9. ᴜɴᴜsᴜᴀʟ
"...Se Você se perguntar se eu te odeio, Eu te odeio. Uma merda você ter feito eu me sentir assim..."
I hate u - Sza
Merda, merda, merda.
Havia se passado dois dias depois do que aconteceu entre mim e Jungkook. Foram dias difíceis para mim, mal havíamos nos falado e, se falamos, trocamos no mínimo cinco palavras. De fato, o clima estava estranho e ninguém era tão cego para não ver o que estava rolando.
Quando eu saí da Maknae House naquela tarde, eu senti que tinha sido uma das piores ideias da minha vida ter me aproximado dele. Tudo havia sido muito fácil e muito ilusório para mim, e me senti verdadeiramente culpada pelo estrago.
Ouvir aquelas palavras despertaram em mim algo que nunca tive que me preocupar, o lado de "é assim que as pessoas me veem?", "é assim que eu quero que me enxerguem?". Não que eu nunca tenha pensado nisso antes, só não parecia interessante antes.
E confesso, eu estava tentando fugir de Jungkook, fugir de Jimin ou fugir de quaisquer outras situações constrangedoras. Eu queria fugir das perguntas para não poder respondê-las.
Era muito constrangedor lembrar daquele dia e pior ainda era lembrar de Jeon Jungkook fazendo aquelas coisas como se realmente gostasse de mim, além de amiga.
Frustrante.
Arrumei o moletom pela terceira vez, tentando desviar o olhar da mesa ao lado. Nos dias anteriores, comi com Rosé escondida na sala de costura enquanto Lisa furtava os salgadinhos da máquina, só para não ter que encarar os rostos preocupados dos meninos — só para não encarar Jungkook. Mas eu teria que comer mais do que salgadinhos com cheiro de chulé e para isso eu teria de enfrentar minha querida frustração.
— Eles estão olhando para cá... — Rosé sussurrou, desviando o olhar para o outro lado.
Até então, Rosé tinha sido a única a quem falei sobre o que aconteceu, pela amizade que Lisa tinha com Jeon, eu não queria que isso os afetassem.
— Acho que ele não se importa com o que aconteceu. Está a mesma merda de sempre — a loira acrescentou, indiferente.
E não sei por que eu esperei algum tipo de remorso.
Respirei fundo, querendo estapear a minha cara em público, mas isso pareceria muito preocupante, já é preocupante só pensar em fazer isso.
— Estou me sentindo mal por não ter dito a Lisa, você acha que ela vai ficar com raiva? — questionei, vendo a loira pensar enquanto tomava seu latte.
— Não acho que ela vá se sentir bem ao saber. Claro, como seria se você soubesse que seu amigo de anos quase transou com a sua colega de classe? — sugeriu ela. — Mas não acho que ela precise saber disso. Das merdas que ela faz ou sei lá o que ela faz no dia inteiro, ela nunca nos deu satisfações, por que você precisaria?
— Porque eu realmente queria transar com o amigo de anos dela? — Cruzei os braços.
Que tipo de pessoa eu me tornei?
— Você não acha que se ela tivesse tido oportunidade de estar com ele ela não estaria? Eles são amigos há dois anos, Júlia!
— O que você está supondo?
— Não estou supondo nada. — Ela respirou fundo e completou mansa: — Estou dizendo que ela não iria digerir isso bem em tão pouco tempo.
Encarei a mesa ao lado, parando meu olhar sob Park Jimin e seu estilo alternativo de dar inveja. Ele arrumava seu cabelo dividido ao meio, expondo um pouco de sua testa.
Jimin estava quieto como sempre, e por mais estranho que fosse eu parar no meio de uma conversa para encarar um idiota extremamente lindo, ele estava parcialmente correto desde o começo.
— Ju, eu não quero que você se sinta pior do que já está. — Roseanne pegou minha mão, acariciando-a. — Mas acha que vai ficar tudo bem entre vocês? Digo, o JK vai fingir que nada aconteceu e você não pode ficar aí sentindo vergonha para sempre
Arfei, encarando mais uma vez onde Jungkook estava aos risos com os meninos. Aquele sorriso continuava mexendo comigo, mas dessa vez não parecia tão satisfatório de ver como antes.
Voltei-me a Rosé, que sorriu pequeno.
— Eu acho que isso vai passar. — Sorri positiva. — Não sei o dia e nem a hora, mas vai passar.
É, eu estava meio certa de que ia passar porque, assim que cheguei em casa, devorei todos os filmes românticos que eu podia, Querido John, Orgulho e preconceito, Ghost e o mais importante de todos: Ritmo quente. E como eu chorei.
Eu acho que eu nunca quis tanto na minha vida que tudo que eu fizesse fosse clichê, como ser a mocinha que encontra um bad boy, eles se apaixonam, têm uma primeira vez incrível e xablau! Vida perfeita.
Mas não é assim, nunca foi assim. E logo eu que cresci muito ligada a filmes e livros, foi um choque total, principalmente no ensino médio, onde a maioria dos jovens sente a super necessidade de ter um relacionamento, ser descolado e pintar os cabelos, isso sem contar com a parte de ser super legal dizer às coleguinhas que é namorada do líder de alguma organização escolar e a verdade é: depois que você sai da escola, tudo isso não deixa de ser história.
Eu era a ajudante da bibliotecária no colegial e hoje eu acumulo quinhentos livros no meu quarto que nem sei quando vou começar a organizar.
Saímos da escola com a cabeça fresquinha, como diz meu pai. Absorvemos todas as informações que antes a gente preferia não saber. E para mim, que namorou o cara do basquete no primeiro ano e o líder do grêmio no terceiro ano, digo que nada foi me acrescentado.
Parecia que ter namorado um jogador de basquete que não falava comigo na escola era super legal? Eu odiava a todo instante querer estar perto daquele garoto, porque eu havia comprado duas caixas de chocolate para me declarar para ele que disse sim sem nem me olhar — aqui vemos que a burrice vem de muito antes. E tem meu último namorado do terceiro ano, perfeito, maravilhoso, super gentil, mas odiava a ideia de ter que me beijar. Ele literalmente odiava me beijar, dizia que havia tantas bactérias nas nossas bocas que ele provavelmente pegaria uma infecção ou herpes. Eu nem acredito que namorei com ele por mais de três meses para ele não me dar de um amasso nos fundos do colégio. Mas eu era muito apaixonada por ele, então essas coisas não importavam para mim.
Conclusão, eu sempre fui muito pé frio para tudo, inclusive para o amor, se é mesmo que existe...
Talvez um quartzo rosa ajude...
❉
Corri como uma doída para não me atrasar naquela aula boba de bateria. Eu realmente não queria discutir com Jimin mais uma vez e não queria que isso também fosse um motivo para uma futura discussão, ainda mais depois de ele supostamente ouvir minha discussão pós-pegação com Jungkook.
Entrei às pressas na sala, vendo-o de braços cruzados com uma cara estranha. Lentamente, Jimin se virou me olhando.
— Está atrasada — disse ele com a voz mansa, seria um milagre?
E como eu havia visto antes, Jimin soava suspeito, tão suspeito que me incomodava. Enquanto eu dava a volta até a bateria no pequeno palco, o loiro continuava parado no mesmo lugar, olhando fixamente para a parede.
Peguei as duas baquetas e tentei rever o que havia aprendido no YouTube na noite passada. Prato de condução, bumbu, caixa, chimbal e as outras partes, eu havia decorado na noite anterior, em uma tentativa falha de não acabar imaginando o tema da futura discussão que teria com o Park.
Sim, porque provavelmente teríamos uma discussão, querendo eu ou não.
Jimin saiu do transe, virou-se em minha direção ainda parado. Esperei que fosse algum tipo de avaliação, mas o rosto dele não parecia me analisar, muito pelo contrário, Jimin parecia apaziguado, como se pela primeira vez levantasse bandeira branca.
Após ter gravado a aula passada no celular, repassei o que havíamos visto e adivinha, soou como uma música, e eu confesso, fiquei muito feliz por ter visto o idiota bater palmas.
Ele andou até a frente do palco, apoiando-se na borda.
— Parece que você andou estudando... — Acho que isso era para soar como um elogio. — Me conta, qual foi o milagre? — brincou.
Sequei as palmas das mãos na saia jeans, eu estava... tensa?
— É um pouco difícil para eu tocar porque não tenho muita habilidade motora — contei. — Pegando a teoria, eu consegui entender um pouco, mas ainda é meio complicado fazer várias coisas soarem como uma só — expliquei, tentando a todo custo desviar do seu olhar, mas era impossível.
Eu estava agoniada com algo? Por que eu estaria?
— Estou surpreso. A maioria das pessoas pegam a bateria na prática, mas você foi logo na teoria. — Ele riu baixo, abaixando a cabeça. — Eu nem sabia que tinha uma.
É, finalmente eu poderia dizer que valeu a pena aqueles 35 minutos de vídeo-aulas que arrebentaram meus tímpanos.
— Aconteceu alguma coisa? — Assustei-me ao escutar a pergunta, soltando um "ahm?". — Eu perguntei se aconteceu alguma coisa. Está mais muda, o que não é normal.
E você está mais tagarela que o normal.
Pisquei várias vezes, tentando fazer aquelas perguntas fazerem sentido na minha cabeça, pois certamente não fazia sentido nenhum Park Jimin não estar sendo desagradável.
Mas ele sabia, ele perguntou sabendo a resposta.
— Você ouviu tudo? — indaguei, cruzando os braços.
Ele demorou para responder, mas não perdia a pose confiante de sempre.
— Certo... — Respirou fundo. — Eu ouvi o suficiente. — Olhei para ele, desejando não ter sido as partes indecentes. — Ouvi a discussão. Calma. — Ele riu.
Eu não queria continuar falando sobre aquilo, e não fazia ideia do por que tinha iniciado no assunto.
— Acho melhor eu tentar tocar violão, a bateria está acabando com meus tímpanos. — Mudei de assunto. — Tem algum problema eu mudar o instrumento?
Jimin ficou em silêncio, um silêncio ensurdecedor.
— Eu te avisei. — Seu tom voltou ao atual, cheio de orgulho. Estava bom demais para ser verdade. — Eu disse que ele não era muito...
— O meu tipo? — Elevei meu tom, de forma que nem acabei percebendo. — Qual seria o tipo de uma virgem? — Que merda, Júlia!
Ele pareceu assustado com a minha confissão, não assustado de fingir que não sabia, mas assustado por ter escutado daquela forma.
— Aconteceu. Agora não adianta ficar lamentando. — Bati as mãos, trocando novamente o assunto. — Eu toco um pouco de violão, mas não sou como você na guitarra. Na verdade, sou uma merda em dedilhados e...
Jimin balançou a cabeça negativamente.
— O que foi?
— Júlia, podemos tentar isso semana que vem. — Ele sugeriu, com aquele olhar estranho.
— Não me importo em demorar mais, eu preciso...
— Dispersar? Pode ir, semana que vem eu vejo um plano de estudos para você — ele explicou, com as mãos nos bolsos da sua calça larga. Jimin coçou sua nuca. — Hoje é sexta e eu estou louco pra ir pra casa. Então, cai fora.
Eu só podia ser a mais sortuda do mundo, só poderia ser eu mesma.
Assim que virei para o corredor, me deparei com Jeon Jungkook aos cochichos com uma garota. Eu mereço isso, universo? Que barbaridade!
Minhas pernas pararam no meio do corredor, até ele me encarar. Despedindo-se da garota, que mal fez esforço para me cumprimentar, ele veio até mim. Jogando seu cabelo para trás e mergulhando suas mãos nos bolsos.
Tremi só de vê-lo vindo até mim. Eu não queria ter me apegado à ideia de poder alcançá-lo, não podia mais.
— Você... Tudo bem? — perguntei com dificuldade, engolindo em seco a minha vergonha na cara.
— Olha, o que você viu...
— Não precisa se explicar! — Forcei uma risada. — Nada a ver comigo.
A verdade é que eu estava puta da vida.
— Ju, você está bem mesmo com o que aconteceu?
Não.
— Não aconteceu nada, Jeon. — Ele passou a mão pela nuca. — Ou você acha que aconteceu?
— Não, não me entenda mal. — Tarde demais. — Eu só não quero que fique uma situação estranha entre nós. Não quero que os outros fiquem preocupados também.
Como que não ficaria estranho? Que papo de merda
— Não tem como isso ficar estranho — retruquei, baixo.
Eles esperavam que eu fosse algum tipo de mágica super fantástica? Ele realmente estava esperando que eu esquecesse?
— Ju, só fica bem, tá? — Ele encostou no meu ombro. — Você não está mal, já é ótimo pra mim. Não perdi a cantora e a amiga maravilhosa que você é. — Jungkook tocou meu queixo, olhando rapidamente para os meus lábios.
Ele ainda me torturava com aquele olhar.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro