Capítulo 8
Ao chegar aos imponentes portões do palácio de SunFifth, fui recebida por meu pai, cuja expressão refletia uma mistura de alívio e preocupação. No instante em que nossos olhares se cruzaram, um turbilhão de sentimentos me envolveu. A culpa por ter remexido em seu passado me consumia, me levando a questionar se, de fato, tudo estava normal com ele. O que eu descobri parecia uma ferida não cicatrizada, e mesmo assim, havia uma chama de raiva ardendo em meu peito. Como ele pôde não confiar em mim? Por que omitir a verdade sobre Leonidas, que, com toda certeza, poderia ser qualquer pessoa e estar em qualquer lugar?
Uma parte de mim ansiava que ele me levasse a um lugar reservado, onde pudesse desabafar e compartilhar os segredos que nos separavam. Assim, eu não teria que carregar o peso da incerteza e da desconfiança, o medo de não ser digna de guardar um segredo tão crucial, de não ser considerada responsável o suficiente para merecer sua confiança.
"Agora sei porque seu pai adia tanto sua coroação."
Ele me avaliou dos pés à cabeça, percebendo a sujeira que cobria meu corpo – terra, fuligem e manchas de cinzas, resultado de minha jornada. Nos meus braços, a pequena Meredith ainda estava envolta em meu pescoço, dormindo tranquilamente, como um símbolo de calmaria em meio ao caos.
— Entrem, está com cara de que vai chover — disse meu pai, abrindo os braços de forma acolhedora, como se tentasse proteger não só a mim, mas também as verdades não ditas que pairavam no ar.
Vlad, Klaus, Erik e os outros guardas passaram por mim como sombras silenciosas, suas armaduras brilhando sob a luz suave do crepúsculo. Ao chegar ao lado de meu pai, ele me parou com um gesto firme, posicionando-se em minha frente. Seu olhar, que eu conhecia tão bem, era intenso e penetrante, como se estivesse buscando não apenas palavras, mas a verdade oculta por trás delas. A expectativa em seu rosto era clara: ele me pedia uma explicação. A pressão do momento me fez hesitar, as palavras se formando em minha mente, mas se esvaindo antes que eu pudesse pronunciá-las.
— Ela é órfã. — Declarei, interrompendo o silêncio antes que ele dissesse uma palavra.
— Sinto muito. — Respondeu, acariciando suavemente os cabelos ruivos da menina adormecida em meus braços.
— Eu também. — Murmurei, perdendo-me na visão dela, tão tranquila, como se nada do mundo a perturbasse.
— Essa princesa tem nome? — Perguntou meu pai, seus olhos brilhando com curiosidade.
Era impressionante como ele me conhecia, como conseguia ler meus pensamentos e emoções com tanta facilidade.
— Ela não tinha um nome, mas eu escolhi um. — Disse, encarando-o com um sorriso, que se iluminou em meu rosto.
— E qual nome você escolheu para ela? — Ele indagou, seu sorriso refletindo uma genuína curiosidade.
— Meredith. O nome dela é Meredith II. — Respondi, a alegria transbordando em minha voz.
Seus olhos se arregalaram, e pude perceber que ele ficou profundamente emocionado, uma reação que eu não via há anos. Estava paralisado, sem palavras, engolindo em seco para conter as lágrimas que ameaçavam escapar. Aquele momento silencioso entre nós era carregado de sentimentos, uma vulnerabilidade que parecia quase nova.
Papai se aproximou, e com um gesto terno, depositou um beijo suave em minha testa. Senti o toque de sua lágrima fria escorrendo e pingando em meu rosto, como um testemunho da emoção que ele lutava para controlar. Se eu conseguisse chorar, estaria em prantos naquele instante, a mistura de alegria e dor era avassaladora. Um calor se espalhou dentro de mim, uma sensação de que eu havia feito algo verdadeiramente bom, algo que trouxe orgulho e felicidade ao meu pai. Pela primeira vez na vida, senti que tinha tomado uma decisão certa.
— É um belo nome. Ótima escolha. — Disse ele, dando-me um beijo carinhoso antes de se afastar, entrando no palácio.
A noite já havia se instalado, e decidi permanecer no escritório de meu pai, que estava imerso em investigações sobre quem teria enviado aquele homem para me assassinar no dia do meu aniversário. Enquanto Meredith dormia tranquilamente no sofá, envolta em um manto de sonhos inocentes, eu me sentava à mesa dele, folheando alguns livros antigos.
Os tomos que exploravam feitiçaria, magia negra e reencarnação capturavam minha atenção, e eu me esforçava para desvendar cada mistério, absorvendo cada detalhe. Tudo isso era tão novo para mim, uma vasta terra desconhecida que eu desejava explorar profundamente. Sentia que, embora o conhecimento fosse pesado, era vital; eu precisava entender o que significavam esses conceitos e como se entrelaçavam com minha própria vida.
Ainda não havia conversado com meu pai sobre Leonidas, mas estava decidida a fazer isso em algum momento. Era inevitável que a verdade viesse à tona, e não havia ninguém melhor do que ele para me guiar por esse labirinto de informações. Enquanto isso, um pensamento persistente me atormentava: se Leonidas estava vivo, haveria a possibilidade de que minha mãe também estivesse? Afinal, eles compartilhavam a ligação feita por magia negra. Essa questão ecoava em minha mente, um mistério que precisava ser resolvido. A necessidade de saber mais sobre isso me impulsionava, como uma chama ardente que não poderia ser ignorada.
— Majestade, eu consegui o que... — Erik entrou na sala sem ao menos bater na porta, interrompendo meu momento de concentração.
Imediatamente, larguei os livros, encarando-o com surpresa. Por um instante, meu coração disparou, pensando que era meu pai.
— Uh... É... Eu achei que era seu pai. — Ele gaguejou, os olhos arregalados.
— Sim, eu percebi. Também pensei que fosse ele. — Respondi, rapidamente escondendo o livro atrás de mim.
— Eu não queria te atrapalhar. — Disse, desviando o olhar para os livros mal ocultos na mesa.
— Não! Você não me atrapalhou. É só um, passatempo. — Afirmei, fechando o livro com um gesto rápido.
Erik olhou em volta e sorriu ao notar Meredith dormindo serenamente no sofá ao meu lado.
— É incrível como ela se apegou a você tão rapidamente. — Comentou, com um sorriso genuíno. — Parece que ela te conhece há anos.
— É. É estranho, não é? — Respondi, também sorrindo, encantada pela conexão entre nós.
— Sim, de fato, surpreendente. — Ele concordou, seu sorriso ampliando.
— Sabe, eu a entendo. Sei, de alguma forma, como ela se sente. Com medo e sozinha, sem os pais. Mesmo tendo meu pai, ainda sinto um grande vazio dentro de mim as vezes. Imagine sem mãe e pai? — Falei, encarando Meredith enquanto ela dormia tranquilamente.
— Eu sinto muito, Alinna. — Disse Erik, sua voz suave, como se tentasse aliviar meu peso emocional.
Um silêncio confortável se instalou entre nós, e eu continuei a olhar carinhosamente para a menina adormecida. No canto do olho, percebi Erik me observando atentamente.
— Sinto sua falta. — Soltei, sem pensar.
Os olhos de Erik se arregalaram, e ele me fitou com surpresa.
— Também sinto sua falta, Sky. — Respondeu, desviando o olhar para seus próprios dedos entrelaçados, como se buscasse as palavras certas.
Por um momento, temi que Erik não dissesse mais nada. Achei que ele poderia se afastar, deixar-me sozinha com minhas saudades e incertezas.
— Venha cá. — Ele disse, estendendo os braços em minha direção.
Levantei-me da cadeira de meu pai e caminhei em direção aos braços de Erik. Quando ele me abraçou, foi com uma força surpreendente, quase me deixando sem ar. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria sair daquele sufoco acolhedor. Na verdade, desejava viver nesse abraço para sempre, como se o calor e a proteção dele pudessem dissipar todas as minhas inseguranças.
— Por que estamos fazendo isso um com o outro? — Indaguei, ainda envolta nos braços dele, o calor de seu abraço me trazendo uma estranha sensação de segurança.
— Eu não sei. — Ele respondeu, depositando o queixo em minha cabeça, sua respiração suave misturando-se à calma do momento.
— Me desculpa. — Murmurei, rendendo-me ao turbilhão de emoções que sentia.
— O quê? — Ele perguntou, confuso, afastando-se um pouco para me olhar nos olhos.
— Me desculpa por ter preocupado você e meu pai. — Sorri, envergonhada pela vulnerabilidade que acabara de expor.
Erik segurou meus ombros, sua expressão séria, mas com um brilho de humor nos olhos.
— Alinna Sky Madark pedindo desculpas? — Arqueou as sobrancelhas. — É um milagre!
— Ei! — Respondi, cutucando-o levemente, o que fez com que ele risse.
— Me desculpe também; eu não deveria ter falado mal de você pelas costas — Ele se desculpou, a sinceridade em sua voz ecoando entre nós.
— Claro! — Exclamei, dando um tapa brincalhão em seu braço.
Erik então tentou me puxar para fazer cócegas, sabendo que eu as detestava. No entanto, no meio da confusão, acabei parando bem na sua frente, nossos olhares se encontrando de forma intensa.
— Seus olhos são lindos — Ele declarou, enquanto tirava um fio de cabelo do meu rosto com um gesto delicado. A suavidade do toque fez meu coração acelerar, e por um momento, o mundo ao nosso redor parecia desaparecer.
Nos encaramos novamente. Os lábios de Erik são tão irresistíveis que, num impulso, não consigo me conter. Sem dizer uma palavra, e sem aviso prévio, jogo meus braços ao redor de seu pescoço, atraindo-o para mais perto. A resposta dele é instantânea; ele envolve minha cintura com suas mãos firmes, um gesto que me faz sorrir. Nossos olhares se conectam, e, sem mais hesitações, me aproximo, sentindo a suavidade dos seus lábios ao encontrarem os meus. O beijo é doce e intenso, como se cada segundo estivesse congelado no tempo.
— Alinna! — A voz do meu pai ecoou pela sala, interrompendo meu beijo com Erik.
Nos afastamos rapidamente, tão rápido que duvido que ele tenha percebido qualquer sinal do que estava acontecendo entre nós. A expressão tensa em seu rosto denunciava que algo estava errado, e um frio na barriga me invadiu. O que teria acontecido?
— Majestade. — Erik se curvou ligeiramente, limpando a garganta com um gesto nervoso, quase engasgando sob a pressão do momento.
— Saia, Erik. Preciso falar com minha filha. — A intensidade nos olhos de meu pai era quase flamejante, revelando um lado autoritário que eu raramente via.
Troquei um olhar preocupado com Erik. Seus olhos refletiam a mesma confusão que eu sentia, e em silêncio, fiz uma pergunta: "O que aconteceu?" Ele deu de ombros, sem entender nada, assim como eu.
— Pai, o que houve? — Perguntei, a inquietação transparecendo em minha voz.
Ele me encarou com uma seriedade que me fez estremecer e, então, desviou o olhar, como se estivesse em busca de algo. Segui seu olhar e perdi o fôlego ao ver Magia entrar lentamente na sala, sua presença carregando um ar estranho para o lugar.
— Erik, pegue Meredith e saia, por favor. — A ordem de meu pai ressoou, cortante como uma lâmina.
Meus olhos se arregalaram, e minha respiração ficou ofegante. Não conseguia acreditar que Magia havia me entregado de bandeja a meu pai. Traidora. A sensação de deslealdade cresceu em meu peito.
Em silêncio, Erik pegou Meredith no colo, sua expressão um misto de desamparo e perplexidade. Ele se virou e, com um último olhar para mim, saiu, fechando a porta suavemente atrás dele. Fiquei ali, sozinha, sentindo o peso da infidelidade e a ansiedade pulsando dentro de mim.
— Olá, criança. — Magia me saudou com uma reverência suave.
— Pai, eu posso...
— Cala-te, Alinna! — Ele gritou, e imediatamente me silenciei.
— Eu não acredito que você... Minha filha! Teve a audácia de se intrometer onde não foi chamada e ainda vasculhar minhas lembranças como se fossem nada. — O silêncio que se seguiu foi pesado. "Pelos deuses, eu queria desaparecer." — Estou decepcionado, Alinna. — Ele vociferou, completamente alterado.
— Sério? Eu é que estou decepcionada com você, meu pai. Acha mesmo que adiantaria me esconder que Leonidas está vivo? Desde quando você mente para mim? Pensei que formássemos uma equipe; você confia em mim e eu confio em você. — Eu me defendi, a indignação fervendo em minhas veias.
Ele também havia me enganado; não deveria estar tão irritado. A tensão entre nós crescia, e a verdade estava prestes a emergir.
— E isso te dá o direito de entrar em minhas lembranças? — Ele perguntou, a fúria evidente em sua voz.
— O senhor...
— Eu te fiz uma pergunta! — Ele me interrompeu, sua raiva crescendo.
— Não. — Respondi, com o coração acelerado.
— Minha confiança você não tem mais! — As palavras saíram dele como um grito cortante.
Quis responder, mas as palavras morreram na minha garganta. Meu coração batia forte, mais rápido do que o normal.
"Minha confiança você não tem mais!"
O impacto da frase me partiu em milhões de pedaços.
— O que o senhor disse? — Perguntei, incrédula, tentando processar o que acabara de ouvir.
— Você me ouviu. — Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando assimilar o que eu havia feito.
— Quando o senhor ia me contar? — Engoli em seco, a vergonha me consumindo.
— Quando fosse a hora. — Ele falou, evitando meu olhar.
— Se dependesse do senhor, essa hora nunca chegaria, não é? — Sua expressão mostrou surpresa.
— Talvez. — Respondeu, sem emoção.
— Deixe-me ir atrás dele. — Propus, tentando deixar sua raiva de lado.
— Você ficou louca, criança tola? — Magia finalmente se manifestou.
— Não mesmo! — Meu pai começou a andar de um lado para o outro, agitado.
— Por favor, pai. Você vai me dizer que nunca quis se vingar de tudo que Leonidas nos fez? Agora temos a oportunidade de acabar com ele. — A empolgação tomou conta de mim.
— Alinna!
— Pai, eu sei que é difícil, mas confie em mim, por favor. Deixe-me ir atrás dele. Estamos dez vezes mais fortes do que antes; temos tudo para destruí-lo. Por favor, pela minha mãe e pela minha avó. — Interrompi, a urgência na minha voz crescente.
Ao mencionar "minha mãe e minha avó", percebi que, por um instante, meu pai hesitou. Ele e Magia trocaram olhares carregados, mas não consegui decifrar o que pensavam.
— Você se arriscou demais, Alinna. Ao entrar nas minhas lembranças, poderia ter causado complicações, a você e a mim também. — Ele disse, sua voz agora mais calma.
— Me perdoa, pai. — Fui sincera, sentindo meu coração prestes a explodir de emoção.
Não resistindo, ele me puxou para um abraço apertado.
— Você não faz ideia do que está se metendo, Sky. — Murmurou entre os braços.
— Você disse que queria que eu fosse livre, que eu deveria ter minhas próprias experiências. Deixe-me voar, pai. Me ajude a ir atrás de Leonidas. Sem você, eu não consigo. — Olhei diretamente em seus olhos, buscando compreensão.
— O que acha, Magia? — Perguntou meu pai, a expressão indecifrável.
— Acho que sua herdeira é uma tola. — Magia respondeu, com um leve sorriso. — Mas uma tola corajosa.
Sorrindo, absorvi suas palavras.
— Eu ainda não dei a resposta final, Sky. Não se anime. Vou pensar sobre o que podemos fazer. Ir atrás de Leonidas é muito perigoso; eu deveria fazer isso, não você, e...
— E o senhor não quer me perder porque já perdeu a mamãe. — Completei, a compreensão entre nós crescendo. — Tudo bem, eu entendo, mas uma hora você terá que me soltar. Você sabe disso, não sabe?
— Sei. — Ele disse, sério, antes de sair batendo a porta.
Depois de horas preso em sua sala de reuniões. Finalmente recebi a convocação de meu pai. Deveria estar na aula de alemão, mas a urgência do momento me fez interromper tudo. Senti minhas pernas tremendo e as palmas das mãos suando; a ansiedade me consumia, como se um turbilhão de emoções estivesse prestes a explodir.
Ao entrar na sala de reuniões, fiquei surpresa com a quantidade de pessoas reunidas. Meu pai estava cercado por Tio Kedra, Helena, Catarina, Magia, Tio Joseph, Victória, Lucky, Gerad e Rixon. Um frio na barriga tomou conta de mim. Desde quando o assunto se tornou tão urgente que precisava envolver todos eles? Por que meu pai não poderia resolver isso apenas comigo?
Caminhei lentamente até uma cadeira em frente à sua grande poltrona, a mesa redonda no centro da sala parecia dominar o ambiente. Todos me observavam em silêncio, como se estivessem aguardando o momento certo para o julgamento. O ar estava carregado de tensão, e cada olhar parecia pescar minhas inseguranças. Eu estava ali, à mercê de um destino que poderia mudar tudo, e a expectativa pulsava como um tambor em meu peito. Fechei os olhos por um momento, respirando fundo, tentando reunir a coragem necessária. O que meu pai tinha a dizer poderia ser decisivo, e eu precisava estar pronta para ouvir.
— E então? — Limpei a garganta, tentando esconder a ansiedade. — O que decidiram?
— Você quer ir atrás de Leonidas? Certo, mas antes, precisa saber de algumas coisas. — Meu pai falou, evitando meu olhar.
— Você sabe que não será fácil encontrá-lo. Pode levar dias, meses, ou até anos. É como achar agulha no palheiro. Não há onde começar e o fim pode não existir nesse caso. — Tia Helena me alertou, a preocupação evidente em sua voz.
— Nós viajamos justamente para tentar encontrá-lo, pelo menos para obter alguma pista. — Olhei para Tio Kedra, buscando apoio. — Mas só encontramos uma coisa.
— O que vocês acharam? — Perguntei, a curiosidade crescendo.
— A flecha de ouro. — Tio Joh respondeu, seu tom grave fazendo meu coração acelerar.
— Flecha de ouro? — Fiquei completamente intrigada, perdendo o fio da meada. O que isso significava?
Olhei para meu pai, esperando que ele pudesse, pelo menos com um olhar, me explicar o que estava acontecendo. Mas ele apenas fixava os olhos no chão, com um semblante vazio.
— Alguns anos atrás, eu fiz um arco para sua mãe quando ela ainda estava viva. Após sua morte, encontramos o arco e uma das flechas no campo onde ocorreu a guerra e decidimos guardá-la. Magia nos ajudou a usar um feitiço na flecha, por precaução. No fundo imaginávamos que esse dia poderia chegar então poderíamos usar o feitiço da flecha de alguma forma. — Tio Kedra explicou, sua voz carregada de nostalgia.
Tentei prestar atenção, absorvendo cada detalhe.
— Ou seja, essa flecha de ouro enfeitiçada por Magia e seus poderes é capaz de matar uma reencarnação feita por magia negra, ou é pelo menos isso que esperamos que ela faça. — Interrompeu Tia Catarina, com impaciência.
— E onde está essa flecha? — Perguntei, animada. A esperança iluminava meu coração. Isso poderia ser a chave para tudo; com isso, seria mais fácil destruir Leonidas, só precisávamos encontrá-lo.
— Não sabemos. — Meu pai respondeu, ainda com o olhar perdido.
— Não sabem? — Meu sorriso se desfez instantaneamente.
— A flecha foi escondida. Seria muito obvio guardá-la em um de nossos reinos então a mantivemos em um outro lugar durante anos mas foi roubada. — Concluiu tio Kedra.
— Roubada? — Indaguei, indignada. — Como poderia um artefato tão importante e poderoso simplesmente ser roubado e sumir da face da terra?
— Você realmente achou que seria fácil, pirralha? Se quiser ir atrás de Leonidas e se vingar, terá que encontrá-la primeiro. — Tio Lucky falou, com um tom debochado.
— Mas isso não, eu, eu não estou entendendo. Vocês estão me dizendo que eu tenho que procurar por Leonidas e, ainda por cima, encontrar uma flecha de ouro roubada que ninguém sabe onde está? — Questionei, sentindo a frustração crescer.
— Há um jovem que afirma saber onde está a flecha. — Meu pai disse, finalmente me olhando nos olhos.
— E onde ele está? — Perguntei, a esperança e a ansiedade se entrelaçando.
— Em cárcere. Foi contido há alguns anos, muitos dizem que ele enlouqueceu. — Ele respondeu, dando de ombros, como se fosse algo trivial.
— Então ele está em uma prisão, por ser considerado louco? Meu pai, isso é uma piada? Você quer que eu vá atrás de um louco? — Levantei-me, a frustração transparecendo na minha voz.
— Sky! — Tio Joh chamou minha atenção, sua voz firme mas tranquila.
Sentei-me novamente, tentando controlar a agitação que me dominava.
— Foi o que conseguimos Alinna, é pegar ou largar. — Meu pai propôs, o olhar sério, desafiador.
— Ok. — Foi a única coisa que consegui dizer, o peso da decisão começando a se instalar.
— Ótimo. Você irá atrás? — Ele me questionou, a expectativa evidente em sua expressão.
Sei o que papai está fazendo. Está dificultando para que eu desista dessa ideia que ele acha estapafúrdia. Pensei por um momento, ponderando se seria sensato buscar algo tão crucial com a ajuda de alguém que estava à margem da sanidade. Mas essa era a única pista que tínhamos, e a urgência da minha vingança era mais forte que qualquer hesitação.
— Irei, meu pai. — Respondi, com confiança renovada. A determinação crescia dentro de mim, e, apesar dos riscos, eu estava disposta a enfrentar qualquer desafio.
Pensei que meu pai ficaria chateado e faria de tudo para me impedir, mas ao ouvir minha resposta, surpreendentemente ele sorriu, um sorriso de pai orgulhoso, que iluminou o ambiente.
— Vamos preparar pessoas para te acompanhar. Você precisará de ajuda. — Disse Tio Kedra, levantando-se e saindo da sala.
Logo após, todos começaram a sair, pois a reunião chegara ao fim.
— Quero que Magia vá comigo. — Pedi, ao vê-la passando ao meu lado.
— Tudo bem. — Respondeu papai, com um aceno.
Magia arregalou os olhos, inconformada, e eu sorri, maliciosa.
— Eu disse que quando chegasse a hora você iria comigo. Ainda bem que você gosta de viagens. — A provoquei, divertida.
— Sky! — Me repreendeu papai, de um jeito que só ele sabia fazer.
— Já parei. — Respondi, segurando o riso.
Magia bufou, saindo da sala com os pés batendo no chão, claramente chateada. Achei graça na cena.
— Isso não será um problema para você? — Perguntei, mudando de assunto, agora só nós dois presentes.
— Estou com receio, mas é o que você quer, então... — Ele disse, com um olhar contemplativo.
— Então o senhor não ficará chateado? — Insisti, curiosa.
— Não, Sky. Não ficarei. Mas não poderei ir com você. Tenho três reinos para administrar. Seria um caos se saísse. — Ele se aproximou, sua expressão misturando preocupação e orgulho.
— Eu sei, pai, e eu não vou decepcioná-lo, pode ter certeza. — Prometi, o coração pulsando forte.
— Eu sei que você não irá me decepcionar. — Ele sorriu. — Sabe, Sky, quando você voltar, quero que seja coroada. — Quase me engasguei com as palavras.
— O quê? — Meu coração disparou. — Está falando sério?
— Sim. — Ele respondeu, visivelmente feliz.
— Céus, pai! Isso é maravilhoso. — O abracei, a emoção transbordando.
— Você já me mostrou que é capaz e tem força suficiente para cuidar de três reinos. Ir atrás de Leonidas será sua prova final. — Ele disse, ainda me envolvendo em seu abraço.
— Pode deixar que realizarei com prazer. — Rimos juntos. — Pai?
— Diga. — Ele me olhou nos olhos, a seriedade retornando.
— O senhor sabe que poderia ter evitado muita coisa se não tivesse deixado Leonidas tomar seu lugar, não sabe? — Falei, a indignação tomando conta.
— O que está querendo dizer, Sky? — Ele ficou confuso, franzindo a testa.
— As cartas! Era você, era você o tempo todo e Leonidas fez com que mamãe pensasse que era ele. Por que deixou isso acontecer? — Minha frustração transparecia.
— Eu não sei. Às vezes, algumas coisas não acontecem porque outras muito melhores estão por vir. — Ele respondeu, com um tom reflexivo. — Alinna, minha filha, nós não enfrentamos o destino. Apesar de querermos, não podemos. Talvez se eu tivesse impedido naquela época, tudo que estava planejado para acontecer depois não aconteceria, e isso poderia incluir você.
Ele segurou meu rosto com carinho.
— Não me arrependo de nada do que fiz. E é isso que quero que você faça. — Concluiu, olhando-me nos olhos com sinceridade.
— O quê? — Perguntei, intrigada.
— Que você escolha sem se importar com o que vai acontecer ou não. Deixe que o destino se encarregue. — Meu pai, quando queria, conseguia ser muito filosófico.
— Me lembrarei disso, pai. — Respondi, emocionada com suas palavras.
Sem aviso, ele me surpreendeu ao pegar meu braço e beijar meu pulso delicadamente.
— Consigo ver o poder circulando em suas veias. — Foi o que disse, sua voz suave.
Sorri, sentindo-me como se estivesse flutuando, transbordando otimismo e resoluta determinação.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro