ELE/ELA
https://youtu.be/xua1aWzCRZM
ELE
Natasha me viu com Angélica.
Natasha me viu com Angélica.
Natasha me viu com Angélica.
Fiquei repetindo isso mil vezes na minha cabeça enquanto eu via Natasha entrar no elevador e assim fugir de mim. Angélica grudou em mim e me beijou. Eu nem prestei atenção no seu beijo. Meus olhos estavam abertos e fixos em Natasha. Ela não olhou para trás. Ela não se deu ao trabalho de olhar para mim.
Eu nem me lembrava de como eu havia parado ali. De como Angélica agora estava nos meus braços sendo que nem éramos namorados.
Naquele dia, na cafeteria, Natasha também virou as costas para mim, mas eu não podia julgá-la. Eu estava sendo invasivo demais. Questionando fatos de sua vida sem o menor pudor. Depois daquele decidi me afastar. Mas para isso eu precisava ser convincente. Eu precisava ser convincente comigo mesmo. Para começar eu precisava parar de ir ao bairro dela. Precisava parar de ir à cafeteria. De pesquisar o nome dela no Facebook. Eu precisava tirá-la dos meus pensamentos. Eu precisava me livrar dessa fixação.
A pintura me manteve afastado. Foquei no meu trabalho. Terminei trabalhos que estavam atrasados. Adiantei outros. Mas não pintei nada novo. Nada original. Nenhuma obra prima. A minha musa não devia ser minha musa. Era pecado sonhar com Natasha. Eu impuro demais para ela.
Entre uma pintura e outra e um gole de vinho. Percebi que quanto mais longe eu estava, mas próximo eu ficava dela. Natasha era como uma doença e aos poucos essa doença foi se espalhando pelo meu corpo. Pela minha pele. Pelos os meus órgãos. Pelo meu coração. Ela estava nas minhas veias. No meu sangue. Em cada pulsação. Em cada átomo. Essa doença estava me matando. Eu precisava de uma cura. Mas o que tiraria Natasha do meu corpo?
Angélica.
Pelo menos foi isso o que eu pensei quando a convidei para jantar na minha casa na véspera do dia dos namorados.
— Então agora você decidiu conversar comigo como se nada tivesse acontecido?
Ela perguntou naquela noite depois do jantar enquanto bebericávamos o vinho tinto.
— Eu peço desculpas. Eu precisava de um tempo sozinho.
Eu já estava começando a me arrepender de tê-la convidado. Talvez tenha sido melhor ficar sozinho outra vez.
— Você está melhor? — ela perguntou.
— Não. E acho que nunca vou estar bem.
— Você esteve bem na faculdade. Éramos tão felizes, lembra? Nos divertíamos tanto.
— Eu era um drogado. Não lembro de quase nada da faculdade. Eu vivia bêbado.
Angélica respirou fundo.
— Eu sei que você passou por muita coisa. Eu estava lá com você. Você se lembra disso, certo?
Assenti.
— Você não teve culpa das merdas que aconteceram. Ninguém teve.
— Eu não penso assim — respondi de forma rude. — Eu sou um filho da puta, Angélica.
— Não se menospreze. Odeio quando você faz isso.
— Isso o quê?
— Se faz de vítima em todas as situações.
— Mas eu não sou a vítima. Ao contrário, em todas elas eu fui o vilão.
— É que você faz tempestade em copo d'água. Foram acidentes. Você não teve culpa. Precisa aprender a se perdoar.
— Eu não sei perdoar.
— Então me deixa te ensinar.
Ela estendeu a mão para mim. Seu dedo indicador ficou fazendo círculos no meu pulso. Angélica me olhava cheia de malícia. Eu sabia o que ela queria, mas eu não sabia se podia dar isso a ela. No fundo algo me dizia que eu jamais poderia amá-la e que não devia.
— Eu não sei se é uma boa ideia — eu disse a ela.
— O que te impede? — ela perguntou com um beicinho.
Natasha.
— Eu não quero te magoar.
— Então diz que sim.
Ela se levantou da cadeira e caminhou em minha direção. Angélica se inclinou até mim. Suas mãos no meu rosto. Então seus lábios vieram até os meus.
Eu não senti nada enquanto ela me beijava.
Ela se afastou quando percebeu a minha indiferença.
— Em quem você está pensando?
— Em você.
— Não minta pra mim.
Ela apertou o meu rosto com as suas unhas cumpridas.
— Ela é como?
— Tão fodida quanto eu.
Fui sincero com ela. Angélica se afastou por um momento.
— Eu amo você. Sempre foi você. Nunca quis mais ninguém — ela falou com a voz chorosa.
— Eu não tive culpa. Aconteceu. Nós não estamos mais juntos.
— Pois para mim estávamos.
— Eu estou sendo honesto com você, Angélica.
— Até demais.
— Você queria que eu mentisse pra você. Te comesse em cima da porra da mesa pensando em outra e fingindo amar você?
— Sim! — ela gritou furiosa. — Eu queria que você tivesse feito isso.
— Você precisa me esquecer, Angélica. Eu não sou homem pra você.
— Eu não consigo. Não dá.
— Até quando você vai se contentar com as migalhas? Você é incrível e linda.
Eu me levantei e fiquei de frente para ela.
— Eu te amei um dia. E é por amar você que eu estou dizendo para você ir. Você merece um cara que te ame — falei colocando minhas mãos em seus ombros, meus dedos beliscavam o tecido de sua blusa.
— Eu vou — ela concordou com a voz sufocada pelas lágrimas. — Mas eu queria que você dormisse comigo uma última vez.
Respirei fundo. Eu não podia fazer isso com ela. E principalmente, eu não podia fazer isso comigo.
— Eu não posso. — Esquivei-me.
— Pode sim — ela falou com a voz melosa. — É só fechar os olhos e fingir que eu sou ela. — Ela aproximou o seu rosto do meu, seus lábios contra os meus. — Fingir que os meus lábios são os dela.
— Isso é horrível com você, Angélica.
— Não quando eu estou pedindo.
Então ela me beijou. Sua boca sufocou a minha, e eu fiquei tentado em evitá-la. Em afastá-la de mim. Gritar com ela e expulsá-la do meu apartamento. Mas eu estava louco de tesão. Uma mulher bonita se oferecendo para mim e aconteceu exatamente o que eu não queria que tivesse acontecido. Eu fechei os meus olhos e fingi que aquele beijo era da Natasha. Eu me libertei. Tirei as correntes que me aprisionavam impedindo-me de viver esse amor. Eu jamais tocaria na real Natasha, mas naquela Natasha dos meus sonhos eu podia tocar. Estava tocando naquele momento. Os lábios dela estavam contra os meus. Gemidos escapavam dos seus lábios quando eu agarrei os seus cabelos macios em minhas mãos e a apertei em meus braços. O cheiro dela era impressionante e eu a mordisquei quando a minha boca chegou em seu pescoço. Beijei cada milímetro de sua pele. Era Natasha em meus braços e nada mais tiraria o brilho daquela noite. Eu fingiria que aquilo era real. E na manhã seguinte eu estaria livre de Natasha porque eu já teria provado tanto dela que haveria de enjoar do seu gosto. E cuidei para que isso se realizasse. Provei cada centímetro, cada pedacinho dela.
Foi como dançar com ela. E eu a conduzia ao prazer. Dançamos embalados ao som melancólico que acompanhava a noite. Eu a segurei em meus braços e a estendi para o céu enquanto ela rodopiava e gemia o meu nome com os olhos fechados sendo levada por mim para o ápice de nossa dança. Pela manhã eu estava cansado. Dancei com a minha Natasha a noite inteira. Eu havia provado dela. Pensei que fosse enjoar, mas eu estava mais sedento, eu queria mais então a levei para o meu chuveiro e lá dançamos novamente, só que desta vez mais fatal, mais rápido, mais cruel, mais selvagem. Eu a deixaria marcada da mesma forma que ela me marcou. Ela gritou tão alto que eu tive de tampar o seu grito com as minhas mãos. E ela chorou pedindo mais quando eu a abracei por trás e fiz ela desejar me ter para sempre enterrado dentro de si. A nossa dança foi cada vez mais alucinante, era como se eu estivesse entorpecido, experimentado o manjar dos deuses as luzes piscavam e eu só pensava nela. Natasha. Natasha. Natasha. Natasha... E eu ficaria ali para sempre dançando e me deliciando com cada pedaço, mas a campainha tocou.
Aprumei-me com raiva. Quem ousava em interromper a minha dança? Era Natasha. Não a de mentira. A real. Aquela que eu nunca toquei e nem nunca irei tocar.
Meu mundo caiu naquele instante. Parou de girar. E eu me dei conta de que meu desejo era tão absurdo que eu usei Angélica. A humilhei da pior maneira possível.
— Aquela faxineira estava com uma cara. A gente pode voltar de onde a gente parou? — Angélica disse cheia de malícia quando Natasha foi embora e voltamos para o apartamento. — Foi a melhor noite da minha vida. Você nunca transou comigo desse jeito antes.
— Angélica... Vai embora, por favor — eu disse ela nervoso com o que eu havia feito.
— Por quê? — ela perguntou achando graça e se aproximando de mim, eu me afastei.
— Eu fiz o que você falou. Eu pensei nela. O tempo todo era nela que eu estava pensando.
Eu nem olhei para Angélica. Não precisava. Eu escutei seu choro. Seus soluços. Seus balbucios. Pensei em consolá-la, mas achei melhor não. Era melhor assim. Ela me pediu uma última noite e eu a dei. Pelo visto de um jeito bem cruel e injusto com ela.
Quando Angélica finalmente se foi eu finalmente me dei conta de que agora eu estava sozinho mesmo.
ELA
Sabe aquela sensação de que os seus sonhos estão morrendo. De que você nunca vai realizá-los e de que sem eles você vai morrer? Deus queira que você nunca conheça essa sensação. É isso que aconteceu comigo. Meus sonhos morreram. E agora estou morta. Não existe mais nada para mim nesse mundo. Eu estava vivendo nas sombras. Perambulando pelas estradas da vida sem fazer nenhuma curva. Sem trocar a marcha e mantendo uma velocidade mínima para viver. Se é que isso pode ser chamado de vida. Estava me afundando em um abismo profundo. Sem sol. Sem calor. Apenas o frio e o uma força surreal puxando para o buraco. Meus dias eram tão iguais e comuns. Nada de novo acontecia. Era tudo igual. Levantar. Tomar café. Limpar a casa. Cuidar do meu coto. Limpar a minha prótese. Trabalhar. E fim. Nada mais. Nada extraordinário acontecia. Era a mesma rotina entediante lembrando-me da minha existência insignificante.
Por um momento eu pensei ter visto uma luz. Que finalmente eu teria uma pequena chance de retomar a minha vida e enfim ser feliz. Mas não. Era tudo coisa da minha cabeça. Por que eu pensei que Max, aquele homem rico e poderoso iria querer alguma coisa comigo? Por que eu me iludi desse jeito? Era óbvio que ele só tinha olhos para Angélica. Era com ela que ele estava essa manhã. De fato, haviam adiantado a comemoração do dia dos namorados. A paixão entre os dois era tão forte que eles não suportaram esperar. Certamente haveria um replay essa noite. Angélica tinha sorte. Ela podia passar as mãos nos cabelos dele. Sentir o cheiro dele. Percorrer cada detalhe do seu corpo. Ouvi "eu te amo" enquanto é amada por ele. Enquanto ele a possui. Eu não. Eu ainda era virgem. Victor nunca tinha tocado em mim. Eu queria me casar virgem. Queria ser apenas do meu marido. Era um sonho meu. Talvez o único que havia restado para mim. Mas não tinha nenhum príncipe encantado. Não havia nenhum homem nesse mundo para mim. Eu morreria sozinha. Tália tinha um noivo. Minha mãe também. Mas não havia ninguém na minha vida. Max não me pertencia. Eu era só a faxineira como Angélica fez questão de frisar. Foi bom para mim acordar para a realidade e ver quem eu era: uma ninguém. E Max era demais para mim e ele tinha namorada. Eu precisava esquecê-lo. Ele não era para mim. Ele era para ela. E isso era o que eu precisava colocar na minha cabeça.
Andei pelas ruas chutando as pedrinhas que ladeavam o chão. Olhando para baixo, evitando encarar as pessoas. Eu sentia as vezes que era alérgica a gente. Eu sentia uma agonia muito grande quando estava em lugares amarrotados. Um aperto no coração. Como se mãos masculinas estivessem apertando o meu pescoço tentando tirar os fiapos de vida que ainda me restaram. Tália tinha razão. Eu precisava de um médico. Eu precisava de ajuda. Eu tinha que me curar já que era fraca demais para me entregar para os braços da morte.
Andei tanto que quando me dei por si nem sabia aonde eu estava mais. Eu estava perdida em uma cidade que era o meu lar. Que eu conhecia cada canto. Mas eu não conhecia ali. Não sabia aonde eu estava. Meu coração saltou. Me faltou ar. Eu me sentia sufocada. Perdendo todo o fôlego. Coloquei uma mão nas costas. A outra afrouxou a camisa azul marinho que eu usava eu precisava sentir a brisa fresca bater contra a minha pele. Mas as coisas ficaram tortas. Minha vista turva. O mundo rodopiava. Era como estar dançando por entre borrões e a minha cabeça estava girando, girando e girando e eu cada vez mais zonza. Meu estômago doeu. Eu ia vomitar. Ou pior desmaiar ali. Naquele lugar estranho. Sem ninguém que eu conhecia por perto.
— Você está bem?
Uma voz masculina falou enquanto eu senti suas mãos no meu quadril me segurando, impedindo-me de cair.
— Estou bem — sibilei, a voz fraca. O corpo todo fraco. A vista uma bagunça.
— Venha. Sente-se aqui.
O homem me conduziu até um borrão que logo se firmou e me mostrou uma mesinha de uma cafeteria. Ele me ajudou a me sentar. Eu fechei os olhos. Respirei fundo contei mentalmente até dez até que tudo foi aos poucos voltando ao normal.
O homem voltou com um copo d'água. Eu bebi o líquido com tanta vontade. Só depois agradeci.
— Obrigada. Você é muito gentil.
Ergui a cabeça aos poucos, pois eu ainda me sentia meio zonza. Era Victor. Eu reconheci imediatamente os olhos verdes e gentis, os cabelos loiros, porém os traços suaves haviam sido substituídos por linhas de expressão marcadas. Finco em sua testa. Rugas em volta dos olhos. Os cabelos estavam mais curtos, ele parecia estar perdendo cabelo. Victor estava tão devastado quanto eu. Porém, ele sorriu para mim. Parecia estar feliz em me ver. Seus olhos brilhavam com a mesma intensidade que o sol iluminava a cafeteria pequena e rústica que estávamos.
— Oi Natasha, você está bem? — ele perguntou.
— Oi — balbuciei. — Victor, quanto tempo.
— Sim. — Ele se sentou na minha frente.
Sua voz continuava a mesma de sempre. Tão serena e musical.
— Você não mudou nada. Continua sendo bonita.
Eu não respondi. Ele para mim parecia mais velho e cansado.
— Como você está?
— Como você está?
Hesitei.
— Sendo sincera. Nada bem.
— Sendo sincero também. Não estou nada bem também.
Ele riu. Mas só ele achou graça.
— Eu precisava mesmo falar com você. Estive pensando em você. Mas você não vai mais na igreja.
— Não sei se acredito mais em Deus.
— Pois eu orei para ele me colocar na sua frente. Acho que ele atendeu as minhas preces. Precisamos conversar, Tasha.
— Já estamos conversando.
— Não desse jeito. Eu preciso falar com você sobre o que aconteceu conosco.
— Pra quê? Isso já acabou.
— Não, Tasha. Ainda não acabou.
*********************
Oi gente, tudo bem? Talvez eu não consiga postar nada nessa semana e na próxima por motivos de fim de semestre e o mestrado está me deixando louca, mas prometo tentar. Já estou trabalhando no próximo capítulo. E peço desculpas por não conseguir responder todo mundo aqui no wattpad. Espero que com as férias eu consiga. Muito obrigada pelo carinho com essa história ♥
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