Airplane
Sentou-se na cama num único movimento, desperta de repente. Seu coração batia acelerado no peito, como se tivesse passado o sonho todo correndo ao invés de planejando seu próximo trabalho. Colocou as mãos sobre os olhos, forçando a própria mente a se lembrar dos detalhes daquele sonho. Fazia anos que não era tão realista e perfeito assim, mas não conseguia se lembrar dos detalhes.
Havia uma área ampla, como um estacionamento para veículos de grande porte. Uma música chiclete que ela não se lembrava de ter ouvido. E um homem dançando. Pelo menos essa parte ela se lembrava, porque tinha passado o dia pesquisando sobre ele. Um ronco mais alto a trouxe de volta para o plano real e ela viu-se obrigada a tirar as mãos dos olhos.
Bastou um olhar para o lado para entender por que seu cérebro a acordara de repente. Como resposta, ele roncou de novo, virando-se na cama até que o rosto fosse visível. Era um rapaz bonito, mas independente da força que fizesse, lembrava-se mais do sonho vago que acabara de ter do que do nome dele. Muito menos de como as coisas tinham ido tão rápido a ponto dela levá-lo para casa, para a própria cama. Tinha que se policiar. Nem todo mundo tinha a mente aberta no meio. Principalmente em relação a uma mulher jovem e com a carreira estável como a dela. Tocou o garoto devagar, no ombro, e ele logo parou de roncar, mas continuou dormindo.
— Chega a ser fofo. — sussurrou com um meio sorriso. O toque gentil virou um tapa mais bruto e ele acordou de seu sono fingido imediatamente. — Você precisa ir. — anunciou.
— Hã?
— É, lindo. Já deu sua hora. Precisa ir embora.
— Não posso ficar mais um pouco? — perguntou se aproximando sugestivamente das pernas dela.
Tatiana revirou os olhos com tamanha previsibilidade. Os homens heteros precisam variar mais no modo de sedução. Colocou a palma da mão no rosto dele e o empurrou para longe de si.
— Eu falei sério. — comentou. Para enfatizar, puxou a coberta de cima dele. O ar mais gelado no quarto fez com que os músculos se contraíssem e ela involuntariamente inclinasse a cabeça. — É uma bela bunda, sabia? Mas sim, você tem que ir.
— Você podia deixar essa bunda ficar aqui e vê-la amanhã cedo de novo, que tal? Não chegamos nessa etapa ainda?
— Que etapa? De quê, garoto!?
— Ué, já temos duas semanas juntos... acho que já posso dizer que é minha namorada.
— Mark, querido
— Mike.
— Que seja. Eu mal sei seu nome. Quinze dias do primeiro dia a hoje não conta como duas semanas, porque foram o que? Dois encontros? Nem nos vimos em todos esses dias!
— Porque você não quis...
— Não, querido, porque a gente não tem nada. Aliás, eu tenho. Meu trabalho. Vai, levanta... você definitivamente não vai dormir na minha casa depois dessa.
— Mas...
— É isso, querido.
— Ainda posso participar do seu filme?
— Filme? Que filme?
— É. Você comentou ontem sobre um filme.
— Oh, querido. É um videoclipe. E a não ser que você fale coreano, não. — respondeu com simplicidade, sem se deixar abater pela expressão de choque dele. Mais um ator novato que caía na boa e velha cantada da diretora famosa. Pelo menos a noite tinha sido divertida, isso ela não podia negar. — Bata a porta quando sair. Ela tranca sozinha.
Sem esperar maiores reações ela mesma deixou a cama e foi para o banheiro, se trancando lá até que ele finalmente fosse embora. Ficou esperando com o ouvido perto da porta e assim que ela fez seu barulhinho característico de que estava trancada, sentiu o peso do remorso. Soltou um suspiro longo, cansada. Tinha que parar de se envolver em encontros casuais. Principalmente com aquela cantada.
— Como pode o ano ser 2019 e ainda ter marmanjo caindo nessa? — perguntou para seu reflexo no espelho grande sobre a bancada do banheiro. Lavou o rosto profusamente, tentando lavar a própria alma com isso. Mas assim que se encarou de novo foram os mesmos olhos verdes cansados que a encararam de volta.
— Chega de ser impulsiva, Tati. — falou para si mesma. — Seu impulso te levou a convidar um coreano para gravar, mesmo sem saber uma palavra da língua. Agora fica tendo pesadelos e agarrando novinhos. Chega! — balançou a cabeça positivamente, como que encerrando a discussão. Era melhor dormir logo, ainda tinha essa questão do intérprete para resolver logo cedo. De preferência antes do cara chegar.
***
— Cadê o intérprete? — perguntou assim que o copo grande de café descafeinado foi colocado em uma de suas mãos e uma plaquinha com o nome do garoto escrito em coreano em outra.
Resolver as questões relacionadas à vinda do cara e ao contrato para o clipe tinha sido muito mais simples do que arrumar um intérprete. Alias, toda a decisão envolvendo se oferecer para produzir aquele vídeo tinha sido muito mais rápida também.
Bastou ver dois vídeos para ter certeza de que queria trabalhar com o BTS, independente do tipo de trabalho que fosse. Mas havia uma burocracia enorme no caminho. E falta de orçamento. Sem contar a pouca idade, o gênero e o fato de que ela tinha subido muito rápido no ramo. Nada disso inspirava confiança a um primeiro momento, então tudo o que ela conseguiu foi um membro de sete. E uma oportunidade única de produzir o que viria a ser uma música solo desse membro.
— Aonde pensa que vai, Alberto? — perguntou ao perceber que o rapaz estava fazendo menção de ir embora.
— É Agustín. Francamente, quando vai aprender meu nome? Já sou seu assistente tem pelo menos um ano, Tatiana?
Ela o encarou em silêncio, analisando se o atrevimento logo cedo valia o estresse ou não. Decidiu que não ia se aborrecer com o garoto hoje, mesmo ele não tendo conseguido o tal do intérprete como ela tinha pedido.
— Você conseguiu o intérprete?
— Ainda não, mas...
— Então hoje eu vou usar o nome que eu quiser para te chamar. — respondeu dando um longo gole no café e desejando que ele fosse cafeinado, porque tudo o que precisava agora era se manter acordada. Mas não podia. — Aliás, vamos combinar o seguinte: enquanto eu tiver que usar meu celular e o tradutor do Google, vou te chamar de acordo com o meu humor. Quem sabe você não aprende. — completou parando de encará-lo e focando nas pessoas que saiam da sessão de desembarque do aeroporto.
— Não é justo... — resmungou o rapaz emburrado. Usava uma camiseta chamativa para facilitar o reconhecimento dos coreanos quando chegassem, mas começava a se sentir desconfortável ao lado da mulher alta e bonita que era a figura de Tatiana.
— Justo? Ai olha... injusto é eu ter que tomar café descafeinado porque se não é capaz de eu ter um treco. — bebeu outro gole e fez uma careta. — Não que eu realmente precise de cafeína para isso. Vai ficar comigo sim. Não vou passar vergonha fazendo mimica sozinha.
— Eles chegaram. — suspirou Agustín ao ver J-Hope e seu segurança pessoal se aproximando.
— Nossa.
— Eu sei...
— Nossa! — repetiu ela.
Andando a passos largos, usando um chapéu de pescador azul e óculos com lentes coloridas, vinha um dos rappers do BTS. Usava uma camiseta larga, simples e de algodão, combinando com shorts jeans que ela considerou curtos demais para uma reunião e lindos demais para qualquer outra coisa. Não conseguiu tirar os olhos das coxas dele.
— Nem adianta, ele namora. — avisou o assistente também com os olhos presos no moço.
— Com quem?
— Com um dos membros.
— Quem disse um absurdo desses? — perguntou desviando o olhar finalmente e encarando de cima o atrevimento de Agustín em jogar-lhe tamanho balde de água fria logo cedo.
— A internet.
— E você acreditou?
— Ah bem...
— Tatiana Hamilton?
Ela imediatamente abriu seu melhor sorriso e jogou os longos cabelos para o lado ao ouvir seu nome com tanto sotaque.
— J-Hope?
— Isso.
— Você fala inglês? — perguntou esperançosa com a resposta dele.
— Desculpe...
— Merda. — xingou baixinho ainda com um sorriso no rosto. Ele riu de volta, mostrando que para isso ele não precisava de intérprete nenhum. Todo mundo conhece um bom e velho palavrão. E o inglês não era uma língua criativa para eles, então isso era fácil. — Desculpe.
Rapidamente ela sacou o próprio celular e gravou um pedido de desculpas para ser traduzido para o coreano.
— Sem intérprete. Desculpe. — a voz robótica anunciou.
Em vez de pegar o próprio celular e fazer o mesmo, Hoseok segurou a mão dela delicadamente e aproximou a boca para responder também.
— Tudo bem, espero que nossa semana seja produtiva. Que o trabalho seja vantajoso para todos nós.
— Espero que possamos trabalhar bem. — traduziu o aplicativo.
— Se isso não foi a coisa mais sexy que eu já vi na vida, pode me chamar como quiser. — comentou Agustín baixinho ao lado dela. Hoseok o encarou pela primeira vez e sorriu de novo, sem entender o que ele havia dito.
— Ele conseguir um intérprete logo. — anunciou a voz em coreano para ele, depois de traduzir outro pedido de desculpas de Tatiana.
— Good. Let's go*!
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Vocabulário: * Bom. Vamos!
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