Brilha ó luar, tira-me da dor
Lalisa caminhava apressada pelos corredores, não sentia frio mas sua pele estava arrepiada e seus dentes rangiam. Sentia vergonha, angústia, confusão e até mesmo raiva por algum motivo que seu coração puro não sabia detectar naquele instante. Apressava ainda mais o passo em direção à sala do Sacerdote cada vez que se lembrava da expressão que os cavaleiros tinham em seus rostos quando não soube os direcionar corretamente, quando se mostrou inexperiente, quando demonstrou fraqueza.
Precisava esclarecer com o Primeiro Sacerdote o porquê de não ter sido lhe ensinado coisas como uma rota, uma direção. Por que não lhe ensinaram o necessário para ser quem guiará os cavaleiros ao invés de terem lhe ensinado como se portar à mesa para um jantar magnífico.
Ao chegar frente a porta do Sacerdote Cleion, toda a sua confiança se esvaiu como areia por entre os dedos. O punho estava erguido próximo a madeira da porta, porém não a tocou. Suas pernas fraquejaram por um instante, assim como todas as palavras que reuniu por todo seu trajeto até ali simplesmente evaporaram. Eram apenas Lalisa e sua carcaça humana ali. Sua consciência lhe avisava que estava indo embora e por um momento Lalisa se permitiu rir baixo para a imagem de uma silhueta simbolizando sua consciência reunindo suas malas e indo embora.
O momento de descontração durou pouco pois a morena lembrou que tinha um propósito ali e também tinha seu tempo limitado. Precisava ser breve e esperta.
Com bravura seu punho tocou a madeira forte o suficiente para ser ouvido, pois como resposta Lalisa obteve um abafado "entre, está aberta". E assim ela o fez.
Adentrar naquela sala lhe trouxe um ar diferente do que vinha pelo corredor. Não lhe era aconchegante, tampouco desagradável, mas a palavra que Lalisa encontrou para descrever foi "paterno". Um ar deveras paterno. E é estranho considerar que esta é a palavra que lhe veio em mente, tendo em vista que não possui memórias de seu pai biológico, nem ao menos teve alguém a quem dedicar esta imagem paterna durante sua infância. Hilário.
Parecia ser uma sala grande, porém as estantes repletas por livros de diversos tipos ocupavam boa parte do local a fazendo parecer menor. Logo à frente estava a mesa onde o Sacerdote se encontrava sentado e escrevendo algo em alguns papéis. Ainda que o modelo da mesa fosse lindo, o vitral logo atrás roubou sua atenção. Era lindo, e não se contentou com somente sua atenção, lhe roubou o fôlego também.
— Lalisa querida, a que devo as honras a esta hora? — a voz calma do homem lhe trouxe de volta. Ele afastou os papéis nos quais estava trabalhando e sinalizou com a mão para que ela se sentasse nas cadeiras à frente de sua mesa.
— Peço perdão pela intromissão tão tarde, Vossa Reverendissima. Mas como irei partir amanhã cedo, creio que seja um assunto de clara urgência. — respondeu se sentando. Observava os detalhes da mesa, era como se fossem bordados na madeira com fios de ouro. Belíssimos. Porém ela ainda não se atreveu a olhar para o Sacerdote.
— Está tudo bem, estou aqui para ajudá-la. Apesar de que não estava em meu conhecimento que iriam partir tão rápido — Fez uma pausa para suspirar e enfim Lalisa o olhou no rosto. Imediatamente o Sacerdote estampou um sorriso — esperava que passassem mais uns dias aqui para celebrarmos. Grandes eventos merecem grandes celebrações, certo?
— Claro meu senhor, mas... acredito que ajudar o povo seja uma prioridade ao invés de celebrarmos minha ascensão como deusa. — a resposta a escapou ríspida sem ao menos saber o motivo, então logo emendou — Ao menos foi o que ouvi dos diáconos. — seu olhar caiu novamente para a mesa bordada à ouro e seus detalhes. Imaginava quantos dias trabalhou o marceneiro para criá-la.
A risada soprosa e calma do Sacerdote lhe pegou de surpresa — Está certo, está certo — a risada cessou porém o sorriso do homem ainda se estendia pelo rosto — O que tinha de importante para falar, jovem?
— Ah sim, sobre isso — sua postura já perfeita se esticou mais, inconscientemente buscava qualquer imperfeição em si para arrumar e então continuou — Hoje após a cerimônia, fui questionada sobre qual direção tomar. Fiquei surpresa a princípio, já que nunca me foi mencionado nada como uma direção a ser tomada, qual local ir primeiro, nada sobre o que acontece depois da minha apresentação como Irínia, meu senhor. Então eu —
— Quer saber se tomou a decisão correta ao apontar Karin como primeira destinação, estou certo? — Lalisa entendeu que sempre se surpreenderia cada vez que estivesse na presença do Sacerdote, então se privou de questionar e apenas concordou com um acenar. — Tenho que dizer, para uma decisão em cima da hora, foi muito bem estratégica, já que Karin é um dos reinos mais próximos. — Acenou positivamente com a cabeça para o nada, como se concordasse com sua própria fala — Quanto sua questão, a decisão sobre onde ir, qual caminho tomar, sempre foi algo deixado para que as suas predecessoras reencarnações de Irínia tomassem por si próprias. Pense comigo querida, a decisão de quem será a próxima reencarnação sempre foi algo deixado ao destino, deixar que suas ancestrais decidissem para onde irem, mesmo que por impulso, era como deixar que o destino decidisse, compreende onde quero chegar? Deixar que a vida tome seu curso, faz parte também, além de que não nos sentimos no direito de interferir e tomar tais decisões pela deusa Irínia, entende? Sinto muito se minha resposta não lhe foi de muita ajuda.
— Não! Não, foi sim de muita ajuda. Peço mais uma vez perdão pelo incômodo tão tarde assim.
— Já disse querida, está tudo bem. Você tem uma viagem longa pela frente logo cedo — disse já se levantando, Lalisa repetiu o ato —acho que seria melhor ir se deitar e descansar bem, ou irá passar mal durante o trajeto, sim? — a acompanhou até a porta cordialmente.
— Está certo, tenha uma ótima noite Vossa Reverendissima, Primeiro Sacerdote Cleion, muito obrigada pelos conselhos. — Fez um breve gesto se curvando em respeito. O Sacerdote apenas acenou com a cabeça sorrindo e logo a porta se fechou às costas de Lalisa. Lá estava ela naquele corredor frio e espaçoso novamente.
O que o Sacerdote lhe disse rondava em sua mente e para si fazia realmente muito sentido. Veja bem, pelo modo como o homem disse, ninguém se via apto ou em posição de interferir com algo relacionado às decisões da deusa. Era até razoável usarem a idéia de "destino" como uma explicação quando estavam na verdade com medo de enfurecer Irínia. Precisavam de sua proteção, não de sua ira.
Estava então, inconscientemente, parada no lugar de sempre naquele corredor. Olhando pela mesma imensa janela não muito longe de seu quarto. Uma belíssima lua cheia observava com pesar Lalisa tocar gentilmente o vidro.
Estrelas brilhavam contentes no enlace da aurora boreal, alheias à angustia que a jovem carregava sozinha. Queria correr gritando por Rosa mas não podia, sabia que a esta hora ela ainda estaria rezando ou estudando na biblioteca. Era noite porém ainda não tão tarde, além do mais, dentro do templo não havia perigo.
Havia tanto para contar, para chorar, para rir. Saber que na manhã seguinte se separaria de sua melhor amiga que considera irmã lhe partia ainda mais o coração, como se estivessem a lhe rasgar a alma em duas somente para a jogar em meio ao nada junto à desconhecidos.
O suspiro que lhe escapou foi longo e doloroso, como se espinhos fincassem por sua garganta. Colou então sua testa contra o vidro, murmurando a velha canção de Rosalin.
— Bela melodia.
Sentiu seu coração acelerar com a fala repentina. Voltou os olhos arregalados para a cavaleira parada logo ao seu lado, na distância de um braço. Diferente de antes, Jennie agora portava um sorriso divertido, pequeno e fechado, porém ainda era um sorriso. O típico sorriso dela.
— Não a ouvi se aproximar, a quanto tempo esta aqui?
— Parada aqui, não muito. Mas o corredor é longo sabe? De longe pude ver você suspirar e suspirar.
— Pare de zombar — bufou achando graça porém tentando esconder, e falhando claro.
Sentiu Jennie a olhar por alguns intantes e então abrir e fechar a boca repetidas vezes, até que enfim ela se pronunciou.
— Plano inteligente de ir para Karin. Não se preocupe quanto aos outros, estão todos ansiosos pela jornada e satisfeitos em te conhecer — sua fala se tornou branda, o olhar focado ao longe através da vidraça como se buscasse o amanhã através dela. Lalisa sempre apreciou aquele maldito olhar que a cavaleira possuia.
— "Ansiosos" e "satisfeitos" você diz... — deixou de olhar para a outra e tornou a olhar a lua, brilhante, livre.
— Sinto muito não ter falado antes com você, eu só não... não tinha certeza. — Pela visão periférica Lalisa notou os ombros de Jennie tensionarem e então por fim cairem de vez, porém continuou voltada para a lua.
— Não tinha certeza?
— Se eu podia... não nos falamos por anos, eu sabia que não seria mais a mesma coisa, só não sabia o quanto. Então vi você falando normalmente com Tommas...
— Insistente descarado — sorriu brincalhona.
— Isso, insistente descarado — Jennie riu, tamanho o xingamento de Lalisa para seu irmão. Quem dera Lalisa soubesse que aquilo não era nada como os xingamentos que dizia e ouvia. — quando vi vocês chegarem e conversando normalmente, percebi que não tinha de fato mudado algo na amizade que tínhamos.
— Está tudo bem, Jen. Eu entendo, ficou com medo de que essa coisa toda de "reencarnação da deusa" tivesse me subido à cabeça, não é? — dessa vez se virou para Jennie, apoiando seu ombro na janela e sorrindo convencida.
— Okay, me pegou. Eu estava tentando ser mais branda do que isso — Ergueu as mãos em rendição, rindo baixo.
Lalisa então tornou a ter sua face angustiada e confusa — Está tudo bem mesmo em ir para Karin amanhã? Não sei nada sobre as paradas que devemos fazer. Aprendi sobre o mapa e os reinos, claro, mas não tenho certeza do que fazer.
— Claro! É o reino mais próximo, além de que são bem hospitaleiros e festivos. — explicou calma imitando a posição em que Lalisa estava — quanto a não saber para onde devemos ir, eu posso te ajudar com isso, o que acha?
— Mesmo? De verdade faria isso por mim? — os olhos da pequena deusa se arregalaram, o sorriso largo se abrindo.
— Claro, por que não — deu de ombros, observando atentamente as reações alegres da outra.
— Você é incrível Jen! Obrigada — sorriu abertamente, mas logo suas bochechas tomaram um tom rubro ao que notou o olhar da outra fixo sobre si. Não compreendeu sua reação, tampouco o porquê de não conseguir desviar sua atenção daquela linda aurora boreal nos olhos de Jennie. Aquele maldito olhar só dela.
Imaginava o que a cavaleira pensava naquele instante, enquanto Jen focava somente nas reações adoráveis da jovem deusa. Tão diferente da pequena bochechuda que brincava consigo após nos dias que seu mestre a trazia para o templo.
Sabia que tinha sido um pedido de Lalisa para que pudesse encontrar com seu irmão. Tão pequena mas já com grandes idéias e preocupações com outros que ela sequer conhecia bem.
— Eu acho que vou indo... precisamos dormir cedo hoje, viajamos amanhã pelo amanhacer certo? — Jennie decidiu dar fim aquele momento, não podia trazer sentimentos do passado para o presente. Não deixaria que isso fosse influenciar em nada.
— Ah, sim. Está certo. Nos vemos amanhã Jennie — piscou algumas vezes, e então deu alguns passos para trás — ou melhor, Cavaleira de Dragão, nos vemos amanhã cedo — continuou dando passos para trás acenando, suas bochechas vermelhas se destacando na pouca iluminação do corredor.
Jennie acenou de volta e com isso Lalisa se virou e sumiu na curva no final do corredor. Deixando para trás uma Jennie que suspirava com seu próprio pesar.
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Seu coração batia rápido devido à corrida até seu quarto. Apoiada contra a porta Lalisa tentava acalmar sua respiração que saía dolorosa de seu peito. Se a abadessa lhe visse assim, com toda certeza a colocaria de castigo. Talvez não mais, agora que foi apresentada como deusa.
Queria bater sua própria cabeça contra algo. O que tinha em mente ao se perder em pensamentos observando os olhos de Jennie? Queria reacender sentimentos da infância? Loucura! Sabia que era bobagem para si sonhar em ter algum relacionamento agora que tinha que focar em conquistar seus poderes para lutar na guerra.
Isso, é claro, se chegar até lá. O histórico era longo das reencarnações da deusa que morreram antes mesmo de se quer chegarem em metade dos reinos.
Não podia ser egoísta, nem com o outro alguém, nem consigo mesma.
— Bobagem, Lalisa, bobagem. Vamos apenas deitar e dormir.
Não se demorou ao vestir sua roupa para dormir e deitar. Sabia no exato instante em que deitou, que teria dificuldades para pegar no sono, por isso logo começou a murmurar a canção de Rosalin. Sempre funcionava em noites de insônia.
Até que os anjos da deusa Mone enfim lhe deixaram dormir.
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Imensas portas de mármore se abrem de forma barulhenta. Ponderou diversas vez naquele curto período de tempo se deveria atravessar por aquelas portas ou não. Decidiu adentrar no fim, já que podia ouvir levemente uma voz doce repetindo seu nome.
A sala escura lhe dava calafrios, a falta de iluminação a deixava zonza, mas então logo após rodar e rodar como se estivesse no mesmo lugar, ela avistou seu terror. Na sala escura agora existia um ponto de luz. Ponto de luz este que se concentrava em um único lugar.
Iluminado pela lua estava um trono que a chamava e chamava. Como se estivesse enfeitiçada, Lalisa caminhou em direção ao trono antes distante, mas que ao dar apenas alguns passos já estava a sua frente. Assim ela se sentou e em sua frente, ao final de uma escadaria pela qual ela não percorreu mas que para sempre ficou marcada em sua memória, estavam carcaças. Corpos já sem a luz da vida. Milhares de corpos espalhados por um salão que exalava morte e escuridão. A luz da lua ainda iluminava somente o trono.
Viu quando o sangue daqueles corpos começou a os deixar e se espalhar pelo chão como uma nascente viçosa enchendo e criando um lago. Lago vermelho que se tornou rio e lavou do salão o chão. Subia degrau por degrau, lenta e torturantemente, arrancando o ar dos pulmões de Lalisa que agarrava os braços do trono como se suplicasse por uma ajuda que não viria.
Porém estava calma outra vez ao que viu o sangue lhe tocar os pés depois de momentos em agonia. Talvez tenha perdido as esperanças, sabia que não havia salvação para quem carregava a salvação de outros nas mãos.
Ela apenas desistiu, ao carregar a responsabilidade e o peso de vidas.
O rio subia, subia e crescia. Lhe tocava a barriga quando notou tardiamente seu trono feito de ossos e crânios enfeitados com diademas.
Foi quando lhe tocou a garganta o rio sangrento que decidiu olhar para a lua.
Recitou então "brilha ó luar, tira-me da dor". Seu olhar correu para a lua logo acima, mas de lá mergulhou em sua direção uma águia sedenta que brilhou com a lua por suas costas. As garras despontaram quase em seu rosto e então—
💠💠💠💠
Lalisa se senta ao acordar com o susto em seu sonho. Agarrou sua garganta como se pudesse sentir o sangue do sonho se prender ali. Suava e sua respiração estava acelerada. Raramente tinha sonhos, então temia o que este poderia resultar em seu futuro. Não era a primeira vez que tinha uma premonição, no entanto era a primeira vez que não conseguia encontrar seu significado. O que quer que seja, a jovem sabia ainda não estar preparada. Tinha certeza disso ao que o cheiro de morte não deixou seu nariz ou sua memória mesmo depois que já havia acordado.
A deusa temia o futuro.
Continua...
Voltei minha gente!
Fiz o enem no ódio e ainda to resolvendo algumas atividades da escola, mas já to praticamente aprovada, yey.
O que acharam desse cap?
Tem muitas informações, nem todas em itálico, fiquem ligadxs
Eu estava ansiosa pra escrever esse cap, mas sinceramente não to satisfeita com ele, quem sabe eu não reescreva quando sair de férias sksksksk
Enfim, obrigado por todo carinho❤
O que estão teorizando aí? Sksksksk
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