Feliz aniversário e "amo-te"
"The wind blows deep
into my heart
Picking at the
flower petals"
— Let me in, Haseul
A correria para organizar um baile deixava-me ocupada por grande parte do dia, escolhia modelos de vestidos, comidas, decoração, quem seria convidado, quem não seria, se chamaríamos parentes distantes ou não. A outra parte era passada na biblioteca ou no jardim, às vezes na cozinha observando a destreza de como a mulher fazia as coisas sozinha, já que tínhamos apenas três empregados contando com ela. Com certeza, ali era um dos lugares mais tranquilos da casa, longe de qualquer coisa e onde me sentia segura.
Se passaram sete dias desde quando a minha gata apareceu. Ela se recuperou tão rápido que fiquei impressionada, mas agora estou esperando os filhotes e com medo dela preferir ir embora. Ainda nem tinha escolhido um nome, continuava chamando-a de gatinha ou gata, já que ela parecia até gostar de ser chamada assim.
Também faziam sete dias desde a última vez que vi Kahei. Faltam apenas horas para o meu aniversário e ela não apareceu, por ser noite, já aceitei a ideia de que ela não apareceria, mas uma pontinha de esperança ainda restava, insistindo que talvez ela aparecesse de mansinho na madrugada, no entanto, faltando menos de horas para a meia-noite e, consequentemente, meu aniversário, Kahei não se arriscaria considerando que ela poderia me ver no baile de comemoração, mesmo que fosse ao redor das poucas pessoas convidadas.
Durante o jantar meus pais ficaram em um completo silêncio. Pareciam pouco emocionados considerando que em pouco tempo eu completaria dezoito primaveras, mas eu sabia o que se passava na cabeça deles: não havia um pretendente. Simplesmente todos acharam alguém melhor, ou mais nova ou mais rica, oferecendo um dote quase o dobro do meu. Cada vez mais as palavras de Kahei faziam sentido, aquilo era apenas um negócio e eu, a mercadoria.
Fiquei pensando muito sobre a falta de interesse em mim da parte dos homens e de seus pais. Eu não era rica, mas meu dote tinha uma quantidade boa de moedas que foram juntadas com muito esforço, a casa que morava agora podia ser pequena quando comparada com as outras da vizinhança. Não sabia tocar instrumento algum mesmo que soubesse cantar muito bem e atingir notas altas com perfeição, sabia o básico do francês para manter uma conversa. Não era o suficiente?
Comparações injustas com mulheres da alta sociedade que encontrei em bailes dos mais diversos, muitos deles por convite de Kahei que recebeu licença para chamar quem quisesse, prosseguiram como um mosquito irritante ao redor da minha cabeça. Seria mentira dizer que elas não eram belas, eram tão bonitas que não admirava-me que tivessem a casado tão cedo. Expondo seus trajes chiques e joias que talvez custassem o dobro de toda a decoração de minha casa, com cabelos perfeitamente curtos ou tão longos que deixá-los preso era difícil, uma tortura completa. Pensando assim, os motivos preencheriam um livro com mais de cem páginas.
Quando troquei de roupa e fiquei sozinha, apenas com a companhia sonolenta da minha gata, levei o pratinho com a vela até a minha minúscula penteadeira, tentando observar um pouco do meu rosto. Puxei um antigo relógio de bolso de uma das gavetas, havia o deixado ali alguns meses atrás e nunca tinha procurado por ele novamente. Os ponteiros marcavam onze e quarenta e sete, poucos minutos faltavam para a meia-noite mudar o último dígito da minha idade.
Tirei a vela da penteadeira e coloquei-a no baú, sentando no chão depois e seguindo os desenhos dourados em relevo com o dedo indicador um tanto trêmulo. Memórias enchiam tudo ali dentro até transbordar, mas eu não me atrevia a abri-lo novamente. Um sentimento de pura nostalgia tomou conta e finalmente percebi o quanto sentia falta da minha infância, sem qualquer preocupação com aparência ou se estava comportando-me bem e sem infringir alguma regra sobre comportamento feminino aceitável.
Com os pés descalços e gelados andei até a cama, que parecia tão longe quanto se era imaginável. Fui acompanhada pela gatinha que andou devagar até a cama improvisada, se lambeu um pouco e finalmente adormeceu. Fiquei observando o teto, entediada e ansiosa até achar que já era o momento de apagar a vela.
Acordei com a cozinheira entrando no quarto como todos os dias, mas hoje ela não trazia um balde com água, apenas um vestido dobrado nos braços. Sorrindo, ela o deixou na beira da cama e se sentou ao meu lado.
— Levante que já está muito tarde e o baile começa três e meia. — Disse segurando minha mão e batendo de leve com a sua que estava livre. — Nem acredito que já fazem dezoito anos desde o dia em que a senhorita nasceu. Estamos ficando velhas. — Riu e se levantou enquanto alisava a roupa e o avental. — Feliz aniversário, srta. Haseul.
— Obrigada. — Levanto-me e dou um abraço nela, que ficou parada por um tempo até decidir em abraçar também. Minha gata entrou no meio enquanto arranhava a minha saia. — Céus, que gatinha mais ciumenta! — Falei abaixando-me para pegá-la no colo.
Passava das duas horas da tarde, saí do quarto e vi meus pais na sala de estar enquanto conversavam no único sofá que sobrou no lugar. Eles se levantaram e me deram abraços, quando se afastaram a cozinheira não estava mais aqui. Minha mãe disse para eu tomar logo um banho e ela começaria a se arrumar, depois me ajudaria. Fiquei um tempo observando a sala, mas saí dali quando me avisaram que o banho estava pronto.
O vestido coube perfeitamente depois de alguns ajustes feitos rapidamente. Era verde claro feito de musseline e com mangas de renda da mesma cor por escolha minha. Minha mãe ajudou com o penteado que foi a parte mais complicada pelo meu cabelo estar muito curto, mas conseguiu prender a parte de cima e deixar a de baixo solta. A roupa dela era um vestido creme simples, o cabelo longo preso em uma trança. Ficamos prontas pouco tempo depois de dar três horas.
A decoração estava quase toda no jardim, a cerca enfeitada com algumas flores assim como a mesa com bolo e alguns doces. Minha gata se lambia nos degraus da casa e parou quando me viu, subindo os dois restantes e voltando para dentro. Não demorou muito para os primeiros convidados chegarem: Kahei e seus pais. Eles não estavam sozinhos, junto deles havia um casal e um garoto que parecia pouco mais velho que eu, todos vestidos muito elegantemente.
Kahei olhou para mim e sorriu, cochichou algo no ouvido da mãe logo antes de começar a andar rápido até mim. Seus pais estavam sérios assim como os meus, mas a cozinheira sorria enquanto terminava alguns detalhes da organização. Senti os braços da garota envolverem meu pescoço e levei os meus até sua cintura, a apertando da forma mais forte que conseguia como se ela fosse um sonho muito bom, tão bom que eu tentava me lembrar dele a cada segundo somente para não esquecê-lo. E percebi que sim, de certa forma, ela era um sonho bom, o melhor de todos que já tive.
— Feliz aniversário, Haseul! — Ela disse soltando seus braços, mas eu ainda continuei com os meus em sua cintura por um tempo, poucos segundos até perceber que já poderia soltá-la. — Meu presente está com meus pais, venha. — Disse me pegando pela mão e me puxou até onde eles estavam.
O presente era um exemplar do meu livro favorito em francês. Entre as páginas dele tinha um pequeno papel com um recado escrito na caligrafia caprichada dela: "Espero que consiga ajudá-la a aprender. Quando pensar em desistir, lembre-se de quem está a poucos metros de distância. Amo-te de todo o meu coração, de sua querida Hei.", descobri-o apenas no outro dia na biblioteca.
Ficamos juntas durante todo o tempo antes da minha família começar a chegar, mas ela ainda acompanhava-me enquanto os recepcionava, se afastando quando um deles me entregava presentes ou ao ser chamada por seus pais. Quando todos chegaram já passava das cinco horas e o céu começou a trocar sua cor azulada para os tons de laranja, rosa e roxo.
Alguns convidados haviam levado seus instrumentos, principalmente violinos, para tocarem e darem um pouco mais de animação ao baile. Alguns casais se juntaram para uma dança lenta enquanto eu estava junto com meu primo, implorando para que a música não fosse longa demais mesmo sendo bela. Ao longe, pude ver Kahei rodopiando com o garoto que estava com ela mais cedo, desejei por um curto momento que ela não estivesse nos braços dele, sim nos meus. Quando consegui me concentrar novamente na dança, ela já estava para acabar.
Velas apagadas, bolos cortados e comidos, um sentimento perfeito de alegria por esses momentos em um dia especial, parecia infinito, completo como se o tempo passasse do meu desejo, lento e calmo, mas não. A lua nasceu como um aviso, precisavam ir para casa antes de ser tarde demais, então apenas aceitei, despedidas aqui e lá, agradecimentose, sorrisos, vozes rodando confusas na minha cabeça sendo difíceis de raciocinar. Logo eu estava quase sozinha ali, ajudando a tirar as flores da cerca junto com Kahei enquanto os empregados voltavam a mesa para a sala de jantar.
— Estas foram as últimas. — Avisou e pegou a vela de onde estava. — Podemos voltar lá para dentro e eu vou para casa mais tarde, ou durmo aqui. Posso dormir aqui?
— Claro que pode, seus pais sabem? — Perguntei pegando as flores dos seus braços de forma que se juntassem as minhas. Ela segurava a vela de forma que conseguia iluminar um pouco seu rosto além da pouca luz lunar.
— Sabem e não se importam, ou fingem não. — Disse aproximando-se um pouco mais quando eu deixei as flores em um canto. — Vem, vamos entrar.
Talvez eu estivesse enlouquecendo, mas ela não se moveu, apenas ficou ali observando-me. Com a mão livre da vela, passou uma mecha do meu cabelo por trás da orelha já que meu penteado havia se desfeito na hora da dança. Aproximou um pouco mais o rosto e sorriu, encostando nossas testas de um jeito fofo, presa em seus próprios pensamentos que não cabia a mim descobrir.
— Feliz aniversário, Haseul. Amo-te. — Ela disse e se afastou, olhando novamente nos meus olhos.
— Eu também.
Percebi ali que estava apaixonada que não havia volta ou saída, ela tinha entrado em meu coração há muito tempo, de qualquer forma. Era puro, inocente demais, por que eu era uma pecadora, então? Não via problema algum em amá-la mesmo que ela tivesse algumas partes como as minhas, então por qual motivo veriam?
Mesmo assim, o pensamento sobre ser amor independentemente do que diziam não evitou algumas lágrimas rolando enquanto sentia culpa quando estávamos juntas no meu quarto. Ela dormia calmamente ao passo que eu chorava, me esforçando para fazer o máximo de silêncio.
O desespero deixou minha respiração acelerada e descompassada, me consumindo cada vez mais. Quando decidiram que eu era culpada por amar, afinal? Não sei, mas já estava me condenando antes mesmo deles, pois sabia que suas reações seriam piores em comparação aos meus pensamentos. Seria tortura por um sentimento do qual nunca poderia aflorar e transformar-se em belo, pois seríamos vistas como escórias, não como amantes.
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