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Cena II

Cena II

Um quarto em casa de Antífolo de Éfeso. Entram Adriana e Luciana.

ADRIANA - Ah, Luciana, ele teve esse descoco? Lia-se-lhe no olhar que era sincero? Estava são? Não parecia louco? No que disseste acreditar não quero. Refletia no rosto a luta, acaso, dos meteoros do peito em campo raso?

LUCIANA - Primeiro asseverou não ser casado.

ADRIANA - Mais, com isso, ele aumenta o meu cuidado.

LUCIANA - Depois jurou que aqui era estrangeiro.

ADRIANA - Perjuro agora, como o foi primeiro.

LUCIANA - Depois, falei de vós.

ADRIANA - E ele, que disse?

LUCIANA - Que a mim, só, amava; o mais era tolice.

ADRIANA - De que modo falava esse demente?

LUCIANA - Se fosse honroso o pleito, convincente. Elogiou-me a beleza; após, a fala.

ADRIANA - E tu, que lhe disseste? Vamos; fala.

LUCIANA - Calma, te peço; é de mister paciência.

ADRIANA - Calma não posso ter nesta premência. Se não do peito, ao menos hei de o gosto fazer da língua. Antífolo é mal posto, feio, velho, corcunda, deformado, de feições horrorosas, rosto inchado, viciado, bruto, de maldade infinda, de corpo horrendo e mente pior ainda.

LUCIANA - Quem ciúmes pode ter de tal marido? Ninguém um mal lastima, se perdido.

ADRIANA - Não é assim que o descreve o meu carinho. Se outros olhos o vissem desse jeito! O abibe chora, quando perde o ninho. A língua o insulta, mas o adora o peito.

(Entra Drômio de Siracusa.)

DRÔMIO DE SIRACUSA - Vamos! Depressa! A bolsa da gaveta!

LUCIANA - Par que corres assim?

DRÔMIO DE SIRACUSA - Não sou perneta.

ADRIANA - Onde está teu patrão, Drômio? Não vem? Par que demora tanto? Ele está bem?

DRÔMIO DE SIRACUSA - Sim, no limbo do Tártaro, no Averno; multo pior ali do que no inferno. Um demônio de vestes permanentes pôs sobre ele a mãozinha, um desses homens de peito duro abotoado de aço. Um duende, um lobo, um monstro de esconjuro, um sujeito envolvido em couro duro, enredador, traiçoeiro-mor, pisa-mansinho, que aos homens veda a praça, as ruas e o caminho, que parece perder o rasto a toda gente, mas nas chamas do inferno os lança eternamente.

ADRIANA - Mas, afinal, que há?

DRÔMIO DE SIRACUSA - O que há, não sei dizer; sei que ele está na grade.

ADRIANA - Como! Está preso? À intimação de quem?

DRÔMIO DE SIRACUSA - Não sei que intimação o pôs em tal agrura; só sei que o intimador tem farda muito dura. Urge que lhe mandeis a bolsa da gaveta.

ADRIANA - Vai buscá-la. (Sai Luciana.) Não sei que pensar disso. Tinha dívidas e eu sem saber nada. Conta o resto: foi posto na cadeia?

DRÔMIO DE SIRACUSA - É isso, uma cadeia; de aparência mais aprazível, mas cadeia, em suma. Não ouvistes soar?

ADRIANA - Quê? A cadeia?

DRÔMIO DE SIRACUSA - Cadeia, não; o sino! É tempo de ir-me embora; às duas o deixei; ouvi bater uma hora.

ADRIANA - Para trás anda o tempo. Oh coisa singular!

DRÔMIO DE SIRACUSA - Se a hora encontra um sargento, o medo a faz recuar.

ADRIANA - Tem dívidas o tempo! Oh, como falas certo!

DRÔMIO DE SIRACUSA - O tempo está falido, a ruína já anda perto. E mais: é um bom gatuno, à espreita e de vigia; manso se escoa à noite e devagar de dia. Se o sargento o persegue e os bens tem em penhora, que muito que se atrase em cada dia uma hora?

(Volta Luciana.)

ADRIANA - Eis o dinheiro, Drômio; vai depressa e traze o teu senhor já para casa. De um pensamento, irmã, estou possessa, que ora me deixa fria, ora me abrasa.

(Saem.)

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