os videoclipes serem gravados com ele sozinho. Não precisava de mais nada. J-Hope era o conceito.
Começou a tomar notas aleatórias, transformando sua prancheta num rascunho que só ela seria capaz de entender. Desenhou uma estrada e como destino final a cidade toda iluminada. O fato dele ter dançado Boy Meets Evil primeiro, deu-lhe a ideia de colocar alguma referência aos trabalhos anteriores. Rabiscou apenas as iniciais do single, ainda com os olhos pregados nele. Ao seu redor, sabia que Agustín começava a tomar as providências necessárias para dispensar todos os dançarinos e figurantes que tinham planejado colocar no MV, mas realmente não viu como ele fez isso. Tampouco se importou.
Quando a música acabou pela segunda vez e J-Hope parou de dançar, ela estava em outro planeta, ainda presa nas próprias ideias. Ficou encarando ele dali, sentada ainda, a caneta pendendo nos dedos enquanto o imaginava em diversos cenários. Deixou os olhos percorrerem o corpo todo do cantor, avaliando que tipo de figurino ficaria melhor no que havia imaginado.
"Nos pés, tênis confortáveis. A cor não importa. Deixa isso para a figurinista. Calças cargo ficariam boas, mas o bom mesmo seria se ele usasse algo que mostrasse bem as pernas. Algo justo e feito sob medida. Olha essa definição! Nem se eu malhar a vida inteira minhas coxas ficam assim. Aposto que ele aguenta bastante peso e por bastante tempo e... FOCO TATI! Hmmm, talvez roupas sociais também fiquem boas para o clipe. Mudanças de figurino? Nossa, esse homem bem vestido deve ser outra coisa incrível também... Será que é errado querer vê-lo tirando a roupa bem devagar...?" - fazia rabiscos sem desviar os olhos dele, até que finalmente chegou ao rosto e percebeu que ele a encarava de volta.
Ficaram assim, parados, se encarando por um longo tempo enquanto o mundo ao redor continuava seu curso. Hoseok não sabia o que pensar sobre ela mais. Cada vez que prestava atenção, Tatiana se mostrava uma nova pessoa. No começo, se encantou pela expressividade dela, depois, se decepcionou com as grosserias dela com o assistente - até entender, finalmente, que era como funcionava esse relacionamento dos dois. Voltou a se encantar ao ver a gentileza dela para com os funcionários em cargos menores no estúdio. E agora ela o encarava como se fosse devorá-lo, deixando-o mais confuso do que nunca. Mas, estranhamente, não conseguia desviar o olhar.
Voltaram para o mundo real com Agustín começando a se alterar com o grupo de dançarinos. Aparentemente alguém não tinha aceitado ser dispensado assim, de última hora.
— Não, você não pode falar com ela! Com quem pensa que está falando? — ouviu o assistente esbravejar, indignado. — Senhor, eu falei que não!
Mas era tarde demais, um dos dançarinos se desvencilhou dos bloqueios de Agustín e foi em direção à Tatiana. Por puro instinto, Jaesub parou a frente dela e de Hoseok, para protegê-los. Bastava uma palavra do cantor, para que ele colocasse o dançarino para fora a força por pura precaução.
— Como assim não vai mais precisar de ninguém no clipe? — o dançarino perguntou diretamente à diretora, como se a conhecesse. Tati se levantou de onde estava e arrumou os óculos redondos antes de definir se ia ou não levar aquilo como uma ofensa e não como uma simples conversa. Apertou os olhos e soltou o ar pela boca com força.
— O que está fazendo aqui?
— Finalmente! Achei que não ia me reconhecer nunca!
Tati colocou a mão gentilmente no ombro do empresário coreano e o afastou para o lado, tranquilizando-o com a cabeça. Sabia que ele não entenderia o inglês, mas os gestos falavam por si só.
— Vou repetir a pergunta: o que está fazendo aqui? — falava baixo e devagar, forçando a sala inteira a ficar em silêncio. Agustín prendeu a respiração, antecipando a tempestade que começava a se formar.
— Sinto muito, Tati, eu não consegui segurá-lo e...
— Tudo bem, Agustín, eu resolvo isso. — falou. Ao invés disso tranquilizá-lo, no entanto, o fato dela usar seu nome correta e educadamente fez com que ficasse em pânico.
— Por favor, Tatiana, não...
— Ta tudo bem, querido. — bateu a mão de leve no ombro dele e fez sinal de que deveria ficar quieto, ou as coisas ficariam piores. Ele se encolheu um pouco, mas continuou ali.
A diretora desviou o olhar de seu assistente e encarou o garoto. Como é mesmo o nome dele? Mike? Mark? Marshal? Ela já tinha dificuldade em gravar os nomes dos aspirantes a celebridade que passavam por sua vida todo dia, imagine com um nome genérico combinando com o rosto e o corpo, saído diretamente da fábrica de padrões que era Hollywood. Depois de ter visto J-Hope dançando, não conseguia mais olhar para o garoto e achá-lo atraente. Na verdade, começou a se arrepender de ter passado a noite anterior com ele.
— E então? — cruzou os braços e meneou a cabeça, numa falsa curiosidade.
— Quando disse que era um videoclipe, achei que tinha descoberto que eu fazia parte dos selecionados. — o garoto começou a se explicar, ignorando o perigo iminente e dando um passo na direção dela. — Era para ser uma surpresa, mas depois esse tampinha me disse que não vai mais precisar de dançarinos auxiliares... — Tatiana levantou a mão e o gesto o calou.
— Eu pensei que você fosse ator. — não era uma pergunta.
— Sim, eu sou, mas...
— Então, como você conseguiu passar na seleção? — dessa vez ela olhou para Agustín, como se a culpa dessa "surpresa" mal feita fosse dele. Ela voltou a encarar o rapaz, ainda com uma expressão que só o assistente reconheceu como perigosa.
— Bem, estamos em Hollywood, Tati.
— Diretora Hamilton. — corrigiu.
— Sim. — continuou ele, sem jeito. — Estamos em Hollywood e esse lugar é minúsculo. Meu agente deu um jeito de me colocar no elenco. Eu já fiz alguns bicos como dançarino e....
— Por um acaso... — a voz dela ficou um tom mais baixo. Agustín deu um passo para trás e levou J-Hope e Jaesub com ele. — Por um acaso usou meu nome?
A tensão começou a ficar palpável e Mike percebeu, finalmente, que não tinha sido uma boa ideia falar sobre a surpresa. Muito menos sobre seu agente e seu "jeitinho".
— Quem é seu agente? — perguntou. Agustín tentou fazer sinal para ele não dizer, mas o garoto não parecia entender que estava prestes a perder a carreira inteira. O viu tirar um cartãozinho do agente e entregá-lo à diretora, como se fosse ter algum outro papel no clipe. Ela leu o cartão com atenção e o guardou junto com seu celular. — Ótimo. Fico muito feliz que tenha me poupado do trabalho de te procurar, Mark.
— Mike. — corrigiu.
— Ou isso. — agitou a mão como quem não se importava. Realmente não se importava. — Não vamos ter dançarinos, mas vou conseguir algo para você.
O sorriso que ele abriu foi tão genuíno que Agustín ficou com vontade de tocar a marcha fúnebre. J-Hope e Jaesub assistiam a cena confusos, sem entender nada do que nenhum deles dizia. O cantor, no entanto, reparou que Tatiana havia mudado mais uma vez, assumindo uma postura de chefe que ele não tinha visto usar nem mesmo com seu assistente. Ela exalava poder e autoridade e, pelo que percebeu, o rapaz com quem ela conversava não havia percebido que estava intensificando a situação apenas por existir.
— Obrigado, Tati! Não vai se arrepender. — agradeceu fazendo menção de abraçá-la. Tatiana deu um passo para trás.
— Eu vou precisar resolver mais alguns detalhes da agenda de hoje, mas te encontro na minha sala, pode ser?
— Claro!
— Afonso! — Tati chamou, voltando a errar o nome do assistente de propósito enquanto andava de volta a sua mesa. — Se eu ver o rosto desse garoto hoje, é seu emprego que vai tapar o buraco, entendeu?
— Tatiana, eu não sabia de nada, eu...
— Não quero ver o rosto desse rapaz nunca mais. Você me entendeu? E se ele chegar perto da nossa estrela, eu juro que eu aprendo a fazer kimchi e uso vocês dois como tempero. — a ameaça dela era séria o suficiente para seu assistente engolir seco e sair em direção a Mike. Infelizmente, ele já tentava engatar uma conversa com os coreanos, deixando o assistente mais desesperado ainda. Sem nenhum tipo de pudor, ele empurrou o dançarino em direção à porta, afastando-o de todo mundo.
— Vem, garoto! Já fez coisa demais. — pediu.
Assim que eles saíram, Tati voltou para os coreanos e tentou seu melhor sorriso. Não lhe chegava aos olhos, mas nenhum dos dois deu sinal de que tinha percebido. Sacou o celular e ligou o tradutor simultâneo.
— Sinto muito que tenham que presenciar esse tipo de coisa.
"Desculpem por isso.", repetiu o tradutor.
— Tudo bem. O que realmente aconteceu? Vocês pareciam muito próximos. — falou J-Hope usando o celular dela como tradutor. O toque suave dos dedos dele em seu pulso fizeram com que Tatiana demorasse um pouco mais para apertar o botão do tradutor, obrigando-o a fazê-lo por ela.
"Você e ele pareciam muito amigos. Não tem problema.", repetiu o tradutor. O tom daquela resposta fez Tatiana ruborizar pela primeira vez.
— Não! Não é isso! Não temos nada. Ele nem faz parte da equipe. — se justificou.
Os dois pareceram entender aquilo sem que ela precisasse usar o tradutor. Odiou-se por parecer tão amadora diante deles.
— Enfim! — precisava correr contra o tempo e recuperar sua autoridade. O rosto ainda vermelho. — Vocês devem estar cansados! Vou levá-los diretamente ao hotel e depois, à noite, nos reunimos para que eu mostre o que planejei vendo-o dançar.
"Vamos ao hotel e vou mostrar o tipo de dança que eu faço.", falou o tradutor.
Foi a vez de Hoseok e Jaesub ficarem vermelhos. O empresário olhou para o cantor, horrorizado com a atitude daquela moça, mas Hobi apenas deu risada e fingiu que não tinha entendido a mesma coisa que o amigo. Cada vez que usavam o tradutor ele tinha mais certeza que nunca saberia a verdadeira face de Tatiana Hamilton. E isso o deixava mais curioso do que nunca.
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NOTA DA AUTORA: depois de um loooongo hiato, eis que vamos voltar (devagar) com essa história. Por ser aniversário do nosso solzinho, decidi postar um capítulo no meio da semana, mas nossas atualizações vão continuar acontecendo nas sextas (se tudo der certo), simultânea a Scenery. Espero que tenham gostado.
J-Hope, meu coração se alegra sempre que lembro que vivemos na mesma época. Obrigada por ser essa pessoa tão brilhante que a luz atravessa o mundo para me alcançar.
Feliz aniversário. Te amo.
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