ELA
Eu não conseguia respirar. E pelo jeito como ele me olhava ele também não conseguia. Seus olhos encaravam os meus de um jeito que me deixou tonta. Seus lábios estavam entreabertos como se ele quisesse dizer alguma coisa, mas assim como eu estava sem palavras. Elas estavam entaladas em sua garganta. Senti um calor subir pelo meu corpo, abaixei os olhos confusa e com vergonha. Umedeci os meus lábios, pois eles estavam secos. Meu coração não parava de bater acelerado. Ele estava tão desesperado que era possível ouvi-lo. Eu e Max ficamos um bom tempo nos encarando. Sem dizer uma palavra. O clima estava tão estranho entre nós. Ele me olhava de uma maneira tão intensa. Eu me sentia nua diante desse homem. Desconfortável. Mas ao mesmo tempo eu não queria me afastar dele. Daquele cheiro caro e amadeirado dele. Daqueles olhos. Daquele rosto firme emoldurado por aquela barba. Daquele corpo grande e cheio de músculos definidos apertados naquela camiseta branca de algodão.
— Oi — eu disse a ele sem jeito.
— Oi — ele balbuciou de volta.
— Eu... — Não consegui falar, cruzei os braços e me belisquei levemente, eu tinha que falar. Esse homem não vai me matar, eu não precisava me sentir assim. — Minha irmã combinou com a sua mãe de vir aqui hoje no seu apartamento fazer uma faxina.
Ele me olhou com mais atenção.
— Mas ela ficou doente e eu vim no lugar dela — enfim falei.
Ele, por outro lado não disse nada. Seus olhos estavam vermelhos. Meu deus ele ia chorar?
— Minha mãe não me disse nada — ele falou e meu Deus quase morri ao ouvir sua voz grave. Estávamos tendo um diálogo? Tantas vezes imaginei essa cena e nenhuma delas foi como na realidade. Eu estava tão tímida perto desse homem.
— Ela deve ter me ligado, mas eu provavelmente não atendi — ele continuou.
— Você quer que eu volte outra hora? Não é um bom dia para você?
— Na verdade você chegou na hora certa. — Ele sorriu. Ele sorriu para mim, fiquei ainda mais sem jeito. Pois Max já era tão bonito com a boca fechado, com um sorriso em seus lábios ele era praticamente um semideus.
— Por favor, entre Natasha.
Ele pediu dando espaço para eu entrar em sua casa. Mas eu não pude deixar de notar o som do meu nome saindo de sua boca. Ele sabia o meu nome! Notei que ele ficou desconfortável ao perceber que havia dito o meu nome em voz alta, por isso ignorei esse fato e não comentei nada. Apenas entrei no apartamento como ele me pediu. O hall era pequeno. Ele fechou a porta atrás de mim. Finalmente estávamos a sós. Só eu e ele.
Max me conduziu até a sala.
— Deixa eu te mostrar o lugar — ele disse sem jeito. Para um homem muito bonito, achei Max um pouco tímido.
Ele me mostrou sua casa. Era tudo branco e com poucos móveis. Bem minimalista. Mesmo assim era o apartamento dos sonhos. Espaçoso, elegante, havia um belo jardim no terraço com rosas vermelhas que faziam contraste com o branco do lugar, tinha também uma piscina que Max me disse que um rapaz a limpava toda semana. Quando voltamos para dentro notei uma sala em especial, a porta estava aberta e vi um quadro quase pronto, o esboço de uma mulher com asas de pássaro me encarou. Ela tinha os olhos tão tristes assim como os meus.
— Minha irmã comentou que você era pintor.
Ele assentiu.
— É um belo quadro.
— Não está pronto ainda.
Ele parou e me olhou novamente daquele jeito que me deixava sem fôlego.
— Escute, querida. Eu lhe devo desculpas.
"Querida" eu não ouvi mais nada depois disso.
— Não entendo — falei mordendo o lábio inferior.
— Fui embora do café ontem daquele jeito horrível. Eu não estava me sentindo bem.
Eu balancei a cabeça como se estivesse dizendo tudo bem. Eu e ele ficamos mais alguns minutos nos olhando. Deus eu precisava parar de encará-lo. Max estendeu uma das mãos em direção ao meu rosto. Ele tirou uma mecha do meu cabelo que estava próxima do meu olho e a colocou atrás da minha orelha. Eu suspirei baixinho. Quando os dedos dele tocaram a pele da minha face eu corei e meu corpo tremeu. Fazia muito tempo que um homem não se aproximava de mim. O rosto de Max era de uma serenidade que eu invejava, porém assim como eu os olhos dele eram tão pesados e cheios de tristeza.
— Vou levá-la até a lavanderia. Todos as coisas para limpeza estão lá.
Ele interrompeu aquele momento suave de carinho e me colocou no meu devido lugar. Eu estava ali como faxineira e não como uma mulher que poderia competir pelo coração dele. Lembrei-me da loira que estava com ele na cafeteria. Devia ser a namorada dele e ela era mil vezes mais bonita do que eu.
Peguei todas as coisas que eu precisava para limpar o lugar, notei os olhos de Max na minha perna mecânica.
— Está tudo bem — eu disse a ele. — Eu dou conta.
— Me avise se precisar de algo — ele disse enquanto se afastava e caminhava em direção ao ateliê.
Comecei os meus trabalhos. Eu queria mostrar serviço. Por isso faxinei bem aquele apartamento. Limpei todos os lugares possíveis. Passei o aspirador de pó. Lavei todas as louças e coloquei as roupas dele na máquina de lavar. Fiquei focada no meu trabalho. Mas percebi que durante breves momentos Max se aproximava de mim e me observava trabalhar. Não como se estivesse me fiscalizando, mas como se ele quisesse saber mais de mim. Espiando-me com o intuito de aprender sobre mim. Eu sabia que era doideira da minha cabeça, pois um cara como ele com certeza não estava preocupado com uma garota como eu.
— Terminei — falei batendo na porta entreaberta do ateliê. Já eram quase duas da tarde. Eu estava faminta.
Max caminhou até mim. Ele ouviu o meu estômago roncar. Eu quis me bater por causa disso.
— Droga eu sou um ser humano terrível. Nem lhe ofereci nada para comer.
— Não se preocupe comigo — falei apertando minha barriga estúpida.
— Geralmente eu nunca almoço como uma pessoa normal. Eu como em horários malucos. Vou fazer algo pra gente comer.
— Não precisa.
— Eu insisto. Não vai demorar muito. Eu sou um bom cozinheiro.
Ele sorriu e quando percebi eu havia o seguido até a cozinha.
Sentei-me no balcão e fiquei observando-o cozinhar. Max cortava os legumes e dominava tão bem as panelas. O cara era realmente um artista.
— Você deixou minha casa tão limpa e com outra energia que eu preciso lhe retribuir pelo menos com uma comida aceitável.
— O cheiro está bom. O que você vai fazer?
— Minha especialidade: macarronada.
Ele olhou para mim e riu. Eu não pude deixar de retribuir o sorriso também.
— Então a mocinha também ri. Que bom.
Eu percebi que sua última frase saiu como se ele estivesse aliviado com algo.
Max me serviu um prato com o macarrão à bolonhesa. A vida era muito estranha. Até ontem esse homem era um mistério para mim e agora estávamos almoçando juntos.
— Quero saber tudo sobre você — ele falou, fiquei surpresa com essa curiosidade toda.
— Não tem muito o que saber sobre mim.
— Todos têm uma história.
— Mas a minha história não é feliz.
O rosto de Max mudou e ele não falou nada durante um bom tempo.
Foram os minutos mais tensos da minha vida. Estar sentada de frente para um homem como ele e comer junto com ele era algo que eu jamais esperava.
Quando eu terminei levantei para lavar o meu prato, mas ele foi mais rápido e o apanhou de mim.
— Você já fez muita coisa. Eu faço questão de lavar.
Assenti sem jeito.
— Deixa-me pelo menos colocar na secadora.
Quando terminamos ele me conduziu até a porta e tirou da carteira três notas de cem.
— Mas o valor da faxina é duzentos só.
— Você trabalhou muito bem. Quando você volta? Assim me preparo para fazer uma comida melhor.
Havia uma expectativa em sua voz.
— Na verdade quem deveria ter vindo hoje era a minha irmã, mas ela ficou doente. Não posso roubar a faxina dela.
Max ficou decepcionado. Ele não fez questão de esconder isso.
— Que pena então.
— Obrigada pelo almoço. O macarrão estava muito bom.
E era verdade.
Quando eu já ia sair. Ele segurou o meu braço impedindo-me.
— Natasha, eu preciso te contar uma coisa. — Ele hesitou por um tempo. Seus olhos estavam molhados ele parecia preocupado. Eu não entendia nada.
— Diga.
Ele tirou a mão do meu braço. Eu quase disse a ele para não fazer isso.
— Se precisar de algo. De alguma coisa. Não hesite em me procurar.
Assenti confusa. Fui embora, mas eu não queria.
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