Decisões
Já é tarde.
Anthony aproxima seu carro calmamente, em frente à portaria de seu condomínio, quando avista o carro de sua mãe parado no outro lado da rua:
- O que faz aqui há essa hora? - pergunta parecendo confuso.
- Precisamos conversar, Thony... - a seriedade dela faz com que se olhem por longos segundos em meio ao silêncio.
...
Anthony destranca a porta de seu apartamento. Sua mãe entra primeiro, caminhando devagar com seus belos saltos ecoando pelo piso de madeira escura.
- Já faz dias que você não dá sinal de vida. Da última vez que sua irmã veio, ficou completamente assustada com a forma como te encontrou. Seu tio, Nathan, até me pediu para dar mais um tempo à você, porém me preocupa saber que passa tanto tempo aqui sozinho sem fazer qualquer atividade que lhe distraia.
- Já passa da meia noite, está tarde. É melhor ir para casa, descansar - Anthony coloca as chaves sobre a mesa da sala e tira seu casaco. Sua expressão é séria. - Eu estou bem, mãe, de verdade.
- Mas é impossível não se preocupar! Olha a hora em que está chegando sabe-se lá de onde! Até imaginei que estivesse vindo de algum bar, completamente embriagado. Porém, me surpreendeu...
Ela se aproxima, tentando sentir algum vestígio de álcool o olhando por alguns segundos. Depois se afasta:
- Vejo que está sóbrio. Isso me deixa mais tranquila, Thony. Seu pai ficará orgulh...
- O meu pai não está nem aí para mim, mãe!
Ao ouvir seu pai ser mencionado, ele a interrompe com impaciência erguendo os olhos em sua direção, depois se levanta rápido:
- E nem para a senhora! Na verdade, parece que ele só pensa nele - continua ele. - Eu estou cansado de passar a minha vida inteira tentando orgulhar o meu pai. Mas ele sabe que eu nunca conseguiria. Não como o Guilherme...
Suas palavras saem mais baixas ao dizer a última frase. Se mostrando triste e olhar melancólico.
- A senhora não vê o jeito que ele a trata, também? Até quando vai tentar acreditar nessa vida em que vive?
- Não fale assim, Anthony! Você nunca se intrometeu na minha vida pessoal com seu pai antes! - Ela se vira o olhando fixo, sentindo-se ultrajada.
- Touché...
Ele caminha até a mesinha das bebidas e pega a garrafa de whisky, desistindo de manter-se sóbrio depois de lembrar desses assuntos. A destampa apressado e coloca uma dose no copo raso e largo.
- Eu não vou mais ficar calado, passei toda a minha vida fazendo isso. Esse foi mais um dos motivos de eu ter saído daquela mansão insuportável! Estava cansado de ver ele sempre te deixando pelos cantos por causa das amantes dele.
Toma um bom gole da bebida, soltando o ar pesadamente por entre os dentes, assim que o líquido desce queimando por sua garganta.
- Eu via coisas demais e sempre me calava tentando me encaixar num perfil inalcançável aos olhos do meu pai, o Sr. Jhonatan! Mas ele sempre parece insatisfeito.
- Mas o que deu em você?! - pergunta de forma contrariada - Não adianta querer descontar seus anseios em cima de mim!
- O único motivo de vocês me quererem naquele escritório é para fazer o trabalho do Guilherme, o filho que sempre vestia a camisa da empresa. Quando vocês vão entender que eu não sou o Guilherme?! Vocês não tem noção do quanto eu sofro ao saber disso. Aquele escritório foi feito para ele...
Ele fecha os olhos, com tristeza. Respira fundo e caminha pela sala com jeito agitado.
- Ele cuidava daquele lugar, com tanto amor...
Seu coração acelera ao lembrar de Guilherme e do escritório:
- É tão difícil ver tudo aquilo e saber que por causa de um inconsequente, ele nunca mais vai estar lá. Que não vai mais poder me ajudar, pois ela era o único que fazia isso! E como me dói saber que mesmo estudando medicina não pude salvá-lo?!
Toda a sua insegurança vem a tona.
- Eu não posso voltar para a faculdade se não tenho capacidade de salvar ninguém!... Ah, Claro... - bufa, incomodado. - Esqueci que não adianta eu tentar falar. Vocês estão sempre ocupados demais, exigindo coisas um dos outros ao invés de pararem e darem algo em troca para alguém não é?!
Sua respiração se eleva, em sua testa, uma camada fina de suor brota. Sua mente entra em agitação e seu peito dói devido a ansiedade.
- Isso não é verdade! - ela nega, elevando o tom de voz - Quer saber, estar sozinho nesse apartamento, isolado, sem ter contato com ninguém e sem fazer algum tipo de atividade já está mexendo com a sua sanidade! Olha só para você! - reclama aproveitando e passando os olhos em sua volta - Esse lugar está uma bagunça! Pobre desse cachorro!
- A empregada não veio fazer a faxina, esses dias. A Érika também não pôde vir para cuidar do Teddy. Então eu fui procurá-la no bar onde ela fica, mas... Acabamos nem falando sobre isso.
Ele leva o copo até os lábios e toma uma dose generosa da bebida, com olhar distante e pensativo.
- Acredito que depois de nossa conversa, ela estará... bem mais ocupada. - deduz, soltando um suspiro desanimado.
- O que disse? - Ela se aproxima com olhar confuso. - Está dizendo que anda indo atrás dessa delinquente justamente dentro de um bar?!
- Mas é lá que ela mora! - Um sorriso irônico sai de seus lábios, declarando num tom debochado.
- Eu não estou ouvindo isso! - Ela coloca a mão no peito, fechando os olhos e buscando o ar. - Eu pedi para você se livrar dela, Anthony Smith! - Rebate com braveza. - Isso só vai piorar o seu estado!
- Mãe... - Ele tenta conversar, mesmo sabendo que vai ser ignorado. - A Érika parece ser uma garota largada, mas nossa aproximação tem feito eu me sentir melhor...
- Como é possível você querer a companhia de uma garota que nem ao menos sabe das origens! Por um acaso você conhece a sua índole, quem é sua família e o que faz da vida?
Anthony para por uns instantes encarando sua mãe, se calando perante as perguntas que verdadeiramente não vai saber responder. Já imagina o surto dela ao descobrir que além de tudo, Érika ainda é uma ladra.
- Mãe...
- Em outras palavras, você não sabe nada sobre ela, Anthony! A única informação que tem é que ela mora em um Bar!
Reclama desacreditada, enquanto Anthony segue calado.
- Não quero mais ouvir você falar nesse assunto e nem vou permitir que ela entre novamente nesse apartamento! Segunda feira pela manhã, eu estarei aqui para me certificar de que você vai para o escritório! E essa bebedeira já foi longe demais! - Ela agarra o copo de sua mão tentando lhe tirar.
- Chega, mãe! Eu não vou mais entrar naquele escritório! - Sua voz sai alta e firme, enquanto reluta com sua mãe para não a deixar lhe tirar o copo, e a ação dos dois faz cair bebida sobre o tapete.
- Ok...
Sua mãe desiste de lutar com ele, tira um lenço de sua bolsa e esfrega com força sobre seu blazer branco de grife, tentando secar o álcool derramado sobre ele, com jeito pensativo e contrariado.
- Já está decidido... Ou é isso, ou o seu dinheiro não será liberado para as suas despesas e para as contas desse condomínio, que por sinal, são bem caras! Eu não vou permitir que isso vá mais longe, não quero te ver se acabando no álcool e envolvido com uma garota daquele tipo!
Ela termina de falar e caminha até a porta, saindo e a batendo com força. Anthony caminha até a mesinha e coloca mais uma dose de whisky.
Depois senta-se no sofá, tomando um gole e suspira fechando os olhos de forma desanimada. Deita mais o corpo e encosta a cabeça no encosto. Teddy sobe e senta ao lado dele.
- Ei, amigo... Obrigado pela companhia...
Diz de forma doce, olhando para o filhote e mesmo com desânimo, consegue abrir um pequeno sorriso, enquanto acaricia seu pelo macio. Já consegue vê-lo como uma boa companhia agora.
Érika está no quarto se aprontando para sair. Lucy está sentada no colchão e lhe lança um olhar de ladino, notando seu jeito agitado.
- Tá tudo bem? - Pergunta a baixinha erguendo os olhos, enquanto a garota termina de vestir seu moletom Branco e puxando seus cabelos por cima. - Não acredito que vai sair uma hora dessas. - Ela sacode a cabeça discretamente, em reprovação.
- É importante, Lucy. Não dá pra fazer a proposta que quero fazer para o Anthony de viajar conosco, enquanto eu não resolver umas coisas.
Érika caminha apressada pelo cômodo ainda terminando de se ajeitar.
- Lembra do que conversamos? - pergunta Érika, se sentando ao seu lado - Sobre mudar de vida, viajar e outras coisas?
Ela vê a morena consentir discretamente com a cabeça.
- Então... Eu estou indo falar com o Heitor - Se levanta apressada olhando para o celular - mandei uma mensagem avisando, ele já deve estar me esperando.
- Ai droga! - Um temor toma conta do corpo de Lucy. - E você decidiu de uma hora para outra ir sozinha? Ficou maluca? - Ela se preocupa.
- Na verdade, eu venho pensando nisso há uns dias. Depois que você disse que não quer mais se meter nisso, que poderíamos fazer diferente, sinto que essa é a hora. E também, depois desse meu envolvimento com o Anthony... - Ela suspira - Ah, Lucy. Ele está me fazendo tão bem. Mesmo sendo tudo tão complicado.
Ela solta um pequeno sorriso, pensativa.
- Além de tudo, ele também me deu forças para sair disso.
Ela aproxima os olhos bem dentro dos olhos negros da baixinha.
- Ele me quer...
Seu jeito muda rápido, ficando eufórica. E Lucy, também lhe sorri.
- Com o dinheiro que nós temos, podemos contar com o Anthony para sumir daqui. Viajarmos para algum lugar por alguns dias, isso também iria fazer bem para ele, só quero que ele melhore logo desse vício. Depois nós pensamos nos próximos passos. Por enquanto, só quero sumir de perto do Heitor.
Seu olhar volta a ficar preocupado.
- Nossa, amiga! É bem difícil ver você falar sobre seus sentimentos assim tão abertamente. Vejo que está mesmo disposta a ir mais fundo e ter algum relacionamento sério com o Anthony, e sair de vez do caminho do Heitor.
Lucy se levanta a olhando animada.
- Eu não posso mais negar, Índia. Eu estou... completamente apaixonada pelo Anthony!...
Suas palavras soam carregadas de sentimento, saindo do fundo de seu coração sofrido e um enorme sorriso satisfeito toma seus lábios. Se mostra eufórica e ansiosa para dar logo um fim em tudo isso e ser feliz, afinal.
- Espera, eu vou com você! - Lucy se apressa.
- Não! - Érika a interrompe. - Eu vou sozinha.
A morena para a olhando confusa.
- Eu quem meti vocês nessa história, então eu vou falar com ele sozinha. Vou dizer que será como se nunca tivéssemos o conhecido. - Seu olhar volta a ficar apreensivo.
- Não cometa essa loucura, Érika! - Lucy a segura pelo braço a olhando firme.
- Além disso, ele não vai querer ouvir vocês. Então. Eu já vou indo pra não ficar muito tarde.
- Ela se despede.
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Érika caminha apressada pelas ruas escuras desse lado da cidade. Dá o último trago em seu cigarro e joga a bituca longe, que cai perto de algumas poças d'água. Solta a fumaça rápido para o lado enquanto coloca as mão nos bolsos do moletom branco e segue caminhando. O vento frio bate nas árvores, as sacodindo e barulhando, levando folhas para junto dela, a fazendo apertar ainda mais seu moletom no corpo.
Logo avista o carro de Heitor, parado no fim da rua e seu coração acelera com isso. Seu corpo treme e não é só pelo frio. Ela para, suas pernas fraquejam por um momento, mas não vai desistir agora. Tudo o que quer é sair disso o quanto antes. Então respira fundo e continua.
- E aí, gata! - A voz baixa de Heitor corta o silêncio e seu olhar se mostra animado.
Heitor da um último trago em seu cigarro e o joga longe, saindo do carro. Esse encontro nunca aconteceu antes e ele já espera por boas notícias.
- Imagino que andou pensando melhor no meu pedido.
Deduz e um belo sorriso presunçoso desenha sua face com uma barba bem feita, no rosto magro e pálido. Mas bem desenhado. Ele mede o corpo dela, enquanto se aproxima.
- Na verdade, não... - Ela engole em seco desviando os olhos dele. - pelo contrário, vim lhe dizer que estou... saindo fora. - Declara de uma vez.
Heitor fica calado por alguns segundos. Sem ação. Permanece com os olhos fixos nela, com jeito surpreso agora.
- O-o que disse? - ele fecha os olhos colocando a cabeça um pouco de lado, tentando entender o que acaba de ouvir.
- Isso mesmo que ouviu, Heitor - Diz rápido, o olhando séria. A apreensão quer tomar seu rosto, mas ela segue firme. - Eu e meus amigos estamos saindo fora de tudo isso!
- Quem você pensa que é?... Você não pode sair assim!... - sua voz sai em um tom mais alterado.
- Ah, eu posso, sim. - Rebate rápido o interrompendo.
- NÃO!... Não é só sair quando sentir que acabou a brincadeira! - Ele tenta se segurar, fechando os olhos, mas sua respiração vai ficando ofegante - Nós... Nós tínhamos um trato, PORRA!!
Sua voz sai em um grito alto, se mostrando inconformado. Então se vira com jeito agitado e lança um tapa forte sobre o capô de seu carro. Próximo demais do rosto dela.
O barulho alto assusta a garota, a fazendo fechar os olhos ao mesmo tempo que encolhe um pouco os ombros em busca de ar.
- Estou tentando ser a mais sincera contigo, cara! Eu já tô cansada disso, quero mudar de vida, estudar, trabalhar de um jeito decente e ser alguém um dia. Assim como meu pai me pediu antes... de morrer.
Ela fecha os olhos novamente, sentindo o pesar de suas palavras. Mas lança toda a sua sinceridade na esperança que ele sinta isso.
- Você teria tudo da minha mão...
A voz de Heitor é desapontada, se aproxima dela e ergue a mão com calma, prestes a tocar seus cabelos castanhos, mas desiste, apertando o punho forte. A mágoa misturado com raiva, toma seu rosto, então se vira.
- Fica tranquilo. Eu dou minha palavra que eu e meus amigos, não vamos contar nada pra ninguém do que sabemos sobre você. Será como se eu nunca tivesse... te conhecido.
Aquelas palavras saíram carregadas de duplo sentido, fazendo Heitor perceber que ela deseja profundamente nunca o ter conhecido. Seu coração se aperta ao saber que teve seus sentimentos rejeitados. Logo se vira apressado, procurando seus olhos.
- Não é assim tão simples como você pensa, sua vagabunda! - Sua voz volta a ficar áspera enquanto se aproxima dela - Você sabe demais sobre mim e isso nunca é bom!
Ele sacode a cabeça devagar em negação, com os olhos nela:
- Eu não poderia te deixar sair fora e... Continuar viva...
Ele trinca o maxilar, seu olhar frio rebate sobre os olhos dela, penetrando fundo, fazendo as pernas dela tremerem e seu coração martelar forte no peito.
Mas o orgulho da garota, fala mais alto, e está disposta a não implorar por isso. Mesmo que não volte mais para casa, viva.
Sem a garota menos esperar, Heitor parte para cima dela, a jogando contra o carro, fazendo a lataria barulhar. Pressiona forte o corpo contra o dela, a deixando sem ar, enquanto segura firme em seus cabelos.
Seus rostos bem próximos, os olhos trincam dentro dos dela, com ira. Érika sente o pânico tomar seu corpo, sua respiração fica desregular. Heitor já nota o seu medo.
- Hoje eu estou a fim de ser bonzinho... SOME!! - Grita ele, sua respiração encosta próximo ao seus lábios - Desaparece desse lugar, assim como você disse que vai fazer!
Ele a puxa pelo braço a afastando de seu carro a jogando no chão úmido com força. A garota cai ofegante e coloca os olhos nele com expressão extremamente apavorada.
- Já que o nosso trato foi quebrado, não tenho nenhum motivo para te respeitar e te poupar de agora em diante, você entendeu!? A partir de agora, eu não quero mais ver você nem seus amiguinhos de merda, andando pelas ruas dessa cidade. E se isso acontecer... Considerem-se mortos...
Heitor entra no carro apressadamente batendo à porta com força. Então liga e sai barulhando os pneus pela rua.
Mesmo sabendo que Heitor poderia matá-la, ela confiou e se apegou fielmente ao que ele disse sentir por ela uma vez. Pelo menos dessa vez, deu certo.
O pior já passou...
Pensa engolindo em seco, ofegante, com seu corpo ainda caído no chão úmido.
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