Capítulo 35
— Quero que se comporte enquanto eu estiver fora, está bem? — Digo enquanto termino de arrumar seus cabelos, observando cada fio se alinhar perfeitamente.
— Sim, mamãe. — Ela responde distraída, completamente imersa em sua brincadeira, com o ursinho que nunca sai do seu lado.
— Venha cá, me dê um abraço bem forte, meu amor. — Peço, já estendendo os braços. Ela finalmente se vira para mim, deixando de lado o brinquedo, e me envolve com seus pequenos braços, apertando-me com toda a força que tem.
— Não se preocupe, tudo isso logo vai acabar, e vamos voltar para casa, está bem? — Sussurro em seu ouvido, tentando transmitir toda a segurança que sinto. Ela me olha nos olhos e, por um breve instante, vejo a confiança que ela deposita em mim.
— Ok. — Responde com um sorriso largo e inocente, que ilumina seu rosto.
— Eu te amo, meu amor. — Digo, sentindo meu coração aquecer.
— Eu também te amo, mamãe. — Responde ela sem hesitação, com a doçura que só uma criança consegue ter.
— Eu te amo mais. — Acrescento, acariciando suas costas enquanto a seguro por mais um instante, querendo gravar essa sensação na minha memória.
Partindo para a guerra contra o rei de Vhigor, consigo agora sentir o peso da responsabilidade de estar á frente de grandes reinos, a chama da determinação queimando em meu peito. Os dias de treinamento intensivo haviam moldado cada fibra do meu corpo e temperado minha mente com o aço da disciplina.
— Está preparada? — Leonidas pergunta enquanto ajusta os últimos detalhes da minha armadura, os dedos firmes mas gentis, como se cada movimento seu carregasse tanto preocupação quanto confiança.
— Eu nasci preparada. — Respondo, um sorriso determinado surgindo em meus lábios, embora por dentro a inquietação serpenteie em meu coração.
Ele para por um momento, os olhos escurecendo ligeiramente, e então declara, sem me olhar: — Você está com medo. — Suas palavras me pegam de surpresa.
— Como sabe? — Questiono, intrigada, tentando manter a voz firme.
— Eu te conheço, Alinna, muito mais do que você mesma. — Ele responde com uma calma que quase me desarma. Há algo de desconcertante em sua certeza, como se ele enxergasse partes de mim que nem eu mesma ouso encarar.
Respiro fundo e tento esconder a verdade, mas é inútil mentir para ele.
— Não estou com tanto medo assim. — As palavras acabam saindo mais para mim do que para Leonidas, de certa forma tentando minimizar o que sinto.
Ele finalmente me olha, seus olhos penetrantes suavizando um pouco, e ele sorri, um sorriso que é tanto de admiração quanto de compreensão.
— Eu sei que não. Você é a mulher mais forte que eu conheço. E não digo somente em relação aos seus poderes. — Leonidas me puxa para um beijo, suas palavras ecoando dentro de mim, reforçando minha determinação. — Vou te esperar lá embaixo.
— Peça para Celeste vir aqui um instante. Quero garantir que ela sabe o que fazer com nossa filha. — Digo, tocando de leve a insígnia em forma de lua presa em um dos lados da minha armadura.
Leonidas assente, mas antes de se afastar, se inclina e deposita um beijo suave na minha testa, um gesto carregado de mais significado do que qualquer palavra que pudesse ser dita. — Claro. Antes de descer, vou falar com nossa pequena princesa.
Fico olhando enquanto ele sai do quarto, sentindo uma mistura de segurança e saudade antecipada. Ele sempre soube exatamente como me alcançar, como acalmar minhas tempestades internas sem precisar dizer muito. Minutos depois, uma batida suave na porta anuncia a chegada de Celeste. Ela entra com a mesma postura impecável de sempre, a lealdade refletida em cada movimento.
— Majestade mandou me chamar? — Ela pergunta, fazendo uma reverência profunda, o respeito em sua voz tão nítido quanto o brilho de seus sapatos bem lustrados.
Sorrio levemente, lembrando que entre nós, essa formalidade é mais um hábito do que uma necessidade.
— Não precisa mais fingir, Celeste. — Rebato logo de inicio, apontando para uma porta ao lado. — Você ainda está com a chave daquela porta?
Um sorriso astuto surge em seu rosto, e ela balança o cordão que segura em volta do pescoço, do qual pende uma chave prateada.
— Mas é claro, Sky! — Responde, com uma familiaridade que só nós duas compartilhamos.
— Ótimo. — O sorriso nos meus lábios agora carregando um misto de alívio e decisão. Aquele gesto, a chave, representa muito mais do que apenas uma entrada ou uma saída; é uma garantia de que, mesmo nas sombras, temos o controle de nosso destino.
Ao olhar para o horizonte, onde os primeiros raios do sol começavam a despontar, eu sabia que não havia mais volta. Minha armadura reluz com o brilho da manhã, cada detalhe cuidadosamente forjado para garantir tanto a proteção quanto a mobilidade. As insígnias dos reinos de MoonFifth, SunFifth e Sansalom estavam gravadas em seu peito, um lembrete constante do que estava em jogo. As cicatrizes de batalhas passadas, ainda visíveis na pele, pareciam pulsar com uma energia renovada, como se me lembrassem da minha própria mortalidade e, ao mesmo tempo, da minha resiliência.
O Coliseu estava tomado por uma agitação sombria, o som de armaduras sendo ajustadas, espadas sendo afiadas e despedidas sendo sussurradas em meio ao ar frio da manhã. Eu estava acompanhada por Warner, Rocha, Dilan, Ethan, Kevin, tio Heitor e Leonidas, todos com expressões severas, cientes do peso que carregávamos. O espaço, grande, parecia pequeno diante de tantos guerreiros reunidos. As fileiras de soldados se estendiam como um mar de aço, cada um deles prestes a embarcar em uma jornada que poderia ser sua última. O som das despedidas ecoava pelo Coliseu, carregando consigo a dor e o medo dos que ficavam para trás. Esposas, filhos, mães, pais e amigos se abraçavam com força, como se quisessem gravar aquele momento em seus corações, temendo o pior. As lágrimas das mulheres, que escorriam silenciosas, carregavam o peso de mil despedidas, o medo de que seus entes queridos não voltassem mais para casa. Olhei para trás e vi os exércitos que aguardavam meu comando, homens e mulheres que haviam treinado ao meu lado, enfrentando os mesmos desafios, superando os mesmos medos. Cada um deles tinha seus próprios sonhos, suas próprias razões para lutar, mas naquele momento, compartilhávamos o mesmo objetivo: a vitória. Havíamos treinado juntos, suado e sangrado lado a lado, e agora, todos os olhares estavam voltados para mim. Eu era a figura central, a líder que eles acreditavam ser capaz de conduzi-los através das sombras e das chamas da guerra. Era uma responsabilidade avassaladora, mas também um fardo que eu carregava com orgulho. Respirei fundo, sentindo o ar gelado da manhã encher meus pulmões, trazendo consigo a essência da terra, a força da natureza que me rodeava. Cada respiração era uma promessa a mim mesma de que eu faria o possível e o impossível para levá-los de volta para suas famílias. Eu absorvia essa força, deixando que ela se fundisse com minha determinação, transformando cada insegurança em coragem. Com o coração firme e o olhar resoluto, voltei-me para Leonidas e os outros, trocando um último olhar de cumplicidade antes de dar o passo à frente. A guerra estava à nossa espera, e com ela, a chance de moldar o futuro que tanto desejávamos.
— Quantos homens e mulheres há na nossa tropa? — Interrogo, observando a imensidão de guerreiros diante de nós. A quantidade de soldados parecia interminável, uma visão ao mesmo tempo impressionante e inquietante.
Leonidas, concentrado nos últimos preparativos, responde sem desviar o olhar das suas tarefas. — Cem mil homens na linha de frente, comigo, com os rapazes e com você.
Minha curiosidade cresce. — E na linha de trás? — Pergunto, tentando imaginar a magnitude de nosso exército.
Rocha, sempre com aquele humor ácido, solta uma risada. — Colocamos apenas quarenta mil!
Franzo a testa, uma sombra de preocupação me atravessando. — Isso tudo de homens? Não acham que é demais? — O receio latente em minha voz, a consciência do peso que essa batalha carrega.
— Homens demais nunca são demais, majestade. — Ethan, com seu pragmatismo característico, rebate sem hesitar.
— Eu preciso da atenção de todos vocês! — Antes que eu pudesse responder, Leonidas se vira para a multidão, seu olhar afiado como uma lâmina. Sua voz ecoa, exigindo silêncio e obediência.
Kevin, com sua habitual eficiência, saca sua pistola e dispara para o alto. O estrondo do tiro reverbera pelo Coliseu, silenciando a multidão em um instante. Todos os olhares se voltam para Leonidas.
— Gostaria de dizer que eu não sou um rei que aceita falhas! — Começa, sua voz carregada de autoridade e fervor. — Eu quero que lutem, que matem e que morram se preciso for, mas não falhem! O rumo e o futuro de Treeland estão nas mãos de cada um de vocês, então deem sangue, deem suor! Vamos vencer e acabar com eles! — Sua espada se ergue no ar, refletindo a luz do sol, um símbolo de poder e força.
A resposta é imediata e ensurdecedora. Todos os homens e mulheres gritam em uníssono, seguindo o exemplo de seu rei. A energia no ar é palpável, uma mistura de adrenalina e fervor bélico.
— À Riqueza e ao Poder! — Leonidas vocifera novamente, a frase se tornando um mantra, uma promessa coletiva de vitória.
— À Riqueza e ao Poder! — A tropa repete em um cântico poderoso, suas vozes se fundindo em uma só.
Enquanto os gritos ecoam ao redor, murmuro para mim mesma, quase como uma prece: — Assim como o sol e a lua, voltaremos a brilhar.
— Destruição. — De repente, ouço uma voz familiar atrás de mim. Koan sussurra, sua presença tão inesperada quanto seu tom sombrio.
Viro-me para encará-lo e, com um gesto de respeito, levanto meu arco em saudação. — Viva a destruição. — Respondo, sentindo o peso dessas palavras, como se reconhecesse a inevitabilidade do que estava por vir.
— Eu sinto muito, Sky. — Koan, com uma expressão triste e arrependida, abaixa a cabeça.
— Eu também sinto muito, Koan. Me desculpe por ter escolhido a pedra. — Seus olhos carregam um fardo que só ele parece compreender completamente. Aproximo-me dele, minha mão pousando em seu ombro em um gesto de compreensão.
— Mesmo sabendo que tudo pode estar perdido, irei lutar! — Ele ergue o peito, a tristeza dando lugar a uma resolução firme. Há uma determinação feroz em suas palavras, uma chama que não se apaga facilmente.
— Pelas suas visões? — Pergunto, embora já conheça a resposta.
Koan me encara, a convicção clara em seus olhos. — Não. Pelo meu reino! — e, com essa última declaração, ele se afasta, seu caminho traçado, decidido a lutar até o fim, mesmo contra as probabilidades.
Fico observando enquanto ele se distancia, o sacrifício inevitável ecoando em cada passo. A guerra nos aguardava, e com ela, a promessa de um futuro incerto, mas ainda assim, nossa única chance de redenção. Eu sabia que aquela guerra não era apenas uma disputa por territórios; era uma batalha pelo futuro dos reinos, pela honra do meu nome e pelo legado que eu deixaria para as próximas gerações. A responsabilidade de moldar o destino de MoonFifth, SunFifth e Sansalom pesava sobre meus ombros como uma armadura invisível, mas a força da minha determinação era ainda maior.
Enquanto monto em meu cavalo, sinto a gravidade de cada decisão que havia tomado até aquele momento. As noites em claro, as estratégias traçadas em segredo, as alianças forjadas e as traições enfrentadas. Tudo convergia para aquele instante. Esta guerra não definirá apenas quem governará os reinos, mas também quem eu realmente sou. Ergui a minha mão para o alto, sinalizando para que as tropas se preparassem. O som das armas sendo erguidas, das espadas saindo de suas bainhas e dos escudos sendo ajustados ecoou pelo campo como uma sinfonia de guerra, acelerando o ritmo do meu coração. O vento soprou forte, fazendo as bandeiras tremularem com violência, enquanto o sol se erguia ainda mais alto no céu, banhando o exército com uma luz dourada que cintilava nas armaduras. Eu certamente sei que o rei de Vhigor não se renderá facilmente. Ele é conhecido por sua crueldade imparável, por não poupar ninguém em seu caminho. Mas eu também havia mudado. Não sou mais a mesma jovem impetuosa e impulsiva de antes. As provações que enfrentei me transformaram de certa forma em uma líder destemida e calculista. Havia perdido tanto, mas, em contrapartida, ganhei uma força inquebrantável e uma clareza de propósito que me impulsiona inexoravelmente para a frente.
Com um último olhar para o horizonte, puxo as rédeas do cavalo, sentindo a vibração dos cascos contra o solo ressoar em meu corpo. Por fim Avancei, liderando meu exército em direção à batalha. O chão tremeu sob o impacto de milhares de cascos de cavalos e passos de soldados, e a sensação de inevitabilidade tomou conta. A guerra estava começando, e com ela, o destino dos três reinos seria selado. Não estou lutando apenas por poder, mas por justiça, vingança e pela promessa de um futuro onde minha linhagem governará com a força e sabedoria que só eu posso oferecer. — Estamos indo mais cedo do que o esperado — pensei, reconhecendo a estratégia característica de Leonidas. Ele sempre agia com antecedência, pegando seus inimigos de surpresa, e agora não seria diferente. Partimos deixando um pedaço de nós para trás, algo que é e sempre será nossa âncora, nossa vontade de voltar para casa.
Cavalguei lado a lado com Leonidas. Atrás de nós, nossos homens marchavam com passos firmes, e logo mais atrás, nosso exército se movia em uníssono, uma maré de aço e força de vontade. Todos sabiam que aquela caminhada era apenas o começo, um prelúdio para a tempestade que estava por vir. Caminhamos por horas, a paisagem mudando de campos abertos para terrenos mais íngremes, mas o cansaço não tocava nossos corações. A adrenalina corria em nossas veias, mantendo-nos alertas e focados. Sabíamos que cada passo nos aproximava de um confronto. Finalmente, chegamos diante dos portões de Vhigor, imponentes e ameaçadores, suas muralhas parecendo erguer-se até o céu. Fomos recebidos por centenas de soldados mascarados, todos com a mesma máscara dourada dos homens de confiança de Richard, o rei de Vhigor. Suas armaduras prateadas brilhavam sob a luz do sol, e suas bestas estavam carregadas, prontas para disparar ao menor sinal de ataque. Leonidas e eu trocamos um olhar rápido antes de erguer os olhos para a torre mais alta, onde avistamos Richard. Ele estava cercado por alguns de seus homens, observando-nos de cima com uma expressão fria e calculista. Seus olhos, ao longe, pareciam perfurar minha alma, como se ele tentasse medir minha força de vontade à distância. O silêncio entre nós era quase ensurdecedor. As próximas horas selariam não apenas o destino de Vhigor, mas o meu também.
— Preparem-se! — Gritei para meus homens, minha voz firme cortando o ar. O rugido da resposta foi ensurdecedor, uma demonstração de força e lealdade.
Estávamos todos mergulhados em um caminho de destruição, em uma dança com a morte. E eu, Alinna, estava no centro desse turbilhão, pronta para enfrentar o que viesse.
— Ainda há tempo para desistir. — Leio seus lábios, e tenho certeza de que Leonidas também entendeu.
— Avante! — Leonidas grita, erguendo sua espada em direção ao exército inimigo.
Assim que Leonidas deu suas ordens, os homens de Richard levantaram suas bestas e dispararam flechas contra nosso exército. Em um esforço desesperado de proteção, nossos soldados se agruparam e ergueram suas armaduras como um escudo improvisado, mas isso não conseguiu evitar que muitas das flechas atingissem alguns de nossos homens. A batalha começou, com Treeland enfrentando Vhigor, dois grandes reinos de Aksum disputando o trono dos três reinos de Sky — Sansalom, Moonfifth e Sunfifth, que são meus por direito. Lutarei com todas as minhas forças e, se necessário, darei minha vida, mas não permitirei que tomem o que é meu. Os exércitos se fundem em um mar de caos, misturando-se como se fossem um só. A cena é como um formigueiro em frenesi: centenas de homens se enfrentando, gritos e gemidos ecoando pelo campo de batalha. Espadas cravando e retirando-se dos corpos, o clangor incessante de metal se chocando, criando um som ensurdecedor. Pela primeira vez, uso meus poderes. Congelo o chão ao meu redor e, com um golpe potente, bato no solo, fazendo-o rachar e se despedaçar. Um grande buraco se forma, e os homens que tentavam me atacar caem nele. Alguns conseguem se equilibrar, mas rapidamente os derrubo com um chute certeiro ou uma facada. A luta é brutal, e o buraco se torna um fosso mortal. Vejo a distância entre mim e o outro lado do buraco. Dou um impulso, saltando para atravessar a lacuna. Com esforço, consigo me agarrar às bordas do buraco, meu corpo pendendo perigosamente para baixo. A sensação de estar à beira da morte é tangível; se eu perder a força, cairei e morrerei instantaneamente. Para minha desgraça, um dos soldados inimigos percebe minha situação crítica. Com um sorriso cruel, ele se aproxima e pisa com força nos meus dedos. O impacto é excruciante. Grito de dor, sentindo o peso crescente em meu braço e a força escorrendo de mim. Cerro os dentes, tentando me impulsionar para frente com todas as minhas forças restantes, mas o desgraçado continua a pressionar meus dedos com ainda mais intensidade. Cada segundo parece uma eternidade, e a sensação de estar à beira do abismo se intensifica a cada instante.
— Tenha bons sonhos, majestade! — Ele diz, enquanto aplica um chute violento em meu rosto.
Imediatamente, desgrudo minhas mãos do ponto que me mantinha segura. Sinto meu corpo começar a cair, o pânico crescendo dentro de mim. Fecho os olhos, não conseguindo suportar a visão do abismo abaixo, e então, inesperadamente, sinto alguém agarrar minha mão com força. Quando abro os olhos, vejo Leonidas curvado sobre o chão, sua expressão de esforço e determinação evidente. Ele está quase caindo junto comigo, mas sua força é perceptível. Ele usa todos os músculos dos braços para me segurar, lutando contra a força da gravidade e o peso do meu corpo. O suor escorre pela testa dele, enquanto seus dedos se entrelaçam firmemente nos meus, lutando para evitar que eu despencasse para a morte. Cada fibra do seu ser está voltada para me salvar, e, mesmo em meio ao caos, seu esforço é uma luz de esperança na escuridão.
— Não me solte, Leonidas! Não me solte! — Imploro, pendurada sobre o abismo.
— Eu nunca vou te soltar. — Ele sussurra com firmeza, sua voz cheia de comprometimento.
— Eu não quero morrer. — Resmungo, olhando para baixo e vendo a profundidade aterradora do buraco que criei.
— Você não vai morrer! — Ele garante com dificuldade. — Preciso que você me ajude a te puxar. Segure com ambas as mãos meu braço!
Obedeço rapidamente o pedido e seguro com força o braço dele. No entanto, quando estou quase conseguindo subir, um inimigo inesperado aparece e tenta atacar Leonidas por trás.
— Leonidas! — Esbravejo desesperadamente.
Ele me solta, e eu agarro novamente a beirada do chão com todas as minhas forças, tentando subir sozinha. Mas a exaustão me domina, e cada movimento se torna um esforço colossal. Por um instante, a ideia de me soltar e acabar com o sofrimento passa pela minha mente, uma tentação sombria que me assola. Enquanto luto para me manter no lugar, Leonidas se vira para enfrentar o inimigo que ameaça sua vida. Com um movimento preciso e impiedoso, ele crava a espada no peito do homem. O sangue jorra de forma violenta, escorrendo pela lâmina e cobrindo Leonidas com um manto vermelho. Ele fica completamente ensanguentado, seu corpo agora sujo e molhado com o líquido quente e viscoso. A cena é brutal, e o contraste entre o sangue fresco e a determinação assertiva em seus olhos é inconfundível.
— Segure-se em mim novamente! — Ele grita, a voz carregada de urgência.
— Eu não consigo. — Sussurro, exausta e desesperada.
Leonidas, sem hesitar, agarra meus braços com uma robustez que parece inumana e começa a me puxar com todas as suas forças. Finalmente, consigo voltar à terra firme, caindo em cima dele e descansando momentaneamente em seu peito. A sensação do calor do seu corpo é um alívio profundo, e aproveito esse breve momento para recuperar as energias. Depois de alguns instantes, me levanto, ainda ofegante e um pouco desorientada.
— Alinna, abaixe-se! — Ordena, a urgência em sua voz me faz reagir imediatamente. Eu me abaixo, obedecendo rapidamente à ordem.
Leonidas, com um movimento ágil e preciso, passa a espada pelo homem que estava prestes a me atacar. O inimigo cai, e eu aproveito o momento para parar e observar o desfecho da batalha ao nosso redor. A cena é desoladora. Estamos claramente perdendo; nossos homens estão sendo dizimados, e o número de combatentes em nosso exército diminui a cada instante. A situação se agrava ainda mais com a grande quantidade de soldados caindo no buraco que eu mesma criei. A abertura no chão, que deveria ser uma vantagem estratégica, agora se transforma em uma armadilha mortal, usada impiedosamente pela tropa inimiga para aniquilar nossos homens. O campo de batalha está repleto de caos e desespero, e a vantagem que tínhamos parece estar se esvaindo rapidamente.
— Estamos perdendo! — Viro-me para Leonidas, a intrepidez em minha voz é inconfundível.
— Eu sei! — Ele responde, a raiva e a frustração evidentes em suas palavras.
— Precisamos ir atrás de Richard. Se conseguirmos matá-lo, a guerra pode acabar. — Sugiro, uma ideia emergindo com clareza em minha mente.
— Mas ele não está mais onde deveria estar. — Leonidas observa ao redor, tentando localizar o rei, mas sem sucesso.
— Eu sei onde ele está! — Afirmo com confiança, sabendo que tenho uma vantagem que pode mudar o curso da batalha.
Saio correndo, com Leonidas imediatamente atrás de mim. Ele convoca alguns dos nossos homens para nos acompanhar, a celeridade estampada em seu rosto. Dirigimo-nos rapidamente para uma caverna localizada no topo de uma imensa rocha antiga, ao lado do palácio de Vhigor. Tenho certeza de que Richard deve estar se escondendo lá. Quando chegamos à entrada da caverna, somos recebidos por um manto de escuridão quase absoluta. A escuridão é tão densa que parece engolir toda a luz ao nosso redor, tornando a visão quase impossível. A única fonte de luz é a fraca claridade do dia que mal penetra no interior da caverna. Entramos com extrema cautela, cada passo é dado com precisão para evitar fazer barulho. O eco dos nossos passos se mistura ao silêncio opressivo, e o som das respirações ofegantes ressoa nas paredes rochosas. As sombras dançam ao nosso redor, e cada movimento é feito com cuidado para não chamar a atenção para nossa presença. Cada ruido parece amplificado, e a expectativa de encontrar Richard mantém nossos sentidos aguçados e o coração acelerado.
— Tem certeza de que o rei de Vhigor está aqui, majestade? — Koan pergunta, com uma nota de preocupação na voz.
— Koan? É você? — Indago, a surpresa evidente em minha expressão.
— Sim, majestade, sou eu. Vim para ajudar, caso precisem. — Explica, seu tom revelando a seriedade de sua missão.
— Agradecemos, — Leonidas diz, sua voz carregada de gratidão.
Enquanto conversamos, um barulho ecoa na caverna. Olhando para trás, notamos que um dos homens que veio conosco desapareceu sem deixar rastros.
— Mas o que é isso? — Questiona Leonidas, sua voz cheia de intriga e confusão.
Antes que possamos reagir, outro barulho surge e mais dois homens desaparecem no escuro.
— Apareça agora, Richard! — Grito, preparando meu arco e mantendo a mira alerta.
Mas a caverna continua silenciosa e vazia. Prosseguimos com extremo cuidado, nossos passos cuidadosos para o que não conseguimos ver em nossa frente. De repente, um movimento rápido e inesperado acontece.
— Mas o que foi isso? — Koan solta imediatamente, a inquietação clara em sua voz.
Sem entrar em pânico, olho para o meu lado direito e vejo Leonidas caído no chão, com a flecha de ouro cravada no peito.
— O que você fez? — Koan interroga, o olhar fixo no autor do ataque, a acusação e o choque claramente estampados em seu rosto.
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