Capítulo 9
HANSEONG — D. JOSEON,
HÁ CERCA DE 600 ANOS
O dia já havia amanhecido e Taehyung se encontrava desacordado escorado sobre o corpo da Majestade. Não de forma que o apertasse ou o prejudicasse, apenas repousava ali o pouco tempo que conseguia. Havia deitado a cabeça delicadamente sobre o coração de Yoongi na noite anterior, feliz por ouvir sua pulsação e sentir sua temperatura corporal normalizada. Ele só abriu os olhos quando sentiu algo se mover abaixo de si, e levantou-se de imediato. Arregalou os orbes oculares ao perceber que o homem enfermo tinha sua testa franzida, enquanto murmurava algo incompreensível. E não parecia ser algo bom, definitivamente. Porém, sentiu-se aliviado ao ver os dedos pálidos do amado se mexerem por reflexo.
— Majestade? — chamou, observando suas reações. Ele continuou balbuciando palavras desconexas, movendo a face de um lado para o outro. — Yoongi-ssi, acorde!
Dessa vez, tocou o rosto do menor com delicadeza, dando leves tapinhas a fim de despertá-lo.
E de repente, as íris acastanhadas do rei foram reveladas, e ele sentou-se rapidamente enquanto um grito sôfrego saiu de sua garganta:
— NÃO! NÃO, NÃO, POR FAVOR!
Sua respiração era audível, ele ofegava. Sua testa estava úmida de suor, e dessa vez não era febre.
— Você está bem, Majestade? — A voz de Kim deixava claro sua preocupação, e ele tentou não tocar no nobre, ainda que sua vontade fosse apertá-lo em um abraço protetor. Mas não precisou reprimir, pois quem tomou a iniciativa foi o próprio Yoongi, que enroscou seus braços ao redor da cintura definida do curandeiro, e enterrou seu rosto no peitoral grande e confortável dele. Só então, Taehyung cedeu ao seu desejo, e correspondeu, o envolvendo com todo seu corpo. Inclinou-se a fim de abrigá-lo com seu calor, até encaixar seu queixo no ombro do soberano. — Por que você gritou apavorado?
— Eles estão vindo, Tae Tae. Os elfos querem me matar... — falou contra as vestes sedosas do maior, tendo sua voz um tanto abafada. As lágrimas que surgiam constantemente dos seus olhos umedeciam o tecido. Nem mesmo reparou que havia chamado o rapaz alto pelo apelido carinhoso que usava quando criança. — Eu não quero morrer, por favor!
Tae Tae. Alguns calafrios internos foram involuntários no interior do Kim ao ouvir o outro lhe chamar assim. Ainda sem soltá-lo do abraço, e ele não queria soltá-lo nunca mais, tentou acalmar Yoongi com suas palavras doces.
— Shhhh. Acalme-se, Majestade. Nada mais vai acontecer com o senhor, pois estou aqui e vou protegê-lo. Tudo bem? — Não sabia dizer por que tinha voltado a ser formal com o garoto que amava, mas simplesmente foi o que fluiu de seus lábios. Por mais que a formalidade lhe rondava nas palavras, a intimidade era presente em suas ações.
Min ficou silencioso por alguns instantes, sendo tranquilizado aos poucos pelo conforto daquele momento. Era gostoso sentir os braços grandes do curandeiro real cuidarem de si com tanto carinho. O cheiro dele era envolvente, viciante, e mais do que tudo, o fazia sentir-se seguro. Tinha a orelha esquerda bem no centro do peitoral dele e o som do seu órgão cardíaco palpitando suavemente contra a parede interna fez com que seus músculos relaxassem. Era difícil criar coragem para se afastar do rapaz alto, pois a melhor coisa que poderia receber de alguém era aquele abraço reconfortante.
No entanto, ele precisava ver os olhos adoráveis do Kim, e relutou ao se afastar alguns centímetros, mas sem soltar suas vestes. Olhou para cima e pôde finalmente fitar aquela face esculpida em mármore, pois para o rei, Taehyung era o homem mais bonito de toda a Terra, e provavelmente o ser mais belo de todo o universo.
Foi só então, perdido na beleza alheia, que sentiu uma pequena ardência em seu pescoço, e como reação automática, sua mão moveu-se na altura do curativo de seu ferimento. Ele arregalou os olhos imediatamente, assustado em descobrir aquilo. Franziu a testa, tentando lembrar o que havia acontecido, mas sem sucesso. A última memória em sua mente era a conversa que teve com o seu curandeiro próximo ao riacho, e em como haviam se aproximado com um simples diálogo relembrando seus passados.
— O que é isso, Taehyung?
Foi perceptível o suspiro audível do mais novo, e isso preocupou um pouco o rei.
— Aconteceu um acidente. Foram os ninjas japoneses. Eles invadiram nosso acampamento no meio da noite. — Kim respondeu com pesar, lembrando daquela noite de terror que quase custou a vida do seu amado. — Nós tentamos derrotá-los, mas eram muitos, e infelizmente um deles o feriu com uma hwando. Sinto muito, Majestade. Por favor, nos perdoe! — ele suplicou, baixando a cabeça e desviando o olhar para o chão, sem ver. Sabia que não estava na razão e se o nobre quisesse os punir por não o ter protegido como deveriam, ele podia. Lembrou-se do primeiro dia em que invadiu o castelo para se inscrever na vaga de curandeiro, e quase foi morto por Jungkook pela ordem real. Por mais que amasse aquele garoto, sabia que poderia ser bastante cruel.
Entretanto, o que não sabia era que estava mudando, aos poucos, a personalidade do jovem rei. Transformando seu coração de pedra em um local que poderia transbordar de amor.
— O que importa é que estou bem agora. — Yoongi sentiu-se melancólico ao ver a expressão triste do garoto que acalmava a sua alma. — Você me salvou sim, pois do contrário eu estaria sem vida nesse momento — murmurou, esperando que tal fala fosse animar o rapaz alto, mas se enganou. Ele continuou cabisbaixo.
— Não foi eu quem o curou, Majestade. — Kim balançou a cabeça para a direita e para a esquerda, sentindo-se culpado e incapaz. Primeiro porque não foi capaz de cuidar do seu amor e protegê-lo como deveria; e depois porque não conseguiu salvá-lo sozinho. Deveria sim ser punido; deveria até mesmo ser demitido, expulso do palácio. — Foi o curador celestial, Park Jimin.
— Quem?
— Park Jimin. Ele é um discípulo de Hua Tuo, o médico que tudo cura. E Jungkook o buscou no céu através de um portal que se abriu aqui próximo. — Taehyung tentou explicar, mas Yoongi simplesmente sentiu-se ainda mais confuso. Aquilo parecia mais uma história que sua melhor amiga costumava contar. Algo fictício sem muito fundamento lógico.
— Isso não importa. O que importa é que você cuidou de mim e estamos juntos agora. — Deixou seus instintos o guiarem, e levou a pequena mão até o queixo do maior, o fazendo olhar para si. — Então você me salvou sim, Kim Taehyung!
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o moreno desmanchou a expressão tristonha, dando o seu melhor para abrir um sorriso quadrado — aquele sorriso pelo qual Min sempre se derretia. Sentiu-se um tanto aliviado por saber a opinião de Vossa Majestade, pois não o estava culpando — muito pelo contrário. Tinha lhe dado uma "terceira chance".
— Por que você sempre tenta desviar seus olhos de mim? Eu sou feio, por acaso? — Min fez um biquinho tão adorável que proporcionou uma aceleração cardíaca considerável no outro garoto.
— Você é lindo, Yoon. Muito lindo — respondeu, sem pensar, fixado nos olhos acastanhados do mais velho, e só alguns segundos depois é que percebeu a forma como havia chamado o monarca. Informal ao extremo. Isso fez seu estômago se revirar, nervoso, ao que sues orbes oculares ficaram um tanto grandes com tal constatação. Mas a única reação do outro foi soltar uma gargalhada que se arrastou em um sorriso gengival extremamente fofo. Notou que o maior tinha suas bochechas num tom avermelhado e teve vontade de passar seus dedos suavemente ali. E bem, ele era o rei da nação e não precisava de autorização para fazer aquilo, e enquanto sua mente ponderava sobre, sua mão já estava tocando a pele macia e livre de quaisquer imperfeições.
E permaneceram assim por vários minutos seguidos, sem emitir palavras. Não era preciso, pois o silêncio misturado aos olhares que trocavam era capaz de significar muito mais do que qualquer conversa que poderiam ter.
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O curador celestial abriu seus olhos vagarosamente, esticando seus braços curtos de maneira preguiçosa. Tentava vencer o sono, como todas as suas manhãs, mas não acordou onde supôs que estaria, e quando achou que tudo não passaria de um sonho, e que acordaria em sua cama confortável de casa, ele soltou um suspiro de decepção. Estava na mesma casinha da noite anterior, com a diferença do sol raiando através da janela. Era um novo dia.
Levantou seu tronco, encostando as costas na madeira, e levou um breve susto ao deparar-se com o grande ser sentado ao seu lado. Só que dessa vez, ele tinha as pálpebras fechadas enquanto sua cabeça pendia para a direita, o que poderia causar uma bela dor no pescoço. Sua expressão era serena, tranquila. Os lábios se encontravam entreabertos enquanto respirava. Não parecia nada assustador daquela forma, apenas adormecido. Poderia até parecer inofensivo, caso não o conhecesse.
Bem devagarinho, o loiro moveu-se colocando-se de joelhos e seu coração disparou quando o chão de madeira emitiu um ruído alto com seu movimento. Não queria acordar o elfo, não ainda. Gostaria de observá-lo um pouco dormindo, pois sua beleza era tamanha que lhe hipnotizava. Não era só por ele ter um corpo bonito, a ponto de ser seu tipo ideal, que se sentia daquela forma. Na verdade, não existia um porquê, simplesmente não conseguia parar de olhá-lo. Não era algo que fosse capaz de controlar. Era como se fosse um sentimento mágico, como o poder de um ímã que atrai metal, ou seja, inevitável.
O general Jeon tinha essa aura, não apenas com Jimin. Qualquer humano que não sentisse medo e lhe fitasse por um bom tempo, ficaria totalmente encantado com sua beleza, mas não era o caso das pessoas que moravam nas vilas do reino de Min, já que Jungkook sempre fora visto como um ser maligno capaz de queimar qualquer coisa que se movesse. Sendo assim, Park foi o primeiro a realmente se entregar àquele poder envolvente do de orelhas pontudas.
Não se sabe quanto tempo o médico de Seul ficou paralisado observando o elfo, mas certamente foram longos minutos. Quando finalmente despertou de seu transe, decidiu se aproximar um pouco mais do grandão, e logo levou seu dedo indicador à bochecha esquerda dele, tocando em sua pele com muita cautela, formando uma covinha ali. Sentiu seus pelinhos se eriçarem, junto a um frio na barriga, porém adorou a sensação. No entanto, o outro nem se moveu, permaneceu estático, respirando normalmente enquanto dormia; apenas seu peitoral se movia, à medida que o ar entrava e saia de seus pulmões.
— Jungkook? — chamou, em um fio de voz. Nada. — Jungkook? — Tentou novamente, um pouco mais alto. Como não funcionou, resolveu ficar ainda mais perto, e agachou-se ao seu lado. Encostou a palma da mão na sua face, dando leves tapinhas na lateral. — Jeon Jungkook! — dessa vez, quase gritou, bem próximo ao ouvido sensível do maior, e sentiu todo seu corpo amolecer com o que aconteceu em seguida.
Em questão de segundos, encontrava-se pressionado contra a madeira do assoalho, com o corpo do general sobre si e a espada brilhante e afiada tocando o seu pescoço na altura da jugular. Uma das mãos do ser místico, conseguiu, de alguma forma, imobilizar ambos os curtos braços de Park, logo acima de sua cabeça, apertando-os com força.
Jimin assustou-se a princípio. Tinha os olhos arregalados, como de costume, enquanto seu órgão cardíaco tentava arrancar a parede do seu peitoral toda vez que tamborilava contra o interior. O vermelho lhe encurralou, novamente.
Poucos segundos depois, sentiu um breve vento contra a pele e seus cabelos quando a lâmina foi imediatamente afastada de si, junto a expressão de surpresa que se estampou na face de Jungkook. Ouviu a arma ser arremessada para longe, ao que o aperto em seus pulsos foi afrouxado aos poucos, mas ele não o soltou, nem se afastou. Apenas continuou sob o seu corpo, analisando cada centímetro do seu rosto.
Não era apenas Jungkook que hipnotizava o curador celestial; Jimin, de alguma forma, também o fazia se sentir desse jeito. Não do mesmo jeito magicamente arrebatador, mas de maneira totalmente inexplicável, afinal, era um sentimento totalmente novo, pois nunca sequer teve vontade de admirar um humano, nem mesmo outros elfos e elfas. Naquele instante, tudo o que mais queria era permanecer ali, fitando as belas íris cor-de-cacau do mais velho.
O ser místico nunca se apaixonou. Nem na Terra, nem em Elfland, o mundo dos elfos, de onde viera, no entanto, ele sentia como se Park fosse o único que poderia lhe fazer sorrir de felicidade. Um sorriso verdadeiro, difícil de ser arrancado.
Sua vida nunca foi fácil. Quando completou quinze anos, Jeon foi enviado ao mundo dos humanos para ser guardião do Trono, um acordo realizado entre o antigo rei, já falecido, e seu irmão mais velho, pois naquela época fora julgado como uma ameaça aos elfos pela quantidade de talentos que herdou.
Jungkook não era um elfo comum. Normalmente, além da força e velocidade, os seres místicos nasciam com um poder especial dominante. Poderia ser habilidades com o fogo, água, ar, terra, eletricidade, elasticidade, amor, cura, telecinese, teletransporte, entre vários outros, porém apenas e somente um único. E o caso do general era que ele tinha potencial para desenvolver vários daqueles poderes. Era considerado uma exceção, ou como gostavam de lhe chamar, uma aberração. Desde então, dedicou-se a proteger Vossa Majestade ainda mais do que sua própria vida.
Às vezes tinha vontade de jogar tudo pelos ares, e fazer tudo o que quisesse, mas era um homem de palavra e jamais quebraria suas promessas. Se quebrasse uma promessa, deveria morrer.
Por um momento tentou se esquecer do seu passado; imaginou sua vida futura ao lado daquele humano de cabelos claros. Seu desejo era tornar-se tão humano quanto ele.
— Me perdoe — balbuciou por fim, saindo de cima do corpo do garoto. — Eu só me assustei. Por favor, me perdoe, Jimin-ssi!
— Está tudo bem. Me desculpe por tê-lo assustado. — Levantou-se, sentando-se ao lado de Jungkook, bem próximo, até seu braço tocar contra a lateral dele.
— Não está com medo de mim? — O tom de voz do elfo era receoso. Sabia o efeito negativo que causava nas pessoas, e pressentia que seria o mesmo com o curador celestial.
— Não — respondeu, decidido. — Por que estaria? — Os dedos do mais velho brincaram com o tecido do próprio jaleco branco, a roupa cuja ainda não havia trocado desde que chegara naquele local. Sua feição continuava normal, sem preocupação. — Não tenho mais medo de você, orelhudo. — Ergueu os olhos para o rosto dele e percebeu o quão profundo era o olhar dele sobre si, que não havia se desviado de seu corpo por nem mesmo um segundo.
Jeon abriu um breve sorriso com seus lábios finos, mas suficiente para fazer o coraçãozinho do médico se aquecer.
— Obrigado!
— Pelo quê?
E quando o ser místico estava prestes a responder, a porta se abriu, revelando um Taehyung emocionado e sorridente. Ele abaixou um pouco a cabeça para poder ultrapassar a entrada, por ser muito alto, e correu até se agachar e ficar de joelhos na frente do garoto de cabelos loiros.
— Ele acordou! A Majestade acordou! — Curvou-se de maneira reverente, em forma de agradecimento, e logo voltou a se levantar, puxando o de vestes brancas para fora dali.
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Min Yoongi permaneceu estático, com o pescoço esticado, enquanto o curador celestial analisava seu ferimento. Sentia ainda um pouco de ardência no local, mas já havia diminuído consideravelmente. O restante de seu corpo também parecia normal. Era como se tivesse escapado da morte por um triz, o que de fato ocorreu. Para Taehyung, uma das suas sete vidas havia sido gasta, restando-lhe apenas seis delas.
— Ainda está um pouquinho vermelho, mas a aparência está ótima, pois está começando a cicatrizar — explicou o médico, calmamente, ao sentir um alívio enorme se apoderar de seu corpo. Havia de fato salvado a vida do seu hyung do passado e isso era incrível. Foi a primeira cirurgia de risco da sua vida e havia sido finalizada com sucesso. — Não é um processo tão rápido, mas creio que dentro de duas semanas, se tudo ocorrer bem, poderá tirar os pontos.
Havia uma pequena plateia ali, já que várias pessoas estavam curiosas para ver como as condições do rei se encontravam. A rainha-mãe tinha o rosto inchado de tanto chorar, porém um sorriso falso também era presente em sua expressão enquanto olhava para Park.
— Como posso lhe retribuir por salvar o meu filho? — A senhora se aproximou do rapaz, carregando suas vestes pesadas com as mãos. — Devo lhe dar parte de nossa fortuna? Um quarto em nosso palácio? A vaga de curandeiro real?
— Mãe! — o nobre reprimiu a mulher, fazendo uma careta. — Taehyung é o curandeiro real!
— Mas ele não foi capaz de te curar, querido. Somente esse anjo do céu! — A mais velha se aproximou um pouco mais de Jimin, o admirando como se fosse um deus.
— Não há necessidade para isso, Majestade. Irei voltar para o lugar de onde vim. De qualquer forma, obrigado por sua gentileza. — O loiro tentou ser educado com aquela megera. Sim, era isso o que ela era. Simplesmente não conseguiu gostar dela desde o primeiro momento em que a viu. Tinha certeza que a mãe do rei era má como todas as vilãs dos doramas que adorava assistir.
Depois de explicar ao curandeiro real como deveria proceder com os cuidados em Yoongi nos próximos dias, começou a arrumar suas coisas para partir, já que o elfo lhe levaria de volta ao portal. Ele sentiu algo estranho dentro de si; era como se o seu coração estivesse sendo apertado, o sufocando. Sabia que se apegava muito rápido às pessoas, e certamente isso havia acontecido em relação a Jungkook. Apenas ao imaginar que nunca mais o veria, uma tristeza interna começou a lhe dominar. Não tinha mais a feição contente como quando soube que seu "hyung" estava bem, nem o sorriso meigo como quando estava curioso acerca do elfo, lhe fazendo mil perguntas.
— Está bem, Jimin-ssi? — Ouviu a voz rouca e grave que tanto gostava. Soava tão bela quanto uma música. Com toda a certeza, sentiria saudades. Acenou a cabeça para cima e para baixo em resposta, mas achou que talvez estaria enganando a si mesmo.
Permaneceu ali por apenas dois dias, ou nem isso, mas foi o suficiente para se apaixonar, nunca sentira aquilo por outro garoto. Nenhum outro garoto foi capaz de fazer seu coraçãozinho se acelerar tanto e de maneira tão quente; nenhum outro garoto foi capaz de lhe trazer felicidade; nenhum outro garoto foi capaz de lhe atrair de maneira tão intensa; nenhum outro garoto foi capaz de lhe arrancar sorrisos. Talvez porque Jungkook não era um garoto; era um elfo.
— Vamos? — questionou, por fim, quando já havia terminado de colocar todos seus utensílios dentro de sua mochila.
Jeon hesitou, estava nervoso. Tinha algo em suas mãos atrás de seu corpo, e não fazia ideia de como entregar a Jimin, nem mesmo o que lhe dizer. Ficou envergonhado de repente. Aquilo parecia ser pior do que lutar em uma batalha, muito mais difícil do que lidar com uma espada. Não era tão bom com palavras quanto com sua espada. Ademais, odiava despedidas. Todavia, ele finalmente tomou coragem para tirar as mãos das costas, trazendo-as para frente, ainda mantendo-as fechadas.
— Hmmm. Bom, não é muito, mas... foi o que consegui fazer em tão pouco tempo. — Ele finalmente levantou seus longos dedos, revelando uma miniatura adorável de um elfo com orelhas pontudas, cravado em madeira. Entregou o pequeno objeto a Jimin, que se encontrava boquiaberto. — Não é nada comparado a tudo o que você fez por nós!
— Uau! Jungkook, ele é muito fofo! — exclamou, encantado. Seus dedos curtos e gordinhos apalparam cada detalhe perfeito do presente que recebeu, e sentiu seus olhos arderem de imediato. — Obrigado! — A voz saiu falhando, embargada. Não conseguiu segurar as lágrimas, e elas despencaram, uma a uma, umedecendo suas bochechas róseas. — Obrigado p-por esse presente tão singelo e tão importante. — Park não conseguiu segurar sua vontade, e logo seus braços se enroscaram no grande tronco do maior, o abraçando com toda a sua pouca força. De fato, não estava preparado para se separar dele. Enterrou seu rosto no peitoral vasto, e lá desmanchou-se, soluçando. O general retribuiu, o envolvendo de uma maneira carinhosa e protetora. O sentimento era recíproco. Não queria ter que deixá-lo ir, mas fez uma promessa e não poderia quebrá-la jamais. — Foi você que fez?
— Sim. Fiz ontem à noite enquanto você dormia. É um passatempo. Gosto de fazer miniaturas de madeira — explicou, e percebeu o garoto afastar-se do seu corpo cedo demais, o fitando nos olhos vermelhos.
— Você é muito talentoso, Jungkook. — Abriu um sorriso meigo, molhado de lágrimas. Logo, sentiu os dedos longos de Jeon secarem a umidade enquanto arrepios percorriam seu corpo dos pés à cabeça por conta do toque, principalmente quando o dedão dele tocou seu lábio inferior. Era uma sensação maravilhosa e sabia que nunca mais a teria a partir do momento de sua partida, a partir do momento que atravessasse o portal, de volta ao presente. Nunca mais teria Jeon Jungkook.
E foi com tal pensamento que Jimin se colocou na ponta dos pés, se esticando o máximo que conseguia, até alcançar os lábios finos e quentes do elfo, dando-lhe um selinho simples e demorado. Nem teve tempo de sentir o típico frio na barriga, pois o seu corpo agiu de forma totalmente impulsiva naquele momento. Não estava acreditando que teve coragem suficiente para tomar tal iniciativa.
O contato de ambos os lábios criou uma corrente elétrica que começou a eriçar todos os pelinhos existentes na pele de cada um dos dois. Era algo explosivo, um sentimento inovador e que dominou ambos. Sem demora, Jungkook correspondeu, puxando o tronco do curador celestial para cima até que seus pés deixassem o solo, e ele foi obrigado a passar os braços ao redor do pescoço do elfo, e assim, aquele beijo mágico foi aprofundado, e só o que poderia ser ouvido no cômodo eram os estalos dos lábios dançando harmoniosamente entre si durante longos minutos.
Alguns instantes depois, eles se afastaram, a contragosto. Nenhum deles conseguiu proferir algo, então Jungkook colocou o médico novamente sob o solo, e o viu pegar sua mochila, colocando a miniatura do elfo ali dentro.
Após se despedir de todos, Jimin estava pronto para ir, embora não estivesse preparado. No entanto, decidiu pensar em seus pais, noona e hyung verdadeiros, já que a saudade deles começava a incomodar. Bom, talvez pudesse voltar ao passado mais vezes através do portal, não é mesmo? Ele não iria sumir de uma hora para outra, assim tão rápido. Talvez essa não seria a última vez que veria Jungkook, afinal.
— Vamos? — murmurou, por fim, suspirando audivelmente.
Finalmente eles foram. O ser místico o guiou caminhando, e Park achou estranho não irem a cavalo como da primeira vez. Quando estavam a uma distância considerável da vila, onde ninguém pudesse ver, o de orelhas pontudas se agachou de repente, deixando o curador celestial um tanto confuso.
— Suba — pediu, apontando para as suas costas.
Jimin ficou paralisado, o olhando com o cenho franzido.
— Não precisa, orelhudo. Posso andar até lá perfeitamente.
Jungkook continuou na mesma posição.
— Suba, por favor. Quero te mostrar algo... — solicitou mais uma vez, ansioso para o humano seguir seu pedido. Jimin hesitou um pouco, mas mesmo sem entender, subiu nas costas largas do general, segurando firme nos seus ombros, enquanto ele se levantava. — Se você se sentir tonto ou qualquer coisa, por favor, me avise.
E no instante seguinte, o loiro sentiu o vento bater forte contra seu rosto, enquanto as árvores passavam ao seu lado como simples borrões. O elfo de fogo definitivamente estava correndo rápido, rápido demais. Chutava mais do que 200 km/h, o que definitivamente lhe assustou um pouco. Se caísse, morreria em menos de 1 segundo, mas sabia que Jeon lhe protegeria, então tentou se acalmar. Deitou sua cabeça sobre o pescoço dele, relaxando com o calor do seu corpo, e fechou os olhos, tentando aproveitar os últimos momentos junto ao general do reino de Min.
Em cerca de dez minutos, chegaram ao destino. Por mais fascinado que estivesse com os dons mágicos de Jeon, sua corrida fez com que tivesse que partir mais rápido, e um biquinho se formou em seus lábios enquanto descia das costas do outro.
— Oh, você está bem? Não gostou do passeio? — o mais novo perguntou, preocupado.
— Estou bem, não se preocupe. E é claro que eu gostei, Jungkook. Mas vou ter que ir embora agora... — Olhou para o céu de um tom arroxeado e róseo escuro, e logo percebeu o portal de onde atravessou. No entanto, parecia um tanto menor do que da última vez que o viu.
— Eu... eu... eu posso visitá-lo algum dia, Jimin-ssi — propôs, tentando ao máximo abafar a tristeza que invadia ambos naquele momento.
— Posso vir também, orelhudo.
Jimin olhou ao redor, vendo o amontoado de pedregulho, que antes formava uma montanha levando ao portal.
— Como vamos chegar lá? — Apontou para o alto.
— Vou te levar. — E com tal fala, Jungkook segurou firme na cintura fina do curador, e logo as flamas surgiram debaixo de seus pés, o impulsionando para cima. Não demorou para que estivessem flutuando em direção ao círculo. Metro após metro. Entretanto, um redemoinho de repente começou a surgir de dentro do portal, jogando rajadas de vento fortes para todos os lados, enfraquecendo a velocidade que o elfo tentava se aproximar. E aquela passagem começou a diminuir rápido demais.
Tão rápido que em segundos se dissipou por completo, fechando-se por inteiro.
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