Capítulo 3
HANSEONG: D. JOSEON,
HÁ CERCA DE 600 ANOS
O tempo voou em Hanseong, e desde a quase morte do candidato a curandeiro real, três meses se passaram. Im Yoona, a salvadora de Kim Taehyung, era uma garota extremamente gentil e adorada por todos no palácio. Com seu jeitinho delicado e ao mesmo tempo firme e decidida, conquistava todos os tipos de pessoas. Era uma rainha humilde e muito inteligente, gostava de ajudar os cidadãos de Hanseong com seus projetos voluntários e sociais, e estava sempre disposta e contente para realizar tudo o que fosse de seu alcance. Adorava muito todos os "meninos da sua vida", mas tinha um amor especial pelo garoto com quem tinha se casado.
Yoongi e a morena se conheciam desde que começaram a engatinhar, já que seus pais eram ambos nobres e amigos. A amizade dos dois foi crescendo a cada ano que se passava, e quando a família Min a escolheu como noiva, ficou imensamente lisonjeada e agradecida. Nem sequer pensou em recusar.
Não, não era gananciosa a ponto de querer se casar com Yoongi apenas para se tornar rainha da nação. Embora tenha se tornado uma das mais aclamadas mulheres que já tomaram esse posto, não ligava para o status. Amava o rei de uma maneira diferente, pois sempre soube que Vossa Majestade gostava de se relacionar amorosamente com homens. Seu amor por Min era superior — ele era seu melhor amigo e faria de tudo para deixá-lo feliz e para protegê-lo de todo o mal.
Como a tradição era "rei e rainha" e não "rei e rei", Yoongi sempre soube que teria que se casar com uma mulher, e poder escolher a garota mais especial da sua vida foi uma bênção. Entretanto, não era fácil lidar com a personalidade do rapaz pálido.
Era um garoto visto como frio e sem coração pela grande maioria do povo, principalmente por conta das suas decisões precipitadas e frequentemente interpretadas como "cruéis". Mas Im sabia que isso não era verdade; pelo menos, não era assim com ela na maioria das vezes. Vez ou outra discutiam, é claro, mas essas brigas não passavam de poucas horas. Sabia que tinha muito que ensinar a Vossa Majestade, e junto a ele, auxiliar no governo da província.
Reinar uma nação era um trabalho árduo quando os cidadãos julgavam suas escolhas e decisões. Não podia agradar a todos — e no momento, eram poucos os que Yoongi conseguia agradar. Estivera muito estressado nas últimas semanas e especialmente angustiado com tantas ameaças de morte. Yoona lhe acalmava todas as noites, o encorajando e contando ficções criadas em sua mente; ela era ótima contadora de histórias.
No momento, ela estava animada. Encontrava-se na cozinha da área de serviço do palácio preparando o almoço junto a um dos cozinheiros mais prestigiados da região. Cortava alguns legumes, preparando alguns temperos, enquanto o garoto chef cozinhava os demais ingredientes junto à carne. A rainha se virou e com um sorriso gesticulou as seguintes palavras na língua de sinais:
"Quantas cenouras vamos precisar?"
"Quatro está ótimo" o outro respondeu também gesticulando, fazendo expressões faciais que acompanhavam a fala. Sim, o rapaz era surdo, mas isso não o impedia de ser excelente em todos os pratos que preparava — na verdade, em tudo o que fazia.
Apesar de portar essa condição auditiva e fônica, sempre tinha um sorriso largo nos lábios fartos, aparentando ser mais feliz do que a maioria dos seres humanos que não eram portadores dessa condição. Sua aura alegre, sempre contagiava a todos que entravam em contato, e tentava ser o mais comunicativo possível com os funcionários do palácio, ainda que somente a rainha soubesse a língua de sinais.
— Olá, Majestade. — Uma voz soou de repente e a morena logo se virou, jogando seus cabelos compridos para o lado. Teve a visão do soldado alto inclinando a cabeça para lhe cumprimentar, fazendo uma reverência respeitosa.
— Olá, Namjoon. — Alargou o sorriso ao vê-lo ali. Logo ao seu lado estava Kim Taehyung, o novo curandeiro real. O jovem estava tímido, então apenas prestou reverência diante da mulher nobre. — Não há necessidade de tanta formalidade. Já lhe disse que se não estivermos em público, pode me tratar informalmente. — Viu o rapaz assentir, mas sabia que ele nunca levaria sua fala a sério. Sempre a trataria com as formalidades hierárquicas. — Sentem-se, por favor! — Foi na direção dos garotos e os arrastou até a mesa, os fazendo sentar em seguida. — O almoço está quase pronto.
Quando o cozinheiro se virou para ver os recém-chegados, seus olhinhos brilharam ao ver o soldado ali. Começou a abanar ambas as mãos na direção do maior, até chamar sua atenção. Embora não pudesse formar palavras com sua voz, conseguia emitir alguns sons e isso era suficiente para fazer o coração do guerreiro se aquecer. Namjoon abriu um sorriso de orelha a orelha e acenou para o chef também, um tanto retraído.
Não demorou muito para que passos pesados pudessem ser ouvidos de longe, e todos podiam adivinhar quem estava chegando. Em poucos segundos, o elfo enorme ultrapassou a porta da cozinha.
— Majestade! — Curvou cerca de quarenta e cinco graus de sua coluna, em sinal de reverência à rainha ali presente, e tratou de se sentar junto aos outros dois.
— Parece cansado, Jungkook. Está tudo bem, meu querido? — Ela aproximou-se da mesa e se sentou, deixando o resto do almoço nas mãos do cozinheiro. Analisou o ser místico de cima a baixo e sabia que tinha trabalhado muito nos últimos dias.
— Estive treinando vários soldados de nosso exército, Majestade, e já não durmo há mais de dois dias — desabafou, suspirando pesadamente.
— Omo! Não acredito que Yoongi está te escravizando dessa forma! — Yoona inflou as bochechas, curvando os lábios para baixo. Sentia-se culpada por esse fato. — Almoce com a gente e depois vá descansar um pouco. Não quero que fique doente por nossa causa.
— Não se preocupe, Majestade. Posso ficar até uma semana sem dormir, se precisarem. Estou aqui para cumprir Vossas ordens.
Yoona estava prestes a contestar, mas alguém adentrou o cômodo, fazendo com que todos paralisassem e ficassem boquiabertos diante da figura. Era o rei Min parado em frente à mesa, e ninguém conseguia acreditar no que estavam vendo. Seria uma alucinação? Bom, vejam bem, a Majestade nunca esteve naquela cozinha antes. Costumava almoçar junto aos membros de sua família na sala de jantar do palácio. No entanto, ali estava. No local onde apenas funcionários comiam. O que estava acontecendo com ele?
— O que faz aqui, Yoongi? — A garota foi a primeira a se manifestar.
— Vim almoçar com minha rainha e meus colegas de trabalho. — Direcionou-se à ponta da mesa de madeira simples e velha, sentando-se no assento duro e frio, também amadeirado — Não posso?
— É claro que pode... — Ela o olhou, desconfiada — Você está bem? — Virou o rosto de lado, o observando com o canto dos olhos, como sempre fazia ao constatar algo estranho.
— Perfeitamente. — O nobre apoiou as mãos na superfície de madeira e a primeira coisa que notou foi o delicioso aroma que se espalhava pelo cômodo. — Hmmmm. Estou morrendo de fome!
O cozinheiro parecia ter escutado a fala da Majestade e em seguida tratou de colocar na mesa as diversas vasilhas de porcelana e uma grande caçarola contendo o prato principal do dia: ensopado de galinha. Era o melhor ensopado de galinha de toda Hanseong e, para a maioria dos funcionários, de todo o mundo. Todos à mesa se encontravam famintos, com seus estômagos roncando e clamando por comida. Em seguida, o garoto chef foi servindo um pouco do ensopado para cada integrante: primeiro para o rei e a rainha, e em seguida aos demais.
— Obrigado, Seokjin. — Namjoon sorriu e agradeceu o garoto com sua grande simpatia, mas logo se deu conta da sua burrada. — Aish! — reclamou consigo, batendo na própria cabeça. — Como se fala "obrigado" no idioma do Seokjin, Yoona-ssi?
A soberana logo demonstrou o referido gesto e Namjoon imitou. Seokjin achou fofo e engraçado, soltando uma de suas breves risadas adoráveis ao ver do soldado.
— Por que quis almoçar aqui hoje, Yoongi? — A morena quis saber, ainda intrigada com o ato da Majestade.
— Eu só não suporto mais minha mãe me enchendo o saco. — Bufou, quase cuspindo metade da comida que estava em sua boca.
— O que foi que ela disse?
— Quer que eu aprenda a lidar com uma espada. Como se eu já não tivesse milhares de outras coisas para lidar.
— Hmmm. Entendo. — A rainha ficou pensativa por alguns instantes. — Mas acho que dessa vez ela tem razão.
— Por que eu preciso aprender a usar uma espada?
— Para se defender! — Yoona respondeu de imediato, mostrando em seu tom de voz o quão óbvio era essa resposta.
— Mas eu já tenho um exército inteiro e um elfo de fogo para fazer isso! — Usou o mesmo tom que a garota, tentando igualar a obviedade de tal fato. Era possível notar que estava começando a se irritar, principalmente porque parecia que todos estavam contra ele.
— Precaução nunca é demais — a nobre complementou, levando mais uma colherada de ensopado à boca.
— Concordo com Yoona rainha. Não podemos prever o que pode acontecer com Vossa Majestade. É claro que faremos nosso melhor para protegê-lo... — Namjoon entrou na conversa, tentando cautelosamente mostrar sua opinião, e se perdeu um pouco no meio da fala ao receber o olhar de censura do rei. — Q-Quero dizer, daríamos nossa vida p-pelo senhor, Majestade! — gaguejou, nervoso. — Enfim, se tiver interesse, posso lhe ajudar com a espada. — Baixou o olhar para o prato imediatamente, tentando não manter contato visual com o monarca novamente. Apesar de baixinho e aparentemente indefeso, Yoongi era muito intimidador, e tinha recursos perigosos.
— Não! Já sei quem pode ser ideal para te dar aulas de luta e espada, meu amor — a rainha se intrometeu novamente, abrindo um sorriso ladino.
— Quem?
— Kim Taehyung!
O rapaz alto e de cabelos castanhos, que até então se encontrava quieto e cabisbaixo, tímido, arregalou seus olhos, sentindo um calor invadir seu corpo de repente. Não sabia o que falar, muito menos como controlar o tremor interno de nervosismo que surgia.
— Mas a função dele é outra. Ele é curandeiro — constatou o nobre, sem entender as reais intenções da melhor amiga.
— O curandeiro real deve proteger Vossa Majestade, isto é, além de curá-lo quando doente, prevenir que alguma doença ou perigo lhe atinja — explicou, tendo os argumentos todos na ponta da língua. — Ademais, conheço o Taehyung e sei que ele é um ótimo guerreiro também.
O silêncio se fez presente no ambiente.
Taehyung não conseguia proferir uma palavra sequer, ainda estava estupefato. Seu interior borbulhou como se algumas borboletas estivessem agitadas ali dentro, enquanto ouvia o som de seu coração martelar forte contra o peito. Atreveu-se a erguer o olhar um pouco, mirando o rei sentado na ponta da mesa. Ah! Ele era tão lindo aos seus olhos! Sua pele branquinha, o nariz fofinho, as bochechas gostosas. Os lábios finos! Sempre admirou tal beleza fascinante; sempre fora apaixonado por ele. Com certeza faria de tudo para protegê-lo. Daria o seu melhor em tudo o que fosse destinado a fazer por Vossa Majestade.
Yoongi também se encontrava sem palavras, boquiaberto diante da situação. Imaginou como seria ter aulas com aquele anjo esculpido em mármore, e até que não achou má ideia, já que o novo curandeiro do palácio havia se saído muito bem nas suas tarefas. Talvez fosse ótimo naquilo. Não podia negar sua empolgação.
O que ninguém desconfiava era que a rainha, na realidade, não passava de uma fujoshi comprometida com seu trabalho: ser a cupido dos casais que acreditava serem almas gêmeas.
❨♔♚♔❩
Todos já haviam terminado de comer, menos Jungkook. Estava se deliciando, repetindo o prato pela sexta vez. Era normal, já que elfos não precisam comer todos os dias, mas, quando famintos, tinham que se alimentar para toda a semana. Ele usava a mão para deliciar as coxas de frango, o que parecia muito mal educado em frente à Vossa Majestade, mas ele não se importou. Precisava saciar-se por completo para poder ter energia suficiente.
Os demais continuavam conversando sobre assuntos aleatórios e até mesmo Seokjin havia se juntado à mesa. Manteve o sorriso gracioso sempre ativo em seus lábios e não tinha vergonha de manifestar seu sentimento de felicidade através dos seus gestos e expressões faciais marcantes. Namjoon e ele pareciam se comunicar apenas com olhares, como se conhecessem até o profundo de suas almas, sem nem mesmo trocarem palavras ditas.
De repente, um som alto soou através da cozinha, e os olhares de todos ali presentes se direcionaram para a origem do ruído. Ali estava Yu Yein, um jovem auxiliar de serviços gerais que fazia de tudo no palácio. Havia corrido tanto para chegar ali que tropeçou em seus próprios pés, quase caindo na frente do rei. Seus olhos arregalados mostravam o quão assustado se encontrava. Respirava pela boca, exausto.
— O que aconteceu, Yein-ssi? — Yoona foi a primeira a se manifestar, curiosa com o que o menino tinha a dizer. Parecia algo sério e importante.
— E-Eles est-tã-tão v-vin-do! — disse o rapaz gago. Normalmente já tinha dificuldades com a fala, e quando se encontrava alterado ou nervoso, como no presente momento, era pior ainda. — Acab-bei de v-volt-tar da t-torre c-central e há um e-exérci-t-to de i-inim-migos v-vin-do pra cá a-gora!
Yoongi levantou-se imediatamente, empurrando suas vestes compridas para trás; em sua expressão facial era claramente fácil notar o receio que estava sentindo.
— Inimigos? Qual exército?
— H-Hui-hu-hua-ai.
— Huihuai? São os elfos... — O rei passou a andar em círculos de repente. Taehyung notou as mãos trêmulas do monarca e queria muito poder fazer algo para deixá-lo mais calmo, porém sabia que a situação era grave. Todos ali sabiam daquilo.
Jeon Jungkook havia paralisado ao notar o nome do exército. Conhecia muito bem o que isso significava. Era descendente deles.
— Namjoon... Jungkook. Preparem as carruagens. Vamos levar alguns homens do nosso exército... — a Majestade começou aditar as ordens, enquanto ainda andava para lá e para cá, com seu interior entrando em desespero. — Seokjin! Prepare os alimentos, você irá conosco — ordenou, enquanto a rainha traduzia na linguagem de sinais. — Taehyungie... Leve o que for preciso. Seus equipamentos e os medicamentos que vem cultivando. Temos que nos preparar. Vamos ao noroeste!
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