13. Saída
– 𝙼𝚎𝚛𝚍𝚊! – 𝚙𝚛𝚊𝚐𝚞𝚎𝚓𝚘𝚞 𝙹𝚊𝚔𝚎, a voz quase inaudível.
Junto a Richard, ambos se encolheram mais no esconderijo, torcendo para que não tivessem sido vistos.
A dupla mal saíra do corredor do último andar e já fora surpreendida pela presença indesejável do animatrônico, tendo assim, questão de segundos para se esconder. E agora, lá estavam eles, confinados no espaço estreito entre a parede e um dos sofás do salão.
A situação era grave. Gravíssima. Nenhum dos dois poderia negar. Se encontravam verdadeiramente encurralados, porque Leroy, que não era burro nem nada, estava exatamente em um ponto entre o elevador e a escadaria, tornando impossível que qualquer um dos humanos conseguisse se esgueirar sob seu nariz até uma das rotas de fuga.
Uma gargalhada sinistra soou, reverberando pelas paredes dos aposentos. Não era robótica nem humana, assim como de Mia. Talvez fosse até pior nesse quesito, porque da mesma forma que a voz parecia ser um misto dos dois, ao mesmo tempo, não se assemelhava a nada. O que quer que fosse isso, nem Richard e nem Jake conseguiriam descrever. Era de dar arrepios.
A criatura deu alguns passos para frente, mas ainda sem abandonar o seu posto. Pelo tilintar de lâminas metálicas e pelo som de tecido sendo rasgado, logo os dois humanos deduziram que uma das poltronas havia ido pelo os ares. Tudo isso, eles sabiam muito bem, era apenas uma amostra do que o futuro os aguardava: em breve, as lonas seriam suas peles, e o estofo mofado, suas tripas.
– Eu sei que você está aí – Leroy anunciou, a voz quase completamente distorcida. – APAREÇA!
Richard, aflito, fitou o amigo, aguardando que ele lhe revelasse algum plano B. Mas a verdade é que não havia nenhum. O peso da missão recaiu sobre os ombros de Jake. Como ele poderia lhe dizer que não sabia mais o que fazer? Logo ele, que estava no controle de tudo desde que pisaram naquela maldita atração? Não. Ainda havia algo que ele pudesse fazer. Era a única opção, por mais que soasse inconveniente.
O mais velho respirou fundo.
– Eu distraio ele – sussurrou – e você vai para a saída.
– O Q-… – Richard mordeu a língua, se interrompendo ao perceber que quase havia levantado o seu tom de voz. Recomeçou, dessa vez, baixinho – Você enlouqueceu?
– Eu vou ficar bem – Jake assegurou, embora suas mãos tremessem – você não pode correr, lembra? Eu alcanço você depois.
O guarda-noturno o encarou seriamente, nem um pouco convencido com aquela ideia. Porém, não podia negar que ele havia levantado um bom ponto: seu tornozelo voltara a doer horrores devido aos movimentos bruscos, e agora, não iria conseguir fugir. Era como um coelho ferido em frente ao predador.
– Eu tenho um plano – insistiu o mais velho – você precisa confiar em mim.
Richard suspirou. Se quisesse que ambos saíssem vivos dessa, teria que confiar nele.
– Está bem – disse o vigia depois de um tempo silêncio – mas só se me prometer que você vai voltar. Me prometa.
– Eu prometo.
Então, sem esperar por outra resposta, Jake tomou coragem e respirou fundo mais uma vez, antes de se arrastar até a lateral da poltrona mais próxima, para evitar revelar o esconderijo do amigo.
– Hey! Lata-velha! – Gritou ele, se levantando de supetão e sacudindo os braços freneticamente para atrair a atenção da criatura. – Estou aqui!
As orelhas de Leroy se moveram com guinchos robóticos ruidosos e o seu rosto se virou em sua direção. Estando mais próximo daquele monstro e se vendo diante daqueles olhos sangrentos, Jake deu um passo para trás e engoliu em seco, quase que se arrependendo instantaneamente de sua decisão. Queria fugir. Queria se esconder. Seus instintos gritavam para que ele saísse dali, mas ele não arredou pé. Vamos Jake, repreendeu-se ao considerar a ideia de abandonar seu amigo, Richard precisa de você.
– I-isso m-mesmo! – Repetiu, tentando em vão soar firme, porque em frente a uma besta assassina como aquela, era praticamente impossível fazer isso. – Vem me pegar!
Mas Leroy não se moveu. Foi só depois de alguns segundos que sua cabeça tombou para o lado, como se estivesse confuso.
– Onde está o guarda? – quis saber ele simplesmente, sem nenhum resquício da agressão anterior.
O humano franziu as sobrancelhas, perplexo com aquela pergunta e com aquela mudança súbita de comportamento. Mesmo que o robô não fosse mais ameaçador, o rapaz não pode evitar dar um pulo para trás quando o animatrônico se movimentou, apontando para ele com uma de suas garras:
– Você não me interessa – Leroy esclareceu – quero saber onde está o guarda! Ele estava com você, não estava?
Foi então que Jake se lembrou do que Mia dissera ao seu amigo pouco antes: era algo sobre não deixar Leroy descobrir que ele trabalhava no escritório. Tendo isso em mente e ligando ao fato do robô se demonstrar apenas interessado em ir atrás do guarda… Só podia significar que ele possuía um ódio específico contra funcionários do parque. Ou seja, Leroy não encostaria uma garra sequer em humanos que não estivessem envolvidos nisso. E, visto que o robô não avançara em sua direção, era quase certo de que ele não sabia que o rapaz a sua frente trabalhava nos escritórios.
A primeira vista era algo bom: Jake estaria em segurança desde que o animatrônico não descobrisse a verdade. No entanto, seu amigo não tivera a mesma sorte por conta do uniforme que vestia, que no fim das contas, acabava por entregar tudo a respeito de seu cargo. Para piorar, agora que ele sabia que não era um alvo em potencial, seu plano inicial de servir de isca não daria certo, uma vez que não era mais atrativo para Leroy. A não ser que…
– Eu não sei onde está o guarda – Jake declarou, se fazendo de desentendido. – Para falar a verdade, também estava procurando por ele. Sabe como é né? Esqueci algo muito importante no meu escritório e voltei para buscar. Mas acho que entrei no prédio de administração errado… E quando trombei com ele por aqui, ele me prometeu que me ajudaria a sair daqui. Mas o perdi de vista nesse breu!
Assim que terminou de falar, o rapaz percebeu que Leroy estava estático, como se estivesse processando todas as novas informações. Feito isso, os olhos da criatura ficaram ainda mais vermelhos e um lampejo de ferocidade atravessou o seu olhar.
– VOCÊ… – Bradou, dando um passo a frente – VOCÊ TRABALHA NOS ESCRITÓRIOS?
Jake engoliu seco, recuando inconscientemente.
– S-sim…? A-algum problema com isso?
– MORRA! – Rugiu a besta.
Leroy saltou para frente, com as garras perigosamente estendidas em sua direção. Como já esperava por isso, Jake tivera tempo de sobra para desviar. O rapaz deu meia volta e correu na direção do corredor. O plano havia dado certo.
Richard, que até então assistira tudo apreensivo, aproveitou a chance que o amigo lhe dera para fugir e cambaleou para fora do esconderijo, usando a parede mais próxima como apoio para se levantar.
Muita coisa aconteceu ao mesmo tempo, e nada parecia certo. Para complicar, sua cabeça latejava devido à dor que o ferimento causava. Ele pensou até mesmo que iria desmaiar, e isso o forçou a parar por um pouco. Quando Richard por fim se recuperou um pouco e a sua tontura diminuiu, ele mancou até o elevador o mais rápido que conseguiu.
Era, sem dúvidas, difícil para Richard lidar com aquele forte sentimento de que Jake poderia muito bem estar em apuros por sua culpa. Ainda sim, ele não podia se dar ao luxo de desperdiçar, por mais que se recusasse a usar essa palavra, o “sacrifício” do amigo. A única coisa que consolava era o fato de o universo ter resolvido lhe dar uma trégua em meio a tanta desgraça: o elevador não havia saído do lugar.
Antes de entrar, o vigia olhou para trás, na esperança de que seu amigo tivesse se livrado do monstro, porém não havia nenhum sinal dele. Deu um passo a frente, colocando apenas um dos pés dentro do compartimento. Deveria mesmo fugir dali sem mais e sem menos, e o esperar do lado de fora, em segurança, enquanto Jake lutava por sua vida? Imagens terríveis do amigo sendo rasgado em tiras pelas garras afiadas como navalhas de Leroy invadiram a sua mente por alguns segundos, mas o rapaz logo sacudiu a cabeça para se livrar desses pensamentos. Jake ficaria bem. Afinal, ele sempre tinha algum plano e sabia se virar. No fim das contas, ele havia prometido voltar.
Richard entrou no elevador de vez, mas quando as portas de metal se fecharam, o pressentimento terrível de que o amigo mentira para si lhe atravessou como um estilhaço de vidro. Sim, essa era a mais pura verdade: Jake havia de fato se sacrificado por ele. O vigia percebera isso tarde demais, ao se relembrar de quando o amigo lhe revelara o plano. Havia um quê de hesitação em suas palavras, um brilho de pavor disfarçado em seus olhos. Richard praguejou. Como pudera ser tão idiota? Tinha que fazer alguma coisa. Mas… o quê?
Ele se pôs a pensar enquanto o elevador descia com destino ao térreo, mas o esforço parecia inútil. Richard não era bom com planos. Era péssimo com estratégias. Só conseguira chegar até onde estava graças à sua sorte e a Jake. Mas agora não havia Jake. E talvez, nunca mais houvesse.
As portas do compartimento se abriram, e o rapaz saiu, com o desespero lhe subindo a cabeça devido à falta de ideias.
Foi então que ele olhou para o corredor à sua frente, tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo. Instantaneamente, se recordou de quando Jake lhe dissera que o prédio de administração atual era praticamente uma réplica do lugar em que se encontrava agora. Se isso fosse verdade, o local possuía uma certa equivalência entre as salas distribuídas por ali, e, em algum canto, deveria haver uma sala de segurança… Era isso!
O mais rápido que o seu ferimento permitia, Richard foi mancando em meio aos corredores. Parecia improvável, e poderia ser até mesmo impossível, mas essa era a única coisa em que o vigia poderia se apoiar, por tanto, valia a pena tentar.
Iniciou a nova busca pelo território sombrio. Para a sua surpresa, o tal escritório não fora difícil de se encontrar: ficava no fim do corredor à direita como o seu próprio. A porta de metal que se estendia à sua frente era inconfundível.
Entretanto, a porta estava um pouco enferrujada pela ação do tempo, e por isso, não cedeu de primeira. Foi necessário que Richard desse uma pequena corrida (como ele pode) para conseguir abri-la. O impulso, apesar de não ter sido o melhor, fora o suficiente. A placa metálica sucumbiu sob seu peso com um som estrondoso, fazendo com que o rapaz caísse no chão no processo. O vigia trincou os dentes, mas não demorou para se reerguer.
Ao ligar o interruptor, o guarda se surpreendeu: aquele escritório era mais diferente do que havia imaginado.
A sala era consideravelmente menor do que a sua, e também, muito mais básica. Ela não possuía sequer um acesso para o lado de fora, o que era uma pena, porque isso significava uma rota de fuga a menos. Deve ser por isso que adicionaram uma saída a mais no prédio atual, deduziu ele.
Foi até a escrivaninha, e lá, encontrou uma versão mais rústica do seu monitor. Por conta dos botões que eram diferentes, Richard se viu com um pouco de dificuldade para ligar o aparelho, mas no fim das contas foi capaz de fazer isso e se pôs a examinar suas funções disponíveis.
As telas se acenderam com um ruidoso som de estática, revelando diversos retângulos que se acenderam vagarosamente um por um, mostrando diferentes locais da própria atração. Todas eram preto e branco por conta do modo de visão noturna. O rapaz mordeu o lábio inferior. Estava com pressa.
Por fim, quando todas as imagens estavam carregadas o guarda reconheceu a primeira delas, que era o corredor escuro pelo qual a dupla havia entrado no prédio. Já o restante, se tratava apenas de outras salas.
Richard estranhou o fato das câmaras não mostrarem nada do restante do parque ao lado de fora, mas acabou deixando isso de lado. De qualquer jeito, não seria útil naquele momento. Seu plano era encontrar mais rotas de fuga e descobrir onde estavam Leroy e Jake.
E lá estavam eles, no escritório do proprietário: a imagem mostrava Jake, encurralado em um dos cantos da sala, enquanto Leroy, se aproximava cada vez mais, pronto para o bote. Os pesadelos de Richard estavam ganhando vida.
Não!, o vigia desesperou-se. Era tarde demais? Ele não podia se conformar com aquilo e apenas assistir o seu amigo morrer, sem fazer nada. Em pânico, ele apertou todos os botões que lhe eram desconhecidos, na esperança que algum deles pudesse ser útil.
Um zumbido pairou nos seus ouvidos, e, para a sua surpresa, nos de Jake e de Leroy também.
O humano do outro lado pareceu confuso, olhando ao redor até encontrar a câmera e encará-la. Foi aí que Richard percebeu que todas as câmeras tinham uma função de som, e, com isso… ele poderia salvar o seu amigo!
Era possível através das caixas de som o guiar até alguma saída próxima, e… isso já não acontecera antes?
Richard, ao pensar melhor, percebeu que de fato o mesmo já ocorrera antes, só que consigo, quando entrou no local em uma ocasião antes e uma voz misteriosa lhe mostrou o caminho sem revelar a sua identidade. Sabia agora que tinha sido feito da segunda mascote da atração. Mas também, notara outra coisa importante, um estranho pressentimento antigo de quando encontrara pessoalmente com Mia pela primeira vez. Na ocasião, ele estranhou a sua voz. Claro, ele não demorou para identificar que pertencia a mesma pessoa, ou melhor, ao mesmo animatrônico, mas havia uma diferença bem sútil: nenhum ruído de estática foi ouvido como anteriormente. E, considerando que não vira sequer rastro dela muitas noites antes, imaginou que só poderia ser isso, as caixas de som.
Mas… se ele fizesse o mesmo com Jake, Leroy com certeza ouviria também, já que estava ao seu lado. Isso impossibilitava o seu plano. E se ele usasse isso ao seu favor, para manipular apenas o animatrônico?
Richard engoliu em seco. Então, sem mais demora, ele acionou o áudio do salão de entrada do andar onde estava Jake e a besta assassina.
– Hey! Sua ratazana! – disse o vigia no microfone, torcendo internamente para que Leroy não percebesse o leve ruído de estática em sua voz – Estou aqui!
Ao olhar para o retângulo que exibia o escritório, o humano presenciou os olhos do monstro ficarem mais vermelhos, até que, irado, ele marchou até a saída do cômodo. Talvez o insulto tivesse funcionado bem até demais, ao ponto de poder piorar a situação caso um passo em falso fosse dado, mas agora, o vigia não podia voltar atrás ou hesitar.
– Olha só! – continuou Richard – Meu tornozelo dói tanto! Eu nem vou conseguir correr…
Dito isso, foi questão de segundos para que a silhueta do mascote invadisse o retângulo que filmava o salão. O animatrônico olhou de um lado para o outro, à procura da sua segunda presa que não deixara rastros, sem sequer suspeitar de que ela, na verdade, estava muito longe dali, sã e salva. O plano havia dado certo!
Com uma nova determinação, Richard não deu a chance para a criatura questionar ou voltar para o corredor. O rapaz fez o mesmo de novo, só que dessa vez, no andar de baixo. Quando Leroy foi atrás novamente, o vigia mudou o áudio para outro cômodo próximo, e assim, foi repetindo o processo diversas vezes, a fim de ganhar tempo para o seu amigo fugir.
Torceu para ser o suficiente, porque, Leroy, poderia descobrir a farsa a qualquer momento, e, caso isso ocorresse, o resultado não seria nada bom.
***
Jake desabou no chão assim que Leroy abandonou o escritório antigo do proprietário.
Essa foi por pouco, pensou, sentindo o coração ainda acelerado, muito pouco.
No fim das contas, fora Richard que viera com uma solução e o salvara, e não ao contrário.
Por certo, seu amigo havia descoberto uma sala de segurança no prédio, conseguiu deduzir, no entanto, a função de áudio lhe foi inesperada. Jake teve que admitir que nunca imaginou que houvesse algo assim dentre as ferramentas de vigilância, tanto nas novas quanto nas velhas, e mesmo que soubesse da existência delas, provavelmente as acharia inúteis e ignoraria.
Jake sempre fora o tipo de pessoa que gostava de saber das coisas e ter tudo sob controle, mas Oz Park nunca deixava de surpreender – eis um dos motivos dele de detestar tanto aquele lugar.
Sacudiu a cabeça para desanuviar e voltou ao presente. Ainda pálido e com o corpo trêmulo devido à experiência de quase morte, ele se levantou custosamente. Quando finalmente conseguiu se manter de pé, saiu para o corredor que agora estava vazio e acendeu a lanterna ineficiente do seu chaveiro. Andou rápido e silenciosamente, alcançando pela terceira vez naquela noite o salão de entrada.
Jake olhou em volta, pensando no seu próximo passo para sair dali. Usar o elevador agora poderia ser arriscado, concluiu ele, porque Leroy, já conhecia aquele truque. Fazer isso, seria como dar um tiro no próprio pé. Usando as escadas, seria possível ao menos fugir ou o despistar em meio a um dos patamares, mesmo que fosse extremamente cansativo e arriscado. A decisão estava feita.
O rapaz correu escadaria abaixo, se esforçando ao máximo para não fazer barulho ou tropeçar nos próprios pés.
Um andar. Dois andares. Três andares… Quantos andares eram mesmo? Ele nem sabia mais, apenas descia aquele caracol quadrado infinito às cegas. Parecia um pesadelo. Tudo naquele lugar era como um pesadelo. E, quem sabe, se saísse vivo dessa, realmente passaria a ter pesadelos com isso?
Depois do que pareceu uma eternidade, chegou ao último degrau.
***
Richard se iluminou de esperança por de trás das câmeras ao observar seu amigo chegar são e salvo ao térreo. O mais difícil já havia passado. Agora, só bastava concluir a última etapa do plano, que era conduzir Leroy ao último andar, com o objetivo de conseguir tempo o suficiente para que pudessem cair fora dali.
Mas, assim que se voltou novamente para o retângulo do cômodo do qual havia “deixado” o animatrônico, seus olhos se arregalaram.
O mascote havia sumido.
Richard clicou diversas vezes no mouse, recarregando a imagem até perder as contas, se guiando pelo pensamento ingênuo de que aquilo talvez fosse apenas um bug. É claro que, no fundo, ele sabia que a verdade era outra. Estava na hora dele encarar esse fato: o animatrônico saira do lugar.
Por sorte, encontrou-o novamente na câmera do corredor no terceiro andar. Só que, como ele temia, o robô seguia rumo às escadarias.
É só eu prosseguir no que eu estava fazendo antes, relembrou a si mesmo para controlar o nervosismo. Levou as mãos até o botão de áudio em um cômodo próximo e o ativou, mas Leroy ignorou completamente.
A distração havia perdido o efeito.
O vigia soltou diversos palavrões, ignorando toda a educação que recebeu durante a vida. Por fim, se forçou a manter a calma, tentando pensar no que faria a seguir. Era óbvio que só lhe restava uma última e única opção: meter no pé o quanto antes e torcer para ele e Jake escapassem das garras do robô assassino. Saiu do escritório apertado e foi de encontro ao seu amigo, contrariando todos os seus instintos que lhe gritavam para não regredir caminho e não mais chegar perto da besta.
As câmeras haviam lhe dado um bom senso de direção em todos os cantos da atração. Sabia agora onde ficavam as coisas mais importantes e não se sentia mais tão perdido.
Logo que encontrou o amigo, ao pé da escadaria, disse:
– Precisamos sair daqui. Agora. – E antes que Jake pudesse fazer qualquer outra coisa, Richard o puxou pelo pulso, mas, devido ao seu tornozelo machucado, foi ele, ironicamente, quem acabou sendo arrastado.
Trincou os dentes, frustrado por não conseguir aumentar o passo.
– Você não o atraiu até o último andar? – Perguntou Jake apreensivo.
– Eu tentei fazer isso. Mas ele ignorou!
O mais velho assentiu e não disse nada. Estava óbvio que mais cedo ou mais tarde Leroy perceberia a farsa.
Felizmente, faltava pouco. Muito pouco. A dupla dobrou o último corredor, que levava diretamente a uma das saídas. Mesmo assim, aos olhos de Richard, parecia que cada passo que dava se arrastava por uma eternidade. Ele sentia dor. Sentia cansaço. Sentia medo. Seria realmente capaz de sair vivo dessa? Jake também tinha dúvidas assim. Ele olhava para trás de tempos em tempos, conferindo se Leroy os seguia ou não.
Por fim, alcançaram a porta.
Ao abri-lá, uma corrente de ar gelado noturno irrompeu com força pelo corredor, refrescando a face dos dois humanos. Antes que Richard pudesse se dar conta, estava batendo os dentes. Percebeu pela primeira vez o forno que era dentro do prédio, mas, apesar do frio que sentia, era reconfortante estar de novo em um ambiente aberto. Então, fechou os olhos e permitiu que o vento levasse embora o ranço das andanças em meio aos corredores bolorentos.
– 5:54 – Jake sorriu ao seu lado, antes de sair da soleira da porta – conseguimos.
O guarda, se permitindo finalmente relaxar, deu alguns passos para frente e desabou no chão, assustando o seu amigo.
– Conseguimos? – Repetiu Richard, a voz fraca, sem ao menos levantar a cabeça para se fazer mais audível. Seus olhos marejavam de felicidade e alívio.
Eles haviam conseguido. Estavam livres de uma vez por todas! Depois daquela noite, jamais voltariam a pisar naquele lugar novamente. Não teriam mais que se preocupar em sobreviver a animatrônicos assassinos. Nada mais de Blueberry, Ônix, Leroy ou qualquer outro mascote. Nem mesmo Oliver e Oscar.
– Sim. Foi difícil, mas conseguimos vencer o jogo, e…
A expressão de Jake, antes amena, de repente se tornou aterrorizada.
– E…? – Richard quis saber, aguardando impaciente que o amigo continuasse a frase.
– RICHARD, SAIA DAÍ!
Por puro reflexo, o rapaz rolou para longe no chão, bem a tempo de desviar do golpe de garras.
Ainda sem entender o que tinha acontecido, ele ergueu a cabeça, só para ver que estava a menos de um palmo de distância do focinho distorcido de Leroy. Seus olhos escarlate estavam mais próximos do que nunca e emanavam um ódio sobre-humano.
Foi um erro pensar que o animatrônico se limitava apenas ao seu território, e agora, Richard pagaria muito caro por isso.
Leroy voltou a erguer suas garras, pronto para o rasgar ao meio.
Dessa vez, não haveria como Richard fugir. Seu destino estava selado.
O rapaz fechou os olhos, aguardando pelo seu terrível fim e rezando para que pelo menos tudo acabasse em um golpe só.
Mas… segundos se passaram e nada aconteceu. Seria normal, ter que esperar tanto assim? Só poderia ser. Bem que ele se lembrava de ter ouvido falar por aí que a mente humana sempre prolongava os últimos momentos, a fim de tentar oferecer algum conforto diante da morte. Só que… pensando melhor, talvez estivesse realmente demorando demais.
O rapaz decidiu arriscar e abriu um único olho. A criatura não mexera um bigode sequer, e os seus olhos, antes vermelhos e brilhantes, agora se encontravam apagados e sem vida.
Richard, que não conseguia se levantar por completo, fez o que podia para se afastar: se sentou e impulsionou-se com os pés contra o chão, conseguindo alguns poucos metros de distância da criatura. Leroy, entretanto, não foi atrás, continuava paralisado como uma estátua.
– A-acabou a bateria dele? – Richard perguntou, a voz esganiçada de medo.
Jake piscou, tão confuso quanto ele.
– Não tem como a bateria dele ter acabado. Para início de conversa, ele nem deveria se mexer – o mais velho ergueu o pulso e conferiu as horas – são seis da manhã. Acho que oficialmente só acaba nesse horário, seja lá porque.
Richard arquejou, escorregando e se arranhando mais no cascalho conforme tentava se levantar. Jake, percebendo como fora horrível em o deixar ali, se apressou e o ajudou a se levantar. Em seguida, conferiu se estava tudo bem com o amigo.
Soltou um suspiro de alívio. Tinha sido mais um susto mesmo. Tirando o machucado de antes no tornozelo e alguns leves arranhões, Richard estava praticamente intacto.
Ele ainda conseguia ficar de pé, mas continuou apoiado no amigo, esperando pelo menos o choque passar.
Não tardou para que ambos fossem ofuscados por um brilho forte. No horizonte, o sol começou a nascer, tornando as nuvens laranjas e iluminado o parque com os primeiros raios de luz da aurora.
A escuridão havia chegado ao fim.
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