Capítulo 1
SEUL: COREIA,
ANOS ATUAIS
O garoto de cabelos dourados sentia-se mentalmente exausto. Passou o dia da sua folga da faculdade trancado em seu quarto na grande mansão dos Park, localizada no distrito de Gangnam, na capital da Coreia do Sul, sem fazer nada de produtivo, apenas assistindo a alguns seriados na Netflix. Era acostumado a passar horas e horas estudando, sem qualquer tipo de pausa, por ter se tornado um dos alunos mais exemplares de sua turma em especialização cirúrgica na Universidade Nacional de Seul. No entanto, naquele dia, estava certo de que chegou aos seus limites.
Havia completado seu vigésimo quinto aniversário de vida há pouco e nem sequer tinha um emprego estabilizado. É claro que não precisava daquilo ainda, pois seus pais eram herdeiros de uma enorme fortuna, mas o jovem já não se sentia muito feliz em ser sustentado pelos seus progenitores — gostaria de sobreviver por conta própria.
Além disso, o principal motivo do seu desânimo era a sua vida amorosa: inexistente.
Ao longo dos anos, sua vida foi seguindo um rumo bastante turbulento, e ora estava ocupado demais com seus estudos, ora começava a se preocupar com seu futuro. O breve médico cirurgião não teve tempo para se relacionar com alguém e, com isso, continuava solteiro. Na realidade, nunca sequer namorou; nunca sequer beijou alguém, e tal fato lhe preocupava ao extremo. E o pior: vários de seus colegas da faculdade já se encontravam em um relacionamento sério, e alguns deles eram até mesmo noivos ou casados.
Park Jimin não conseguia tirar tais pensamentos de sua mente — pensava naquele assunto durante a tarde inteira, abraçando seu travesseiro macio. Céus! Como queria poder ter alguém para amar... Por que tinha que ser tão esquisito? Se estivesse em um relacionamento, não estaria trancado em seu quarto em pleno feriado. Provavelmente passearia na Torre de Namsan, jantaria à luz de velas, iria ao shopping para comprar camisetas ou conjuntos de roupas de casal, ou, quem sabe, assistiria a algum filme no cinema. Por mais racional que fosse, era esse tipo de coisas que tanto sonhava em fazer junto àquele que o amaria.
Após mergulhar em suas próprias fantasias, Park cansou de ficar sozinho. Resolveu ir ao quarto ao lado pedir conselhos e carinho a sua irmã mais velha. Ela certamente teria boas palavras que o faria abrir um sorriso, afinal, a garota sempre dava um jeito de lhe deixar feliz.
❨♔♚♔❩
— Noona? Posso entrar? — pediu permissão enquanto abria uma fresta da porta.
A morena desviou o olhar do celular para os olhos castanhos e brilhantes do caçula, logo exibindo os próprios dentes brancos em sinal de alegria. Ajeitou-se na cama de casal e acenou para que o garoto se aproximasse. Jimin assim o fez, e logo se sentou sobre o colchão, tentando espiar o que se passava na tela do seu smartphone. Ergueu o corpo um pouco, quase enfiando o rosto na frente do dela.
— O que está fazendo?
— Escrevendo minha fanfic — respondeu remexendo-se constantemente, inquieta, afastando o telefone e o impedindo de ler. — Mas não posso te dar spoiler! — Bloqueou a tela touchscreen para que o outro não fosse capaz de ver o que se passava ali.
— Aigoo! Isso é muito malvado da sua parte. — Jimin fez um biquinho com os lábios carnudos e a garota não conseguiu resistir, sendo obrigada a apertar as duas bochechas dele com apenas uma das suas mãos, fazendo o rapaz continuar sua frase com a voz alterada. — Vucê save que eu adoru os seus cabitulos... Queru saver o que bai acontecer!
A de cabelos extremamente lisos e compridos não pôde evitar o riso, que saiu espontâneo até demais. Ela então soltou as bochechas de Jimin, o livrando do aperto, e o encarou com ternura. O observou minimamente, vendo algumas olheiras e certa tristeza em seu olhar. Era claro que ele estava tendo alguns conflitos internos e sabia que precisava ajudá-lo de alguma forma.
— Ji, meu anjinho... — A maior segurou a mão branquinha do garoto, levantando o rosto e fitando seus olhos cor de chocolate. — Me conte suas aflições. Sabe que pode contar tudo para sua noona, não é mesmo?
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios do jovem, e ele acenou em concordância.
— Noona, estou me sentindo sensível nos últimos dias — começou a falar, cruzando as pernas como um indiozinho ao ajeitar-se melhor no colchão. — E um pouco solitário. — Fez uma pausa dramática e continuou. — Sei que tenho omma, appa, o hyung e você, mas parece que falta algo...
— Você precisa de um namorado. Alguém para compartilhar seus desejos, alguém que te dê um tipo de amor diferente do nosso.
Jimin ficou em silêncio por alguns instantes, tentando pensar no que responder, porém o tempo certo para uma boa resposta parecia ter se esvaecido. Decidiu apenas desabafar seus sentimentos mais profundos, seus medos mais obscuros.
— Não sei. Eu só pareço ter algum tipo de bloqueio mental quando penso sobre isso. Acho que nunca vou ter um namorado. — Desabou, sentindo os olhos arderem e certa umidade se formar naquele local.
— Oh, Jimin... Não diga isso! — a garota quase gritou, repreendendo o mais novo, assustada com a conclusão precipitada dele. Como um rapaz jovem poderia ter esse tipo de pensamento? — Nunca mais diga isso, pois eu sei que você vai ter um namorado em breve — afirmou, convicta, não sabendo de onde viera tal sensação. Apenas sabia que estava falando a verdade.
— Noona! Faz dois anos que você continua dizendo isso, e até agora nenhum namorado surgiu. — Ele fez bico novamente e cruzou os braços de maneira firme contra o peito.
— Mas agora eu sei. Tenho certeza disso, e estou sentindo que esse dia vai chegar logo — confirmou mais uma vez, sem quaisquer entraves em sua fala. Percebeu Jimin ignorá-la e ficou emburrada. Odiava quando alguém a ignorava. Odiava ainda mais quando seu próprio irmãozinho a ignorava. — Você não acredita em mim, não é mesmo? — O silêncio continuou por alguns segundos, e quando Jimin estava prestes a respondê-la, ela o cortou: — Ok! Não me resta outra alternativa... Vamos! — Levantou-se apressada, puxando o garoto consigo. Precisava levá-lo a um lugar importante que apenas confirmaria todos os seus argumentos.
— Vamos aonde?
— Apenas venha comigo! — insistiu, quase oempurrando à força.
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— Você me trouxe a uma cartomante? — indagou indignado, torcendo o nariz junto a uma expressão de escárnio. O garoto não acreditava muito nessas coisas, mas tinha seu interior tão desesperado para ter uma pontinha de esperança quanto ao seu amor, que acabou cedendo à ideia maluca da sua irmã.
— Sim, é um amigo meu de confiança. Ele é muito bom em prever o futuro. Principalmente na parte amorosa.
Acompanhou a morena e atravessou a porta cheia de correntes de pequenos objetos coloridos — pareciam pedras de um caleidoscópio. Logo pôde sentir o aroma de incenso, extremamente forte, invadindo suas narinas. Depois, passou a observar tudo ao seu redor — a grande mesa redonda que continha várias cartas e peças estranhas em seu ver, provavelmente alguns dos instrumentos que o quiromante utilizaria. Viu também, em uma prateleira, muitos frascos de cores diversas, que pareciam poções. Coisas demasiadamente bizarras ao seu ver, mas relevou.
Por fim, um homem bastante diferente surgiu de outro cômodo, atravessando as cortinas púrpuras daquele ambiente. Tinha vestes parecidas com uma túnica, usava um turbante brilhante na cabeça, maquiagem carregada nos olhos e sapatilhas orientais nos pés. Nada comum.
— Omo! Minha sereia! — exclamou, escandaloso, abrindo um sorriso de orelha a orelha ao encarar a garota. — O que faz aqui? Como posso ajudar? — Chegou próximo à irmã de Jimin, beijando suas bochechas com certa intimidade.
— "Sereia"? — murmurou o loiro, ao franzir a testa em confusão.
— É um apelido que ele me deu — explicou a mais velha, trazendo Park para mais perto do rapaz vidente. — Esse é o meu irmãozinho. Preciso da sua ajuda!
O quiromante deu mais alguns passos em direção ao jovem, o fitando dos pés à cabeça, a fim de perceber sua aura. Foi fácil decifrar que se encontrava, de certa forma, deprimido.
— Procura saber sobre seu futuro, mocinho? — Viu o seu possível cliente balançar a cabeça timidamente, cedendo aos desejos da garota. — Sente-se aqui, por favor. — O guiou com cautela até uma das cadeiras em frente à mesa.
A moça acompanhou o irmão, sentando-se ao lado.
O vidente fez uma pose de concentração, começando a emitir alguns sons de meditação. Sacudiu o corpo três vezes, paralisou como uma estátua e permaneceu assim por cerca de um minuto. Depois, abriu as pálpebras, revelando uma personalidade diferente da anterior — mais séria.
— O que deseja, meu caro? Posso claramente ver em seus olhos um desejo ardente...
Jimin arrepiou-se involuntariamente com um calafrio que percorria suas entranhas.
— Eu desejo... eu desejo ter um... namorado — revelou, por fim, receoso.
— É claro. Vejo através de sua alma que você nunca esteve em um relacionamento amoroso — comentou o cartomante e então puxou uma das mãos de Park para poder analisá-la. Segurou-a com leveza e passou seus dedos pelas linhas vitais do jovem enquanto sua expressão se mantinha indecifrável. Continuou naquela tarefa pelo que pareceu uma eternidade ao ver do loiro, e por fim obteve uma conclusão. — Isso é estranho... — sussurrou, quase que apenas para ele mesmo.
— Isso, o quê? — a garota ao lado indagou, parecendo mais ansiosa e inquieta do que o próprio irmão.
O quiromante soltou a palma do rapaz, pegando várias cartas de sua mesa e as espalhando em uma ordem que fazia bastante sentido para o próprio, mas completamente sem noção para os leigos ali presentes.
— Escolha uma, Jimin-ssi — pediu, de maneira formal. Seu olhar continuava firme, decidido. Apenas precisava daquele gesto para confirmar seu raciocínio. E quando Jimin direcionou seus dedos a um "J" com o desenho de um coração, ou seja, o "Valete de Copas", pôde ter certeza de tudo. — É isso!
— Conte logo, estou curiosa! — interrompeu a morena, tagarela como sempre.
— Park Jimin, não há o que temer. Seu destino está selado! — esbravejou o rapaz, de maneira vibrante, abrindo um sorriso orgulhoso. Por mais que seu emprego fosse, por vezes, estranho e mal valorizado pela maioria das pessoas, tinha muito orgulho por ser bom no que fazia. — Encontrará seu amor em breve. Será alguém do passado.
"Do passado?" o jovem de 25 anos se questionou mentalmente. "Será alguém mais velho do que eu?" continuou pensando, indignado. Teria 26? 28? 30?! 40 anos de idade??? "Dificilmente alguém mais velho fará o meu tipo..." ele estranhou, franzindo o cenho, tentando ver sentido naquilo. Sempre imaginou alguém um ou dois anos mais novo para ser seu companheiro. Estava sentindo uma pontinha de esperança brotar, mas não tinha certeza se deveria apostar sua confiança na criatura que supostamente previa o seu futuro.
— Contudo, precisa tomar cuidado. Esse relacionamento envolve riscos... riscos muito perigosos e fatais!
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