Capítulo 25
Já se passaram muitos dias desde que cheguei a Treeland, e de certa forma, nunca deixei de me sentir prisioneira. Vivo constantemente rodeada de guardas, que me seguem a cada cinco passos, como sombras da minha própria sombra. Isso me sufoca, como se o ar estivesse sempre denso demais para ser inalado. Não tenho permissão para sair do palácio sob nenhuma circunstância; a única liberdade que me concedem é a de passear pelos jardins, onde posso pegar um pouco de sol com a Meredith. Mesmo nesses momentos de aparente tranquilidade, sinto os olhos vigilantes em todos os lugares. Sou cercada por guardas, vigiada por Leonidas, Hugo, Natasha e até mesmo pela sonsa da Charlotte. Apesar disso, meus dias não são completamente sombrios, pois tenho Meredith ao meu lado. Cada vez que penso no fato de que, querendo ou não, ela se tornou uma prisioneira também, meu coração se aperta. Sinto-me egoísta por me sentir bem e feliz por tê-la comigo, mas não posso resistir a essa sensação. Não sei o que seria da minha sanidade sem ela aqui comigo. Meredith traz uma luz e uma esperança que eu não encontraria de outra forma. Seus risos e sua presença são um bálsamo para minha alma cansada. Nos jardins, enquanto ela corre e brinca, por um momento, posso fingir que tudo está normal.
Além disso, acabei fazendo amizade com minhas criadas, Ananda e Celeste. Elas também são um alívio em meio a essa prisão dourada. Ananda é doce e paciente, sempre pronta para ouvir e compartilhar uma história para me distrair. Celeste, com seu senso de humor afiado, consegue arrancar risos mesmo nos dias mais sombrios. A companhia delas me faz sentir um pouco mais humana e menos como uma peça em um jogo cruel de xadrez. No entanto, a constante vigilância e a sensação de estar sempre à beira de algo terrível nunca desaparecem completamente. Tento manter a esperança viva, por mim e por Meredith, mas a luta interna é incessante. Cada dia é uma batalha para encontrar forças e seguir em frente, esperando por uma oportunidade de liberdade que parece cada vez mais distante.
— Venha, Meredith, mostre para a mamãe seu novo visual! — Chamo por ela em voz alta.
Estou sentada no tapete macio do chão do quarto ao lado de Ananda. Meredith está há alguns minutos na câmara de roupas dos meus aposentos com Celeste, se arrumando para nossa brincadeira de desfile. Meredith adora os vestidos que Leonidas mandou fazer para mim, mas como não gosto muito deles e não os uso, decidimos transformar o tempo e esforço das criadas em algo divertido. Estamos recompensando-as com um desfile. Abrimos as duas janelas, permitindo que o sol radiante ilumine o quarto, trazendo um calor agradável e acolhedor. As portas também estão abertas, permitindo que uma brisa suave e refrescante entre, aliviando o calor do meio-dia. O ar está carregado com o perfume das flores do jardim, e o canto distante dos pássaros contribui para a atmosfera tranquila e alegre. O quarto está decorado com tecidos coloridos e almofadas espalhadas, criando um ambiente confortável e festivo. Ananda e eu rimos e conversamos enquanto esperamos Meredith, aproveitando a rara sensação de normalidade e alegria. A expectativa aumenta a cada segundo, e eu mal posso esperar para ver o sorriso radiante de Meredith quando ela finalmente desfilar em seu novo visual.
— E agora, com vocês... — Celeste sai da câmara gritando alegremente. — Meredith!
— Ehhhh! — Aplaudimos em coro, nossas palmas ecoando pelo quarto.
Meredith surge, andando de forma desengonçada com o vestido que é dez vezes maior que ela, mas isso não diminui sua beleza. Adoro esses momentos com ela; aliviam todo o peso dos meus problemas.
— O que achou, mamãe? — Ela para na minha frente, os olhos brilhando de expectativa.
— Eu adorei! — Elogio, um sorriso enorme no rosto, sentindo-me orgulhosa da minha pequena.
Percebo que há alguém nos observando. Dirijo meu olhar para a porta e lá está ele, Leonidas, encarando Meredith. Ele não percebe que notei sua presença. Leonidas ri ao ver Meredith se divertindo com Ananda e Celeste. Sua risada, embora aparentemente inofensiva, envia um calafrio pela minha espinha. Observo sua expressão; há um misto de curiosidade e algo mais que não consigo identificar. O brilho nos olhos dele é perturbador, como se estivesse planejando algo. Tento manter a calma e não alarmar Meredith, que continua dançando alegremente, alheia à tensão que sinto ao vê-lo ali.
— Vá colocar outro vestido, meu amor. — Digo para Meredith, que volta correndo para a câmara de roupas. — Celeste, leve-a por gentileza.
— Sim, senhora. — Ela obedece de imediato, levando Meredith para longe.
Leonidas percebe meu olhar fixo nele, seu sorriso se desfaz e sua feição amarrada retorna ao normal. Ele se desencosta da porta e sai. Respiro fundo, tentando manter a calma e me concentrar nas meninas. Tento ignorar o desconforto que a presença dele causa e focar nos momentos preciosos com Meredith, Ananda, e Celeste.
...
— Para onde vamos, Hugo? — Pergunto, já sem ar.
Ele corre comigo pelos corredores, me puxando sem explicar nada, até que finalmente me leva para fora do palácio e praticamente me empurra para dentro de uma carruagem.
— Saiba que tudo o que acontecer hoje não é de meu consentimento, Sky. — Hugo diz, a expressão preocupada.
— Mas o que vai acontecer hoje, homem? Me diga! — Tento sair da carruagem, mas ele me impede com um gesto firme.
— Sinto muito. — Ele me empurra de volta para dentro, fecha a porta rapidamente e acena para o cocheiro partir.
A carruagem começa a se mover, e fico sentada lá dentro, ansiosa e sem saber o que esperar. O som dos cascos dos cavalos batendo na estrada ecoa no meu ouvido, intensificando minha inquietação. Hugo não costuma ser tão evasivo, e sua atitude me deixa ainda mais alarmada. A carruagem me leva ao centro da cidade de Treeland. No meio da praça principal, avisto um palanque cercado por uma multidão de pessoas do reino. "Céus, outro evento?" Quando desço da carruagem, as pessoas me veem e começam a gritar meu nome, sorrir, assobiar e aplaudir. O som é ensurdecedor, e a energia da multidão me deixa abismada. Sinto o calor do sol acima, intensificando o brilho das bandeiras e decorações que enfeitam a praça.
Caminho em direção ao palanque, meus passos ecoando na praça de pedra. O povo de Treeland me cerca, estendendo as mãos, tentando tocar em mim. Os guardas que vieram cercando minha carruagem estão tento trabalho para me proteger e afastar os súditos de Derek ao mesmo tempo. Suas expressões são de pura admiração e esperança, e vejo crianças nos ombros de seus pais, acenando e sorrindo em minha direção. Olho ao redor e vejo que todos os nobres e figuras importantes do reino estão presentes. Leonidas está encima do palanque, com seu ar de grandiosidade, observando cada movimento meu. Natasha está próxima, com sua águia em ombros, assistindo com aquele olhar crítico e calculista. A cada passo que me aproxima do palanque, o coração acelera cada vez mais com a antecipação do que está por vir. Sinto o peso do olhar de cada pessoa, esperando algo de mim, uma líder, uma heroína. Respiro fundo, tentando manter a compostura.
— Filha das chamas!
— Grande Sky!"
— Rainha dos reinos! — A multidão grita sem parar, suas vozes se misturando em uma cacofonia ensurdecedora.
De cima do palanque, Leonidas estende as mãos para mim, chamando-me para subir. Atravesso o restante da multidão com passos cautelosos, um pouco receosa, enquanto os guardas ao meu redor tentam me proteger, formando uma barreira que, apesar de suas boas intenções, acaba me comprimindo ligeiramente. O calor e a pressão das pessoas ao meu redor tornam a travessia quase claustrofóbica. Chegando ao palanque, Leonidas novamente estende suas mãos para mim, o gesto firme. Sinto a força em seu aperto enquanto ele me puxa para cima, ajudando-me a subir os últimos degraus. A multidão ao nosso redor continua a vibrar, suas vozes formando um coro de aclamação que ressoa pelo ar. No alto do palanque, posso ver a vastidão do povo de Treeland reunido. A luz do sol brilha intensamente, criando uma aura quase mística ao redor de todos nós. Ao meu lado, Leonidas me observa atentamente, um sorriso enigmático nos lábios.
— O que está acontecendo? — Sussurro, olhando ao redor, tentando entender o que está se desenrolando.
— Hoje é o seu último dia para conquistar de vez este povo. — Leonidas responde em tom baixo, com uma voz que mistura encorajamento e autoridade.
— Mas eu não quero conquistar o seu povo. — Digo, com a firmeza que consigo reunir.
— No entanto, meu povo em breve se tornará seu povo também. — Ele afirma, com uma confiança quase desdenhosa.
Sinto que não adianta insistir, sabendo que ele não revelará seus verdadeiros planos.
— Seja o que for, não farei nada que você me ordene. — Declaro com determinação, decidida a não seguir suas ordens cegamente.
Leonidas volta seu olhar para o outro lado do palanque, seus olhos se fixando em algo fora do meu campo de visão. Eu sigo seu olhar e vejo o que está prendendo sua atenção no momento. Warner está de pé, observando com uma expressão de frieza, enquanto Meredith, distraída, está diante dele. Ele mantém uma mão repousada levemente sobre o ombro dela, mas o movimento é sutil o suficiente para esconder a arma que segura embaixo da manga. O gesto é uma ameaça velada, um aviso silencioso de que ele está preparado para agir se necessário. O impacto dessa ameaça me atinge com força, e um frio gélido percorre minha espinha.
— Você não faria isso com uma criança. — Viro-me para Leonidas, a frustração evidente em minha voz.
— Talvez não. Talvez sim. — Ele sorri de maneira enigmática, seu tom de voz cheio de uma calma ameaçadora. — Não sou como Nicolay, que adorava passar espadas pelas gargantas das crianças indefesas, mas talvez eu possa ser semelhante. Tudo depende de você. — Leonidas sussurra essas palavras bem ao pé do meu ouvido, sua mão repousando de forma possessiva em minha cintura. A proximidade é tão intensa que consigo sentir seu hálito de hortelã.
Ele então me direciona para um trono ao seu lado, onde estou posicionada de maneira que mesmo com todo o alvoroço ainda posso ouvir os murmúrios ao meu redor.
— Acho que eles são um casal. — Uma senhora tenta disfarçar o assunto com suas amigas, abanando o leque com nervosismo.
— Eu também acho. Há um clima entre eles, vocês repararam também? — Outra senhora dá risadinhas, claramente animada com a ideia.
"Só se for um clima de morte."
— Eu percebi isso, menina. São tão lindos juntos. — Suspira uma terceira, com um brilho sonhador nos olhos.
— Sim! Imagine se eles se casarem? — Sua animação é visível. — Que maravilha seria!
— Josefine, isso seria maravilhoso! Pense, nossa rainha unindo os três reinos? Seremos mais poderosos do que nunca!
— Essa Sky é muito sortuda. Eu faria de tudo para poder me casar com um Derek! Por quê isso não acontece comigo?
Olho para Leonidas e vejo seu sorriso triunfante enquanto ele acena para a multidão, que continua a aclamar meu nome com fervor. A compreensão me atinge como um golpe. Agora eu vejo claramente o que ele está planejando. A razão pela qual ele quer que seu povo me ame e me adore com devoção eterna, o motivo pelo qual ele está tão empenhado em me transformar em uma heroína poderosa para seus súditos, torna-se óbvia. Leonidas não está apenas buscando o prestígio pessoal; ele quer a aprovação total de todos ao seu redor, especialmente de seu tio Heitor. Ele sabe que para conquistar a aceitação de Heitor e solidificar sua posição de poder, precisa garantir que eu seja vista como uma figura de importância e valor inquestionáveis. Esse é o plano de Leonidas para mim. Ele não está apenas me manipulando para ser uma heroína; ele está arquitetando minha ascensão como rainha. Ele quer que eu me case com ele, quer me unir ao trono e aos destinos de Treeland de maneira irrevogável. Sinto a força do meu ódio crescendo dentro de mim. Com determinação feroz, cravo minhas unhas no braçal estofado de veludo do trono, o tecido luxuoso amassando sob minha força. Cada pressão das minhas unhas é um reflexo do meu desprezo e revolta, uma tentativa de descontar toda a fúria e frustração que sinto. O som do veludo sendo esmagado e o toque frio das minhas unhas contra o metal são um alívio momentâneo, uma pequena forma de expressar a minha raiva diante da situação em que me encontro.
— Povo de Treeland, reunimo-nos nesta tarde para o julgamento dos prisioneiros de nosso reino! — Grita Koan com uma voz que ecoa pela praça.
A aparição de Koan e a menção de prisioneiros despertam uma onda de murmúrios e curiosidade entre a multidão. O burburinho cresce rapidamente, misturado com a antecipação e um certo temor. O povo aguarda, inquieto, a decisão que se aproxima.
— Todos sabemos o destino que espera aqueles que traem nossa confiança, que roubam e enfraquecem nossa nação! — Koan continua, sua voz carregada de autoridade.
— Morte! Morte! Morte! — O clamor coletivo é ensurdecedor, um cântico uníssono que ressoa com uma intensidade esmagadora.
— Sim, este é o destino daqueles que desafiam as leis de nosso rei Derek Malik! — Koan aponta para Leonidas, que está ao meu lado, sorrindo com um brilho de satisfação nos olhos.
Heitor observa a cena com um olhar de fascínio, enquanto Charlotte, ainda um mistério para mim, está presente, observando de um canto com um semblante neutro. Natasha, por outro lado, não consegue esconder seu sorriso de satisfação, um sorriso que parece refletir um misto de prazer e aprovação.
— E para selar este julgamento, convoco a Princesa dos três reinos Sansalom, MoonFifth e SunFifth, herdeira de Madark, Alinna Sky, que tomou a iniciativa de bater o martelo e defender nossa terra desses malfeitores com suas próprias mãos! — Koan anuncia, sua voz ressoando com um tom triunfante.
Os olhares da multidão se voltam para mim, com uma mistura de expectativa e reverência. Os meus olhos se arregalam, incrédula com a audácia de Leonidas. O peso da situação começa a se instalar em mim enquanto o papel que ele me atribuiu se revela de forma cruel. Eu nunca quis estar no centro dessa cena, e o horror do que está prestes a acontecer me faz sentir um frio na espinha. Leonidas, com uma expressão de persistência e anseio, me observa fixamente. Seus olhos, frios e implacáveis, lançam uma ordem silenciosa: eu devo me levantar. Eu hesito por um momento, o medo e a raiva conflitando dentro de mim, mas quando meu olhar se volta para Meredith, meu coração acelera. Warner, com um olhar ameaçador, faz um movimento lento e calculado. Ele ergue a mão que antes estava repousando casualmente no ombro de Meredith, e a leva para seu pescoço. A ameaça implícita é clara e dolorosa: a segurança de Meredith está em jogo. O pânico se transforma em uma urgência desesperada. Com um suspiro pesado e um sentimento de resignação, levanto-me, os músculos tensos e a mente fervendo com um tumulto de emoções. O olhar de Leonidas continua fixo em mim, impassível, como se estivesse aguardando para ver se eu cumprirei o papel que ele me forçou a assumir.
— Por favor! — Leio o papel que Koan me entregou. — Tragam os prisioneiros para cá.
Eles são conduzidos através da multidão, cada um cercado por dois guardas que os mantêm alinhados e protegidos. A criança, com os olhos arregalados de medo, caminha ao centro, enquanto o adolescente, visivelmente abatido, avança com passos pesados. À medida que avançam, são recebidos com uma enxurrada de vaias e gritos furiosos que ressoam pelo ar, xingamentos que prefiro não repetir. O caos da multidão contrasta com a expressão impassível de Koan. Ele permanece imóvel e impassível, sem sinal de nervosismo ou desconforto. Seu olhar é fixo e imperturbável, como se o tumulto ao redor não fosse mais do que um ruído distante. Quando os prisioneiros finalmente chegam ao palanque, seus corpos tremem levemente ao se ajoelharem diante de mim, os olhares baixos e a postura resignada. O chão do palanque é frio e duro sob seus joelhos. Eles se curvam, esperando o julgamento.
— Diga seu nome. — Continuo lendo o papel, tentando manter a voz firme.
— Roger! — Ele responde, a cabeça baixa, a voz tremendo levemente.
— E o que fez? — Pergunto, forçando um tom de autoridade.
— Matei minha esposa e meus filhos. — Ele responde sem uma faísca de remorso, sua voz fria e indiferente.
A revelação faz a multidão enlouquecer. Gritos de horror e indignação enchem o ar, e os guardas são forçados a se mover rapidamente para conter o tumulto crescente. A atmosfera no palanque fica carregada, e sinto o peso das expectativas e do desprezo das pessoas. Eu mesma sinto um choque diante da crueldade de Roger, e a decisão de sentenciá-lo à morte parece, de repente, menos uma responsabilidade e mais uma necessidade inevitável. Sem precisar consultar o papel para essa decisão, eu mesma clamo:
— Para você, Roger, a cadeira elétrica!
Os gritos da multidão se tornam mais ensurdecedores, um misto de aprovação e excitação. No meio do tumulto, ouço Leonidas comentar com um tom de satisfação:
— Excelente escolha. Morrer devagar é um destino adequado para ele.
Heitor, ao lado de Leonidas, bate palmas com entusiasmo, seus olhos brilhando com aprovação.
— Esta mulher tem futuro! — Ele exalta, sua voz carregada de admiração.
O sentimento de aprovação de Leonidas e a exaltação de Heitor são quase ensurdecedores, mas eu mantenho o foco, preparando-me para o próximo prisioneiro, enquanto o barulho da multidão ecoa ao meu redor. Os guardas conduzem Roger para fora do palanque, e o povo explode em aplausos frenéticos, claramente satisfeitos com a sentença que impus. Um grande eco de justiça e vingança que ressoa por toda a praça. Agora, olho para o próximo prisioneiro: um adolescente que está ajoelhado com uma expressão de medo e desespero. O silêncio que se segue é ambíguo, um suspense denso que preenche o espaço e faz cada respiração parecer pesada. Todos na multidão estão atentos, esperando ansiosamente para ouvir o que acontecerá a seguir. O olhar fixo dos presentes parece penetrar na alma do jovem, enquanto ele aguarda o veredicto que decidirá seu destino.
— Qual é o seu nome? — Pergunto, com a voz ecoando no silêncio tenso.
— Pedro! — Ele responde, a voz trêmula e a cabeça baixa, como se o peso do que está prestes a acontecer o estivesse esmagando.
— E o que você fez? — Insisto, com um olhar firme.
— Matei, senhorita. — Ele engasga com as palavras, o remorso evidente em sua voz.
O murmúrio da multidão aumenta. Com um gesto decidido, eu digo:
— Infelizmente, terei que te mandar para a forca, Pedro. — Faço um sinal para os guardas, que imediatamente começam a conduzir Pedro para seu destino.
A multidão explode em aplausos e gritos, satisfeita com a sentença. Sinto um frio na espinha ao perceber que ainda há um último prisioneiro, um garoto de cerca de dez anos. Como se a cidade inteira esperasse minha decisão. O meu coração aperta ao vê-lo, um jovem tão pequeno e aparentemente indefeso.
— Qual é o seu nome? — Pergunto, parando em frente ao garoto com um frio na barriga.
— Nicolai, vossa Alteza! — Ele responde com um tremor na voz, seus olhos se fixando em mim com uma mistura de pavor e desamparo.
— E o que você fez, Nicolai? — Continuo, tentando manter a voz firme apesar do aperto no coração.
Nicolai levanta a cabeça, olha para Leonidas e depois para mim. A desesperança é evidente em seu olhar. Ele treme, e lágrimas escorrem pelo seu rosto.
— Eu... eu matei, roubei joias do palácio, contrabandeei armas ilegais e cometi traição. — Ele responde, a voz quase inaudível, como se as palavras fossem um peso que não consegue carregar.
A multidão se agita, a reação deles é ainda mais feroz do que foi com Roger, que matou sua própria família. O burburinho cresce, e sinto que Nicolay não está dizendo a verdade. A mentira é clara, e Leonidas parece igualmente envolvido em uma trama de engano.
— Isso é perseguição. — Murmuro para Leonidas, dando uma pausa no "evento" enquanto me aproximo dele.
— Não, não é! Este garoto é um criminoso. — Ele responde, sua voz firme e intransigente.
— Ele está mentindo. Ele não fez nada disso. É perseguição sim. — Tento manter a calma, mas o estresse faz minha voz sair alterada.
— Você tem como provar? — Leonidas me encara com um olhar desafiador.
— Não! — Admito, com frustração em minha resposta.
— Então mate-o! — Ele ordena com uma frieza cortante.
— O quê? Não, eu não vou fazer isso! — Tento esconder o desapontamento, mas o desespero é claro em minha voz.
A multidão começa a gritar em uníssono:
— Morte! Morte! Morte!
— Leonidas, ele é apenas uma criança. Você sabe que ele não fez tudo isso. Seria impossível, ele só tem 10 anos. — Imploro, a voz embargada pela emoção.
— Não me interessa Alinna, mate-o! — Ele insiste, sua voz rigorosa. — Sabe o que é isso?
Ele me mostra uma pistola, um objeto que eu reconheço, mas nunca usei.
— É uma pistola. — Explica Leonidas.
— Eu sei o que é isso. — Respondo, apesar de nunca ter usado uma, sabia o que era, uma raridade em muitos lugares.
— Ótimo. Então atire nele! E se você não fizer isso, eu mesmo atiro, só que em Meredith. — Ele ameaça, entregando a pistola para mim.
O peso da arma em minha mão é quase insuportável, e eu o encaro com um pânico crescente.
— Tire Meredith daqui, e eu farei o que você quiser. — Proponho, tentando negociar para proteger minha filha.
— Como vou saber que você não vai atirar em mim? — Ele pergunta, cético.
— Eu não vou! — Prometo, a sinceridade em minha voz.
Leonidas hesita por um momento, observando a intensidade em meus olhos, e então dá a ordem para que Meredith seja retirada do palanque. Ele faz um gesto para Warner, que imediatamente começa a afastar Meredith do local. Enquanto Warner leva Meredith para longe, meu coração acelera e a angústia me envolve. Fecho os olhos por um momento, tentando recuperar a compostura, e giro lentamente o corpo em direção a Nicolai. Ao abrir os olhos, vejo o garoto com um olhar aterrorizado e os olhos cheios de lágrimas, esperando seu veredito final. A multidão continua a gritar e a exigir o castigo, mas tudo o que eu consigo ouvir é o som do meu próprio coração batendo freneticamente em meus ouvidos. Sinto a pressão da pistola fria em minha mão, seu peso um lembrete cruel da decisão que estou prestes a tomar. Olho para Leonidas, cuja expressão é um misto de expectativa e frieza calculada. Ele está determinado a garantir que eu siga suas ordens, não importa o custo. Com um esforço imenso para manter a calma, dou um passo em direção a Nicolai, minha mente lutando para aceitar a realidade de minha situação. O silêncio se instala por um breve momento, interrompido apenas pelo som de minha respiração ofegante e pelos gritos distantes da multidão. Me vejo em um dilema angustiante, com a vida de um garoto inocente em minhas mãos.
— O seu castigo, meu rapaz, é a morte! — A multidão explode em celebração, aplaudindo e gritando em aprovação.
"Como podem comemorar a morte de uma criança?" Um nó de angústia se forma na minha garganta, e a revolta me consome. Com mãos trêmulas, eu aponto a pistola para a cabeça de Nicolai, mas, decidida a causar o menor sofrimento possível, miro em seu peito. A visão do garoto, pequeno e indefeso, me causa uma ânsia de vômito quase incontrolável. O peso da decisão me sufoca, mas, para que tudo termine rapidamente, aperto o gatilho. O som do disparo é ensurdecedor, seguido por um jato de sangue que espirra em mim, tingindo meu rosto e meu vestido impecável com manchas vermelhas. O impacto do tiro faz Nicolai cair inerte, seu pequeno corpo agora imóvel. A visão do corpo inerte e a celebração cruel do público me destroem. A multidão vibra, ignorando a tragédia que acabara de acontecer. Não consigo suportar mais aquela cena. Com o coração pesado e a mente em tumulto, dou meia-volta e devolvo a pistola a Leonidas, meu rosto um retrato de raiva e desgosto. Sem dizer uma palavra, saio apressadamente, meu passo acelerado ecoando na saída do palco.
— Boa menina. — Ele disse com um tom satisfeito antes que eu saísse.
Após o tumulto e a dor que senti ao executar o pequeno Nicolai, me encontro de volta a carruagem, voltando para o palácio. O ambiente dentro da carruagem é opressor, abafado e carrega uma aura pesada de culpa e desgosto. As paredes do veículo, normalmente acolhedoras e luxuosas, parecem agora se fechar ao meu redor, refletindo meu estado de espírito perturbado. A luz do sol que atravessa as janelas é dolorosamente brilhante, quase como uma ironia cruel comparada à escuridão que reina em meu coração. O tecido do meu vestido, uma vez impecável, está agora manchado com o sangue da criança que eu acabei de matar, tornando o luxo da roupa um cruel lembrete da atrocidade que cometi. O cheiro de sangue ainda paira no ar, misturado com o aroma dos estofos de veludo e do couro da carruagem. Sentei no banco de veludo, meus olhos fixos no horizonte, sem realmente enxergar o que está à minha frente. O movimento da carruagem é suave, mas cada balanço parece intensificar a sensação de que estou sendo arrastada para um lugar sombrio. Meus pensamentos giram em torno da cena horrível que presenciei e do que fiz, e um sentimento de náusea e desespero me domina. Ao chegar no palácio, a carruagem para de maneira abrupta, quebrando o silêncio perturbador do percurso. Ergo os meus olhos para palácio em minha frente e não deixo de pensar: o que seria pior, a prisão da minha mente perturbadora ou a prisão de um palácio majestoso?
As grandes portas de entrada são abertas, recebendo-me de volta ao palácio com uma frieza indiferente. Desço da carruagem, com passos largos e pesados, apressados. A sensação de estar sendo observada por outros é quase insuportável, como se todos ao redor soubessem da atrocidade que eu acabei de fazer. Corro pelo palácio, desesperada, vasculhando cada canto em busca de Warner.
— Afaste suas mãos dela, vamos! — Ordeno com voz firme.
Warner está no final do corredor da sala principal. Aproximei-me dele com uma tenacidade ardente, o fogo queimando em meus olhos.
— Calma, princesa, não... — Ele não termina a frase antes que meu soco atinja seu nariz com um impacto seco.
— O que pensa que está fazendo, Alinna? — Leonidas aparece na cena, andando apressadamente atrás de mim. Sua carruagem deve ter chegado quase que ao mesmo tempo da minha.
— Não se atreva a me tocar! — Minha voz é um grito de revolta.
Leonidas tenta segurar meu braço, mas eu me esquivo a todo momento, minha raiva me impedindo de sequer olhar para ele.
— Você é um monstro repugnante. — As palavras saem com desprezo. — E se você ousar tocar em Meredith novamente, eu acabo com você! Vamos eu e você queimar no inferno.
— É melhor você se calar. — Leonidas avisa, sua voz fria e autoritária.
— Ou vai fazer o quê? Me matar?
O enfrento. Fico tão próxima de seu rosto que quase sinto seu hálito e sua respiração ofegante.
— Ele era uma criança, Leonidas! CRIANÇA! Não posso acreditar que você quis que eu o matasse só porque ele tinha o mesmo nome que meu pai! — Grito, desafiando-o com toda a intensidade que sinto, indiferente ao seu título de "rei". Ele poderia me matar agora se quisesse, mas minha fúria é inabalável.
— Eu não te obriguei por causa disso... Ah, quem estou enganando? — Ele ri de forma amarga. — Foi, sim, por causa disso, mas também não gostava muito dele.
— Meu senhor! — Me abaixo, passando as mãos pelos meus cabelos, tentando entender a mente perturbada desse homem.
— Você é um doente. — Sussurro, a amargura na voz refletindo o desgosto profundo que sinto.
— Sua mãe costumava me dizer isso o tempo todo. — Leonidas dá de ombros, com uma indiferença desdenhosa.
— Eu te odeio tanto que nem consigo expressar. — Minha voz transborda raiva e desprezo, as palavras saindo com um peso carregado de emoção.
Leonidas sorri satisfeito, um sorriso cruel que parece afirmar sua vitória em nosso jogo de poder. Com um esforço doloroso, pego Meredith no colo, seus olhos grandes e curiosos, sem entender completamente o que está acontecendo ao redor dela. Em silêncio, me dirijo ao meu quarto, o desejo de me trancar e me afastar de toda essa loucura me consome. Ao fechar a porta atrás de mim, sinto um alívio momentâneo, um respiro profundo na solidão que parece me abraçar. O quarto é um refúgio temporário, mas a dor que sinto em meu peito não desaparece. A lembrança vívida de Nicolai, o pequeno corpo, o sangue, tudo isso me atormenta, um lembrete constante da crueldade que fui forçada a cometer.
Nunca fui uma pessoa de virtudes santas, e tenho plena consciência disso. No entanto, o que Leonidas me obrigou a fazer vai além de qualquer limite que eu imaginava ser possível. Sua perversidade não conhece fronteiras, e isso só aumenta a amargura que sinto por dentro. Para tentar encontrar um pouco de consolo, me apego a uma das poucas coisas que meu pai costumava me dizer: "Às vezes, algumas pessoas morrem para dar vida a outras." Essas palavras são um bálsamo amargo, uma tentativa desesperada de justificar o que fiz. A ideia de que Nicolai morreu para garantir a segurança de Meredith, para proteger a vida dela, parece um final trágico e irônico. A vida parece querer brincar cruelmente comigo, transformando o sacrifício de um inocente em uma forma de salvação para a minha própria filha.
1 semana depois
— Mandou me chamar, Leonidas? — Entro em seu escritório, tentando manter a compostura.
— Sim, mandei. — Ele responde de forma seca, como é seu jeito habitual.
A resposta fria é algo com o qual já me acostumei, embora seja um lembrete constante de sua maneira impessoal.
— Então, o que deseja? — Pergunto, cruzando os braços e lançando um olhar desafiador.
— Quero que se case comigo. — Ele diz diretamente, sem rodeios.
Leonidas se levanta, contorna a mesa e caminha até mim. Ao se aproximar, encosta na mesa, sua postura revelando uma mistura complexa de aflição e ansiedade. Seu desejo de casamento não é uma surpresa, mas a forma como ele agora o apresenta é um misto de insistência e desespero.
— Você não pode estar falando sério. — Dou um risinho de descrença, tentando ocultar a crescente inquietação.
— Estou, sim. — Ele afirma, sua voz firme enquanto dá um passo mais próximo.
Leonidas se aproxima e, de repente, me envolve em seus braços. Suas mãos repousam em minha cintura, seu olhar fixo nos meus, tentando penetrar nas minhas defesas e convencer-me a aceitar sua proposta. O contato físico é inesperado e intenso, sua proximidade me faz sentir o peso de suas palavras e a seriedade de seu pedido. Sinto uma mistura de emoções turbulentas: choque, raiva, ódio e uma certa confusão. A sua intenção está clara agora, e o que começou como uma especulação se transforma em uma realidade concreta e desconcertante.
— Pense bem, Alinna. Juntos seremos imbatíveis! Poder e riqueza estarão ao seu alcance. Você terá todo o reino nas suas mãos, e, claro, terá a mim. Tudo será seu, você só precisa dizer sim. — Sua proposta é, de fato, tentadora.
Sua eloquência me hipnotiza. A ideia de adicionar Treeland à minha lista de reinos é atrativa, mas é uma decisão tão complexa.
— Junte-se a mim, Alinna. — Ele insiste, sua voz carregada de urgência.
— E quanto aos três reinos? — Pergunto, um pouco hesitante.
— Eles continuarão sob o seu comando. Ainda será rainha de seus reinos. E não se esqueça de BrownWood e Lós estão mais fracos agora principalmente depois da morte de Dempsey. Dividir para conquistar! Juntos eu e você. — Responde rapidamente, quase sem pensar.
— E quanto a você? — Questiono, com um toque de receio.
— Isso é apenas uma consequência para mim. — Leonidas dá de ombros, como se fosse uma consideração menor.
— E se eu aceitar e você decidir me eliminar ou algo do tipo, apenas para ficar com tudo para si? — Continuo a testar seus limites, querendo ver até onde ele está disposto a ir.
— Perdi sua mãe porque, por um momento, considerei que matá-la era o melhor caminho. Eu estava errado. Não vou cometer o mesmo erro com você. — Ele fala com uma sinceridade calculada, tentando parecer convincente.
Sua expressão parece genuína, mas é difícil discernir a verdade por trás de suas palavras. Ele está jogando um jogo complexo, e é impossível saber se suas promessas são reais ou se ele está apenas tentando me manipular. O problema de tudo é que Leonidas diz todas essas palavras olhando no fundo de meus olhos "mentirosos costumam olhar diretamente nos olhos" mas não consigo saber se ele está mentindo sobre qualquer detalhe se quer. Penso por um momento.
— Eu quero que sejamos poderosos juntos. De que adianta ter todos os reinos do mundo se não tiver você ao meu lado? — Leonidas afirma com uma intensidade inegável.
— Por que está dizendo isso agora? — Indago, intrigada com a súbita declaração.
— Desde o início, meu objetivo sempre foi ter você ao meu lado como rainha. Por que acha que insisti para que você lutasse? Por que você acha que queria tanto que o povo te venerasse, assim como meu tio Heitor? Meus súditos são exigentes, Alinna. Eles não aceitariam qualquer uma. — Leonidas explica, como se estivesse revelando um segredo antigo.
— Então você realmente quer que eu lidere Treeland ao seu lado? Assim como você liderará os três reinos ao meu lado? — Questiono, tentando medir a sinceridade em suas palavras.
— Sim. — Ele responde sem hesitação, sua confiança evidente.
— E Natasha? Ela é a rainha, não é? — Pergunto, ainda com uma pitada de dúvida.
— Não! Natasha nunca foi e nunca será rainha. Ela é apenas uma princesa. Treeland estava esperando por você. — Ele sorri, a satisfação estampada no rosto. — O que me diz?
Desde o momento em que pisei em Treeland, senti uma inveja profunda de Natasha, não pela sua beleza ou elegância, mas por acreditar que ela era a rainha deste esplêndido reino. Eu imaginava como seria governar um lugar tão magnífico, que conseguiu conquistar meu coração de maneira inesperada. Embora ame meus reinos, não posso negar que Treeland tem um lugar especial para mim. Com a morte de meu pai, o trono dos três reinos agora deveria ser meu por direito. No entanto, a realidade é que ainda não fui coroada rainha, e, além disso, me vejo sozinha, exceto por Meredith e, claro, Leonidas, que insiste em lembrar-me a todo momento que ele é o único que me restara. Apesar de minha relutância, a ideia de unir forças com Leonidas para governar Treeland e os outros reinos tem um apelo sedutor. Eu sempre quis mais do que apenas os três reinos; sempre busquei poder e influência além das fronteiras conhecidas. Agora, como mulher adulta, preciso traçar estratégias para alcançar o que desejo, e, para isso, talvez casar-me com Leonidas possa ser uma oportunidade de conseguir algo para chamar de meu e de ampliar minhas conquistas.
— Eu aceito. Aceito me casar com você, Leonidas! — Declaro com firmeza, minha voz ecoando pela sala.
O sorriso de Leonidas se amplia tanto que quase atinge suas orelhas, e seus olhos brilham com uma alegria que não disfarça. Ele avança em minha direção, seu olhar cheio de uma satisfação intensa e um brilho triunfante. Seus braços se abrem para me envolver em um abraço, e eu me sinto envolta em um abraço que mistura a promessa de poder e a certeza de que estou, de alguma forma, enredada em sua teia de ambições. A sensação de que estou pisando em ovos não me abandona, mas há uma estranha certeza de que esta decisão é um passo necessário para alcançar meus próprios objetivos. É como dizem: "Se não pode com seu inimigo, junte-se a ele." Talvez eu esteja me lançando em uma aliança complexa e perigosa, mas também vejo isso como uma oportunidade para moldar meu próprio destino e conquistar o que sempre desejei.
Sacrifique sua rainha.
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