ELE/ELA
ELE
— Quero que você procure ela, e diga que ela ganhou um concurso uma promoção... não sei invente alguma coisa.
— Você sabe que isso não é certo...
— Eu não posso perdê-la.
— Se contar a verdade será melhor, esse tipo de segredo não fica guardado por muito tempo. Além disso, a mãe dela se lembra de mim. Eu conversei muito com ela na época... Enfim, é uma mulher muito humilde, não muito esperta, facilitou tudo para você.
— Eu sei que eu devia contar tudo — eu disse a Salazar. — Mas estou recebendo uma segunda chance e não quero desperdiçá-la. Invente algo, diga que não trabalha mais para a minha família, que não se lembra do caso, que o motorista do carro morreu. Isso! Diga que o motorista morreu.
O doutor Salazar me olhou severamente. Estávamos no meu apartamento discutindo diversas maneiras de beneficiar Natasha. Eu iria almoçar com ela naquele dia. Tínhamos combinado um encontro naquele horário, porque Natasha trabalhava a noite. Eu estava tão eufórico e ansioso que andava de um lado para o outro enquanto o doutor Salazar estava sentado tranquilamente na mesa. Eu ia sair com a Natasha. Nem acreditava nisso. Na minha coragem. Mas eu estava disposto a tê-la. De viver isso, mesmo sabendo que era errado, muito errado. Por isso liguei para o doutor e pedi para que ele fosse na minha casa mais cedo naquele dia, precisava consertar as coisas com a Natasha, eu devia isso. O advogado era um homem velho, da idade do meu pai, e extremamente honesto. Ele não concordava com a maneira como eu estava conduzindo as coisas. Mas eu sabia que ele iria me ajudar. O homem me viu crescer. Cuidou de todas as minhas encrencas. Eu sabia que ele me via como um filho rebelde que ele tentava ajudar. Ele arqueou as sobrancelhas e falou:
— Você está apaixonado pela moça?
Não respondi.
— Se está deveria contar a verdade.
— Não posso. Ela vai me odiar.
Eu não podia receber o ódio de Natasha agora. Não agora que eu estava recebendo o seu amor. O jeito como conversamos ontem, a maneira como ela me olhou a noite inteira e como foi difícil me despedir dela sem agarrá-la em meus braços e beijá-la. Não. Eu não podia contar a verdade. Eu não conseguia.
— Eu não quero que ela me odeie.
— Você não vai conseguir sustentar isso por muito tempo. Você sabe que mais cedo ou mais tarde ela vai descobrir e aí sim ela vai te odiar.
— Eu preciso me arriscar. Além disso, talvez ela nunca descubra. Ela não sabe quem eu sou mesmo depois de cinco anos. E se você dizer a ela que o motorista morreu e que a família dele foi embora da cidade ela nunca vai descobrir.
— Não é tão fácil assim. Houve um processo contra você. Seu nome está em todos os papéis desse processo. Ela com certeza deve ter uma cópia desses papéis. Se ela não te reconheceu foi porque ela nunca quis saber o seu nome, pois ela tem acesso a essas informações tranquilamente.
— Deve haver um jeito. Talvez se eu falar com a mãe dela... oferecer muito dinheiro.
— E comprar o silêncio da pobre mulher? É esse o seu plano? Max eu te conheço desde criança. Você não é um mentiroso. Acha mesmo que poderá ser feliz com esse segredo te corroendo aos poucos? Acha mesmo que conseguirá construir um relacionamento com essa mulher em cima de tanta mentira? Você não vai conseguir fazer isso, Max. Além disso, o seu pai não vai deixar.
— Eu me entendo com ele.
— Transferir meio milhão de reais da sua conta para uma mulher desconhecida irá fazer o seu pai surtar. Sua mãe briga tanto com ele para que você ainda tenha ações na empresa e direito a sua herança. Se você transferir essa quantia, seu pai irá te deserdar e você terá que viver dos seus quadros.
— Eu já vivo do dinheiro dos meus quadros. Nunca mexi no dinheiro do meu pai.
— Pense na sua mãe, Max. Ela irá ficar arrasada se o seu pai te deserdar.
— E o que eu posso fazer? — falei irritado. — Preciso consertar pelo menos esse meu erro.
— A mãe dela já recebeu uma indenização. Legalmente você não deve mais nada a essa família.
— Eu devo a minha vida a Natasha. Eu destruí a vida dela, Salazar. Ela era bailarina. O sonho dela era estar nos palcos e por minha culpa ela nunca mais irá poder dançar um ballet clássico. Eu preciso dar um jeito nisso. Eu não consigo dormir. Não consigo comer. Estou me destruindo aos poucos por causa disso.
— Você precisa de ajuda.
— É isso que estou fazendo. Estou pedindo sua ajuda. Me ajude a ajudar Natasha.
— Não posso ajudar essa moça sem envolver o seu nome no meio.
— Então terei que procurar outro advogado. Outro que seja cínico e sem escrúpulos como eu.
Ele cruzou os braços irritado e balançou a cabeça com um misto de raiva passeando em seu rosto enrugado.
— Ok. Mas só poderemos pagar cem mil. Se pegar muito dinheiro o seu pai irá desconfiar. Direi a ele que você quer um apartamento novo ou reformar a casa e que por isso precisa do dinheiro.
— Obrigado — eu agradeci aliviado. Cem mil já era um bom começo. Depois eu daria um jeito de fazer com que Natasha tivesse mais dinheiro.
— Tem mais uma condição. Irei negociar tudo com a mãe da moça. E tentarei fazer com que ela assine um acordo onde ela prometa que não irá nunca sob hipótese alguma revelar sua identidade a filha com a condição de que receberão mais dinheiro no futuro.
— Você acha que ela vai concordar?
Ele deu de ombros.
— É a sua única chance.
— Quero estar com você. Quero falar com ela. Quero me explicar.
— Max, talvez seja melhor você ficar longe nesse momento.
— Não. Eu insisto, por favor, marque uma reunião com ela o quanto antes. Eu quero estar presente. Se for preciso irei ajoelhar-me diante de seus pés e implorar que ela me deixe ficar com a sua filha.
— Você está ficando louco, Max. Não te reconheço mais. Algo me diz que essa história irá acabar muito mal. — Ele respirou fundo e engoliu em seco. — Mas eu irei te ajudar, porque sei o quanto você já sofreu, principalmente com a ... Enfim, quero que você seja feliz.
— Obrigado, doutor Salazar. Isso é muito importante para mim. Eu sei que ela é a única pessoa no mundo que pode me fazer feliz.
— Está errado, Max.
O doutor Salazar levantou da mesa apanhou sua bolsa de mão e caminhou até a porta, mas antes de ir falou:
— A única pessoa que pode te fazer feliz é você mesmo.
ELA
— Max me chamou para sair.
Eu contei para Tália assim que cheguei no hospital. Ela estava meio sonolenta, mas esboçou um sorriso quando eu lhe contei.
— Então você seguiu o meu conselho e falou com ele.
— Quase isso, mas me fale como você se sente?
Sentei-me na poltrona de acompanhante. Estava cansada e suja, mas tão feliz. Tão radiante que a dor dos meus músculos não me incomodava.
— Estou bem, acho que vou ter alta esse fim de semana. A doutora disse que eu estou me recuperando muito rápido.
— Você nos assustou. — Eu sorri para ela que também sorriu de volta.
— Me fale do seu encontro. Como tudo aconteceu. Me conte tudo. Quero saber todos os detalhes.
Contei a ela absolutamente tudo. Inclusive sobre o pai de Max. Aquele homem me dava asco.
— Como ele consegue lidar com um pai assim? — Tália perguntou.
— Eu não faço ideia. Ele é muito corajoso por conseguir suportar aquele pai.
— Você não acha estranho o pai dele tratar ele desse jeito?
— Sim — admiti. — Mas essa gente rica costuma ser arrogante e querer filhos perfeitos. Max não é perfeito, deve ser por isso que o senhor Caprini não aceita o filho.
— Acho que não é só isso, Tasha. Mas logo ele deve te contar. Pelo que você disse ele confia muito em você. Mas tome cuidado. Não quero que você se machuque.
— Não vou. Pela primeira vez em anos sinto que não irei me machucar. Que posso confiar nele. Eu nunca me senti assim e sei que somos muito diferentes, mas eu... eu simplesmente confio nele. Somos muito parecidos.
— Parecidos como? — ela quis saber.
— Max também sofreu um acidente. — Ela me olhou surpresa. — Ele não consegue dirigir até hoje por causa disso. Tem trauma. Você precisava ver o desespero nos olhos dele quando ele tentou dirigir.
— Coitado! — Tália exclamou. — Como foi esse acidente?
— Ele não falou muito e eu não quis ser invasiva e perguntar. A gente ainda está se conhecendo.
Eu ri apaixonada. Eu era muito boba, mas não conseguia esconder os meus sentimentos da minha irmã.
— E vocês vão aonde amanhã?
— Ele disse que vai me levar para almoçar, já que eu trabalho a noite. Eu tô nervosa. Nem tenho roupa pra isso. Acho que vou ter que passar amanhã na casa da dona Luca e ver se ela trouxe alguma roupa nova lá de São Paulo...
— Sua boba, não se preocupe. Ele gosta de você do jeito que você é.
— Gosta de mim. Gosta de mim. — Eu ri toda patética. Tália ficou radiante com a minha alegria.
— Se ele te magoar vou ter que matá-lo. — Eu apertei a mão dela, seu rosto ficou sério. — Você disse que ele estava beijando uma mulher no jardim.
Eu dei de ombros. Essa era uma parte que eu não devia ter contado. Que eu tentava ignorar. O meu lado cético dizia que eu devia ficar esperta, mas o meu lado romântica ignorava completamente tudo isso.
— Cuidado, tá? Guarde o seu coração. Digo isso para o seu bem.
— Eu sei.
— Ah! Já ia me esquecendo. Mamãe volta na segunda. Ela me ligou. Parece tão feliz. Pela primeira vez em anos a minha família está feliz.
— Que horas ela volta?
— Antes do almoço. Disse que vem direto pra cá.
— Quero conversar com ela. — Lembrei-me da minha última conversa com a minha mãe. — Quero saber quem me atropelou.
— Tasha, você nunca quis saber. Por que isso agora?
— Eu quero enterrar essa parte da minha vida, Tália. Eu quero esquecer. Depois que eu conheci o Max eu percebi que eu quero ser feliz. E vai ser bom olhar na cara do desgraçado que fez isso e dizer para ele umas boas verdades.
— Você só vai conseguir esquecer tudo isso quando conseguir perdoar.
— Eu não vou perdoá-lo nunca. Você sabe disso.
— Então por que você quer ir procurá-lo agora? Depois de todos esses anos? Talvez seja melhor esquecer.
— Eu fui boba. Eu devia ter feito isso há muito tempo atrás. Eu devia ter perguntado pra mamãe o nome dele assim que eu acordei sem a minha perna. Você sabe quem ele é?
— A mamãe falou uma vez, mas eu não lembro direito. Você sabe como ela é. Quis resolver tudo sozinha. Não contou quase nada pra mim também.
— Ela não devia ter aceitado o acordo...
— Ela fez o que pôde. Ela achou que ia ser melhor pra você. Escute, a pessoa que te atropelou era muito rica. Família tradicional. O advogado ficou em cima da mamãe, praticamente obrigou ela a assinar o acordo.
— Odeio essa gente rica! Filho da puta! Estragou a minha vida e agora deve estar se refrescando em Paris.
— Não vale a pena ir atrás dessa história, irmã. Vai por mim. Você vai se arrepender. E eu não acho que ele está se refrescando em Paris. Tem uma coisa que eu nunca te contei...
— O quê? — eu quis saber.
— Eu vi o homem que te atropelou. Na verdade vi ele de costas. Não vi o rosto dele. Mas ele estava ajoelhado no corredor e não parava de chorar. Uma mulher loira estava do lado dele o acalmando e ele estava arrasado.
— E como você sabe que era ele?
— Por que a mulher me viu e veio falar comigo. Ela era muito jovem e bonita. Ela disse que ele sentia muito. Que ele tinha muitos problemas e que ele estava bêbado. Que foi um acidente.
— E você acreditou nela? — eu perguntei furiosa, para mim era óbvio que esse desconhecido era um desgraçado.
Tália me olhou daquele jeito dela, com os olhos cheios de compaixão.
— Eu... Sim. Eu acreditei.
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