Capítulo 36
— O que você fez, Alinna? — A voz dele treme, os olhos arregalados em choque e dor. Ele tenta erguer a mão, agora tingida de sangue, em direção ao peito, onde a flecha está profundamente cravada.
Estou, imóvel, sobre Leonidas, minhas mãos ainda agarradas à flecha que cravei em seu peito. O sangue dele escorre ao redor, manchando meus dedos de vermelho enquanto a força que apliquei na arma ainda reverbera pelo meu corpo. Meu coração bate descontroladamente, e uma onda de incredulidade me domina. Não posso acreditar no que acabei de fazer.
— Alinna... O que você fez? Eu sou seu marido. — A incredulidade na voz dele é real, misturada com a dor física e emocional.
— Você realmente achou que eu me apaixonaria de verdade por você, Leonidas? — Minha voz é baixa, mas carrega todos os sentimentos que venho acumulando. Sinto as lágrimas brotarem nos meus olhos, mas não deixo que caiam. Não agora.
— O que... O que você está fazendo? — Ele mal consegue formar as palavras, a confusão estampada em seu rosto.
— O que eu deveria ter feito há muito tempo. — Respondo, minha voz mais firme, tentando mascarar o tumulto de emoções dentro de mim.
— Isso... Isso não é possível! Você fingiu esse tempo todo? — Ele começa a tremer, a compreensão finalmente começando a se formar em sua mente.
— Claro que eu fingi esse tempo todo. — Tento manter a compostura, mas minha voz vacila, quase revelando a verdade por trás de minha fachada fria.
— Você... Você foi para cama comigo, Alinna! — Ele grita, a dor e a traição claras em cada sílaba.
— Cada um faz seu sacrifício. — Sussurro, mais para mim mesma do que para ele, tentando convencer a ambos de que tudo isso valeu a pena.
A flecha, agora tão leve em minhas mãos, parece pesar toneladas. Não é apenas a arma que cravou em Leonidas, mas também o símbolo de tudo o que perdi e sacrifiquei para chegar até aqui. Mas não posso voltar atrás, não agora. A decisão foi tomada, e o caminho que escolhi está manchado de sangue.
— Você se tornou alguém muito pior que eu, muito pior... — Leonidas murmura, sua voz entrecortada por uma tosse que traz sangue à sua boca.
— Talvez eu tenha me tornado. — Respondo, minha voz fria e distante. — Mas é exatamente por isso que não há espaço suficiente para dois vilões neste mundo. Seu tempo aqui acabou.
Finalmente, solto minhas mãos da flecha cravada em seu peito. A sensação é estranha, como se algo essencial estivesse sendo arrancado de mim, mas não me permito hesitar. Olho para as minhas mãos, manchadas com o sangue dele, e depois para Leonidas, que luta para respirar, a vida lentamente se esvaindo de seus olhos. Lentamente, me levanto, tentando esconder o tremor nas minhas pernas. Dou uma volta pelo local, observando tudo ao meu redor, cada detalhe do ambiente impregnado com o peso da nossa história. Então, volto meu olhar para Leonidas, agora reduzido a um homem agonizante.
— Sabe, Leonidas, foi até bom eu ter me casado com você. — Minha voz carrega um toque de ironia, enquanto sorrio fracamente. — Saí do meu reino em busca da flecha que agora está fincada em seu peito, e acabei encontrando você também. Que ironia, não? Talvez fosse esse o nosso destino. E agora, com você fora do caminho, eu sou a única herdeira direta de Treeland.
Ele tenta falar, mas a dor o impede de respirar corretamente. Uma lágrima escorre pelo seu rosto, misturando-se ao sangue que mancha sua pele.
— Você... você não pode fazer isso comigo... — A dor em sua voz é tão forte quanto a que sinto em meu próprio peito, mas não posso permitir que ela me afete.
— Eu já fiz. — Sussurro, como se aceitasse a inevitabilidade do que aconteceu. — Você realmente achou que eu seria ingênua o bastante para me apaixonar pelo homem que matou minha mãe, meu pai, que tentou destruir meu povo e ainda tentou me matar também?
— Eu... eu amei você, Alinna. — Leonidas fala com dificuldade, sua voz agora quase um sussurro. — Amei sua mãe, mas amei você ainda mais...
Aquelas palavras penetram fundo, mas não posso deixar que me quebrem. Aproximo-me dele, agachando-me para que nossos rostos fiquem próximos, e olho nos seus olhos, que começam a se apagar.
— Não, Leonidas, você não amou. — Minha voz é firme, quase cruel. — Sabe por que? Porque você não sabe amar.
— Elas nunca entenderam o meu amor, e você também nunca vai entender. — Leonidas murmura, sua voz enfraquecida, mas ainda carregada de convicção.
— Não. — Respondo, sentindo uma lágrima escapar dos meus olhos antes de rapidamente limpá-la com a ponta dos dedos. — Nunca vou entender esse seu jeito de amar.
— É uma pena... — Seus olhos começam a se fechar, o cansaço e a dor tomando conta de seu corpo.
— Sabe, Leonidas, nós faríamos um belo casal... se você não tivesse feito tudo o que fez. Se não fosse o cretino que é. — Sinto meu coração apertar ao pronunciar essas palavras, como se cada uma delas fosse um golpe em mim mesma.
Por que estou tão infeliz? A vitória deveria trazer satisfação, mas tudo o que sinto é um vazio esmagador.
— Formaríamos um par perfeito. Eu não me importaria se você fosse uma pessoa ruim ou descontrolada; isso não seria um problema para mim. Meu pai era assim, eu sou assim, até minha mãe era. Mas você... você teve que ultrapassar os limites. Você teve que se tornar um monstro sem coração.
Leonidas solta um suspiro fraco, mas há um sorriso, quase imperceptível, em seus lábios ensanguentados.
— Eu sei que você me ama, Alinna. — Ele diz, sua voz maliciosamente doce, desenhando aquele sorriso fraco que me assombra.
— Sabe? — Pergunto, encarando-o, tentando decifrar o que ele realmente quer dizer.
— Você tenta esconder, mas eu sei que não se deitaria comigo se não me amasse. Sei que você não é esse tipo de mulher. As outras, por um momento, me amaram. Não seria diferente com você. — Ele sorri novamente, um sorriso de alguém que acredita ter ganho algo, mesmo na derrota.
— Você... você não sabe o que está falando... — Minha voz falha, a convicção que eu tentei manter começa a desmoronar.
— Você foi muito corajosa, meu amor. Saiba que, apesar de tudo, tenho muito orgulho de você. — Ele leva sua mão trêmula até o meu rosto, o toque dele é leve, quase uma carícia. — Você é minha heroína, Alinna CastaBlanca.
O nome dele, agora parte de mim, ecoa em sua voz. É um lembrete cruel de tudo o que sacrifiquei e de tudo o que ganhei. Leonidas, mesmo à beira da morte, tenta reivindicar uma parte de mim, mas eu sei que essa é a última vez que ele fará isso.
— Suas lágrimas me mostram que nem tudo foi um grande golpe de estado. — Leonidas murmura, sua voz fraca, mas carregada de uma certeza que me atinge profundamente. — O que vivemos todo esse tempo não foi totalmente mentira. Eu vejo isso em seus olhos e no modo como suas mãos tremem agora.
Ele ainda mantém a mão em meu rosto, seus dedos ásperos tocando minha pele com uma suavidade que sei que será a última vez que irei sentir. Com o polegar, ele limpa as lágrimas que caem contra minha vontade, cada toque dele intensificando a dor que tento esconder.
— Saber que você me amou de verdade, nem que tenha sido por algumas frações de segundo... — Ele pausa, lutando para continuar, sua respiração cada vez mais entrecortada. — Isso me permite partir em paz... partir de verdade.
Sua voz se enfraquece ainda mais, como se ele estivesse se segurando apenas para me dizer essas últimas palavras. O peso delas me sufoca, como se uma verdade cruel estivesse se revelando tarde demais. Meus dedos tremem, não pela fraqueza, mas pela confusão que suas palavras trazem. A linha tênue entre ódio e amor se embaça, e eu me vejo presa em um mar de sentimentos conflitantes.
— Leonidas... — Murmuro, minha voz quebrada, enquanto as lágrimas, agora incontroláveis, escorrem livremente pelo meu rosto.
Ele sorri, um sorriso triste e resignado, mas há uma paz inesperada em seus olhos. Ele sabe que o fim está próximo, e de alguma forma, isso parece aliviá-lo.
— Eu posso partir agora, Alinna... — Ele sussurra, fechando os olhos lentamente, a vida se esvaindo de seu corpo com cada respiração superficial.
A flecha cravada no seu peito é a prova final da minha determinação, da minha escolha. Mas enquanto ele morre, sinto que algo em mim também se despede. Não é apenas o fim de Leonidas, mas o fim de uma parte de mim que nunca poderei recuperar. Sinto sua mão em meu rosto começar a esfriar, o calor que antes irradiava de seus dedos agora desaparece, deixando apenas um toque gelado contra minha pele. O sorriso abusado que tantas vezes me provocou, que tantas vezes me fez querer confrontá-lo, vai aos poucos se desfazendo, os contornos de seus lábios relaxando, perdendo a força. Seus olhos, que sempre me encararam com uma mistura de desafio e desejo, agora lutam para permanecer abertos, as pálpebras pesadas cedendo à inevitável escuridão. Meu coração acelera, batendo descontroladamente contra meu peito, como se tentasse compensar a quietude que se apodera dele. Uma tristeza profunda me invade, uma sensação avassaladora de perda, como se uma parte de mim estivesse sendo arrancada, indo embora para sempre. E é exatamente isso que está acontecendo. Leonidas, por mais que eu o tenha odiado, por mais que tenha jurado vingança, sempre foi uma presença constante, um adversário que, de certa forma, moldou quem eu sou agora. Com sua morte, não é apenas ele que se vai, mas também uma parte de mim — a parte que aprendeu a lutar contra ele, que se fortaleceu para enfrentá-lo. Eu o observo enquanto a vida se esvai de seu corpo, incapaz de afastar a dor crescente em meu peito. É uma dor que eu não esperava sentir, uma dor que, de alguma forma, me lembra que o ódio e o amor podem coexistir, se entrelaçar de maneiras que eu jamais imaginaria.
— Eu te amo, Alinna. — Leonidas sussurra, quase inaudível.
— Eu te amo, Leonidas. — Deixo escapar pela última vez, lutando contra o turbilhão de sentimentos que me consome.
A mão de Leonidas cai lentamente, o que sinaliza que ele se foi — dessa vez, de verdade e para sempre. O silêncio que se segue é pesado, quase sufocante. Com um gesto firme mas gentil, arranco a flecha de seu peito, sentindo o calor do sangue ainda pulsante em minhas mãos. Ajeito cuidadosamente seus cabelos, exatamente como ele gostava, alisando cada mecha com uma precisão quase reverente. Em seguida, coloco suas mãos sobre o peito, entrelaçando seus dedos como se estivesse em prece, dando-lhe uma última aparência de paz. Por fim, me inclino e, com um misto de tristeza e resignação, deposito um último beijo nos lábios do homem que um dia chamei de marido. E, assim, Leonidas parte, levando com ele um pedaço da minha alma. O que deveria ser um momento de triunfo se transforma em uma despedida amarga, deixando-me com a certeza de que, apesar de tudo, algo de verdadeiro existiu entre nós. Algo que, por mais que eu tente negar, ficará marcado para sempre em meu coração.
— Não se preocupe, meu amor. Você vai para um lugar onde o amor não pode te ferir... O inferno.
Mantenho meu olhar fixo em Leonidas, sem desviar, observando cada traço de seu rosto pela última vez.
— Descanse em paz, meu rei. — Sussurro em despedida, sentindo o peso das palavras.
— Eu não entendo... Se você o amava de verdade, por que o matou? — A voz de Koan rompe o silêncio, carregada de confusão e o peso dos meus sentimentos. Ele esteve ali o tempo todo, observando cada momento desse drama sombrio.
— Sacrifiquei minha rainha, Koan. — Respondo, relembrando as palavras que ele me disse quando ainda estava presa. — Ou melhor, sacrifiquei meu rei. Eu precisava perder Leonidas para não perder a mim mesma, assim como você previu em sua visão.
Olho para o corpo sem vida de Leonidas, sentindo uma mistura de alívio e lamento. Com um gesto lento e decidido, retiro a aliança do meu dedo e a coloco sobre uma das pedras da caverna, como se estivesse encerrando um capítulo.
— Xeque-mate. — Digo para Koan, o significado das palavras ecoando no ar.
Saio da caverna, atravessando a escuridão até outra parte, enquanto alguns homens mascarados, seguidores de Richard, surgem das sombras atrás de mim.
— Majestade, cuidado! — Koan grita, visivelmente apreensivo.
— Não subestime sua rainha, meu caro. Cuidado é o que ela tem de sobra. — Responde um dos mascarados, com uma confiança fria.
— Ok, pai. Sem filosofias, por favor. Acabei de matar meu próprio marido. — Digo enquanto limpo o sangue de Leonidas das minhas mãos.
— Pai...? — Koan repete, chocado e confuso.
— Eles estão comigo, Koan. — Asseguro, tentando acalmar sua surpresa.
— Eles...? — Faz uma pausa e seus olhos se arregalam. — O líder está vindo... — Koan murmura, enquanto sua mente corre para entender a situação. — O líder sempre esteve presente... Ou melhor, A líder.
Ele fica boquiaberto, incrédulo, enquanto meu pai finalmente remove sua máscara, seguido por tio Kedra, Áries, Lucious, Ivy, tia Helena, tia Catarina, Klaus e Brant.
— Pelos deuses! — Koan cambaleia para trás, atordoado. — Estão vivos! Mas como eu não previ isso? Eu... Como...?
— Estamos todos vivos, e o restante do pessoal está lá fora. — Responde Áries, com um tom calmo.
— Era tudo mentira? Esse tempo todo? Mas eu vi o galpão explodir com vocês dentro! — Koan aponta um dedo trêmulo para eles, ainda tentando processar o que está vendo.
— Eu também pensei que eles estavam mortos... até o dia em que meu pai apareceu para mim e Celeste, na porta dos fundos da cozinha do palácio de Treeland. — Digo com um sorriso sutil, lembrando-me daquele momento.
— Foi impactante, não foi? — Celeste diz, removendo sua máscara e revelando sua verdadeira identidade.
— Mas o que é isso? — Koan exclama, ainda mais chocado ao reconhecer a amiga.
— Celeste é uma rebelde, Koan. Ela é de Vhigor, estava infiltrada em Treeland. Richard já suspeitava que havia algo de errado com Derek. — Digo, revelando a verdade que ele jamais esperaria.
— Eu... Eu não consigo entender... É muita coisa para minha cabeça. — Koan murmura, atordoado, enquanto se senta pesadamente em uma pedra. Sua mente gira em confusão, principalmente porque seus dons não lhe permitiram prever nada disso.
— Deixe-me explicar, meu caro. — Meu pai começa, com a voz firme e serena. — Quando fomos capturados ao tentar resgatar Alinna e fomos trancados naquele galpão, um certo idiota deixou uma passagem aberta. Aproveitamos essa falha e escapamos. Acho que estavam tão eufóricos com a nossa captura que nem perceberam os erros que estavam cometendo. Éramos um grupo grande, e a euforia certamente os cegou. Conseguimos sair com uma facilidade surpreendente.
Meu pai faz uma pausa, permitindo que as palavras se assentem, enquanto Koan escuta atentamente, ainda incrédulo.
— Acreditamos que, ao fingirmos nossas mortes, poderíamos proteger Alinna muito melhor e ajudá-la de maneira mais eficaz. Então, pedimos refúgio ao rei Richard de Vhigor. Ele nos aceitou como refugiados, e assim fizemos acordos e alianças, elaborando estratégias por anos. Nossa meta era traçar um plano impecável, sem brechas ou erros. Ficou ainda mais fácil quando soubemos da rivalidade entre Richard e Derek — ou melhor, Leonidas. Quando percebemos que estávamos prontos para executar nosso plano, comecei a procurar por minha filha. E você, Koan, nos ajudou ao nos mostrar onde estava a flecha. Celeste tentou encontrá-la sozinha, mas não conseguiu. — Ele explica com paciência.
— Mas... mas eu mostrei a flecha para Alinna e ela nem quis saber dela... — Koan balbucia, ainda tentando processar tudo.
— Era tudo parte do plano. — Respondo, lançando lhe um olhar compreensivo. — Eu precisava manter minha postura até o último segundo. Mesmo com seus poderes de prever o futuro, não podia arriscar contar tudo a você. As chances de Leonidas tentar extrair informações de você eram grandes demais.
Koan fica em silêncio por um momento, absorvendo cada detalhe. Então, um sorriso de alívio começa a se formar em seu rosto.
— Então... acabou, Alinna? — Ele pergunta, com uma alegria crescente na voz. — Leonidas está morto. Estamos livres?
— Sim, Koan, acabou. — Respondo, sorrindo ao ver sua felicidade tão genuína.
— Bom, ainda não terminamos aqui. — Meu pai interrompe, com um tom de urgência. — Precisamos parar a guerra e informar a todos que Leoni... quero dizer, Derek, está morto. Alinna?
— Certo. Vamos acabar com isso de uma vez por todas. — Respondo, determinada, com a resolução firme em meus olhos.
Seguimos juntos em direção ao campo de batalha, nossos passos firmes e decididos. O som distante do combate se mistura com o vento. Ao chegarmos ao ponto mais elevado, onde todos possam me ver, respiro fundo, sentindo a energia pulsar em minhas veias. Levanto as mãos em direção ao céu e, com um gesto firme, libero uma poderosa rajada de fogo. As chamas irrompem com força, subindo rapidamente e explodindo em uma cascata de luz e calor. O estrondo da explosão ressoa pelos céus como um trovão, ecoando por todo o campo de batalha. Os sons da luta cessam quase instantaneamente, e uma quietude assustadora toma conta do ambiente. Todos, soldados e guerreiros de ambos os lados, voltam seus olhares para mim. Os rostos estão marcados pela poeira e pelo suor da batalha, mas agora suas expressões são de pura surpresa e atenção. O fogo que ainda dança no ar ilumina o campo com uma luz avermelhada, como se os céus estivessem em chamas. Sinto cada olhar sobre mim, a expectativa e o temor misturados no ar. Esse é o momento de acabar com tudo.
— A guerra chegou ao fim! — Grito, minha voz forte e clara, ecoando por todo o campo. — Treeland, é com pesar que lhes digo que seu rei... está morto. Não há mais razão para lutar aqui!
O silêncio que segue minhas palavras é pesado, como se o ar ao redor tivesse se solidificado. Os soldados trocam olhares confusos e abatidos, sem saber como reagir. O corpo sem vida de Leonidas é trazido à vista, carregado com cuidado por tio Kedra, Lucious, e Klaus. A visão do antigo rei, uma figura que por tanto tempo representou poder e autoridade, agora reduzido à sua mortalidade, cria uma onda de murmúrios e choque entre os presentes.
— Treeland! — Koan toma a palavra, sua voz carregada de emoção e respeito. — Perdemos a guerra, e também perdemos um rei. Um rei que, em seus dias de glória, se dedicou ao seu povo. Mas agora, com sua morte, um novo tempo se inicia.
Ele faz uma pausa, permitindo que suas palavras penetrem nas mentes e corações daqueles que o escutam. Então, com um gesto reverente, ele se inclina ligeiramente, continuando:
— Hoje, ganhamos uma grande rainha. O tempo de escuridão total cessou de uma vez por todas. Curvem-se diante da rainha Alinna, herdeira do sol e da lua!
Os olhos de todos se voltam para mim, e um a um, os soldados começam a se ajoelhar, reconhecendo a mudança de poder. O peso da coroa invisível começa a se assentar sobre meus ombros, mas não como um fardo — como um símbolo do que está por vir. A luz do fogo ainda ilumina o céu acima, mas agora parece menos feroz, mais contida, enquanto a nova era começa a nascer sob seu brilho. Não foram apenas os homens de Treeland que se curvaram diante de mim; os guerreiros de Vhigor também se ajoelharam, reconhecendo também a minha posição. O campo de batalha, que há pouco era um cenário de caos e destruição, agora se transformava em um espetáculo de reverência e aceitação. Era a visão mais grandiosa que já testemunhei: uma imensa multidão de homens e mulheres, os sobreviventes da guerra, dobrando-se em respeito. O som de armaduras se ajustando e espadas sendo cravadas no chão acompanhava o movimento sincronizado. Seus rostos, marcados pela fadiga e pela dor, agora expressavam uma profunda satisfação e alívio. Eles não estavam apenas curvados em submissão, mas em gratidão— gratidão por uma nova liderança, por uma esperança renovada que eu, Alinna, representava. O brilho suave do sol começa a atravessar as nuvens escuras, lançando raios dourados sobre a cena, como se até o próprio céu reconhecesse o fim da escuridão. Aquele momento, com todos esses bravos guerreiros ajoelhados em unidade, era a mais bela recompensa pelo sacrifício e pela luta que travamos.
— Vida longa à Rainha Alinna! — Bradam todos em uníssono.
Olho para meu pai, e ele me devolve um sorriso repleto de orgulho e felicidade. Nesse instante, senti uma sensação de completude que nunca havia experimentado antes. Apesar da vitória, não posso negar que a morte de Leonidas foi um fardo pesado para mim. Não foi uma decisão fácil, mas era necessária — não apenas por mim, mas por minha família, por minha mãe, e por meu povo. Leonidas precisava morrer, mesmo que isso arrancasse uma parte de mim também. No fundo do meu coração, sei que tudo o que fiz foi por minha mãe. Meu plano foi meticuloso, árduo e cheio de etapas, mas cada movimento tinha um propósito claro. Dempsey Horla, Charlotte, Ivan, Cirus, Natasha... e, finalmente, Leonidas. Cada um deles representava uma peça crucial no quebra-cabeça de minha vingança. Minha mãe morreu quando eu tinha aproximadamente seis meses de vida. Seis chicotadas foram marcadas em minha carne, seis pessoas pagaram com suas vidas, seis vinganças cumpridas. Seria coincidência ou destino? Não posso dizer com certeza, mas esses seis atos—seis mortes—trouxeram justiça para ela e para mim. Cada um desses sacrifícios, embora doloroso, serviu para honrar sua memória e selar o destino daqueles que nos traíram. Agora, com o peso da coroa sobre minha cabeça e o apoio de meu povo, sinto que finalmente cumpri meu dever. A dor persiste, mas ela é acompanhada por um senso de realização e justiça que me sustenta. Mesmo que a morte de Leonidas tenha deixado cicatrizes em minha alma, sei que fiz o que era necessário. E, em meio a essa escuridão, o legado de minha mãe vive através de mim.
— Sua mãe ficaria tão orgulhosa de você se pudesse te ver agora. — Sussurra meu pai em meu ouvido, me abraçando e me tirando dos meus pensamentos.
— Obrigada, pai. — Respondo, retribuindo o abraço com força.
— Você será uma grande rainha, Alinna. Quando voltarmos para casa, terá que liderar os três reinos, assim como fez com Treeland. — Ele diz, me encarando com seriedade.
— Farei ainda melhor. — Afirmo, sorrindo com determinação.
— Senti tanta saudade de você, minha boneca. — Papai me puxa para outro abraço apertado.
— Eu também senti sua falta. — Confesso, perdida no conforto de seu abraço.
— Mas eu senti mais. — Retruca, apertando-me ainda mais forte.
— Ok, pai, agora me solte, você está me sufocando. — Brinco, tentando me soltar de seus braços.
Nesse momento, Richard finalmente se aproxima.
— Majestade? — Ele me chama, e eu me desvencilho de meu pai, ajustando minha postura antes de cumprimentá-lo com uma reverência. Ele faz o mesmo em resposta.
— É um prazer finalmente conhecê-la de verdade. — Diz Richard, beijando minha mão com respeito.
— O prazer é todo meu. — Lanço um sorriso cordial.
— Você foi incrivelmente corajosa. — Ele me elogia, com admiração nos olhos.
— Eu sei. — Digo, abaixando a cabeça por um momento, enquanto flashes de tudo o que aconteceu comigo passam por minha mente.
— Você valeu o sacrifício de alguns dos meus melhores homens. Espero que um dia nossos reinos possam se tornar grandes aliados — Ele propõe, olhando-me com expectativa.
— Com certeza! — Respondo animada. — Ah, e sinto muito pelo seu filho...
— Não precisa agradecer. A morte dele foi vingada hoje, e tudo isso graças a você. — Richard, sorri com gratidão.
Sinto-me um pouco incomodada, mas retribuo o sorriso com outro. Só de pensar em perder Meredith, meu coração dói.
— Bom, vou acalmar os ânimos dos meus homens. Com sua licença. — Ele faz outra reverência antes de se afastar.
— Minha boneca, vou acompanhá-lo. — Meu pai beija minha testa com carinho antes de se retirar ao lado de Richard.
Assim que meu pai se distancia, Koan aparece atrás de mim, com um semblante sério.
— Quero te dar algo. — Se aproxima mais.
— O que é? — Questiono, curiosa.
Koan revela um cordão, no qual está pendurada minha aliança e a aliança de Leonidas. Meu coração se aperta ao ver aquilo, e me emociono.
— Apesar de tudo, ele se tornou alguém importante para você. Então pensei em fazer este cordão para que você sempre se lembre dos bons momentos que tiveram juntos. — Ele diz, enquanto coloca o cordão delicadamente em meu pescoço.
— Obrigada, Koan. — Murmuro, segurando minha aliança com ternura.
— E quero te dar mais uma coisa. — Ele continua, revelando o colar de minha mãe. — Você mais do que merece tê-lo de volta.
— Você vai me fazer chorar. — Suspiro, com a voz embargada pela emoção.
— Gostaria de dizer que será um prazer seguir você aonde quer que vá, minha rainha. — Koan se curva diante de mim com reverência.
— Consegue ver meu futuro? — Brinco, estendendo minha mão para que ele a leia, tentando aliviar a tensão do momento.
— Digamos que o futuro é algo que você mesma constrói. — Koan responde, balançando a cabeça com um sorriso enigmático. — E sinto lhe dizer majestade, mas suas escolhas não acabaram ainda. — Completa antes de apontar algo à distância, como se estivesse indicando o caminho que escolherei seguir.
Viro-me rapidamente, seguindo o olhar de Koan, e lá embaixo, entre a multidão, vejo Pétrus. Meu coração dispara de felicidade ao perceber que ele está vivo. Uma onda de alívio e alegria percorre meu corpo, quase me fazendo esquecer por um momento tudo o que aconteceu. Mas logo, atrás dele, meus olhos encontram Erik. O impacto de vê-lo novamente é tão forte que sinto minhas pernas fraquejarem, quase me derrubando. Minha mente é invadida por uma tempestade de emoções conflitantes. Erik, com sua presença serena, sempre foi um porto seguro para mim, enquanto Pétrus, com sua intensidade e paixão, despertou em mim sentimentos que eu não sabia que possuía. E então, há Leonidas... o homem que agora jaz morto, mas que, de algum modo, ainda mantém um lugar em meu coração. Será possível uma pessoa amar três homens completamente diferentes? Pétrus, Erik e Leonidas. Três almas distintas que, de maneiras únicas, tocaram o fundo do meu ser. Agora, um está morto, e ainda assim, mesmo diante da escolha entre os outros dois, meu coração hesita. Sinto-me dividida entre o passado, o presente e o futuro, sem saber qual caminho seguir.
— Está parecendo um pequeno guerreiro com essa armadura. — Ouço, sorrindo. — Finalmente um estilo que combina com você!
Al me chama, e desvio o olhar dos rapazes para ela. Meu coração se enche de alegria ao vê-la.
— Al! — Exclamando, salto para ela e a abraço com força.
— Sentiu saudades, não é, maluca? — Ela ri, me envolvendo em seu abraço.
— Claro que senti! — Quase grito, minha voz transbordando de emoção.
— Não sei se você está a par, mas nós também morremos. — Klaus e Vlad falam quase em uníssono, suas vozes carregadas de alívio.
— Seus idiotas! — Puxo-os para um abraço apertado.
— É bom te ver, majestade. — Dizem juntos, com um sorriso no rosto.
— Ei! Eu também quero um abraço! — Grita tio Kedra, com a voz carregada de entusiasmo.
— Ahh! — Grito de emoção, correndo para abraçá-lo com toda a força que tenho.
A felicidade que sinto é tão imensa que mal consigo contê-la. A sensação de estar reunida com eles novamente é inigualável.
— Rainhas têm deveres, e o seu, minha senhora, é ir lá embaixo e cuidar de suas tropas. — Al me lembra, gentilmente me empurrando. — Vamos matar a saudade depois.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro