Capítulo 4
— Ela é uma deusa! — Eu ouvi o meu irmão comilão falar assim que pisei os meus pés em casa. — Ela parece um anjo, é linda! Estou absurdamente chocado com tanta beleza!
— Você e todos os garotos do bairro — mamãe completou. — É melhor se apressar e se aproximar dela logo, ouvi hoje cedo na padaria que o filho da Marta também ficou bastante interessado na filha do Copélio.
— Não acredito que você está interessado naquela garota! Ela é estranha — falei torcendo o nariz.
— Você que é estranha. — Ele a defendeu. — Ela é linda! Eu nunca vi ninguém com tamanha beleza!
— A garota parece um fantasma, credo! E por que ela estava usando aquele vestido de noiva?
— Não sei, mas quero que ela se vista assim no dia do nosso casamento.
— Já está pensando em se casar com ela? — falei me afundando no sofá, meus pés estavam doendo e eu estava exausta.
— Eu não vi essa garota chegar com o velho Copélio, então ele estava escondendo o ouro? — Meu pai arqueou uma sobrancelha.
— Ainda não vi essa bela jovem que todos estão falando, mas...
— Então ele tem mesmo uma filha? — Me intrometi.
— Pelo o que parece sim.
— Mamãe talvez devêssemos levar uma torta ou algum bolo para os nossos novos vizinhos, ou talvez devêssemos convidá-los para o almoço de domingo.
— Duvido que aquele velho aceite almoçar aqui. — Minha mãe se concentrou em um ponto no crochê. Ela parecia estar fazendo mais um tapete rosa para o meu quarto.
— Podíamos convidá-los, Julieta — meu pai falou. — Assim nosso menino pode conhecer melhor aquela garota.
— Não sei não... — mamãe franziu o nariz — Aquele homem é tão estranho.
— As aparências enganam. — Meu pai a corrigiu severamente.
— Eu concordo com a mamãe, porque vamos convidar estranhos para almoçar conosco?
— Sempre tem gente diferente almoçando aqui em casa, Margot — meu irmão falou, ele realmente estava interessado naquela garota.
— Isso é mentira — o corrigi. — Os pais do Rodrigo nunca vieram aqui.
— Os pais do seu namorado são esnobes. — Jonathan disse enquanto colocava os pés no sofá e devorava outra banana.
— Como você consegue comer tanto e não engordar? — Franzi o cenho e perguntei indignada com o fato da natureza ser bondosa com aquela criatura.
Ele piscou para mim, eu mostrei a língua para ele em resposta.
— Margot! — Minha mãe me corrigiu. — Quantos anos você tem?
— Dez anos. —Meu irmão riu e eu taquei uma almofada vermelha na cara dele.
— A propósito Margot, vá tomar um bom banho e se arrumar, Rodrigo vem jantar conosco.
— O quê? — Encarei a minha mãe furiosa, como assim? Rodrigo era a última pessoa na face da Terra que eu gostaria de ver agora.
— Ele ligou umas dez vezes aqui em casa hoje, disse que você não atendia as ligações dele, então o convidei para o jantar, assim vocês conversam e resolvem logo os problemas de vocês.
— Mas eu não quero ver o Rodrigo pelos próximos oitenta e quatro anos! — Deitei no sofá e me contorci de nervoso, cansada demais para ter uma D.R.
— Não seja boba, Margot. Ontem mesmo você queria casar com ele e agora não quer nem o ver pintado de ouro? Você já é adulta, precisa resolver os seus problemas como tal!
Está bom, está bom. Como queira.
Subi a conta gosto e tomei um banho frio e coloquei uma roupa de mendiga, moletom e pantufas e uma toca de unicórnio, como se eu estivesse pronta para ir dormir. E adivinha a cor da minha roupa? Rosa! É claro.
— Não tinha nada melhor para vestir não? — Minha mãe perguntou como se tivesse acabado de ver a pantera cor de rosa.
— Não — respondi com a maior cara de pau.
Jonathan deu um risinho quando me viu, papai preferiu ignorar. Ele sempre dizia que eu me vestia como um palhaço de circo, que até o meu cabelo lembrava uma peruca.
— Ela está fazendo isso para espantar o Rodrigo — Jonathan disse enquanto enchia o seu prato de comida. — Parabéns maninha, você vai conseguir assustar o rapaz.
— Ei! — Dei um tapa na mão dele que servia uma porção generosa de batata recheada. — Vê se deixa comida pra mim! Seu guloso de uma viga!
Jonathan resmungou.
— Filho, é falta de educação comer antes das visitas. — Mamãe o olhou feio.
— Aff! Agora tenho que esperar o namoradinho da minha irmã aparecer pra eu poder encher o buxo?
— Sim — eu e a minha mãe falamos em uníssono.
Rodrigo chegou alguns minutos depois, suado com cara de cansado, ele tentou me dar um selinho quando me viu, mas eu virei o rosto e mantive uma distância segura dele. Ele achava mesmo que eu havia o perdoado, e pior achava que eu estava sofrendo por causa da nossa briga de ontem, coitado.
— Trabalhei muito hoje — ele falou enquanto estávamos jantando, nos apertando para caber na minúscula mesa da cozinha. — Vendi três casas e um apartamento.
— Puxa. — Meu pai parecia orgulhoso por ele estar progredindo, meu pai gostava de gente que progredia. — Você deve ter ganhado uma boa comissão hoje.
— Sim. — Rodrigo sorriu e eu o olhei de esguelha. Safado! E depois tinha a cara de pau de dizer que não tinha dinheiro para o nosso casamento.
— Foi você quem vendeu o casarão aqui da frente para o velho Copélio? — Jonathan inquiriu com a boca cheia, ele estava mesmo obcecado pela filha do velho.
— Não — Rodrigo respondeu. — Eu nem sabia que a casa havia sido vendida, isso é verdade?
Ele olhou para mim, dei de ombros e encarei o meu prato cheio de batata e pernil.
— Sim, se mudaram ontem — Jonathan se apressou a responde-lo. — A casa foi vendida para o senhor Copélio, ele é mecânico, a gente não sabe muito sobre ele, mas a filha dele... — Jonathan suspirou apaixonado com uma expressão de tonto como se a garota fosse um anjo magnífico do criador.
— O que tem a garota? — Rodrigo pareceu interessado.
— Ela é muito gata! — Meu irmão idiota exclamou animado.
— É mesmo? — Rodrigo sorriu. — Ela é gostosa?
Eu dei um cutucão nele, mamãe olhou para mim sem jeito. Que namorado mais idiota que eu fui arrumar. Papai, Jonathan e o estúpido do Rodrigo começaram a especular sobre a nova vizinha. Encolhi-me no banco e cruzei os braços logo após a refeição e fechei a cara, com um bico do tamanho da torre Eiffel.
— Sobremesa? — Minha mãe perguntou assim que todos terminaram as suas refeições.
— Não — eu disse entredentes e levantei da cadeira bruscamente e fui até o meu quarto pisando duro. Que se dane aquele idiota do Rodrigo! Para o inferno ele e toda a sua comissão de vendas.
No quarto deitei na minha cama e fiquei olhando para o teto por um bom tempo, me xingando baixinho por ser idiota, até que alguém bateu na porta.
— Vai embora Rodrigo! — eu gritei porque eu já sabia que era ele.
Entretanto, Rodrigo abriu a porta e entrou com ambas as mãos no bolço da calça social me olhando de um jeito extremamente malicioso, que não funcionava mais comigo.
— Raio de sol...
— Não me chame assim! Meu nome é Margot! — falei irritada olhando fixamente para o rosto moreno e calmo dele, porque ele estava tão tranquilo?
— Margot, me perdoa pelo o que aconteceu ontem. — Ele se sentou na beirada da minha cama. — Eu fui um idiota, gritei com você, te machuquei...
Quando ele ia tocar no meu braço me afastei e virei para o outro lado.
— Você se comportou como o pior dos animais.
— Não exagere, Margot — ele falou fitando os meus olhos verdes escuros. — Eu amo você, jamais te machucaria.
— Será mesmo? — Mordi o meu lábio inferior.
— Eu jamais machucaria você. Namoramos há dois anos, Margot. Nós nunca tivemos uma briga como aquela, vamos esquecer tudo, por favor.
Olhei bem no fundo dos olhos dele e por alguma razão senti que eu não devia confiar nele. Que ele não estava sendo sincero no seu pedido de desculpas, que ele ainda achava que não havia feito nada demais e que eu era muito dramática.
Levantei da cama e caminhei até a sacada da janela, apoiei os meus braços no batente, a lua brilhava como nunca lá fora beijando o céu cheio de estrelas e os deixando embriagados de prata.
— Eu quero que você vá a festa do Raul, amanhã — Rodrigo praticamente me ordenou a ir à festa, não foi um pedido. Eu pensei em dizer a ele " querido, eu leio livros. Eu sei quando um cara é um babaca, mas confesso que fui uma anta por somente ter percebido isso ontem à noite". — Você vai?
Ele se aproximou de mim seus dedos tocaram o meu ombro suavemente. Sobre a luz do luar os olhos dele eram tão castanhos, um marrom vibrante.
— O que eu ganho se eu aparecer lá?
Nada, você só vai ver um dos caras que você mais gostou na vida pedindo outra em casamento e trocando na frente de todo mundo juras de amor.
— Quero lhe propor algo amanhã na festa — ele disse olhando para o casarão, a neblina espessa abraçava a casa do nosso novo vizinho.
— Por que não pode propor agora? — Levantei uma sobrancelha. O que ele queria agora? Casamento? Não, não pode ser.
— Tem que ser amanhã na festa — sua voz estava embriagada de uma seriedade enorme. Eu te pego às 19:30.
— Mas... — eu tentei dizer que não, que eu não iria a lugar nenhum com ele.
— Está decidido — ele me interrompeu sem ao me deixar falar mais nenhuma palavra. Mas de certa forma eu acabei concordando em ir com ele na festa. Eu estava curiosa para saber o que tanto ele queria me propor, e me preparei mentalmente para dizer um alto e sonoro não se ele me pedisse em casamento. Agora era eu quem não queria mais viver para sempre com ele.
Então eu notei o olhar dele, era como se ele tivesse sido enfeitiçado, hipnotizado por algo sobrenatural. A neblina havia deixado o casarão respirar, ela estava mais espalhada agora, e era possível então observar a sacada do enorme quarto em frente ao meu. Lá estava a garota da noite passada penteando os seus cabelos negros, com o céu a noite pesado de nuvens grossas de chuva. Ela estava com o mesmo vestido de noiva com o véu jogado para trás, mesmo ao longe eu pude ver os olhos verdes dela cintilarem sobre a luz pálida do luar. Olhei para o meu namorado, ele a olhava, fascinado. Então fiquei com ciúmes.
https://youtu.be/h7BCOvwHonM
Olá, voltei!! Tenham paciência comigo, prometo não decepcionar ♥
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