Baile e beijos
|Resembling you
Tamed by you
I’m your only girl
— Let me in, Haseul
Meu corpo sacolejava na carruagem durante todo o caminho até a casa de Kahei, onde o baile de comemoração pelo noivado finalmente aconteceria. Eu estava feliz, era uma festa afinal, mas ainda assim triste pelo que era representado ali, não tinha o que fazer já que o casamento de verdade estava marcado para exatamente uma semana, apenas precisava aceitar isso.
Quando cheguei, pude ver o jardim iluminado por velas e tochas até a porta, lá dentro parecia estar igualmente claro. A propriedade estava cheia, várias mulheres enfeitadas com joias caríssimas bebiam champanhe conversando em grupos ou duplas. Olhando ao redor tentei encontrar pela anfitriã, mas ela não estava por ali. Cumprimentei as pessoas que meus pais também trocaram algumas palavras conforme andávamos na direção da entrada para a casa. A cada passo dado, meu coração acelerava um pouco mais, temia que até encontrar a quem eu tanto procurava ele já não conseguisse mais bater.
Muito pelo contrário do que imaginei, assim que entrei pude vê-la tomando uma taça de champanhe encostada na parede enquanto ouvia uma mulher alta e muito magra falar. Imaginei que se tratasse de alguém da família pela semelhança entre as duas, então decidi apenas ficar por perto. Meus pais encontraram um homem conhecido e fizeram questão de me manter presa por perto apenas para falarem das minhas qualidades, já que sabiam sobre o filho dele, me fazendo revirar os olhos diversas vezes.
Quando meus pais saíram para respirar um ar fresco, peguei uma taça de champanhe da mesa e virei de uma vez, simplesmente por curiosidade, mas acabei engasgando. Tapei a boca com a mão tentando não tossir, fazendo um barulho ridículo que por sorte não chamou a atenção de muitas pessoas. Virei apressada na intenção de ir para longe da mesa antes que alguém me visse ali, terminando por esbarrar com Kahei.
— Pensei que seus pais não te deixassem beber. — Ela disse com os braços cruzados, mas depois de alguns segundos me encarando, abraçou-me. — Está linda, muito linda! O vestido é novo?
Claramente não era, mas eu nunca tinha o usado em um baile ou na presença dela. O tecido era lilás e de mangas longas, tinha bordados de flores cor-de-rosa feitos por minha mãe na barra e na cintura, era o meu favorito depois do verde feito com musseline que usei no meu aniversário. Contei para ela, que não pareceu se importar com isso, insistindo que era lindo.
Kahei não ficou muito tempo por perto, logo sua mãe apareceu e disse que sua presença estava sendo requisitada por um alguns parentes do noivo sem nem ao menos me cumprimentar antes de sair apressada, ao contrário da filha, que acenou para mim e levantou os sombrancelhas, como a dissesse "fazer o quê?". Não fiquei por muito tempo sozinha, um homem se aproximou de mim chamando-me para dançar e, conhecendo meus pais como eu conheço, se eu negasse precisaria ouvir um sermão tão grande quanto o que o padre faz todos os domingos.
Era a primeira dança que participaria desde a minha chegada, então estava consideravelmente animada. Os pares se organizaram para começar a valsa e os músicos posicionaram seus instrumentos, começando a tocar uma música muito ouvida por mim em outras ocasiões. Não conhecia a pessoa com que estava dançando, mas ele passou a me entediar assim que iniciou um assunto sobre suas inúmeras viagens e, inclusive, fazer comentários extremamente ofensivos sobre meu país de origem, o que fez com que eu me perguntasse se ele imaginava o quão desconfortável estava fazendo com que me sentisse. Por sorte, a música acabou em não mais do que três minutos.
Saí da casa e fui até a porta dos fundos, lá tinha uma escada que com certeza estaria vazia, então poderia ficar sozinha por um tempo. O sol já tinha desaparecido no horizonte e o céu estava tomado por estrelas brilhando intensamente, nenhuma nuvem as atrapalhava, mas em comparação a beleza contemplada por mim, o tempo era extremamente frio, então não fiquei muito do lado de fora e entrei.
Andei apressada pelo corredor vazio até encontrar a biblioteca, que era o único cômodo quase vazio pelos outros estarem com os móveis retirados da sala para originar um maior espaço e, por isso, os casais poderem dançar. O ambiente estava completamente escuro, sendo iluminado somente pela fraca luz do jardim enfeitado que entrava através das cortinas ou do corredor por baixo da porta, apesar disso eu finalmente fiquei confortável desde o início daquela noite. Sem mulheres fazendo fofocas ou homens se vangloriando por grandes nadas, nem a sensação persistente de insegurança e insuficiência, um pouquinho de paz chegou ao meu coração.
Quando a maçaneta se mexeu, meu coração começou a bater mais rápido. Poderia ser os pais de minha amiga, os meus pais, algum empregado, o noivo ou alguém de sua família, mas por sorte não era ninguém dessa pequena lista que falei anteriormente, consegui ver pela luz de quando a porta abriu que era Kahei, estava chorando e soluçava. Levantei rápido e fui até ela, notei seu corpo estremecer antes de perceber quem eu era e me abraçar.
— Eles são horríveis, aquela família inteira é horrível, Haseul. — Kahei disse me apertando contra si e molhando um pouco do meu vestido. — Não quero me casar com quem não me respeita e eu não amo.
— Calma, o que aconteceu? — Perguntei pegando na mão dela, nos dividindo para o sofá
— Nada que já não estejamos acostumadas, tanto sendo estrangeiras quanto mulheres. — Ela suspirou e deitou a cabeça no meu peito, ficando com o rosto meu próximo do meu. — Eu queria fugir, ir para bem longe e viver feliz, tão feliz que tudo isso dos últimos dias seja recompensado.
— Você não imagina o quanto eu queria o mesmo. — Falei acariciando o rosto dela e vendo seu sorriso surgir de leve.
Ficamos assim por um tempo, até que uma música começou a ser tocada e o rosto da minha amiga se iluminou por completo. Reconheci a música assim que ela se levantou animada, mesmo com o rosto ainda molhado pelas lágrimas, era a sua favorita. Kahei começou a tentar me puxar do sofá, pedindo para dançar antes que os primeiros acordes indicassem que já tinha iniciado. Eu amo vê-la feliz, então não me importei com o meu coração batendo mais forte quando ela botou sua mão em minha cintura para me conduzir na valsa.
Em todos os passos continuamos a encarar uma a outra. Um misto de sensações corriam pelo meu corpo e, talvez pelo escuro, penso que o mesmo ocorria com Kahei embora a felicidade estivesse claramente estampada em seus olhos. Faltava um bom tempo para a música terminar, então apenas aproveitei o tempo que me sobrava nos braços dela. Rodopiamos por toda a área livre do cômodo como se estivéssemos flutuando, era o momento mais perfeito de toda minha vida.
— Haseul. — Chamou baixinho e eu sussurei um "o que foi?" em um tom igualmente baixo. — Acha que eu estou louca por querer muito te beijar agora?
Senti que poderia sair voando tamanha minha felicidade era, mas não soube demonstrar. Pisquei diversas vezes antes de sorrir tanto que não lembra a última vez que sorri tão largamente quanto agora. Kahei tomou isso como um não e voltou a falar.
— Está tão linda hoje quanto todos os outros dias, sabe disso, não é? — Ela se aproximou mais. Embora ainda estivesse longe para me beijar, era perto o suficiente para que eu roubasse seu ar quando ela expirava. Sem esperar uma resposta, me beijou.
Fechei os olhos e aproveitei seus lábios nos meus. Era extremamente bom, me sentia tão feliz que podia sentir milhões de estrelas nascerem e explodirem dentro de mim, desejei que essa sensação nunca morresse. A música acabou e outra ainda não tinha começado, mas não ligamos para isso naquele momento. Ela se afastou e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Talvez eu te ame como deveria amar meu noivo. É provável que seja por isso que o odeio tanto. — Ela disse, mas logo balançou a cabeça. — Quer dizer, sem talvez nenhum, amo-te. Romanticamente, estou apaixonada. É o sentimento que aguardei por toda a minha vida, estar aqui te falando tudo aquilo ditado pelo meu coração.
— Kahei...
— Por favor, eu tenho pensado sobre isso há dias, embora ainda esteja amedrontada sobre como você me receberia. Mas, se me beijou de volta, imagino que sinta o mesmo, ou não?
— Está certa. Só odiei precisarmos ficar escondidas enquanto os casais dançavam pela sala e os apaixonados podiam dizer que se amam. Qual o problema de sermos duas mulheres?
Ela não respondeu, apenas deu mais um beijo na minha boca e disse que precisávamos ir ou notariam nossa ausência. No entanto, antes de nos separarmos, Kahei sussurou que me visitaria depois do baile, isso fez com que eu esperasse cada vez mais pelo fim daquela noite.
Fiquei mais um pouco ali dentro da biblioteca, com os dedos tocando meus próprios lábios sentindo como se eles ainda estivessem unidos com os da mulher que saiu alguns minutos antes, a mulher que estava noiva e era anfitriã do baile onde eu estava, que comemorava exatamente o noivado entre os dois. Quando finalmente entendi o que havia acontecido, apenas uma coisa se passava pela minha cabeça; a palavra "pecadora" rodeava todos meus pensamentos. Uma lágrima solitária caiu, embora não soubesse se era de felicidade ou tristeza, resolvi secá-la de qualquer jeito e saí do cômodo.
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