- XIV -
– Então é isso... – Foram as palavras de Erastos, antes de baixar a cabeça aceitando a fatalidade.
– Uhmmm! Como assim, meu escolhido? – Parecia debochar dele Aythila. – Quanta fraqueza! Quanta desprezível indolência! E ainda dizias querer me servir... Que presunçoso!
A essa provocação, o jovem ghmane finalmente ergueu seus olhos para fitá-la. E tinha nesse momento as feições completamente deformadas pela fúria.
– Maldita! – foi seu grito, gutural e profundo. – Jamais quis servi-la... Tudo o que eu disse que faria não foi em tua honra, mas da minha amada Kanda!
– Que seja, mortal! Pouco se me dá tuas intenções! Mas confesso estar decepcionada com tua falta de fibra. No fim das contas, não passas de mais um devoto melindroso de minha irmã. Bem! Havia visto ambição em teus olhos e pensei por um instante que fosses forte e não medisses esforços para atingir teus objetivos. Que pena, rapaz! – E ela o ergueu do chão com um movimento de mãos, enquanto ele tentava resistir ao seu poder. – Estou enfadada de tudo isso, por isso vou esmagá-lo agora mesmo como um verme. Certamente eu o superestimei, mas vejo que não há valor nem orgulho na tua existência.
– Maldita! Maldita! – deblaterava Erastos, debatendo-se no ar, ao ser elevado ainda mais pelo poder de Aythila.
– Implacável é meu propósito, jovem ghmane. E toda forma de fraqueza me é desprezível e deve ser dizimada. Não importa se lhe dê o nome de bondade ou de resignação. Não ser forte o bastante, não ser forte acima dos outros. Isso é maldição! Assim receberás desde já o que mereces por regurgitar sobre mim tuas tolas convicções e teu amor puritano por Kanda! Ou não conheces o quão são restritos pela ascese e pela covardia os caminhos de um kendadiwari?
Os olhos deles acusavam sua confusão. Lembrou-se vagamente de sua mãe falando dos tais kendadiwarim como um tipo de mendigo que errava de vila em vila, proclamando a bondade de Kanda.
– Não! Não me diga que... – Aythila demonstrava incredulidade. – Nem ao menos conheces o serviço ao qual dizias te submeteres voluntariamente! És um tolo? Um inconsequente que não conheces nada do mundo?
Ela gargalhou escarninha.
– Isso não é da sua conta, bruxa! – esbravejou o rapaz. Escondendo atrás do acesso de fúria a vergonha de ser verdadeiro o que ela lhe jogava à face.
– Tudo é da conta dos deuses, mortal! – Explicou em um tom solene e estranho. – Pois bem, teu tempo se esgotou e minha paciência também. Morra! – A mão da bela divindade de vermelho se espalmou na direção do rapaz e uma rajada atingiu Erastos em cheio. No mesmo instante seu corpo todo ardeu dimanando uma intensa luz encarnada.
*
Houve um tempo ao certo em que Aythila a Rubra teve interesses mais ingênuos, que de seu orbe além do manto azul observava o mundo de Aldamā curiosa de que belezas supostamente poderiam existir ali, imaginando que para sua irmã houvesse um castelo dourado, como o famoso lar de Seylon, o Vigilante, chamado de Palácio da Aurora, que de tão célebre causava inveja às demais deidades.
De outra maneira, naquele mesmo tempo, gostava de pequenos e graciosos animaizinhos, chamados otēnim, vindos das florestas de prata de Yondir, o primeiro mundo além do manto azul, e imaginava que no plano abaixo dele poderiam existir outros seres semelhantes com os quais se entretivesse. Não feras e seres sorrateiros que se escondiam nas sombras ou que, por causa de sua força desmedida, impunham-se aos demais pela violência e brutalidade. Tudo isso um dia lhe fora inconcebível.
Mas à ocasião de seu encontro com Erastos, a severidade daquele mundo de dor e crueldade já havia adormecido suas inclinações mais ternas, convencendo Aythila de que só lhe restava ser forte e infatigável, completamente indiferente às distrações ingênuas da deidade que não fazia nada senão observar os mundos abaixo. Desde então, uma era e quase outra, milênios e milênios, amadureceram suas ambições e a brutalizaram na sucessão de sublimes vitórias e uma vexatória e definitiva derrota. Mas ela não podia aceitar seu próprio ocaso e o ódio incontrolável por seu inimigo a incitava à busca de um poder implacável e insuperável.
Era certo que Aythila admirava profundamente Jamasur e houvera relatos de que se indispusera mais de uma vez com aqueles que subestimassem o majestoso dragão, mas tal admiração só se explicava pelo fato de que o monstro personificava aquilo que ela mesma almejava se tornar: uma rainha de eras, jamais vencida, jamais subestimada, nem mesmo pelos deuses mais poderosos.
Era em nome disso que ela havia se interessado por Erastos da raça dos ghmanim de Maghidom, um reles ninguém, mas que lhe mostrara potencial, força, aptidão para sobreviver e para superar os limites de sua condição. Mas lhe faltava a determinação cega que o faria uma arma poderosa e destruidora.
– O que nos separa, mortal, os deuses dos homens, é que nossa vontade está a serviço de nossa natureza. Dela jamais nos afastamos por questões de moral ou afetivas. Não há desvio ou hesitação, perplexidade ou desistência. É isso que lhe falta. Pouco se conhece sob as possibilidades de existência de um homem. Mais do que de vossa natureza, o destino que vos cabe se molda a partir da perspicácia de cada um para decifrar o enigma dos deuses. Isso é certo! E por isso, como tu não demostras essa virtude, apagarei para sempre a tua existência supérflua!
E Aythila intensificou a pressão que fazia em seus dedos, cerrando-os como se de fato esmagasse algo muito pequeno, gesto que por sua vontade deveria de fato comprimir o corpo de Erastos para que ele finalmente morresse.
Por um instante, o ghmane se contorceu de dor, como era esperado, no entanto quando seus ossos estavam prestes a se partir, uma intensa luz emanou por seu corpo, quebrando a concentração da deusa rubra com uma súbita descarga de energia.
No mesmo momento, o jovem despencou de cerca de duas varas de altura, nível em que Aythila o manteve até ali, para se chocar contra o chão violentamente.
– Ora, ora! – admirou-se a deidade, tentando entender o que havia acontecido. – Diria que tu possuis um selo, talvez um feitiço de proteção da Confraria... Não! Pode ser que seja uma benção especial... A bênção de Kanda!
– Hahaha! – Gargalhou o jovem mago-aprendiz, ainda com a face contraída pela dor da queda abrupta. – Não será tão fácil me matar. Tu mesma disseste que existem seres raros através dos quais o aythir flui de forma diversa dos demais, por vontade de teu pai quiçá! E eu não temo afirmar que sou um deles. Ou melhor, sou o maior de todos os que existiram nesse mundo!
– Arrogante e petulante és, ghmane! Todavia não passas de uma breve brisa se comparado a Jamasur, o pai de monstros!
– Jamasur dorme, bruxa! E eu... eu estou despertando! – Declarou triunfante o ghmane, sem saber o quão estava próximo da verdade.
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