Era Primordial - Parte I
ATO I
No princípio, antes de tudo e de todos, existiam apenas dois seres: Thanato e Peperit, os primeiros primordiais, os quais de sua união, um evento raro e transcendente, surgiu o Universo, uma entidade incorpórea de poder absoluto.
No instante em que o Universo veio à existência, uma explosão cósmica de proporções inimagináveis irrompeu. Essa manifestação de energia pura e caótica, de um estado de densidade e temperatura incrivelmente altas, foi tão descomunal que consumiu seus próprios progenitores.
O Universo, nascido desse sacrifício supremo, emergiu como um ser de poder absoluto, uma consciência primordial encapsulando tudo o que existia e tudo o que viria a existir.
Sem o conhecimento de seus progenitores, para o Universo, sua consciência era a primeira e única. Ele se via como o início e o fim, o ponto de origem de toda a existência.
Durante eras incontáveis, o Universo habitou um silêncio solitário, uma vastidão sem fim onde apenas sua consciência existia. Era uma existência solitária, sem o calor de uma mãe, a orientação de um pai, ou o toque de um amigo. Era a singularidade personificada, a única consciência em meio ao infinito do Grande Vazio.
Em meio a essa solidão estendida, que durou tanto uma eternidade quanto um instante, o Universo concebeu um desejo profundo: romper sua soledade. Sentindo o anseio por compartilhar sua existência com outros, e um eco de perda oculta, ele decidiu moldar vida a partir de si mesmo, manipulando as infinitas partículas de seu ser.
Esse processo foi marcado por tentativas e falhas, cada uma ensinando-lhe algo novo sobre a natureza da criação. E em sua persistência, ele se recusava a retornar à desolação da solidão novamente.
Após eras, simultaneamente eternas e efêmeras, o Universo alcançou seu objetivo. Com um gesto de poder criativo, ele deu vida a cinco seres magníficos, cada um nascido de uma faceta diferente de sua essência. Eram suas primeiras companhias, seus filhos, os deuses.
Seus nomes? Pensados desde os primórdios pelo Universo. Ózis foi gerado a partir de sua extasiada vitalidade. Tanri originado do infindável cosmo. Theos da pureza da alma; Zilevo dos intensos sentimentos; e Zulfiqar da complexa consciência.
Naquele momento sublime de criação, o Universo sentiu sua primeira boa emoção, a alegria paternal. Ele os observava com um olhar de admiração e orgulho, maravilhado com a beleza e a singularidade de seus filhos divinos. Era um sentimento novo, uma sensação de conexão e realização que preencheu o Grande Vazio. Com essa criação, ele não estava mais sozinho.
Em um ato de celebração pelo nascimento de seus filhos, o Universo, com um fervor criativo renovado, decidiu esculpir um jardim cósmico de proporções monumentais. Com movimentos majestosos, que faziam as galáxias dançarem em harmonia, ele convocou o pó estelar e a energia cósmica, moldando-os com uma precisão divina.
Um a um, oito planetas colossais foram trazidos à existência, cada um uma maravilha única que refletia uma faceta diferente do Universo e de seus filhos. Zaranler, Toihid, Arcríris, Térax, Moam, Primárium, Dívum e Gáudium emergiram do nada.
Enquanto ele presenteava o mundo com existência, uma sensação de realização inundou o Universo. Os deuses, recém-nascidos, observavam maravilhados. Seus olhos brilhavam com reflexos planetários, refletindo o mundo que seu pai moldava. Eles se moviam ao redor dos planetas, admirando seu esplendor, cada um expressando seu encanto e admiração de maneira única.
O Universo, ao sentir a alegria e o fascínio de seus filhos, sentiu uma onda de contentamento paternal. Este era um momento de união e celebração, uma nova era na existência do Universo, agora compartilhada com seres capazes de apreciar sua majestade e complexidade.
Primárium foi designado como o lar do Primordial e de seus filhos, representando um espelho do amor do Universo por suas criações.
Grande Vazio – Confrontados com a imensidão do Grande Vazio, mesmo os mais corajosos sentem sua insignificância. O Grande Vazio é uma extensão cósmica enigmática, existindo além dos confins conhecidos de Marum, se estende como um abismo estrelar incomensurável. Este reino foi o primeiro lar do Universo, antes da criação dos deuses. É um horizonte envolto em trevas, onde estrelas e galáxias são fenômenos tão raros que sua ausência cria um manto de isolamento insondável. Nas suas fronteiras, a luz de estrelas distantes se esvai num crepúsculo perpétuo, deixando apenas um brilho fraco para perturbar a escuridão dominante. Dentro deste vazio, o tempo e o espaço parecem se distorcer, criando uma sensação de desorientação e pequenez diante do infinito. Neste vácuo cósmico, a solidão é soberana, ecoando o perigo de se perder eternamente em suas profundezas abissais.
ATO II
Com o passar do tempo, uma melancolia familiar começou a se insinuar novamente no âmago do Universo, uma sombra silenciosa que se aprofundava em seu ser primordial. Mas desta vez, a tristeza era tingida com uma nuance diferente. Ele não estava sozinho; tinha seus filhos, os deuses, cuja existência trouxe um novo sentido ao seu imenso vazio.
Os deuses, sentindo a tristeza se enraizando em seu pai, uniram-se em um esforço para dissipá-la, mesclando seus poderes de criação, manipulando a matéria e a energia escura para formar estruturas gigantescas, bilhões de rochas gasosas. Estas formações eram nebulosas proto-planetárias, vastas nuvens de gás e poeira, cada uma objetivando preencher o vazio que ainda assombrava o Universo. No entanto, algo saiu errado. Estas criações pálidas, apesar de magníficas, não possuíam a mesma essência de seu Pai. Os deuses julgaram suas próprias obras como insignificantes, incapazes de se igualar ao esplendor do Primordial. E assim, a tristeza os envolveu com seu um manto pesado de desalento e decepção.
Observando tal desfecho, o Universo não poderia mais permitir a tristeza existir. Ele conhecia bem a adversária que seus filhos agora enfrentavam: a tristeza, uma força com a qual ele próprio lutara inúmeras vezes. Mas ele não permitiria que ela consumisse seus amados filhos.
Com um suspiro cósmico, ele emergiu da depressão do vazio, decidido a transformar o fracasso em triunfo. Com um movimento que fez o cosmos vibrar, ele escolheu duas das incontáveis nebulosas gasosas criadas por seus filhos. A primeira, ele a expandiu massivamente, inflando-a até que superasse todos os planetas combinados. Ele a impregnou com uma intensidade de calor descomunal, um calor tão potente que poderia derreter qualquer substância. Assim nasceu o vultuoso Sol, uma esfera ardente e viva.
A segunda formação, ele a compactou em uma estrutura mais densa e sólida. Ele a dividiu em oito partes distintas, cada uma destinada a orbitar um dos planetas criados anteriormente. Estas se tornaram conhecidas como Gáilus, luas que refletiriam a luz do Sol e cuidadosamente calibradas para exercer influência gravitacional sobre seu planeta correspondente, afetando todos seus futuros processos geológicos.
Apesar do esplendor do Sol, o Universo logo percebeu que sua luz, embora vasta, não era suficiente para banir completamente as sombras imensuráveis do vazio. Uma vez mais, ele se viu diante da amarga sensação de derrota, uma luta contínua contra a escuridão que parecia sempre estar um passo à frente.
Mas, em meio a essa batalha silenciosa, uma memória brilhante surgiu em sua mente: a lembrança da criação de seus filhos.
Movido por essa visão, o Universo voltou sua atenção às pequenas nebulosas gasosas. Com um toque de sua essência, ele começou a infundir cada uma delas com uma luz própria, uma luz que refletia a primeira alegria cintilante e pujante que ele havia sentido.
Uma a uma, essas nebulosas começaram a brilhar, transformando-se nas aclamadas e resplandecentes estrelas, cada uma um faixo de luz e calor. Seu brilho se espalhou pelo cosmos, formando constelações e galáxias, um mosaico de luz que desafiava a escuridão do vazio.
O Universo, contemplando o céu noturno agora iluminado por incontáveis estrelas, sentiu uma paz renovada. A escuridão do vazio ainda estava lá, mas agora estava pontilhada com pontos de luz, símbolos de esperança.
ATO III
Embora as estrelas cintilantes iluminassem o cosmos, dissipando as sombras da escuridão, uma sensação de incompletude ainda pairava sobre o Universo e seus filhos. Eles eram seres de poder incomparável, capazes de dar forma a realidades extraordinárias, mas havia uma lacuna em sua existência: a ausência dos sentidos. Eles podiam criar maravilhas, porém não tinham o dom de experimentá-las plenamente; de tocar, cheirar ou sentir suas criações.
Com a necessidade de preencher esse vazio, o Universo, o em um momento de introspecção profunda, ele decidiu dar um passo ousado. Ele concentrou seus poderes imensuráveis e começou a se metamorfosear.
O processo foi um espetáculo de transformação cósmica. Ele moldou sua essência etérea em uma forma física, uma manifestação física que simbolizava sua grandeza e singularidade. Aos poucos, sua figura começou a se erguer, assumindo uma postura ereta e majestosa. Uma estatura colossal se formava, delineada por linhas de energia que brilhavam como constelações.
Os deuses observavam, fascinados e um tanto atônitos, enquanto seu pai assumia uma forma física imponente e única. Seus corpos etéreos vibravam em resposta à transformação do Universo, um eco de sua poderosa presença. A mudança era mais do que física; era uma expressão de vontade, um desejo de experimentar a realidade de uma maneira mais íntima e palpável.
A personificação da força primordial contém a pele branca como a luz mais pura. Seus cabelos castanho-escuros caem pesadamente sobre os ombros, conferindo-lhe um aspecto de quem conhece os segredos mais antigos do mundo. Seu rosto exibia traços fortes e marcantes, com laterais retas e uma maxila e queixo quadrados, revelando determinação e poder. Seus olhos cintilantes e acinzentados eram janelas para a vastidão da criação. Seu nariz levemente achatado acrescentava uma pitada de singularidade ao seu rosto imponente. A barba acastanhada, cuidadosamente mantida, desenha linhas que contornam o queixo e a mandíbula forte, ressaltando o semblante severo, quase petrificado, mas com uma promessa de sabedoria e compaixão profundas. Sua figura representando a essência de tudo o que existe, uma entidade imortal e onipotente.
Quando a transformação se completou, o Universo, agora em uma forma física, olhou para seus filhos. Seus olhos, que outrora contemplavam a eternidade, agora brilhavam com uma nova luz, refletindo a alegria de explorar as sensações e experiências que antes lhes eram negadas. Era um convite silencioso para seus filhos seguirem seu exemplo, um gesto que prometia novas descobertas e uma compreensão mais profunda de sua própria existência.
Subsequentemente, os deuses tomaram a mesma forma bípede do pai, contudo ficando com uma forma minúscula perante o Primordial, com pernas e braços miúdos e frágeis, mas não permanecendo nessa forma por muito tempo, desenvolvendo-se com o passar dos anos. Chegando após décadas a ficar como seu pai, embora não tão grandes, alcançando apenas seu ombro. Cada filho assumindo diferente fisionomia.
Ózis se apresentando como uma figura de beleza etérea, quase transcendental. Sua pele tendo a suavidade do alvorecer sob os fios de ouro que descem em ondas desobedientes de seu cabelo, cortados para emoldurar e realçar a nobreza de seu rosto afilado. Seus olhos de um azul cristalino, carregam a luz das estrelas em seu olhar. Traços simétricos e delicados moldam seu rosto, desde o nariz reto até o contorno de lábios bem definidos, prometendo sorrisos calmos mas carregados de paixão interna. Orelhas discretas, sutilmente escondidas por suas madeixas douradas. A aura que o circunda é de calma e serenidade, porém, um olhar atento poderia notar a chama de determinação que arde dentro dele, uma força motriz de sua natureza divina.
Zulfiqar emergindo como um espectro de autoridade e mistério. Seus cabelos negros, refletindo a mais profunda escuridão do vazio cósmico, desabam em longos fios até tocarem o chão. As sobrancelhas densas se arqueiam levemente, guardiãs de olhos castanho-escuros, profundos como o abismo estelar. Em seu rosto destaca-se uma harmonia singular, com nariz reto e elegante, complementado por lábios finos, usualmente em uma linha reta, mas capazes de curvar-se no esboço de um sorriso enigmático, conferindo-lhe uma beleza singular e um charme misterioso. Suas orelhas acanhadas e delicadas, levemente curvadas, denotam uma sensibilidade aguçada para captar os sons e os segredos do consciente. Sua postura, imponente e inabalável, é a de um deus destinado a comandar, com um porte que parece esculpido para vestir as responsabilidades do poder e da liderança.
Tanri surgindo como uma figura marcante e inesquecível, cuja presença é tão inconfundível quanto uma explosão no cosmo. Sua cabeça é completamente calva, o brilho de sua pele de pigmentação escura e rica lembrando a própria noite. As sobrancelhas finas e expressivas, arqueadas sobre olhos de um verde intenso e profundo, transmitem uma sabedoria ancestral e uma perspicácia inigualável. Suas orelhas são de contornos elegantes, talhadas meticulosamente. O nariz afilado, quase aristocrático, desce até os lábios carnudos e bem definidos. O maxilar, anguloso e pronunciado, complementa a severidade de suas feições. Cada linha de seu rosto, cada curva de seu pescoço musculoso, ressoa com a promessa de um poder que é tão contido quanto iminente, cuja presença domina qualquer ambiente que pise.
Theos sendo a imagem da juventude efervescente, capturada na aurora de seu florescer. Seu cabelo encaracolado é uma coroa acastanhada, com cachos que dançam e se agitam. Seus olhos são como dois topázios âmbar, reluzentes e vivos, capturando a luz do sol poente, de uma intensidade única, capaz de desvendar os segredos mais profundos da alma. As narinas são delicadas, situadas acima de lábios cheios e suaves. Sua pele escura exibe o beijo dourado do sol, e seu rosto, com traços suaves e ainda não marcados pelos anos, transmite uma energia inocente, mas não sem uma sugestão de astúcia que espreita sob a superfície de seu olhar curioso.
Por último, Zilevo, o último dos irmãos a se desenvolver, embora se tornando o mais alto dentre eles. Sua pele apresentando uma tonalidade parda, que parece refletir a harmonia entre a luz e a sombra. Seu cabelo escuro, curto e desalinhado. Os olhos escuros, profundos como os abismos mais internos do sentimento, são afiados e perspicazes, sombreados por sobrancelhas grossas e bem definidas que se inclinam para o centro, como se estivessem sempre avaliando o horizonte por oportunidades ou ameaças. O nariz reto e a ponta sutilmente levantada, enquanto seus lábios finos e quase sempre apertados revelam uma disposição para o silêncio e a introspecção. O queixo firme e a mandíbula angulosa completam o retrato do ser divino que irradia uma aura de inteligência perspicaz e uma quietude significativa, revelando um espírito inquisitivo e uma compreensão profunda das complexidades do Universo.
ATO IV
Anos haviam se passado desde que o Universo e seus filhos adquiriram formas físicas, durante esse tempo, o Primordial, agora carinhosamente chamado de Máterum por seus filhos, desenvolveu uma conexão mais profunda e significativa com eles. Em um dia aparentemente comum, uma sensação nova e intrigante permeou a percepção de Máterum. Eram presenças misteriosas, sutilmente ocultas, mas indiscutivelmente presentes em seu planeta.
Essas presenças desconhecidas emitiam uma energia que lembrava a dos deuses, mas de uma natureza visivelmente mais fraca. Curioso e cauteloso, Máterum convocou seus filhos. Juntos, eles embarcaram em uma busca, guiados por seu pai, para desvendar o mistério dessas presenças.
A jornada os levou ao coração do imenso nevoeiro Hungu, uma massa de nuvens densas e enigmáticas que cobria vastas extensões do deserto de Primárium.
Conforme avançavam, uma sensação de apreensão crescia entre eles. Máterum, com seus passos firmes, liderava o caminho, sua presença imponente cortando a neblina venenosa e a afastando de suas proles.
Finalmente, eles encontraram duas entidades, perdidas dentro do nevoeiro, tremendo sutilmente, emanando uma aura de medo delas ao perceberem a presença de Máterum.
O Primordial observou-as com um olhar penetrante, tentando discernir sua natureza e origem. Os deuses, por sua vez, trocaram olhares entre si, surpresos e intrigados com a descoberta. Eles sentiam uma conexão tênue com esses seres, uma familiaridade distante que despertava mais perguntas do que respostas.
Em meio ao nevoeiro, Máterum ergueu sua voz, profunda e ressonante, cortando a bruma como um ar de autoridade. — Quem sois vós?¹ — Sua indagação ecoou. Seus olhos fixos nas duas silhuetas que lentamente emergiam do véu de névoa.
À medida que as figuras se tornavam visíveis, uma onda de surpresa se espalhou entre Máterum e seus filhos. Estes seres, embora inegavelmente diferentes, compartilhavam uma semelhança perturbadora com os deuses. Eram ligeiramente menores, com traços mais delicados e corpos graciosos, com pequenos pares de seios, uma variação fascinante da forma divina.
A primeira figura, emergindo com uma postura cautelosa, apresentou-se. — Meu nome é Réslar — sua voz soava como uma melodia suave.
A segunda figura, acompanhando Réslar, apresentava uma aura ainda mais reservada. — O meu é Lésnar — disse ela, sua voz mais suave e tímida, quase como um sussurro que mal se destacava contra o murmúrio do nevoeiro.
Os deuses observavam fascinados enquanto as duas figuras se materializavam completamente diante deles. Máterum permaneceu imóvel, sua expressão envolta de reflexão. Ele analisava Lésnar e Réslar, tentando entender a natureza de sua existência e o que sua aparição significava para o mundo que ele havia criado.
Ambas as deusas com traços idênticos: uma beleza enigmática, uma que trazia tanto mistério quanto fascínio. Seus rostos eram um delicado equilíbrio de traços fortes e sutis: uma mandíbula levemente proeminente definia o contorno de sua face, enquanto maçãs do rosto altas se projetavam suavemente sob uma pele alva, quase porcelana, pontilhada por um salpico de sardas cor de caramelo que atravessavam suas bochechas e o topo de seu nariz.
Os olhos capturavam a luz como dois poços de obsidiana, grandes e penetrantes, circundados por cílios que pareciam ter sido feitos à mão do Universo de tão perfeitos que eram. As sobrancelhas delineavam-se com uma precisão afiada. Seus cabelos ruivos, desciam reto e liso, deslizando sobre seus ombros com a fluidez de um véu vermelho-dourado.
Os lábios, suavemente cheios e de um tom rosa claro, os narizes estreitos e os queixos afilados pareciam quase artificiais em sua perfeição, capturando a essência da simetria.
Com um olhar penetrante, ainda permeado de gentileza, Máterum inclinou-se levemente em direção a Lésnar e Réslar. Sua voz, embora poderosa, assumiu um tom suave e inquisitivo, refletindo sua curiosidade genuína. — De onde viestes? — ele perguntou.
As deusas trocaram um olhar rápido antes de responder. Lésnar tomou a iniciativa, seu corpo se descontraindo ligeiramente enquanto ela revelava sua origem. — Eu nasci a partir da essência dos planetas.
Réslar, com sua postura mais cautelosa, complementou a resposta de sua companheira. — E eu fui criada através da formação das estrelas — ela murmurou, adicionando que elas eram do planeta Zaranler.
Seus olhos deslizavam nervosamente entre Máterum e os outros deuses, refletindo um desconforto com a atenção que recebiam e o silêncio que se seguia às suas palavras.
Máterum, absorvendo suas respostas, permaneceu em silêncio por um momento, contemplativo. Em sua mente, sempre repleta de pensamentos, o silêncio nunca existiu. Ele ponderou sobre as implicações da existência dessas deusas. Seria possível que, após a criação dos deuses, ele tivesse inadvertidamente dado início a um processo que permitiria a manifestação de novas formas de vida divina?
Refletindo sobre a abertura da vida que ele mesmo havia criado, Máterum começou a entender o fenômeno diante dele. Tudo o que ele havia criado tinha o potencial de gerar vida, de dar origem a novos deuses. Era uma revelação que ampliava ainda mais o escopo de seu poder e a natureza de seu legado.
A curiosidade brilhava nos olhos de Zilevo ao observar Lésnar. Com uma inclinação sutil da cabeça e um leve franzir de sobrancelhas, ele expressou seu interesse crescente. — E quem são os outros? — ele perguntou, sua voz com um leve traço de respeito.
Lésnar, percebendo a atenção direcionada a ela, pareceu se recolher um pouco, a timidez evidente em seu porte. Sua voz, suave e quase como um sussurro, flutuou até ele. — Nossos companheiros — ela respondeu. Ao falar, ela lançou um olhar rápido e tímido em direção a Zilevo, mas assim que seus olhos se encontraram, ela desviou o olhar, uma cor avermelhada tingindo suas bochechas. Suas mãos se moveram de forma quase inconsciente para acariciar seus cabelos ruivos, um gesto que revelava sua insegurança momentânea.
Zilevo, por sua vez, permaneceu quieto, absorvendo a informação, enquanto seu olhar se deslocava entre Lésnar e a névoa que os cercava.
Máterum, em um gesto de benevolência e compreensão, estendeu sua mão em direção a Lésnar e Réslar. Sua voz ecoou com uma serenidade acolhedora. — Convidem seus companheiros para se juntarem a nós, estarão seguros aqui.
As deusas, inicialmente relutantes, trocaram olhares, mas logo, com um suspiro quase imperceptível, Réslar reuniu sua coragem. — Saíam do nevoeiro! — Ela comandou, sua voz crescendo em confiança. Seus olhos sem nunca desviar dos do Universo.
Assim, do coração do nevoeiro, figuras começaram a emergir lentamente, como sombras ganhando forma. Esses novos deuses, cada um com uma aura única, surgiam visivelmente exaustos. Seus movimentos eram lentos e trôpegos, como se cada passo exigisse um esforço imenso. O cansaço estava gravado em seus rostos e posturas, uma clara indicação das dificuldades que enfrentaram permanecendo no nevoeiro Hungu.
Os filhos de Máterum observavam com uma mistura de curiosidade e compaixão. Eles se aproximaram discretamente, prontos para oferecer apoio se necessário. A expressão de Máterum suavizou ao ver o estado dos recém-chegados, sua preocupação paternal transparecendo claramente.
Com uma voz calorosa, Máterum proclamou — Estais bastante lânguidos. Vinde conosco, cuidaremos de vós! — Seu convite era uma oferta de refúgio e cura, uma promessa de segurança em sua presença.
Com passos largos e decididos, Zulfiqar respondeu prontamente ao chamado de seu pai. Ele se aproximou dos deuses fatigados, sua postura exalando uma força protetora e esperançosa.
Um dos deuses, ainda envolto em desconfiança, começou a protestar — Não podemos confiar em... — suas palavras cortadas pelo peso do cansaço, sua voz falhando à medida que a exaustão o vencia. Antes que pudesse completar sua frase, ele cambaleou, seu corpo vacilando à beira do colapso.
Zulfiqar, com uma agilidade surpreendente, moveu-se para ampará-lo, segurando-o firmemente antes que atingisse o chão. Com uma facilidade impressionante, ele levantou o deus desmaiado, colocando-o em suas costas como se fosse uma tarefa simples.
Máterum, observando a cena, reiterou suas palavras. — Podeis confiar em nós. Ajudar-vos-emos! — Seu tom era de uma sinceridade indiscutível, um sinal claro de sua intenção benevolente.
Os deuses restantes, hesitantes inicialmente e visivelmente abalados pela jornada extenuante, viram em Zulfiqar e Máterum um porto seguro. Suas expressões, de fadiga e incerteza, suavizaram-se ligeiramente ao testemunhar o ato de bondade. Confrontados com a generosidade inesperada, eles começaram a seguir Zulfiqar, um após o outro, movendo-se em direção à morada de Máterum.
À medida que se afastavam do nevoeiro, uma sensação de esperança começou a substituir a desconfiança. O grupo se movia, embora cauteloso, guiados pela promessa de descanso e recuperação sob a tutela do Universo.
Nevoeiro Hungu - esta entidade misteriosa e ameaçadora é um nevoeiro venenoso colossal, que engolfa vastas extensões do deserto de Primárium a cada anoitecer, dissipando-se somente ao nascer do sol. A origem do Nevoeiro Hungu é um enigma até mesmo para os deuses, sendo reconhecido apenas por Máterum e outros dois deuses cujas identidades permanecem um mistério para os deuses originais.
1 – O Primordial distingue-se dos deuses, monstros e qualquer outro ser vivo não apenas por sua essência, mas também por sua maneira de se comunicar. O autor deliberadamente escolheu que o Primordial utilize as conjugações verbais com precisão impecável, uma escolha estilística que não reflete apenas um aspecto linguístico, e sim sua singularidade e do papel que desempenha no mundo da narrativa. Assim, a fala do Primordial não é apenas um meio de comunicação, mas também um símbolo de sua posição transcendental e distinta em relação a todas as outras entidades posteriores.
Máterum
Ózis
Tanri
Theos
Zulfiqar
Réslar
Lésnar
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