Capítulo 47 - Entre mãe e filha
Mal havia raiado o dia e Loenna já havia despertado; Havia se alimentado, tomado banho e descansado. Entretanto, não continuaria assim por muito tempo; Aquele era O dia. O dia em que o exército de rebeldes marcharia rumo à cidade dos Eran para enfrentar suas mais poderosas armas.
A casa toda já estava de pé às oito. Era o necessário para se chegar no seu destino ainda com a luz do sol. No dia anterior, Loenna avisou a todos os seus discípulos para estarem ao redor da rocha da capital — Um monumento que anteriormente contemplava uma estátua do imponente guerreiro Orisan Eran, que ali estava já fazia mais de duzentos anos; Os rebeldes revoltosos, porém, derrubaram a referência ao homem que fez dos Eran a família mais poderosa de Carmerrum, restando do altar apenas uma imensa rocha no ponto central da cidade. — onde a acústica era melhor e ela poderia ser ouvida com mais facilidade.
— Você acha que eles vão querer seguir para a guerra? — Murmurou ela para Fowillar, já de partida, montada no único cavalo de Euler.
— Não podemos obrigá-los. — Da casa onde o pequeno grupo de seis havia se hospedado, todos tinham suas armas e estavam prestes a enfrentar o inimigo, incluindo o próprio Euler. Mas será que os restantes pensariam assim? — Mas não vejo razões para não o fazerem. Estão inflamados de ódio, e foram bem recebidos por gente que acredita nos nossos ideais. Você não vai perder exército, Loenna.
Loenna fez que sim com a cabeça, mas na barriga ainda sentia frio. De seu bando de 300, quantos restaram? Alguns morreram no embate contra o forte Kantaa, outros no ataque generalizado da tríade dos ricos... Talvez uns cem, chutando alto. Ou noventa, quem sabe? Oitenta... Eram muitas baixas, certamente isso não seria o suficiente para encarar Morius Eran e seus comparsas.
Entretanto, ao chegar na pedra que comportava a falecida estátua de Orisan Eran, Loenna percebeu que não poderia estar mais errada.
Uma multidão de pessoas se erguia radialmente ao redor de seu destino. Quando começou a cortar caminho meio às pessoas, a garota acreditou que estivesse diante de um acidente, mas no minuto seguinte a multidão se pôs a bradar seu nome e então ela notou que era a própria atração.
— Quem é essa gente toda? — Perguntou a Euler. Não eram seus antigos seguidores; Era muito mais do que isso, centenas e centenas de pessoas.
— É a população da capital. — Euler sorriu. — Em peso. A gente acredita em você, Loenna. Eles querem lutar ao seu lado.
— Incluindo você? — Euler não era um homem de batalhas, se ela bem se lembrava; Ele se dava melhor com burocracia. Entretanto, o número 1 sorriu.
— Conte comigo, garota. — Disse ele, puxando uma adaga da cintura. — Não irei mais fugir do que eu acredito.
E, sorridente, Loenna chegou à base da rocha. Lá, Serpente lhe aguardava, com um sorriso orgulhoso; Afinal, Loenna fora sua pupila um dia.
— Vai lá, garota. — Incentivou Serpente, abraçando-a. — É o seu momento.
Loenna, triunfante, deu as mãos para Fowillar e seguiu caminho para o topo do pedestal de onde poderia ser vista e ouvida.
— MUITO BEM! — Ela berrou, forte e plena. Loenna mal podia acreditar que conseguia falar para milhões de pessoas daquela forma sem sentir tremer sua voz. — Hoje nós iremos para a batalha final.
A multidão bradou em glória. Fowillar sorriu, triunfante, e não demorou até Loenna fazer o mesmo.
— Eu... Fico muito feliz que todos vocês estejam aqui. — A garota precisaria garantir se o seu exército pessoal queria apenas aclamá-la ou se seguiriam batalha junto com ela. — Preciso lembrá-los que será uma jornada extenuante e uma batalha custosa, onde certamente haverá mortes. Temos uma mulher grávida entre os nossos e a manteremos aqui para proteger seu bebê, — E, nesse momento, Eliah sorriu. — e quero dizer a todos vocês que não há mal algum em temer a morte. Vocês podem fazer companhia para Eliah Conelli se assim quiserem, mas se optarem por nos seguir, que seja de corpo e alma.
— Não há vida com esses cretinos dominando Carmerrum! — Um homem gritou, balançando seu machado.
— Eu quero dar aos meus filhos um mundo justo para viver! — Uma mulher de cabelos cacheados e pele morena ergueu sua espada para cima.
— Seguiremos Loenna Nalan de corpo e alma! — Respondeu uma garota de 20 anos que carregava um arco nos braços.
Loenna sorriu com o canto da boca; Ela havia conquistado a simpatia de centenas de pessoas, um fato inédito em sua vida.
Fowillar limpou a garganta e dessa vez foi ele quem se pôs a falar
— Sabemos que boa parte de vocês não têm treinamento militar. — Ele não movimentava as massas do jeito que Loenna fazia, mas agora todos pareciam atentos ao esposo de sua comandante. — Mas somos muito mais numerosos que eles e eles não estão esperando nosso combate. Acham que fomos neutralizados há alguns dias atrás. Pois bem... Morius Eran, Nerken Kantaa e o mais recente patriarca da família Saphira, Ismur Saphira, pensam que vai ser fácil nos vencer, mas nós precisamos ser inteligentes. Por isso, bolei a seguinte estratégia de ataque com os soldados que já conhecemos, e os novos podem acompanhá-los...
Fowillar se pôs a falar. Soraya, de pé na base da grande pedra, não fornecia muita de sua atenção para ele; Seu cérebro era como um looping. Só pensava em Rhemi e Gillani. Gillani e Rhemi. Será que havia sido uma mãe tão ruim assim? Bem, tudo o que fizera, fora para proteger suas crianças. Se deparou com escolhas difíceis e talvez tivesse tomado as decisões erradas. Por deus! Soraya tinha a mais absoluta certeza de que se pudesse voltar no tempo e optar por um caminho diferença, teria feito isso.
— Mãe. — Chamou uma voz ao longe, interrompendo seus devaneios.
Soraya se virou no mesmo exato segundo. Sua Gillani se prostrava atrás dela, com os cabelos balançando em sincronia com o movimento do vento, um punhal preso à cintura e olhos escuros brilhantes encarando diretamente os de Soraya. Ela apertava as próprias mãos com força e transparecia ansiedade em seu semblante.
— Sim, Gillani? — Soraya evitaria chamar-lhe de filha; Não sabia como estavam os pensamentos de Serpente à respeito dessa questão.
— Eu pensei sobre você. — Serpente alisou os próprios braços. Pela primeira vez, talvez, parecia desconfortável. — Sobre nós.
— E...? — A barista não podia negar que estava curiosa. Queria saber qual o veredito de sua filha, se ainda havia lhe pesado as decisões ruins que Soraya tomara no passado.
— Eu perdoo você. — Disparou Serpente, por fim.
— Perdoa? — Questionou Soraya. Serpente fez que sim com a cabeça.
— Talvez uma de nós morra hoje. — E atestar aquilo era uma tortura mesmo para ela. — E eu não quero partir brigada contigo.
— Talvez eu morra hoje. — Soraya corrigiu. — Você é Gillani Gaspez, minha filha. Não irão te tirar deste mundo tão cedo.
Serpente esboçou um sorriso sereno. Talvez fosse verdade, mas ela não tinha assim tanta certeza. O futuro era incerto, e a batalha era perigosa.
— Às vezes, temos que tomar decisões difíceis para proteger quem amamos. — Serpente suspirou. — Eu senti sua falta, mãe. Mas eu compreendo o que você fez.
— Se eu pudesse, teria feito tudo diferente. — E Soraya jamais havia dito palavras tão sinceras em toda a sua vida. — Teria dado um jeito de despistar Monvegar Eran e ver você crescer.
— Talvez eu não tenha me tornado quem eu me tornei se você não tivesse sumido. As coisas acontecem por um motivo. — Afinal, foram as adversidades da vida que levaram Serpente a se afundar nos treinos. — Você jamais será, para mim, uma mãe. Mas você pode ser como uma amiga. Eu quero ser sua amiga, Soraya.
— Minha querida... — Os olhos de Soraya se encheram de lágrimas. E Serpente, aproveitando a brecha, deu em sua mãe um afetuoso abraço.
— Eu estou feliz em ter você de volta. — Disse Serpente, apertando a barista entre seus braços.
— Eu também, Gillani. — Soraya fungou. — Você é tão boa de coração. Não sabe guardar rancor, não é?
— Não. — Serpente sorriu. Mesmo depois de anos, Soraya sabia lhe decifrar; Serpente não era rancorosa, não era vingativa. Para que acumular tantos sentimentos ruins, afinal? — Eu sei que você é uma pessoa boa. E eu te perdoo pelo que você fez, porque sei quais são suas intenções.
E, no meio de tanto afeto e tanto carinho, Soraya se lembrou de algo desagradável: Rhemi.
Ela não tivera tempo para sentir a morte do filho, porque estava muito agoniada pensando em Gillani. Mas e agora? Como deveria lidar com a partida de seu filho mais velho de forma tão abrupta, sem que ela sequer soubesse?
— Gillani... — Murmurou Soraya, assim que ambas se desvencilhassem do abraço. — O que aconteceu com Rhemi?
Serpente suspirou fundo. O irmão mais velho era um tanto quanto insistente, irritante e bobo, mas ainda assim era seu irmão. E merecia uma morte mais honrada do que aquela que o destino lhe reservou.
— Rhemi foi morto espancado por um Kantaa em uma patrulha. — Era tudo o que Serpente saberia dizer. — Ele queria vingar a minha morte, e por isso se arriscou desnecessariamente. Me desculpe.
Soraya conteve um pranto. Ela havia sugerido a Rhemi que se juntasse ao bando de Loenna, ela havia sido a algoz de sua morte. Como não se sentir culpada? Este fim não era justo para um garoto tão bom, tão injustiçado e tão renegado por ambos os lados. Uma pena que os verdadeiros valores de Rhemi só tenham vindo a tona meses antes de sua morte.
Bem, ao menos ele havia pagado pelos seus pecados. O céu estaria em festa com um novo integrante ao mundo dos justos.
— Eu sinto muito por Rhemi. — Se dependesse de Soraya, aquela conversa que ambos tiveram no bar ficaria trancada sob sete chaves. Não deixaria nada e nem ninguém manchar a honra de Rhemi Gaspez; Nem mesmo Gillani. — Morreu como um bom homem, lutando pelo que acreditava ser certo. Ele jamais foi um Saphira, apesar de seu sangue.
— Eu não acredito nessas coisas, mas... Se te fizer melhor... — Serpente limpou as lágrimas dos olhos. — Ele está num lugar melhor agora.
Soraya concordou com a cabeça. Ambas sabiam o que o silêncio plácido que se seguiu queria dizer; Era o luto por Rhemi Gaspez, o homem que não escolheu como nascer, mas escolheu como morrer.
E, um minuto e meio depois, Serpente resolveu levantar o astral; O sorriso travesso estava de volta à face de Gillani Gaspez, como tinha habitualmente de ser. Era a mesma Serpente bem-humorada de sempre, aliás.
— Mudando de assunto... — Ela perguntou, ao passo em que erguia uma sobrancelha. — Posso te fazer uma pergunta um pouco pessoal?
Soraya engoliu em seco. Não se dava bem com perguntas pessoais.
— Faça. — Consentiu ela, mas ainda assustada pelo que estaria por vir.
— Nassere Dreyan é, por acaso... — E uma pausa prolongada se seguiu às suas palavras. — Meu padrasto?
Soraya piscou. Sim, ela tinha um envolvimento com Nassere Dreyan, mas... Como Gillani reagiria àquela informação?
— Teria algum problema se fosse? — Que Nassere era fofoqueiro, gostava de aumentar seus feitos e liberava flatulências bastante malcheirosas, Soraya já sabia. Mas será que havia algo sobre o pescador que lhe passara batido?
— Nenhum. — Antecipou-se Serpente, com um sorriso. — É que isso seria um pouco estranho, porque eu transei com a filha dele.
Soraya abriu a boca uma, duas, três vezes. Não sabia o que dizer, parecia confusa; Serpente, divertindo-se com a confusão da mãe, se pôs a rir.
— Você... — E, devido à risada contagiante de Gillani, Soraya juntou-se a ela. — Você realmente gosta dessa história de se deitar com mulheres, hein?
— Ah, você não sabe o quanto. — Serpente piscou. Ambas gargalharam incessantemente até Loenna, do alto da rocha, soltar um grito.
— MUITO BEM! — Berrou a líder, com os cabelos cor-de-fogo cintilando sob o sol da manhã. — Dúvidas sanadas. Vamos marchar até a cidade dos Eran e, pelos cálculos de Fowillar, estaremos lá pouco depois das quatro da tarde. Vocês estão comigo?
A multidão urrou em concordância com Loenna. Era um verdadeiro exército de rebeldes enfurecidos.
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