Amargura e Bipolaridade
Jungkook
Eu sempre acreditei ser alguém bem centrado, alguém que não se abala facilmente e muito menos alguém que se desvia de seus princípios.
Aparentemente eu estava enganado.
Agora eu me sentia confuso, até mesmo me sentia indeciso sobre se deveria ou não sentir isso ou não.
Depois daquele dia na escola - um dia muito complicado, deve-se frisar - eu fui embora mais cedo alegando um mal estar e por ser um aluno exemplar foi fácil convencer disso.
Bom, mas não era totalmente mentira, eu realmente não estava bem.
Aquele dia foi marcado por um sentimento bom e um péssimo e eu não soube lidar.
No outro dia preferi não ir com Taehyung para escola, o dia se passou de forma estranha já que nos estávamos sem nos falar. Isso incomodou Hoseok, mas ele não se intrometeu apenas disse "vocês deveriam parar com essa boiolagem e se resolver logo!".
E sim, por mim eu já estaria resolvido com Taehyung, mas o mesmo se encontrava magoado, o que me fez pensar que ele precisava de um tempo para si.
No mesmo dia, Ária não apareceu na escola e foi impossível não notar sua ausência já que a garota também não havia saído de minha mente tão fácil.
A maldita beija bem demais...
Depois fui trabalhar e fingi que estava tudo bem quando na verdade eu estava a ponto de explodir com as palavras de Kim rondando minha mente enquanto a memória dos lábios de Moon estavam frescos em minha memória.
A maneira com que os dois se enfrentaram sem necessitarem de muitas palavras não me passou despercebido. Algo de muito estranho havia entre aqueles dois, aparentemente algo bem maior que uma mera birra e isso me deixou muito encabulado.
No domingo resolvi que não iria na casa dela e não tive meios para avisa-la disso já que não tenho nenhum contato com a mesma além de seu endereço.
Meu domingo se resumiu em eu ficar vegetando na cama. As paredes banhadas em tons cinzas assistiam minha melancolia, enquanto os pôsteres de alguns animes me observavam afundar lentamente em pensamentos importunos e embaralhados.
Era como um ciclo vicioso.
Eu me recordava da forma como Ária me beijou lentamente e de forma carinhosa, para então me lembrar dos olhos desgostos de Taehyung, seguindo para a discussão e em sequência voltar para Ária.
Isso estava me matando.
O quarto estava em silêncio, mas minha cabeça gritava não me deixando em paz.
Meu pai havia saído e eu sabia que ele voltaria somente de noite com seu cheiro típico de álcool. Dependendo de seu humor, cairia de sono na cama ou então amaldiçoaria a partida de minha mãe até cair em lágrimas. Como sempre, sobraria para eu ajuda-lo no banho.
E então ele chegou, soube pelo estrondo de algo caindo na sala. Foi inevitável não respirar fundo.
Segui caminho até o cômodo gélido em que ele estava. Tive a visão do homem cambaleando enquanto tentava arrumar o vaso de flor que agora estava espatifado em cacos no chão.
- Vamos pai, deixe isso aí! - Digo cauteloso enquanto me aproximo do homem.
Ele encontra meus olhos com os seus, os mesmos estão vermelhos devido o álcool e ele parece cansado.
- Ah, ai está você. - Ele resmunga um tanto embolado - Estava... falando de você agora pouco. - Sorri de lado enquanto tenta arrumar a postura - Estava dizendo como seus olhos são como os da sua mãe. - Sua pronúncia é tão ruim quanto a de uma criança, mas consigo entender cada palavra que já me é decorada - Aquela vadia tinha os olhos tão lindos quanto os seus. - Ele ri sem humor.
Eu consigo sentir sua amargura, seu gosto me é tão presente quanto qualquer outro sabor. Não chego a me importar com o adjetivo usado para com ela, já era de praxe. Eu sei o que ele sente.
- Vamos pai, o senhor precisa urgentemente de um banho. - Ainda cauteloso eu me aproximo. Tento ajuda-lo, mas ele se esquiva - Pai...
- Sabe Jungkook, quando... quando nos casamos ela me disse que era a mulher mais feliz do mundo... - Através do brilho eu posso ver seus olhos lacrimejaram e as palavras saem em pesar - ...ela estava muito radiante naquele dia. A mulher mais linda. - Pontua e me aproveito desse momento para passar seu braço por volta de meu pescoço.
Eu já sabia cada mínima parte daquela história, de cabo a rabo, de trás para frente. Tudo. Cada ponto e cada vírgula. Mas de qualquer forma, ela sempre me era contada mais uma vez.
Rodeio meu outro braço em sua cintura e desviando dos cacos começo a guia-lo para irmos ao banheiro.
- E eu prometi que teríamos uma boa família. - Diz ainda bem embolado, dando passos lentos e eu lhe acompanho com paciência. - E realmente tivemos, não? - Ele sorri para mim, parando abruptamente - Você é um filho muito lindo Jungkook, puxou muito a sua mãe. - Ele faz menção em me abraçar e eu o deixo que faça, mesmo que o cheiro de álcool esteja insuportável - Só por favor, não me abandone como ela fez. - Seu pedido também já me era decorado e a resposta não era diferente.
- Nunca irei te abandonar pai. - Retribuindo o abraço eu o deixo que chore em meus ombros.
Foi com um enorme custo que o coloquei no chuveiro e o trabalho foi em dobro para coloca-lo na cama. Mas eu não me importava com aquilo, não me importava em cuidar de meu pai.
Ele é minha única família assim como sou a única pessoa que ele tem, se eu não fizer isso, quem o fará?
E então aquela noite se fechou com uma ligação de Taehyung.
- Eu não gosto de ficar brigado com você. - Foi a primeira coisa que disse quando atendi a chamada - Vamos logo jogar fortnite!
Jogamos um pouco e aquilo foi o marco dado em nossas pazes.
Eu também não gostava de ficar brigado com Taehyung.
Na segunda-feira Ária também não apareceu e eu não deveria me importar mais uma vez, mas o fiz. Fiquei matutando o que deveria ter acontecido para que a mesma não viesse e notei que o Jimin também não viera.
Devem estar matando aula como sempre.
E com esse pensamento foi que senti algo estranho incomodar meu peito ao imaginar Ária matando aula com ele.
Mas isso não era da minha conta, não deveria dar importância. Tentei me convencer disso.
De alguma forma o dia havia amanhecido menos pesado hoje - terça-feira - e isso era bom.
Assim que entrei na sala de aula acabei dando de cara com Moon. Ela estava com a feição fechada e parecia dispersa em pensamentos. Usava uma blusa de gola alta por baixo do uniforme, seu cabelo estava tampando um pouco de seu rosto e havia algo de estranho nela. Mas não me atrevi a questionar, Namjoon estava com junto fazendo dupla e evita-lo ainda era minha prioridade.
- Faz dupla comigo. - Kim Taehyung disse dando um tapa em minha nuca, tirando-me assim do transe que nem notei que estava - Aula de matemática agora. - Responde a pergunta não feita.
E então as duas aulas se passam e em momento algum tenho coragem de falar com ela e a mesma se quer me olha alguma vez.
Não é como se eu esperasse que depois daquele beijo tudo iria mudar magicamente entre nós, mas também não é como se fosse de meu agrado ser totalmente ignorado pela garota que vêm me bagunçando nos últimos dias.
Quando o sinal bate todos saem apressados e isso não é diferente para ela, só que quando passa por mim deixa que seus olhos se esbarrem com os meus e ela permite me dar um sorriso fraco ladino.
Eu não tenho uma reação imediata já que passei a aula toda sendo ignorado por ela. Mas não é como se precisasse já que sua saída é rápida.
Por que tão confusa, Moon Ária?
{...}
- Ah não cara, mas você tem que concordar que a Capitã Marvel faria bem mais se não fosse pelo protagonismo do homem de ferro. - Hoseok fala enquanto ele e Taehyung discutem mais uma vez por algo.
- Ah não começa com isso. - O azulado resmunga - Você sabe que ela poderia ter feito mais de alguma forma.
Os dois realmente levam aquela discussão a sério enquanto tudo que posso fazer e pensar no que está acontecendo com Ária. Meu corpo parece desviar automaticamente das pessoas enquanto andamos no corredor no mesmo tempo em que me questiono se deveria procura-la.
Eu me sinto um idiota por pensar assim quando tudo que ela fez foi fingir que eu não existo, mas eu não poderia evitar fazer papel de trouxa, estava virando rotina já.
- Ei, Jungkook oppa. - A voz doce e mão pequena me param no meio do corredor.
A imagem da menina surge em minha frente e Taehyung e Hoseok também param sem entender muito bem o aparecimento repentino da garota.
- Ah, oi Jisoo. - Digo um tanto sem graça.
- Olá. - Diz com sua animação - Eu estava te procurando, temos aula hoje, lembra? - Ele me pergunta muito animada e me sinto ainda mais envergonhado por não ter me lembrado disso.
Eu olho meio desconcertado para os rapazes ao meu lado, esses mesmos ainda mantém uma cara de confusão no rosto. Não era comum para eles me verem interagindo com alguém que não fosse eles. Bom, exceto para Taehyung, que já havia visto até demais...
- A-ah eu havia me esquecido. - Digo sincero e ela me olha estranhamente divertida.
- Eu imaginei mesmo. - Ela responde, mas não parece chateada - A biblioteca está vazia agora, podemos ir? - Como ela pode parecer tão animada por ter aula de química?
Ok, eu gosto da matéria, mas a sua animação é demais mesmo para alguém que curte.
- Ahn... claro. - Forço um sorriso para a garota - Eu preciso ajuda-la com a matéria. - Me dirijo aos rapazes.
Hoseok não perde a oportunidade em formar uma feição maliciosa em seu rosto.
- Uhm, ajudar é? - Seu tom malicioso faz com que eu tenha vontade de bate-lo, mas me limito em respirar fundo e não lhe dar bola.
- Depois nos encontramos. - Agora me dirijo a Tae, ignorando totalmente o sorriso idiota na cara de Jung que parece orgulhoso por eu estar interagindo com uma garota.
Eu e Jisoo passamos a caminhar juntos pelo corredor enquanto o mesmo vai se esvaziando aos poucos, já que o grande fluxo de alunos caminham na direção contrária.
- Você é bem tímido, né? - A menina diz assim que começamos a subir as escadas.
A biblioteca fica em uma sala afastada no segundo andar e é um caminho consideravelmente longo para alcança-la.
Fico sem jeito com sua fala, não é de meu agrado quando as pessoas me analisam.
- Um pouco. - Sou econômico ao dizer.
Ela sorri me encarando e não se intimida ao dizer:
- Isso é tão fofo!
Eu não sei exatamente como responde-la, então tudo que faço é ignorar e apressar o passo para chegar o quanto antes na maldita biblioteca.
A sala enorme comporta umas quinze mesas disponíveis para estudo. É um espaço bem amplo e o fundo pertence a diversas prateleiras de inúmeros exemplares disponíveis para os alunos.
Honestamente esse é meu lugar favorito na escola, mesmo que ultimamente eu não esteja fazendo tanta presença.
Há apenas dois alunos ocupando a área de estudos e a bibliotecária está concentrada lendo algum livro por debaixo dos óculos redondos, nem mesmo nota nossa entrada.
Sento-me junto de Jisoo em uma mesa qualquer e ali começamos com o mais complicado para a garota.
Tento ser paciente ao explica-la e me esforço para não gaguejar já que isso apenas dificultaria as coisas.
Ela presta atenção em cada sílaba que falo e parece tão concentrada que chego a ficar desconcertado com a maneira que me encara enquanto lhe ensino.
Primeiro lhe mostro o teórico e a ajudo a produzir um mapa conceitual para que ela grave as palavras chaves e consiga então fazer algum exercício do livro que ela mesmo trouxe.
Não sei ao exato quanto tempo se passa, mas sei que quando subo meu olhar sinto automaticamente meu corpo tremer.
O motivo de meu nervosismo não poderia ser outro quando é Ária que entra na biblioteca.
Ela olha diretamente para mim e então noto que sua feição travessa está de volta. Pisca em minha direção, mas segue para o fundo indo para as diversas prateleiras.
Meu olhar acompanha seu andar e não consigo evitar lembrar do quão nervoso ela me deixa.
- É assim? - A voz da garota ao meu lado faz com que eu volte a atenção ao que deve ser feito no momento.
- S-sim. - Concordo, mas na realidade não sei exatamente com quê.
- Tem certeza? - Ela me questiona indecisa, talvez notando que não presto realmente a devida atenção.
- Não, quer dizer... - Eu me embolo e isso faz ela rir.
- Você está bem? - Sua mão encosta em meu ombro e não evito em recuar minimamente.
- Estou, desculpa. - Sorrio culpado - Bom, mas deixe me ver. - Pego o papel de sua mão - Sim, está certo! - Digo agora com convicção e ela parece se animar. - Agora faça só mais esse... - Lhe aponto o exercício no livro. - ...e ent...
- Ei Jungkook, você pode me ajudar? - Ária me corta quando não percebo que a mesma tinha se aproximado - Preciso pegar um livro, mas não alcanço. - Ela diz em um tom diferente do seu habitual e no fim seus lábios se juntam de uma forma fofa e é impossível não perceber como ela fica linda fazendo isso.
Eu deveria desconfiar de seu pedido?
Ária nunca vêm a biblioteca, até porque a mesma têm uma coleção gigantesca de livros em sua casa e também nunca a vi lendo. Então sim, eu deveria desconfiar de seus olhos pidões sobre mim neste exato momento.
-Por favor. - Mas é isso que ela diz notando minha hesitação e tudo isso é acompanhado pelo olhar de Jisoo que é descaradamente ignorada por Ária.
- Consegue fazer esse sozinha? - Pergunto para a morena ao meu lado que apenas assente - Então ok, já volto. - Lhe sorrio fraco para levantar em seguida.
O sorriso satisfeito de Ária me prova de que sim, eu deveria mesmo desconfiar de seu pedido. Mas mesmo assim a sigo até a última estante, posicionada no fundo da sala e que permite pouca visibilidade para quem nos vê de lá.
- Qual livro voc... - Eu ao menos tenho tempo para perguntar, pois em milésimos de segundos meu corpo está grudado na estante e os lábios dela estão grudados aos meus.
É tudo muito repentino, mas não nego passagem quando sua língua me pede e logo estou totalmente entregue ao seu beijo... mais uma vez.
Ela me beija com fúria, bem diferente da outra vez onde foi calma, mas mesmo assim não deixa de ser ótimo.
Sua língua massageia a minha sem pudor e só noto que minhas mãos estão em sua cintura quando a aperto involuntariamente.
Sinto seus dedos em meu peito e sua outra mão em meu pescoço, ela parece necessitada por me sentir.
Eu devo ter pedido totalmente minha sanidade para estar fazendo isso, mas sua boca me beija tão gostoso que seria impossível negar.
Ela morde lentamente meu lábio e acredito que essa sua ação seja meu ponto fraco já que sinto meu interior se derreter. Sua testa encosta na minha e com a respiração desregulada ela sorri quando cessamos o ósculo e sei disso pois não consigo parar de encarar seus lábios, agora vermelhos pela força do beijo.
- Me desculpa, mas eu precisava fazer isso. - Ela diz com seu jeito imprudente de ser.
- Você é louca. - Digo e acabo sorrindo - E bipolar também. - Pontuo devido o fato de ela ter me ignorado e a mesma se afasta me encarando debochada parecendo pronta para debater.
Mas então a encaro melhor e com a luminosidade que provém da janela, noto que no canto de sua boca há um pequeno ferimento, algo como um corte. Não parece tão profundo, mas me preocupo quando subo o olhar e vejo que abaixo de seu olho, no canto esquerdo de seu rosto, há uma mancha roxa já puxando o tom esverdeado que parece ter sido feito por uma força bruta e na mesma hora meu sorriso se apaga.
- Ária, o que aconteceu com você? - Pergunto sério e quando tento aproximar meus dedos do hematoma ela se afasta me encarando um pouco assustada.
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