Back to Tokyo
- HATHAWAY -
- Tem certeza que vai fazer isso Akemi?
Minha irmã me questionava enquanto eu estava arrumando as minhas coisas dentro de uma mala, mas eu estava cansada de nunca saber de nada, precisava tomar um atitude.
- Eu nasci em Tóquio, talvez me lembre de algo se eu voltar pra lá.
Peguei meu casaco e o vesti indo em direção a porta, eu havia tomado uma decisão e não voltaria atrás.
- Você está sendo precipitada!
- Eu estou desesperada! - Segurei os ombros de minha irmã antes de sair. - Eu não lembro de nada Sayuri, absolutamente nada! Preciso da minha vida de volta. - Abri a porta e olhei pra trás por poucos segundos. - Eu te amo.
***
A viagem foi tranquila, de Nagoya para a capital demora um pouco, mas eu estava fazendo isso por mim, então valia o esforço. Desci em Tóquio absorvendo todo o ambiente, imensos prédios e lojas que chamavam com suas decorações e placas convidativas, passei mais de uma hora apenas observando o lugar e caminhando por aquelas ruas suntuosas, posso ter nascido aqui, mas era como se tudo fosse novo.
Como se fosse a primeira vez.
Peguei o dinheiro que eu havia guardado pra viagem dentro da mala e coloquei em minha mochila, então saí em direção ao metrô, eu não sabia o que fazer, nem pra onde ir, mas algum lugar dentro do meu cérebro sabia, e é esse lugar que eu quero alcançar. Peguei a condução e me sentei em um canto isolado, ela parou, desceram pessoas, subiram, parou de novo e assim foi por um bom tempo, eu estava disposta a descer no último ponto, então permaneci sentada por todo o percurso.
Quando eu vi que o metrô estava perto de encerrar a rota eu me preparei para descer, ele desacelerou aos poucos e depois parou na penúltima estação, eu jurava que aquela era a última, mas talvez minha mente esteja condicionada para descer nesta, eu vou seguir minha mente.
Praticamente todas as pessoas que estavam lá dentro sairam, percebi também que ninguém entrou, ajeitei minha mochila nas costas e comecei a andar, mal dei três passos quando tateei os meus bolsos.
Meu celular ficou lá dentro.
Xinguei mentalmente e voltei para o metrô correndo antes que ele fechasse as portas e eu desse adeus a meu celular, se eu chegasse dois segundos mais tarde não conseguiria, foi eu entrar e ele sair em direção a última estação.
Fui até o lugar em que eu estava e peguei o meu celular com os fones de ouvido, olhei ao redor e não enxerguei ninguém, ótimo... Última estação e última passageira.
Depois de alguns minutos senti uma mão em meu ombro, eu levei um susto com diversas coisas passando em minha mente, principalmente a existência de fantasmas já que eu estava sozinha no metrô, ou era o que eu pensava.
Virei o rosto para o lado e a primeira coisa que eu percebi foi a incrível beleza daquele ser que estava em pé perto de mim, era um homem lindo, e se vestia muito bem também, tirei meus fones de ouvido e encarei seus olhos castanhos sem esboçar reação.
- Nós nos conhecemos de algum lugar?
Se eu já tivesse visto esse rapaz alguma vez na minha vida e claro, tivesse a memória dos últimos vinte anos eu com certeza me lembraria de tê-lo visto, não tem como esquecer esse rosto jamais, a não ser que você tenha amnésia.
Obrigada vida.
- Mesmo se a gente se conhecesse eu não saberia dizer, eu não lembro.
Ele acenou e se sentou ao meu lado
- Sinto que te conheço de algum lugar, mora aqui em Tóquio?
- Moro em Nagoya, vim aqui passar uns dias.
- Entendi.
Passamos alguns minutos em silêncio, eu dei play na música que estava tocando no meu celular e de vez em quando desviava a vista para o rapaz ao meu lado, ele estava quieto sentado olhando para a frente, e eu... Eu o estava observando.
Será que eu o conhecia? Por um momento torci internamente para que sim, mas depois tive mais raiva ainda por saber que se eu o conheci, então eu não faço ideia do que aconteceu nesse tempo.
- Qual o seu nome?
Ele não estava olhando pra mim, na verdade permanecia do mesmo jeito de antes, pernas juntas, dedos entrelaçados e sempre olhando para um ponto aleatório a sua frente, ele parecia uma escultura.
- Akemi, qual o seu?
- Taehyung... - Ele voltou os olhos pra mim mais uma vez. - Eu posso jurar que conheço você, do acampamento no Meiji Shrine Imperial Garden, foi há alguns verões.
Acampamento? Há alguns verões? Como eu não sei disso? Minha irmã fez questão de me contar tudo, por que algo me diz que eu ainda não sei a história toda?
- Me perdoe Taehyung, não lembro de você.
Ele assentiu um pouco cabisbaixo, me senti mal por um momento, Taehyung parecia um rapaz legal.
- Eu posso estar me confundindo de qualquer modo, mas vocês se parecem tanto... E tem o mesmo nome...
Desisti da música que saia de meus fones, eu não conseguiria prestar atenção de qualquer forma, não com Taehyung ao meu lado, ele era o tipo de pessoa que não te deixava desviar o olhar.
- Eu não disse que não o conheço, eu disse que não me lembro, mas você pode estar certo, talvez já tenhamos nos visto.
- E mesmo assim não se lembra? Nem do acampamento?
Minha língua coçava para que eu o contasse, que eu não lembro de nada que aconteceu na minha vida, que eu queria que esse acampamento fosse real, que eu queria tê-lo conhecido, lembrar que o conheci, mas meu cérebro insistia em dizer que eu não posso sair falando sobre mim pra qualquer cara bonito que eu encontre por aí.
Ainda bem que uma das únicas coisas que sei é que não costumo seguir o meu cérebro.
- Sofri um acidente de carro há alguns meses, eu tive amnésia Taehyung, por isso não sei de nada.
O metrô desacelerando o impediu de responder, coloquei a mochila nas costas e peguei a alça da mala, me certificando antes de descer se meu celular e os fones estavam no bolso.
- Se eu te ver de novo pode ter certeza que vou me lembrar, a não ser que eu sofra outro acidente, no mais, boa tarde Taehyung.
Desci do metrô logo que as portas abriram, eu não olhei pra trás por um motivo covarde, eu estava com medo, muito mais medo de encarar o passado do que o futuro, e encontrar com aquele rapaz abalou minhas estruturas, me fez tem mais consciência de que eu perdi muita coisa, e que talvez descobrir o que eu perdi só me deixaria pior.
Caminhei pelas ruas um pouco abalada em busca de um hotel, puxei minha fita roxa da alça de minha mala e prendi o cabelo em um rabo de cavalo, já estava anoitecendo e eu precisava de um lugar pra dormir.
Ignorei o arrependimento de ter deixado Taehyung pra trás e avistei um hotel logo a frente, intensifiquei o aperto na mala e andei mais rápido, eu estava exausta da viagem.
- Quer sorvete? Comprei o seu preferido.
Virei assustada - de novo - para aquela voz grave atrás de mim, enxerguei Taehyung comendo uma casquinha de sorvete com uma mão e me estendendo uma com a outra mão.
- Como pode saber que essa é minha preferida? - Ele me olhou divertido.
- Apenas prove.
O encarei um pouco desconfiada e tomei um pouco do sorvete, chocolate com pedaços de amendoim... Ele acertou em cheio. Arregalei os olhos enquanto engolia o sorvete, Taehyung abriu um sorriso satisfeito, com todos os dentes a mostra.
O sorriso dele era lindo.
- Acertei não foi?
- Como...? - Olhei assustada enquanto ele vinha para o meu lado.
- Reconheci a fita que está usando no cabelo, fui eu que dei ela pra você. - Ele simplesmente pegou a minha mala e começou a andar, não pude fazer outra coisa a não ser acompanha-lo. - Tem algum lugar pra ir? Se quiser pode ficar na minha casa, tem um quarto a mais.
- Como posso ter certeza de que você não é um sequestrador?
Ele fez uma cara de ultrage e eu ri internamente.
- Eu? Um sequestrador? Já te dei provas suficientes de que não sou um.
- Que provas? - Eu perguntei enquanto andávamos, nem me dei o trabalho de pegar a mala de volta.
- Eu sei seu sorvete preferido! Também te dei a fita de cabelo, já acampei com você e te reconheci no metrô.
- Isso não é suficiente... - Mordi a casquinha do sorvete e Taehyung revirou os olhos.
- Você tem medo de cobras, ama o frio e tem uma cicatriz no pé da barriga por causa de uma briga com a sua irmã.
Parei instantaneamente, nem minha mãe sabia sobre essa cicatriz.
- Como sabe da cicatriz?
Taehyung terminou seu sorvete.
- Você me contou, as duas estavam brigando na sala e então você tropeçou e se bateu no canto da mesa.
Quase deixei o meu sorvete cair, porque foi exatamente isso que minha irmã me contou quando perguntei da cicatriz, quem era aquele garoto? Por que ele sabia tanto?
- Eu estou assustando você não é? Prometo que vou ficar calado de agora em diante.
Olhei pra frente buscando forças pra andar novamente, então algo me veio a cabeça, eu vim a Tóquio em busca de respostas, e eu as encontrei embaladas dentro do cérebro desse garoto. Tomei uma decisão antes que eu me arrependesse.
- Aonde você mora? Acho que me convenceu.
Ele sorriu como se tivesse ganhado o mundo, e eu estava curiosa pra saber o porquê.
- Prometo que não vai se arrepender Akemi.
Então ele se apressou e eu o segui, essa semana vai ser mais agitada do que eu pensava.
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