7. Meias
– É 𝚊𝚚𝚞𝚒? – 𝚁𝚒𝚌𝚑𝚊𝚛𝚍 𝚙𝚎𝚛𝚐𝚞𝚗𝚝𝚘𝚞, ao parar junto a dupla em frente a um grande depósito.
Tinham se passado cerca de 40 minutos desde que o grupo havia deixado o restaurante. Logicamente, o tempo normal da travessia era um quarto disso, mas o andar lento e travado dos robôs obrigava o vigia a esperá-los.
– Aí mesmo – Oscar respondeu, aproveitando a pausa que o humano dera para passar na sua frente e assumir a liderança, não que isso adiantasse muita coisa, porque logo Oliver o alcançara e tomara a mesma posição.
A sombra da construção parecia querer engoli-los. Não havia muita luz por perto naquela parte remota do parque além das poucas estrelas que escapavam da poluição da cidade. Incrivelmente, os mascotes não se incomodavam com essa adversidade. Tinham até mesmo, em alguns trechos do caminho, guiado o humano “cego” em meio a escuridão.
Quando se aproximaram do prédio, Richard conseguiu identificar mais adiante um brilho opaco, que refletia precariamente, porém, de forma distinta a luz da meia lua. Uma porta de metal. O grupo foi de encontro a ela, e, estando agora mais perto, o vigia pode ver como sua superfície estava quase completamente tomada pela ferrugem, fruto de anos de exposição à maresia. Aquela área, sendo mais próxima da praia que rodeava Vulpine Beach, era especialmente vulnerável a efeitos naturais como esse. Em alguns momentos, Richard até chegava a se perguntar como era possível ter um parque cheio de robôs à beira-mar.
Oscar bateu na porta e o som trouxe Richard de volta à realidade. O que ele está fazendo?, o vigia perguntou a si mesmo enquanto tentava prever o que aconteceria em seguida.
– Qual é a senha? – Uma voz aguda exigiu do outro lado, soando meio abafada pelo obstáculo que os separava.
– Somos nós, Oscar e Oliver – então o cangambá encarou o humano pelo canto do olho, antes de adicionar: – trouxemos o guarda-noturno.
Ao invés de uma resposta, ruídos de trancas sendo movidas lá dentro foram ouvidas pelo grupo, até que de repente, uma pequena brecha na porta se abriu e de lá um olho roxo e brilhante espiou.
– “Somos nós, Oliver e Oscar” não é a senha – a criatura disse, em tom categórico. Botou o focinho castanho para fora e continuou: – nem “trouxemos o guarda-noturno”. Mas como vejo que são realmente vocês, dessa vez, vou abrir uma exceção e deixar com que entrem. Da próxima, só com a senha.
A porta só se abriu depois de vários empurrões e rangidos terríveis, claramente, resistindo ao máximo ao que quer que fosse. Só após ceder um espaço mínimo para passagem, uma figura delgada se revelou.
Devido à escuridão, Richard não sabia dizer que animal em específico a criatura de olhos roxos tinha forma. A essa altura, só dava para saber que era algum tipo de doninha ou coisa parecida, por conta das orelhas arredondadas e corpo esguio.
– Vamos, entrem rápido – ordenou o habitante do depósito com urgência. Deu as costas e seguiu na frente sem esperar por eles.
Um de cada vez, os membros do trio foram se espremendo pela abertura estreita. Evidentemente, Richard, sendo bem maior do que os robôs, foi o que mais teve dificuldades, ficando entalado ali por alguns segundos, até que Oliver o empurrasse por trás e o Oscar o puxasse pela frente. Depois disso, o vigia foi conduzido por um corredor estreito e escuro, até avistar uma fresta de luz que se derramava para fora de um cômodo, no qual o levaram.
Estava tão acostumado ao escuro que, inicialmente, o vigia não conseguiu enxergar nada. Passados alguns momentos, seus olhos se acostumaram à luz, e ele viu... Meias?
Richard piscou confuso e esfregou os punhos nos olhos, tentando acordar do sonho ou entender o que tinha acabado de ver.
Sim, meias. Milhares e milhares de meias se encontravam amontoadas em pilhas ao longo de um extenso salão. Alguns montes eram bem pequenos, enquanto outros chegavam quase à altura do guarda. Sem dúvida, todos os tipos imagináveis e possíveis se encontravam ali.
Que tipo de sonho maluco é esse?
– Uma bela coleção, não acha? – A doninha se vangloriou, ignorando a expressão pasma do guarda.
Agora, Richard podia o ver claramente: seu pelo era castanho na maior parte, enquanto a barriga e o focinho eram de cor creme. Assim como Blueberry, ele possuía uma máscara no rosto, só que marrom-escura, no mesmo tom de suas próprias patas e ponta da cauda. Ele também não escapava da moda das gravatas borboleta do parque, e, da forma que o vigia tinha adivinhado antes, era uma doninha, mais especificamente, um furão.
– Demorei anos para conseguir essa coleção, mas cada segundo valeu a pena – o mascote de olhos roxos prosseguiu com empolgação, com o mesmo brilho no olhar que uma criança tem ao mostrar seus brinquedos favoritos. Apontou para uma direção em específico – Veja: tenho pilhas organizadas e sistematizadas por cor e tamanho. Infelizmente, nem todas têm um par e... Algumas ainda não foram lavadas. Não queria ver a pilha de meias sujas.
E o humano realmente não queria. Fez uma careta só de pensar e mudou de assunto:
– Você é Lino? Você é quem vai me ajudar?
Como um passe de mágica, a doninha se virou em sua direção, o encarando enquanto a empolgação infantil dava lugar a compreensão.
– Eu mesmo – o mascote sinalizou para que ele se sentasse, mas como só haviam meias por lá, Richard usou uma das pilhas como banco (mesmo que Lino tivesse o olhado de maneira torta por isso). – E você é Richard, não?
– Sim, eu sou o...
– Guarda-noturno? – Lino o interrompeu de abrupto – todos já sabem. Não precisa explicar. Vamos aos negócios.
Richard continuou cético quanto aquilo. Não conseguia imaginar como meias iriam solucionar os seus problemas.
Nesse exato momento, Oliver e Oscar se afastaram, ficando no canto da sala apenas para observar, como se quisessem dar espaço para os dois.
– A situação é a seguinte: – Lino começou – devido a diversas circunstâncias, às vezes, nós, animatrônicos, oferecemos um trato para vocês, guardas-noturnos. O trato na realidade é um jogo.
– Um jogo? – o vigia repetiu com desgosto. Ele já tinha jogado com Ônix, e, como resultado, quase morrera por isso. Outro jogo era o que ele menos queria naquele momento.
Lino assentiu.
– Se você ganhar, vai sobreviver, além de receber o seu cartão e molho de chaves de volta para pedir demissão.
– E se eu perder?
Os olhos da doninha ficaram sombrios:
– Se você perder, você morre.
– Sério? Mas o que vocês ganhariam com a minha morte?
– Em teoria nada, só quê... – Lino desviou o olhar, desconfortável – eu também não sei.
O furão obviamente estava mentindo, além de deixar claro de que ele não contaria a um simples vigia noturno as reais intenções dos seus semelhantes como um todo. Porém, parecia mais que algo o impedia de contar do que de fato ele estar fazendo isso por vontade própria.
– Mas não se preocupe! – Lino continuou, no melhor tom de otimismo que conseguiu, que ainda sim, mal fizera efeito no guarda – É só você fazer o que eu disser e se sairá bem. As rodadas começam no início do seu turno e você estará praticamente seguro ao terminá-lo.
– Não me leve a mal, mas... – Richard coçou a cabeça, se sentindo inesperadamente um pouco mal por estragar a empolgação do furão – eu não quero participar de nenhum jogo. Vou pedir demissão amanhã.
– Você não pode. – Lino disse com uma calma mórbida, que fez gelar o sangue do guarda – já é tarde demais.
– Como assim? Vocês...
– Nós não vamos forçar você a ficar aqui com violência física – esclareceu o mascote, com o olhar impassível – são somente as normas do parque.
Richard tombou a cabeça para o lado, ficando mais confuso ainda. O que ele queria dizer com isso?
A doninha retomou a explicação:
– No artigo sobre os funcionários, em especial, guardas-noturnos, só se pode pedir demissão com a devolução das chaves e o cartão que foram recebidos – os olhos roxos pousaram no humano – e você já perdeu suas chaves. Sem elas, você está preso aqui.
Apesar de aquilo ter sido a pior notícia que o rapaz já recebera depois da morte de sua avó, ele estava mais incomodado com o fato de que um simples animatrônico soubesse tanto sobre os regulamentos do parque. Como ele sabe dessas coisas?, se perguntou o vigia, ou melhor, como ele teve acesso a elas?
Richard percebeu pela primeira vez como tinha os subestimando. Eles não eram meros instrumentos de entretenimento do parque: de uma forma inexplicável, tinham consciência e vontade própria, raciocinavam e criavam estratégias. Tudo isso igual ou até melhor do que qualquer ser humano.
Apesar de intrigante, o objetivo do vigia não era descobrir o que os tornava assim, mas sim, garantir a sua própria vida. Perguntou mesmo com certa relutância:
– Então, o que eu devo fazer para recuperar as minhas chaves?
– Como eu disse antes, apenas siga as minhas instruções.
– Que seriam?
Lino o fitou novamente, quase esboçando um sorriso satisfeito:
– Volte amanhã com um pagamento e eu te direi. Não se esqueça de que isso inclui as informações de hoje também.
Richard permaneceu atônito. O que um animatrônico de um parque de diversões poderia querer? Dinheiro com certeza não. Ao se lembrar que estava em um depósito repleto de amontoados de meias, o vigia finalmente conseguiu deduzir o que ele queria.
– Você quer mais meias? – perguntou, mesmo que não visse sentido naquilo. Nenhuma meia poderia caber em suas patas largas e robóticas. Só que, depois de pensar mais um pouco, Richard chegou a conclusão de que aquilo poderia ser anulado, porque no fim das contas, o furão era igual a um acumulador humano, do tipo que chamava a si mesmo de “colecionador” e comprava coisas que não precisava em quantidades absurdas.
– Isso mesmo! – Lino disse com aprovação, apontando com a cauda para um amontoado de cores berrantes que chegava a doer a vista – quanto mais malucas, melhor!
– Vou trazer amanhã – prometeu o vigia, apesar de não ter entendido muito o que ele quis dizer com “meias malucas”.
– Ótimo.
O mascote fez outro sinal com a cauda, dessa vez, para sinalizar que Oscar e Oliver se aproximassem. Pela maneira que eles obedeceram ao comando, quase que instantaneamente, o vigia pode perceber que eles possuíam um grande respeito pela doninha.
– Seu turno já deve estar quase no fim - recomeçou Lino – Está na hora de você ir embora. Oliver e Oscar vão te acompanhar para garantir a sua segurança.
***
– Ele seguiu a gente – Oliver reportou preocupado, olhando para trás.
O grupo já estava no meio do caminho em direção ao prédio de administração quando o aviso foi dado. Richard sabia o que aquilo significava e não duvidava de Oliver, mas também, não conseguiu avistar nenhum sinal sequer que pudesse comprovar a presença de Ônix.
– Ele sabe que a gente veio para cá – Oscar concluiu com mais calma – está por perto, mas não nos viu ainda.
– Eu posso esperar o turno acabar – sugeriu Richard, conferindo o relógio de pulso – faltam apenas 15 minutos, e depois disso posso ir embora sem problemas.
– Ônix não segue as regras – disseram os dois robôs simultaneamente.
– Mas...
– Lino nunca fala de Ônix – Oliver revelou, visivelmente mais nervoso do que o companheiro – Não acho que seja por mal, isso só... acontece.
– Todos aqui obedecem às regras, exceto Ônix. Mas, ainda sim, ele é um fator beeem pequeno – emendou o cangambá, tentando tornar a situação mais leve em vão, porque para o humano, o lobo estava longe de ser um problema realmente pequeno.
Richard cruzou os braços e os lançou um olhar acusatório, tornando a ficar irritado. Eles continuavam escondendo muita coisa.
– Quer dizer que então, ele pode vir atrás de mim mesmo após o turno?
O cangambá desviou o olhar, desconfortável:
– É só uma possibilidade...
– Bem provável – o esquilo completou. Claro que ao fazer isso, o companheiro o fuzilou com olhar, mas em resposta, Oliver só deu de ombros.
Oscar, vendo que o estrago já estava feito, voltou a sua atenção ao vigia e pigarreou:
– Você não precisa se preocupar com nada: nós dois conhecemos um caminho por onde ele não irá te seguir.
– Então me mostrem – Richard ordenou.
Os robôs se entreolharam uma última vez, e, para a infelicidade do vigia, deram meia volta. Richard tornou a ficar desconfiado, mas se manteve atrás para ser guiado. Esse trabalho só me traz problema, lamentou-se silenciosamente.
Depois de atravessarem a praça do carrossel e alcançaram o depósito mais uma vez, contornaram o prédio.
O rapaz engoliu seco. Ele sabia que, além do depósito, que se localizava exatamente em uma das extremidades finais do parque, não havia mais nada. Um pouco mais adiante, só havia um penhasco.
O grupo caminhou até a mureta de pedra que demarcava o final da propriedade. Richard parou para observar: dali, conseguia ter uma boa vista do mar, como também ouvir o eco das ondas se quebrando à distância. Tudo ali apontava que o lugar estava mais para um beco cercado de água salgada do que para um atalho seguro.
Mas os dois animatrônicos não pararam, ao invés disso, começaram a andar rente ao muro, se espichando por cima dele de tempos em tempos como se procurassem por algo. Curioso, Richard se juntou a eles, mas nada viu além da água escura e turva.
– Ali em baixo! – Oliver exclamou mais adiante, chamando pelos dois companheiros.
O guarda ainda não conseguia ver nada.
– Lá – Oliver apontou, impaciente.
Seguindo com o olhar para onde o esquilo havia sinalizado, o vigia finalmente conseguiu identificar o contorno de degraus de pedra, que desciam sinuosamente até o pé da encosta. Haviam alguns velhos deques de madeira também. Só que, aparentemente, ainda era um caminho sem saída.
– Você quer que eu vá nadando? – Richard ergueu uma sobrancelha ao se virar para o esquilo. Mesmo que animatrônicos não pudessem o seguir pela água, aquilo era igualmente perigoso para humanos por diversos outros motivos. Richard se esforçou para conter um arrepio de medo ao pensar que teria que escolher entra morrer assassinado por um robô ou morrer afogado.
– Não dá para ver daqui, mas existe uma pequena faixa de praia lá embaixo, que só costuma aparecer quando a maré está baixa. – Oliver prosseguiu, olhando para o nada como se estivesse se esforçando para se lembrar de alguma coisa – você pode a usar o caminho para chegar a praia da cidade. Está conectado a ela.
Richard desviou o olhar, desconfiado. Se eles estivessem mentindo, não haveria como fugir de Ônix naquele lugar sem saída. Ser varrido pelas ondas violentas também era uma possibilidade não agradável.
– Você precisa confiar na gente – Oliver apelou aflito, afinal, o lobo poderia aparecer a qualquer momento.
O vigia fechou os olhos por um momento. Ambos os robôs pareciam terrivelmente inquietos, e, desde que ele chegou ao parque, nunca tinha os visto assim. A coisa era séria.
– Certo... Eu vou então – Richard concluiu com um suspiro infeliz.
Oliver e Oscar ergueram as orelhas, animados, então o levaram até o início da escadaria. Apenas um portãozinho enferrujado bloqueava a passagem, e abri-lo não foi difícil.
O rapaz despediu-se dos dois, já consciente de que eles não poderiam o acompanhar devido à exposição à água. Começou a descer em sua nova jornada solitária.
Os degraus eram estreitos e escorregadios por conta da umidade, estando até molhados em alguns pontos. Felizmente, a parede de pedra irregular ao seu lado proporcionava diversos pontos de apoio, porque sem isso, ele já teria caído lá embaixo a muito tempo. Era evidente que os proprietários de Oz Park não davam a mínima para aquela passagem, ao ponto de não garantirem nem sequer a segurança mínima das pessoas que passassem por ali. Era como se quisessem que aquilo fosse esquecido; não era a toa que o guarda desconhecia o caminho.
Após a descida penosa, na qual chegara a escorregar três vezes, Richard finalmente alcançou a pequena faixa de areia com um suspiro de alívio. Nunca pensou que algum dia ficaria tão feliz em sujar os sapatos.
Oliver estivera certo o tempo todo ao menos em uma coisa. Mas, ainda não tinha acabado.
Olhando ao redor, o rapaz percebeu que se seguisse pela esquerda, não haveria saída, mas pela direita… a prainha continuava mais adiante, quase completamente oculta pelas sombras do paredão de pedra. Somente o brilho da areia a delatava, ainda que de vez em outra, uma onda a engolisse por inteiro, revelando-a novamente após alguns segundos, ao recuar.
A passagem era ainda mais apertada por lá, e, com certeza, Richard acabaria com os sapatos molhados. Mas no fim das contas, era um caminho. Só precisava torcer para que ele realmente levasse a praia de Vulpine Beach, e não para outra cilada.
Ele seguiu com cautela, trincando os dentes sempre quando alguma onda o alcançava e o molhava quase até os joelhos. Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, Richard percebeu que o caminho começara a alargar e que o desfiladeiro ao seu lado minguara significativamente.
Não tardou para que ele alcançasse a praia de Vulpine Beach. O lugar, por sua vez, estava deserto e silencioso, mas ainda era possível distinguir as luzes distantes da cidade, que refletiam quase apagadas como estrelas em meio a névoa.
Richard conseguira!
***
– Então?
Richard encarou o homem à sua frente com expectativas, o próprio que havia o contratado a quase uma semana atrás.
Era tarde no mesmo dia, quase na hora do almoço. Depois de o guarda ter descansado um pouco, (na cidade mesmo, por motivos de praticidade) ele decidira confirmar sobre a questão da demissão da qual Lino havia falado. Afinal, que garantia ele poderia ter de um mascote do parque sobre um assunto de negócios?
O homem, muito cansado e irritado pela sua sala agora suja de areia devido as botas sujas da visita, o encarou de volta:
– Demissão... foi o que você disse?
– Isso. Só que não estou pedindo para sair – esclareceu Richard – só queria saber como funciona para caso eu quisesse sair.
– Ah, entendo... Nesse caso eu pediria a você, suas chaves e seu cartão de volta.
Richard praguejou, um pouco mais alto do que deveria, mas, ao se lembrar que estava na presença de um superior, retomou a sua postura e se esforçou ao máximo para fingir normalidade.
– Algum problema? – o homem lhe lançou um olhar torto. Evidentemente, tinha percebido. Ele estava em um dia ruim, sem paciência para aquilo.
– Não. Nenhum! Está tudo ótimo! – Richard deu um sorriso forçado, em uma tentativa desesperada para disfarçar.
O homem lhe lançou um último olhar inquisitivo antes de retornar ao seu estado inicial de desinteresse. Richard engoliu seco, percebendo que uma vez o assunto estando encerrado, era sua obrigação se retirar. Se levantou desajeitadamente, murmurando um pedido de desculpas e foi embora, temendo por causar uma má impressão.
***
O vigia ainda dispunha de algumas boas horas vagas até o recomeço do seu trabalho. Inquieto, ele andava de um lado para o outro, feito um animal enjaulado, sem saber o que fazer.
A única coisa que ele sabia era que teria que arrumar um pagamento para Lino, por mais bizarro que isso fosse. No entanto, não pôde deixar de sentir que precisava de alguma garantia. Algo além das palavras do furão. Uma coisa sólida, no qual ele pudesse confiar.
Tendo se passado um tempo, após pensar muito, Richard se lembrou de uma das vezes em que ele e seu amigo, Johnny, haviam conversado, mais especificamente, na vez em que ele citara que conhecia alguém que trabalhava no parque.
Era isso!
Richard, com as energias renovadas, foi até a cabine telefônica mais próxima, que ficava encostada na parede do prédio de administração, próximo à entrada. Ele abriu a carteira, pegando os últimos trocados que lhe restavam e depositou na máquina, discando em seguida o número do amigo. Demorou para ter uma resposta. Foi somente na terceira tentativa, com suas últimas moedas, que Johnny atendeu:
– Alô? – a voz do amigo saiu levemente entrecortada, acompanhada de sons de tiro de um videogame - Richard, eu estou no trabalho! Seja rápido.
No trabalho? Até parece!
– Não sabia que seu trabalho envolvia atirar em aliens – disse ele secamente, mas não querendo aprofundar uma discussão desnecessária, foi direto ao ponto – Eu preciso saber do seu colega que também trabalha aqui.
– Está falando do Jake? – outro estouro zumbiu no ouvido de Richard, muito mais forte do que o outro, o fazendo trincar os dentes e quase deixar o aparelho cair no chão. Sem se importar com o amigo, Johnny continuou: – ele deve estar aí agora. É um escritório no térreo, mas não me lembro muito bem qual. Mas falando sério! Ele é meio estran-...
Richard desligou na cara de Johnny. Não tinha o porquê continuar torturando sua audição quando já contava com o que precisava.
Seu novo plano era dar uma visita a esse sujeito mais tarde. Quem sabe, ele poderia ter uma ajuda de verdade com esse tal de Jake, mas sua prioridade ainda era arrumar um pagamento para Lino. Ele não iria arriscar virar alvo de uma doninha agiota robótica, por isso, a única pergunta que se passava em sua mente no momento era: Onde posso arrumar “meias malucas”?
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